Arquivos mensais: agosto 2014

A Pesquisa da Vez: Lance/Ibope-2014 (E haja polêmica…)

CRM Zen

Desde as primeiras horas de ontem, este blogueiro se viu bombardeado por pedidos de esclarecimento, informações e análises. Logo se percebia que a tão aguardada pesquisa Lance/Ibope-2014 saíra do forno, verdadeira fagulha sobre o combustível do debate envolvendo o tamanho das torcidas. Como ultimamente quem gera mais polêmica ganha mais cliques, os institutos parecem estar caprichando.

Antes, uma ressalva: a amostra da pesquisa Lance-Ibope é de 7.005 pessoas, com margem de erro de apenas um ponto percentual. Significa ser totalmente fiel à realidade? Absolutamente não. Como o Blog Teoria dos Jogos sempre faz questão de esclarecer, pesquisas de torcida refletem – com fidelidade maior ou menor – a realidade da amostra. Por exemplo: um milhão de entrevistados em regiões metropolitanas serão um retrato fidelíssimo das torcidas nas… regiões metropolitanas. Configuração distinta do que se vê no país como um todo. Foi aí que o Ibope pareceu pecar.

OS NÚMEROS NACIONAIS

Fig 01

Variações na margem de erro são normais e fazem com que certos ordenamentos se modifiquem de uma pesquisa para outra. Mas é bom desconfiar quando vários ordenamentos, sempre tão estáticos, se modificam em apenas uma delas. No movimento mais flagrante, o Atlético-MG simplesmente não tomou conhecimento do Cruzeiro – situação avessa à de inúmeras pesquisas no estado de Minas Gerais. Além de suplantar seu arquirrival, o Galo surge na frente de quem sempre apareceu na dianteira, casos de Grêmio e Internacional. Pela primeira vez a torcida do São Paulo demonstra queda acima da margem de erro, levando consigo um Vasco quase ultrapassado pelo próprio Atlético-MG. O Bahia iguala o Botafogo, trazendo torcedores do Vitória também à frente do Sport. Aliás, o Leão pernambucano perde até pro Atlético-PR. É muita polêmica numa só pesquisa…

Enquanto o Ibope não abrir a metodologia – principalmente citando o número de localidades e listando quais foram contempladas – nada poderá ser dito a respeito da pesquisa. Mas num primeiro momento, a impressão que fica é de um viés em direção a Belo Horizonte – onde o Atlético-MG de fato supera o Cruzeiro – e Salvador. Aparenta também uma Curitiba superdimensionada. Em direção oposta, regiões de predomínio carioca (como o Norte/Nordeste) podem ter sido visitadas fora de proporção. Para piorar, mais uma vez Pernambuco parece não ter recebido o devido peso. Tais impressões aumentam à medida com que analisamos as próximas tabelas.

TABULAÇÕES ESPECÍFICAS

Fig 02

Os arranjos por faixa etária não aparentam maiores problemas – embora a possibilidade de viés impacte na pesquisa como um todo. Entre os mais velhos, resultado semelhante ao da pesquisa Datafolha-2014: Flamengo e Corinthians em franco equilíbrio, Santos, Internacional, Botafogo e Fluminense acima do que registram atualmente. Galo à frente do Cruzeiro e Inter batendo o Grêmio, exatamente conforme abordado por aqui anteontem.

Fig 03

Entre os mais novos não há base de comparação, pois os números consideram torcedores de 10 a 15 anos, enquanto o Datafolha abordou apenas eleitores – ou seja, acima dos 16. Assim, estamos diante de um cenário absolutamente novo. Apesar do intenso crescimento do Corinthians (16,9%), o Flamengo é sacramentado como preferido por quase um quarto da população futura (22,3%). O Cruzeiro possui torcida mais jovem que o Atlético (4,1% a 3,9%), outro processo já verificado neste espaço. Vasco, Santos, Botafogo e Fluminense perdem posições. Daí a despencarem nos níveis expostos (abaixo de Bahia, Vitória ou Sport) já é algo que desperta incredulidade e desconfiança.

O problema mais evidente da pesquisa, contudo, surge nas tabulações por nível de renda:

Fig 04

Entre os mais pobres, nada a questionar – com as devidas ressalvas dos parágrafos anteriores. De certo o número de entrevistados foi robusto o suficiente para gerar a intensiva hegemonia de flamenguistas (20,8%) – o dobro do que apresenta o Corinthians (10%) e quase o quádruplo do São Paulo (5,6%). Ainda assim, chama atenção o quantitativo de adeptos do Sport (4,2%) e do Santa Cruz (4%) mediante galeras quase inexistentes de Atlético-MG, Cruzeiro, Santos e Fluminense (todos abaixo de 1%). Percebam agora o verdadeiro mau trato à informação:

Fig 05

A dianteira do Corinthians (17,6% a 10,9% sobre o Flamengo) até encontra eco nos números divulgados pelo Datafolha há um mês. Mas os inacreditáveis 10,1% marcados pelo Atlético-MG acendem uma luz amarela quanto à fidelidade da tabela. Isto porque, segundo o IBGE, apenas 1% da população brasileira auferia mais de 10 salários mínimos em 2010 – o equivalente, hoje, a R$ 7.240,00 mensais:

Fig 06

Para seguir a proporção, significaria apenas 70 pessoas sendo entrevistadas na faixa mais alta de renda (com alguma correção por estarmos em 2014). O leitor Christiano Candian matou a charada: foram 119 entrevistados. Para tanto, atribuiu ao menor percentual (0,84%, do Bahia) o número um, deduzindo o quantitativo exato de cada “torcedor rico” pesquisado:

Fig 07

Diante de um universo de 21 corintianos, 13 flamenguistas e 12 atleticanos, a verdade é que a análise desta faixa de renda é inócua. Sem um teto de renda mais baixo (por exemplo, “acima de 5 salários mínimos”), o Ibope teria a obrigação de dizer que a margem de erro de 119 pessoas sobre a amostra de 7.005 é superior a dez pontos percentuais. A mesma coisa que nada.

Fig 08

Finalmente por educação formal, o instituto muda de parâmetros, fazendo um percentual interno de pessoas com nível superior dentro de cada torcida. Trata-se de uma ótica diferente das tabelas que tem por referência o universo total de entrevistados. Modificações desta natureza só servem para confundir a cabeça do leitor médio, não sendo recomendadas no contexto de um mesmo estudo.

Pra terminar: apenas hoje, 24 horas depois da publicação original, o diário Lance veio a divulgar o percentual de pessoas sem time (23,4%). Eis um referencial imprescindível para análises de marketing esportivo, mensurando o tamanho do mercado sobre o qual os clubes precisam trabalhar. Cada vez mais as pesquisas Lance-Ibope se mostram confusas e geradoras de incertezas – sensação que se potencializa mediante a recusa em explicar a metodologia e prestar esclarecimentos.

Um grande abraço e saudações!

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As maiores torcidas do Brasil do passado

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À medida com que se aproxima o fim de um ciclo, aprofunda-se a busca de respostas relacionadas a indagações históricas. Há quase três anos o Blog Teoria dos Jogos se propôs a mapear as torcidas nacionais com base em pesquisas locais, geralmente sem nenhum eco na grande mídia. Embora o processo não tenha se completado, evolui a cada dia. O objetivo será publicar uma compilação definitiva daquilo que seria a “maior pesquisa de torcidas do país”.

Antes, entretanto, é preciso dizer que vivemos uma fase de pesquisas nacionais. As eleições presidenciais redirecionam o foco dos institutos, fazendo que o âmbito regional ceda espaço para números do país como um todo. É o que aconteceu há algumas semanas, quando o Datafolha trouxe à tona sua mais recente pesquisa. E acontecerá amanhã, com a divulgação da aguardada pesquisa Lance-Ibope 2014.

Ainda assim, o perfil das torcidas nacionais nos reserva análises bastante interessantes. Uma delas diz respeito à configuração das massas algumas décadas atrás. Muito se fala em Flamengo e Corinthians nos dias de hoje, mas será que isto sempre foi assim? Quais eram as maiores torcidas do Brasil no passado?

Existem três formas de se tentar responder à pergunta. Vejamos:

1)      Com base nas tabulações por faixa etária nas pesquisas atuais

Um dos hábitos do Blog Teoria dos Jogos é divulgar a maioria das pesquisas em tabulações por gênero, renda, escolaridade e faixa etária. O objetivo é projetar o futuro das torcidas, mas agora a ótica é oposta. Para termos uma ideia da configuração das massas no passado, torna-se importante analisar a faixa etária mais avançada das pesquisas de hoje em dia. Tomemos o Datafolha-2014 como exemplo:

Fig 01

O perfil apontado é relativamente semelhante ao atual, mas com menor dispersão entre as torcidas: as maiores eram menores e as menores, maiores. Verificam-se ascensões e a formação de um bloco único do terceiro ao décimo segundo, com torcidas de tamanho relativamente parecido. Por fim, e surpreendentemente, o Datafolha apontaria para uma reversão na liderança. Será mesmo que a maior torcida do Brasil no passado era outra?

Muita calma nesta hora. Primeiro porque a margem de erro dentro de faixas específicas é muito maior do que a margem da pesquisa como um todo. Segundo porque, à medida com que se envelhece, existe uma tendência a perder o encanto com o futebol. Vejam que o percentual “sem time” sai de 12% (abaixo dos 24 anos), escala a 18%, 24% e 28% até atingir 32% acima dos 60 anos. As razões para o desapego podem ser encontradas em estudos relacionados à Psicologia, mas é possível que algumas torcidas se dissipem mais do que outras neste processo.

2)      Com base em pesquisas do passado

Antes do diário Lance firmar parceria com a Ibope – rendendo pesquisas em 1998, 2001, 2004, 2010 e 2014 – era a revista Placar quem o fazia. Como o ocorreu em 1993, com os seguintes resultados:

Fig 02

O problema é que, em tempos de menor solidez institucional, havia bem menos comprometimento com o trato das informações. A pesquisa de 1993, por exemplo, só englobou regiões metropolitanas e não ouviu mulheres. Não é preciso dizer muito acerca da falta de confiabilidade. O que dizer então da pesquisa Gallup-1983, requentada na mesma edição da Placar?

Fig 03

Clique aqui e acesse a edição completa da pesquisa Gallup 1983

É certo que no auge da “era Zico” a torcida do Flamengo viveu um boom, mas soa exagerado que tenha atingido 31% das preferências nacionais. O mesmo se pode dizer do ínfimo percentual sem clube (3%).  Quase nada se sabe a respeito das metodologias adotadas por um instituto que sequer atua mais no Brasil, comprometendo qualquer análise.

3)      Com base em publicações do passado

Em busca das relíquias nos acervos digitais de nossas grandes publicações, encontramos a seguinte matéria da revista Veja em sua edição de estreia (01/09/1968):

Fig 04

A reportagem era sobre o advento da Taça de Prata e sua tabela dirigida, havendo maior número de jogos em regiões onde o futebol era mais tradicional e rentável. Aos mais populares, restava “excursionar”, explorando nacionalmente seu apelo. Eis o papel atribuído a Flamengo e Santos – no auge da “era Pelé”. Sem nenhum estudo ou embasamento técnico, a revista cravava uma situação com base no pior levantamento existente: o “olhômetro”. Ainda que uma má pesquisa seja preferível a nenhuma pesquisa.

CONCLUSÃO

Todos os métodos de análise a posteriori se mostram falhos por razões expostas em cada tópico. Entretanto, tudo leva a crer que o ordenamento pouco se alterou nos últimos 50 anos. Pode ser que o Flamengo, tido e havido como maior torcida do Brasil, enfrentasse menos facilidade no passado, mas sua hegemonia sempre foi tratada como unanimidade. Independente da “fila”, a torcida do Corinthians sempre foi grande, tornando improvável que não tenha ocupado o segundo lugar neste período. São Paulo, Palmeiras e Vasco possuíam enormes contingentes, ainda que dessem margem à aproximação de Santos, Botafogo e Fluminense. Tudo indica que o Internacional era mais popular que o Grêmio, enquanto o Atlético-MG estava à frente do Cruzeiro. Havia, ainda, maior espaço para agremiações locais, dividindo um bolo que hoje tende a se concentrar cada vez mais.

Um grande abraço e saudações!

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A situação das CND’s dos clubes

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“Muito se tem comentado ultimamente sobre a regularidade fiscal dos clubes de futebol. O texto da Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte (LRFE) prevê o rebaixamento de divisão caso o clube não apresente as certidões antes do início dos campeonatos. Além disso, para poder receber recursos públicos em forma de patrocínio ou incentivos fiscais, as certidões negativas (ou positivas com efeito de negativa) são pontos de partida.

Em geral, a regularidade comprovada em 6 certidões são o mínimo necessário, tanto para a LFRE quanto para patrocínios públicos: Certidão Conjunta de Tributos Federais, Certidão de Débitos Trabalhistas, Previdenciária, de regularidade com o FGTS, regularidade com os tributos estaduais e com os tributos municipais.

Resumidamente, são três as situações básicas em que os clubes podem estar enquadrados:

Certidão negativa, quando não há pendências cadastrais ou débitos em nome da instituição;

Certidão positiva com efeito de negativa, quando o clube possui parcelamento ativo sem parcelas em atraso, participantes de Refis ou tendo débitos com exigibilidade suspensa, e;

Certidão positiva, quando há débitos perante o órgão público que emitirá o documento.

A certidão conjunta de Tributos Federais e Trabalhista estão disponíveis na internet e podem ser consultadas por qualquer cidadão. Em razão disso, o Balanço da Bola decidiu pesquisar a situação dos 20 clubes da série A do Campeonato Brasileiro além do Vasco da Gama no dia 13/8/2014, conforme demonstrado no quadro abaixo:

Clube Consulta em 13/8/2014
Conjunta Trib. Fed. (validade) Débitos Trabalhistas
Corinthians 04/02/2014 Positiva
São Paulo 19/08/2014 Positiva com efeito de negativa
Santos *1 Positiva com efeito de negativa
Palmeiras *1 Positiva com efeito de negativa
Flamengo 11/11/2014 Positiva com efeito de negativa
Vasco *1 Positiva
Fluminense *1 Positiva
Botafogo *1 Positiva
Atlético Mineiro *1 Positiva
Atlético Paranaense 16/08/2014 Positiva com efeito de negativa
Bahia *1 Positiva
Coritiba *1 Positiva com efeito de negativa
Cruzeiro *1 Positiva com efeito de negativa
Goiás *1 Positiva com efeito de negativa
Grêmio 25/08/2014 Positiva
Internacional *1 Negativa
Vitória *1 Positiva
Figueirense 04/01/2015 Negativa
Sport Recife 26/11/2014 Positiva com efeito de negativa
Criciuma 05/01/2015 Negativa
Chapecoense 04/02/2015 Negativa
*1 – Informações insuficientes para emissão da certidão

Pelo quadro acima pode-se constatar que:

1 – Se a Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte estivesse em vigor, apenas sete clubes estariam aptos a disputar o Brasileirão: São Paulo, Flamengo, Atlético-PR, Sport, Figueirense, Criciúma e Chapecoense, sendo que apenas os três últimos possuem certidões negativas propriamente ditas;

2 – Santos, Palmeiras, Coritiba, Cruzeiro, Goiás e Internacional estariam impedidos por não apresentar a certidão da Receita Federal. Corinthians e Grêmio, por não apresentar a trabalhista. Vasco, Fluminense, Botafogo, Atlético-MG, Bahia e Vitória não estão regulares em nenhuma das duas;

3 – Dos clubes patrocinados pela Caixa Econômica Federal, Vitória e Coritiba na série A e Vasco na série B não conseguiriam receber os recursos de patrocínio na data pesquisada. Além deles, Internacional e Grêmio também possuem contratos com um banco público e estariam irregulares.

Por uma análise preliminar, tendo em vista que foram consultadas apenas duas das seis certidões necessárias, pode-se constatar que a contrapartida exigida pela LFRE aos clubes ainda está longe de ser atingida. No calor da necessidade de obtenção do refinanciamento ou talvez entendendo que essa obrigação não será exigida pela CBF, clubes estão assumindo uma obrigação que muito provavelmente não conseguirão cumprir. Fica, portanto, a impressão de que a exigência será apenas mais uma letra morta entre nossas diversas leis e regulamentos.”

Um grande abraço e saudações!

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Diego Souza e a luta do Sport contra a incipiência do marketing

Ibson Diego

Há uma semana verificou-se algo pouco usual no noticiário esportivo. O Sport Club do Recife anunciava, de uma só vez, a contratação de dois jogadores relativamente jovens, demandados e com apelo de mídia: os meias Diego Souza e Ibson. É verdade que o último acumula decepções após um começo de carreira fulgurante. Mas Diego Souza – no auge dos 29 anos e cobiçado por gigantes do futebol nacional – aparenta muita lenha pra queimar. Foi parar na Ilha do Retiro.

Estava formatada a maior ação de marketing da história do futebol nordestino. Os jogadores não seriam trazidos por um grupo de empresários, nem teriam patrocinadores custeando seus salários. Os mais de R$ 300 mil mensais pagos a Diego Souza – segundo apuração do jornalista Cássio Zírpoli – seriam pagos pela torcida, convocada a aderir em massa ao projeto sócio-torcedor.  Com aproximadamente 16 mil associados, o Leão estabeleceu meta de 10 mil novos adeptos no mês de agosto, algo que tornaria a empreitada sustentável.

Até então o maior ordenado já pago no clube havia sido de R$ 200 mil – vencimento padrão em qualquer clube do Sul ou Sudeste. Economias pouco desenvolvidas explicariam este abismo, com claros reflexos nas finanças dos clubes de futebol. Raras foram as vezes em que equipes da região se sagraram campeãs nacionais em divisões de elite. Todos os clubes do Nordeste se encontram abaixo do 10º lugar na escala de sócios-torcedores, do 13º no ranking nacional de torcidas e do 15º entre as maiores receitas.

Se as dificuldades são inúmeras, o potencial de crescimento dos clubes nordestinos acompanha o desenvolvimento recentemente verificado. Em alguns anos a região cresceu o triplo das taxas nacionais. Salvador e Recife se encontram no top-10 dos maiores PIBs entre as metrópoles. Cada vez mais turistas escolhem suas praias, tendo eventos como o carnaval considerados referência mundial. Tudo amparado por bem elaborados projetos de… marketing! Exatamente aquilo que se esboça no futebol.

Algumas coisas também vão bem para o Sport. Pesquisas já o colocaram à frente do Bahia no posto de maior torcida do Nordeste. Entre jovens, chega a suplantar equipes tradicionais do Sudeste. Sua marca, bem avaliada, atraiu a Adidas em um contrato de quatro anos e boas vendas no período da Copa.

Se nada é fácil para o Sport, também não é impossível que sua iniciativa sirva de espelho e referência às demais agremiações. Digladiando em terra de gigantes, o Leão busca consolidar sua posição de vanguarda e ultrapassar as divisas do estado de Pernambuco. O tempo nos dirá se a empreitada foi um sucesso. Ou se jogadores de quilate passarão apenas de passagem rumo a clubes do eixo Sul-Sudeste.

Um grande abraço e saudações!

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Mané Garrincha: rendas, públicos e potenciais

Fig 01

Na semana em que clubes do Rio voltam mandar seus jogos no Estádio Nacional de Brasília (Mané Garrincha), o Blog Teoria dos Jogos apresenta um compilado de números, contingentes e cifras deste surpreendente estádio, antigo expoente da expressão “elefante branco”. Em pouco tempo, a arena vem provando que o entorno barrento talvez seja um de seus piores predicados.

Até ontem foram 36 jogos válidos por diversas competições: Campeonato Candango, Copa Verde, Brasileirão Série A, Copa do Brasil, Torneio Internacional Feminino, Copa das Confederações e Copa do Mundo, além de um amistoso da Seleção. Amanhã será a vez receber uma partida válida pela Série B, pois Vila Nova/GO e Vasco se enfrentarão. Flamengo (9 vezes), Seleção Brasileira masculina e feminina (8 vezes) e o time do Brasília (5) foram os que mais se apresentaram no estádio.

O Mané verificou menos de 10 mil torcedores em suas arquibancadas apenas em ocasiões de futebol feminino. Já competições FIFA (Confederações e Mundial) não tem por hábito divulgarem a renda das partidas. Por isto, optamos por elaborar o apanhado de renda e público somente considerando partidas interclubes. O resultado foi o seguinte:

Jogos 2013

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No ano passado, após dez jogos do Brasileirão e um do campeonato candango, o Mané Garrincha recebeu 35.521 torcedores em média, que geraram renda de R$ 2,3 milhões por jogo. O público total foi de 390.727 e a renda, estratosféricos R$ 25,6 milhões. Em 2013, cobrou-se em média R$ 65,74 por assento.

Em 2014 a coisa muda de figura: enquanto o público médio se mantém alto (embora ligeiramente inferior), a renda minguou. Situação que, curiosamente, passa longe de ser uma má notícia. Vejamos:

Jogos 2014

Fig 02
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Por enquanto, oito partidas com público médio de 31.635. Embora abaixo do ano passado, a manutenção acima dos 30 mil mesmo com a perda do quê de novidade configura um mérito.  Já a renda estacionou em R$ 699 mil por jogo – R$ 5,1 milhões ao todo. O que se dá justamente porque o estádio diversificou seu uso, aumentando a quantidade de partidas dos times locais. Equipes como Brasília, Brasiliense ou Luziânia (de Goiás), por não terem apelo de público, cobram em média R$ 4,5 pelos ingressos. A resposta seria fabulosa (com o Brasília apresentando média superior à do Flamengo) não fosse um porém: ainda que o comparecimento seja ótimo, nem sempre correspondeu ao verificado nos borderôs, com ingressos doados e não efetivamente utilizados.

De qualquer maneira, o aumento de públicos e partidas locais vem fazendo com que o Estádio Nacional de Brasília cumpra sua função social, ajudando a desenvolver o futebol do Distrito Federal e proporcionando opções de lazer.

Mas o que faz do estádio um “elefante dourado” – segundo definição do presidente da CBF, José Maria Marin – é sua capacidade de gerar renda, um campo para tubarões.  Todos se lembram da maior renda proporcionada pelo Estádio Nacional de Brasília –  R$ 6.948.710,00 durante Santos 0 x 0 Flamengo da reinauguração. O montante, à época, configurou recorde de bilheteria, cumprindo outro papel importante: o de apontar o novo padrão de receitas a ser atingido pelo futebol brasileiro das novas arenas. Hoje, apenas 15 meses depois, aquela bilheteria caiu para quinto posto na ranking das maiores.

Um olhar atento aponta o Flamengo como o clube com maior capacidade de capitalização em Brasília. Sua média no estádio (38 mil) é menos importante do que os ápices (acima de 60 mil) dos quais sua torcida se mostrou capaz: A média do Vasco se enviesa por só ter disputado clássicos (dois contra o Fla e um diante do Corinthians). A partida de amanhã – primeira contra clube de menor expressão – dirá muito sobre o potencial vascaíno na capital federal. É possível que o ápice vascaíno se encontre na faixa dos 50 mil torcedores.

Em linhas gerais, apenas o Flamengo teria potencial de geração de renda frequente no Mané Garrincha – mas com a devida parcimônia, evitando a queda verificada em 2013. Um segundo pelotão – capitaneado por Vasco, Botafogo, Corinthians, São Paulo, Fluminense e Palmeiras – apresentariam excelente potencial de renda semi-esporádica. Cruzeiro, Atlético-MG, SantosGrêmio e Internacional surgem como equipes com potencial de renda esporádica. A lista acima, corroborada pelos números, segue a ordem de grandeza das torcidas no Distrito Federal, conforme mapeamento do Codeplan/DF.

Um grande abraço e saudações!

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PS: esta coluna será atualizada após a partida entre Vila Nova/GO e Vasco.

Vem aí o 3º BFC

Fig 01

O ano de 2013 foi um divisor de águas para a educação voltada ao esporte. Surgia o BFC – Business Futebol Clube, da Escola THE360 , uma ousada proposta de reunir o que havia de melhor em termos de gestão, mídia e marketing esportivo. De um acanhado número de participantes e professores, o curso foi crescendo até chegarmos às vésperas do 3º BFC, que se inicia neste sábado em São Paulo/SP.  Serão 21 professores agregando conhecimentos imprescindíveis àqueles que pretendem seguir carreira no esporte. E já teve gente importante passando pelas salas de aula: o ex-atacante Deivid, por exemplo, se beneficiou do aprendizado adquirido no 2º BFC para assumir, pouco tempo depois, o cargo de assistente técnico de Vanderlei Luxemburgo no Flamengo. Não é pouca coisa.

Fig 02

As maiores novidades do 3º BFC são o aumento das experiências relacionadas a aspectos de campo (preparação física, técnica e tática, fisiologia, fisioterapia, psicologia, formação de atletas, etc). Os participantes não apenas visitarão como terão aulas nos CTs de alguns dos maiores clubes do Brasil. Além disso, farão visitas guiadas a estádios de futebol e terão aula de arbitragem com fundamentos e simulação dentro de um campo oficial. Já viram algo tão diferenciado?

O que o Blog Teoria dos Jogos tem a ver com isto? Tudo! Desde a primeira edição, tenho a honra de fazer parte do corpo de professores, ministrando a disciplina de “Economia Aplicada ao Futebol”. Trata-se de um material exclusivo, surgido dos debates transcorridos neste espaço. Abordamos elasticidade-preço da demanda, índices de concentração de mercado, avaliação das marcas e teoria dos jogos, tudo aplicado ao mundo do futebol. Por isto, leitor do Blog Teoria dos Jogos ganha um descontaço na matrícula! Clique no banner à esquerda ou inscreva-se em www.cursobfc.com.br dizendo que conheceu o curso através deste Blog. Você se surpreenderá com as condições que lhe serão apresentadas!

Um recado pra quem é de fora: vale a pena vir a São Paulo. Metade das datas são em finais de semana, sendo 75% das aulas. Mas é preciso correr, as vagas são limitadas, estão acabando e o curso começa no próximo sábado (16). Esperamos por vocês!

VINICIUS PAIVA

A Pesquisa da Vez: Maranhão – EXCLUSIVO

Detalhamento da pesquisa:

Localidade: Estado do Maranhão (capital e interior)

Instituto: GPP 

Amostra: 804 entrevistas, entre 26 e 30 de junho de 2014

Margem de erro: 3,5 p.p

De volta ao mapeamento, são cada vez menos os estados não contemplados com pesquisas por parte do Blog Teoria dos Jogos. Nossa grande parceria com o Instituto GPP rende agora com exclusividade os números do Maranhão – populosa unidade da federação detentora de um dos menores IDHs brasileiros.

Algumas ressalvas metodológicas se fazem necessárias antes da análise. O total de 804 entrevistados faz com que a margem de erro da pesquisa (3,5 pontos percentuais) seja razoável. Entretanto, a capital São Luís possui fatia relativamente pequena da população do estado (em torno de 16%). A manutenção da proporcionalidade fez com que se entrevistassem apenas 137 pessoas na região metropolitana. Assim, são mais fidedignos os números do interior e do estado como um todo.

Segue a preferência maranhense:

Fig 01

Como na maioria do Norte-Nordeste, a supremacia do Flamengo é acachapante. Com 38,9%, é o único a cruzar a marca dos dois dígitos no estado. Abaixo surgem torcedores do Vasco da Gama (9,7%), Corinthians (7,3%), Palmeiras (4,6%) e São Paulo (3,7%). A sexta posição é ocupada por uma força local, o Sampaio Correia: 2,2% da preferência do Maranhão. Botafogo (1,5%), Fluminense (0,8%) e Cruzeiro (0,5%) precedem o Moto Clube (0,4%), enquanto o Maranhão atinge 0,3%.

A divisão capital-interior é a seguinte:

Fig 02

Por conta das explicações do segundo parágrafo, pouco se falará da configuração de São Luís. Entretanto, não se pode ignorá-la como zona de influência do Sampaio Correia (9,4%), ficando atrás do Flamengo (44,7%). No interior, ambos perdem força, enquanto crescem as torcidas de Vasco (10,8%) e Corinthians (8%). Ainda assim a liderança é flamenguista (37,7%). Cabe destaque para a maioria de palmeirenses sobre são paulinos tanto na capital quanto no interior.

Por sexo e faixa etária:

Fig 03

Todas as torcidas são maiores entre homens, apenas a corintiana mantem estabilidade de gêneros. São Paulo (6,1% a 1,4%) e Sampaio Correia (4% a 0,5%) apresentam forte concentração masculina. Por idade, São Paulo e Flamengo crescem entre jovens. São paulinos, inexistentes acima de 60 anos, sobem a 7,5% na faixa de 25 a 34 anos. Já o Rubro-Negro sai de 22,5% para incríveis 51,5%. Ainda entre jovens, há equilíbrio entre Corinthians e Vasco, com ligeira vantagem paulista (9,8% a 9,2%). No extremo oposto, “bolivianos” do Sampaio estão quase que exclusivamente concentrados acima dos 60 anos (6,9%).

Por renda e instrução:

Fig 04

Fig 05

São flamenguistas os detentores de maior poder aquisitivo do Maranhão: 41,4% daqueles a auferirem mais de cinco salários mínimos. As demais verificam estabilidade, menos a torcida do Sampaio Correia, concentrada entre mais velhos. Seus adeptos saem do traço estatístico abaixo do vencimento mínimo para 7% acima dos cinco salários. Por fim, quem mais cresce com os anos de instrução é o Vasco: 5,7% dos cruzmaltinos tem o primeiro grau, frente a 18% com nível superior completo.

Um grande abraço e saudações!

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As DARFs na crista da onda

De um ano para cá, a agonia pelo endividamento dos clubes do Rio fez com que grupos de torcedores passassem a se movimentar para ajudá-los. O instrumento? A velha “vaquinha”, sofisticadamente renomeada como crowdfunding. O desafio seria superar a desconfiança depositada sobre projetos do gênero. Depósitos na conta de terceiros ou na própria conta corrente do clube foram ações que sempre deram errado. Mas aí vieram as DARFs.

Tudo começou com o projeto “Vasco Dívida Zero”, nos idos de maio de 2013. Segundo relato no website da iniciativa, um forista descobriu a possibilidade de se pesquisar o tamanho da dívida do clube através do portal e-CAC da Receita Federal. Além de pesquisar, descobriu ser possível emitir e pagar a DARFs – Documentos de Arrecadação de Receitas Federais – na condição de parte interessada. Pronto, criou-se um financiamento colaborativo seguro e eficaz.

Após a iniciativa vascaína, botafoguenses e flamenguistas compraram a ideia em projetos respectivamente denominados “Botafogo Sem Dívidas” e “Fla em Dia”. Veja o retrato atual de cada um deles:

VASCO DÍVIDA ZERO

Início: Maio 2013

Apoiado pela diretoria: SIM

Torcedores cadastrados no site: 15.591*

Valor pago até o momento: R$ 951.520,00 (Dívida ativa atual: R$ 94.906.049,31)*

Número de curtidas na fan page do Facebook: 23.246*

Número de seguidores no Twitter: 1.457*

*Até as 14 hs de 11/08/2014

Fig 01

BOTAFOGO SEM DÍVIDAS

Início: Janeiro 2014

Apoiado pela diretoria: SIM

Torcedores cadastrados no site: 3.889*

Valor pago até o momento: R$ 93.950,00  (Dívida ativa atual: R$ 129.523.938,89)*

Número de curtidas na fan page do Facebook: 8.338*

Número de seguidores no Twitter: 1.453*

*Até as 14 hs de 11/08/2014

Fig 02

FLA EM DIA

Início: Julho 2014

Apoiado pela diretoria: SIM

Torcedores cadastrados no site: 11.739*

Valor pago até o momento:  R$ 265.760,00 (Dívida ativa atual: R$ 371.917.204,00)*

Número de curtidas na fan page do Facebook: 6.121*

Número de seguidores no Twitter: 4.272*

*Até as 14 hs de 11/08/2014

Fig 03

Nos três casos, as diretorias abraçaram os projetos – seja provendo informações, divulgação ou fornecimento de brindes. Entre eles, percebe-se o “Vasco Dívida Zero”, como o mais bem sucedido, com representativos um milhão de reais abatidos na dívida. Por conta do pioneirismo, trata-se do projeto com mais cadastros e maior base de seguidores em mídia social. O lado negativo é o pouco crescimento verificado nos últimos tempos, justamente por já ter atingido certa maturação.

No meio do caminho se encontra o “Botafogo Sem Dívidas”, com uma base de cadastros e mídia social em relativo crescimento, mas com números modestos no tocante à arrecadação. Em comparação com as torcidas de Flamengo e Vasco, de fato o Botafogo leva enorme desvantagem. Por outro lado, conforme dito na coluna “O porquê do caos botafoguense”, trata-se do clube que mais precisa da colaboração de sua torcida.

Por fim, estando ainda em seu primeiro mês de vida, o “Fla em Dia” é a iniciativa mais recente e promissora. O aumento verificado nos cadastros e na base de seguidores tem, por trás, o enorme quantitativo de torcedores do Flamengo. Além dos mais de R$ 265 mil pagos, resta a considerável soma de R$ 1,1 milhão em DARFs emitidos. Tratam-se de documentos cujo pagamento não foi confirmado, ou mesmo títulos não-quitados.

Conforme exposto anteriormente, por muito tempo fui contrário ao crowdfunding por considerá-lo uma forma ineficiente de levantamento de fundos. Ao esvaziar iniciativas oficiais com capacidade multimilionária (Ex: projetos de sócio-torcedor), restavam sempre valores escassos cuja destinação se mostrava incerta.  Com a emissão direta de DARFs, o problema é superado. Torna-se prerrogativa das torcidas afrouxar a corda que se encontra no pescoço dos endividados clubes brasileiros.

Um grande abraço e saudações!

E-mail da coluna: teoriadosjogos@globo.com

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Entrevista de Vinicius Paiva à Rádio Nacional AM (Rio de Janeiro)

Clique na imagem abaixo e ouça a entrevista de Vinicius Paiva à Rádio Nacional, 1130 kHz AM do Rio de Janeiro. Em debate, tudo sobre a pesquisa Datafolha/2014, bem como opiniões do blogueiro quanto à configuração nacional de torcidas. Por se tratar de uma rádio carioca (de enorme importância histórica), o foco foram os clubes do Rio de Janeiro.

EBC

 

O porquê do caos botafoguense

As tabelas desta coluna se baseiam no paper “7º VALOR DAS MARCAS DOS CLUBES BRASILEIROS”, elaborado pela BDO Brazil e publicado pouco antes da Copa. Tanto o ranking de “Endividamento” quanto o de ”Valor das marcas” tem a consultoria como fonte. As correlações são de autoria do Blog Teoria dos Jogos.

Três meses de salários atrasados, cinco de direitos de imagem. Cem por cento das receitas bloqueadas e uma possibilidade real de debandada. Eis o panorama catastrófico que ronda um dos clubes mais tradicionais do Brasil: o Botafogo de Futebol e Regatas. Tecnicamente, pode parecer similar ao verificado nos demais clubes do Rio de Janeiro. Mas a verdade é que a crise alvinegra se aproxima, sim, do pior que já pode ser visto. Quem diz isto é a capacidade financeira do Botafogo, medida de maneira preocupante pela frieza dos números.

INTRODUÇÃO

De uma maneira geral, pessoas, clubes de futebol ou países podem dever mais do que arrecadam. Pense em alguém que financia um apartamento: É certo que o valor do imóvel representa inúmeras vezes seu ordenado. Isto faz com que o importante sejam as condições com que o empréstimo será tomado (baixa taxa de juros e longo horizonte temporal). O mesmo se aplica a países, onde há casos de dívidas superiores ao próprio PIB.  Em suma: dever é possível, desde que não haja credores batendo à porta.

Este é o problema dos clubes de futebol: boa parte de seus débitos são de médio e curto prazo. Dívidas trabalhistas, por exemplo, fazem com que se recorra à Justiça com vitória relativamente rápida e correções sufocantes. Sendo um péssimo negócio, os clubes historicamente recorreram ao governo – cujos impostos podiam sonegar. Assim surgiram volumosas dívidas de diversas naturezas. Décadas de vistas grossas deseducaram cartolas, até que o montante se tornou tão massivo que algo precisou ser feito.

Onde entra o Botafogo nesta história? Além de ser onde as condições se deterioraram mais rápido – como no caso da exclusão do Ato Trabalhista – o Glorioso é, de longe, o clube com pior capacidade de arcar com seus débitos.

ENDIVIDAMENTO/RECEITA

Uma as formas de se medir a saúde financeira dos clubes é a proporção entre sua dívida (o que tem a pagar) e seu faturamento (arrecadação em uma temporada). No caso brasileiro, o ordenamento é o seguinte:

Fig 01

Detentor da segunda maior dívida, o Botafogo surge apenas como 11ª maior receita. Isto fez com que ele devesse 4,52 vezes o que arrecada num ano, a maior (e pior) proporção do Brasil. A única a chegar perto é a Portuguesa (deve 4,25 o que arrecada), mas o montante alvinegro se encontra em outro patamar. Entre os grandes, Fluminense (3,39) e Vasco (3,25) são os que se aproximam desta caótica situação, escancarando a histórica irresponsabilidade gerencial no Rio. Também prejudicado pelo enorme volume, o Flamengo (2,78) surpreende pela melhor capacidade de arcar com sua dívida – a maior do Brasil em termos absolutos. No extremo oposto, São Paulo (0,69) e Internacional (0,88) navegam em águas tranquilas: devem menos do que arrecadam em uma única temporada.

VALOR DAS MARCAS/ENDIVIDAMENTO

Onde residem as esperanças? Geralmente em refinanciamentos a perder de vista, mas não deveria ser assim. Em tempos de responsabilidade gerencial, a esperança reside na capacidade de alavancar receitas. Com base no valor atribuído a cada marca, calculamos qual seria o potencial gerador de novos negócios por parte dos clubes. Nesta área, a situação do Botafogo não é menos delicada:

Fig 02

Ao contrário da tabela anterior, aqui o “endividamento” se encontra no denominador. Em outras palavras: quanto menor, pior. Adivinhem onde se encontra o Botafogo? Justamente na última posição! Os dados acima significam que a marca alvinegra vale apenas 18% do total devido. Fluminense, Vasco e Atlético-MG também devem mais do que valem suas marcas – e mesmo nesse grupo a situação botafoguense é alarmante. Novamente o Tricolor Paulista surge como um dos mais saudáveis (3,38 vezes mais valioso que sua dívida), agora atrás do Corinthians (5,72), clube em melhor situação do país.

O CAMINHO

Se o endividamento como percentual da receita é alto; se a capacidade de alavancar é baixa, não há escolha além de cortar na carne. O Botafogo precisará, assim, se desfazer de seu patrimônio (inicialmente, jogadores). Mas um elenco avaliado em R$ 90 milhões não seria solução nem com o completo desmanche. Assim, o único caminho passa pela contribuição da torcida.

Sempre fui contra o crowdfunding por considerá-lo prova cabal da incapacidade em gerar receitas oficiais. Mas minha relutância tem limite, e ele é atingido quando o caos beira a falência – ou o abandono do campeonato. Diante do exposto, a torcida do Botafogo tem em mãos uma campanha organizada por um grupo de torcedores bem intencionados, a Botafogo Sem Dívidas (http://www.botafogosemdividas.com.br/). Campanhas geradoras de DARF’s são recomendáveis pela segurança quanto à destinação dos recursos. No caso do Botafogo, a recomendação torna-se vital.

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