Arquivos mensais: setembro 2014

Match Day: A experiência nos camarotes Maracanã Mais

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Não é de hoje que percorremos estádios visando analisar experiências – boas ou ruins – que envolvem a ida a partidas de futebol. Desde situações desagradáveis, como a inauguração do Estádio Nacional de Brasília passando pela grata surpresa do Novo Maracanã – ainda nos idos de 2013 – até experiências internacionais, como no caso da Euro 2012 (Ucrânia e Polônia). Faltava, contudo, aquilo que se convenciona por experiência prime, principalmente nestes sofisticados (e encarecidos) tempos de novas arenas. Ela aconteceu domingo, no próprio Maracanã, por meio de convite do Consórcio Maracanã ao Blog Teoria dos Jogos.

Segundo o próprio site do Consórcio, a experiência VIP no estádio – denominada Maracanã Mais – pode se dar de duas formas: camarotes ou cadeiras. Ambos contemplam entradas exclusivas, ambientes climatizados e serviço de alimentação (bufê), sendo que os camarotes ainda possuem living exclusivo, varanda externa com cadeiras próprias e estacionamento privativo:

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Outra diferença é que os camarotes só podem ser acessados por convidados, pessoas ou empresas que adquirirem uma unidade. Já as cadeiras do espaço Maracanã Mais são comercializadas jogo a jogo. Numa prova de que o conforto tem potencial de cativar o público carioca, todos os lugares – comercializados a R$ 180 – se esgotaram um dia antes do Fla x Flu de domingo passado. Segundo o borderô, os 967 assentos Maracanã Mais (2,5% do público pagante) proporcionaram R$ 149.400,00 – 9,5% da renda do clássico.

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Voltando aos camarotes: suas capacidades variam de 13 a 39 pessoas, com comercialização feita por temporada. Em 2014, apenas 30 dos 80 disponíveis foram vendidos, sendo que os menores podem ser adquiridos por R$ 135 mil. As empresas que adquirirem podem utilizá-los fora do horário dos jogos para reuniões corporativas (limite de dez datas). Possuem, ainda, prioridade na compra de ingressos para shows e eventos que ocorrerem no estádio.

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Particularmente, a experiência foi excepcional. Tudo o que possivelmente destoe – como certa ineficiência no serviço do metrô ou a inexistência de bebidas alcoólicas – não tem relação com a operação do estádio. Como sugestão, talvez um restaurante que funcionasse em dias sem jogos igualaria a experiência frente ao que se verifica internacionalmente. O comércio de produtos oficiais e souvernirs também se mostra aquém das possibilidades.

Internamente, todo os acessos fazem lembrar um shopping center, com corredores amplos e elevadores espaçosos. Atendentes sorridentes e prestativas encaminham cada “hóspede” ao seu devido espaço. O serviço de bufê é generoso e diversificado, oferecendo desde castanhas e cachorros-quentes a canapés e refeições completas (no dia, lasanha). Os banheiros privativos são da melhor qualidade e espetaculares cadeiras acolchoadas proporcionam a melhor vista do estádio. Mas talvez o que mais tenha impressionado seja a acústica do local, que maximiza o cântico das organizadas e dá o tom perfeito à torcida em vantagem numérica – naquele caso, a do Flamengo.

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Em meio um sem-número de atletas e celebridades – todos interagindo com naturalidade – aquela tarde de domingo ficará guardada na memória. Como entusiasta das novas arenas – em oposição a tantos puristas – pude vivenciar uma operação que funcionou em sua plenitude, proporcionando tudo de melhor aos que tiveram a felicidade de estar presentes. O Blog Teoria dos Jogos agradece ao Consórcio Maracanã e à CDN Comunicação Corporativa pela gentileza do convite.

Um grande abraço e saudações!

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Entrevista de Vinicius Paiva à Rádio Trianon AM (São Paulo)

Clique na imagem abaixo e ouça a entrevista de Vinicius Paiva ao programa Arquibancada Show da Rádio Trianon AM 740 kHz (São Paulo/SP), que foi ao ar em 13/09/2014. Considerações sobre o processo de mapeamento de torcidas promovido pelo Blog Teoria dos Jogos e o confronto entre Flamengo e Corinthians, que aconteceria no dia seguinte.

Arquibancada Show

A Pesquisa da Vez: Espanha 2014

Em tempos de muitos mapeamentos nacionais e poucos locais, sai do forno mais uma pesquisa sobre o perfil nacional das torcidas. Só que desta vez do outro lado do oceano: na Espanha. Um estudo elaborado pelo Centro de Investigaciones Sociológicas (CIS) e publicado pelo Jot Down.es trouxe à tona a mais reveladora pesquisa de torcidas no país onde Messi e Cristiano Ronaldo desfilam seu talento. Os resultados, relativamente semelhantes ao que se verifica numa certo país tropical, serão expostos a seguir.

Inicialmente a pesquisa traça um perfil da preferência esportiva espanhola, país onde o futebol também é soberano:

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Chama atenção o fato de os espanhóis também denominarem o futebol como “ópio do povo”, discutindo as razões pelas quais centraliza tanta mídia em detrimento dos demais esportes. Certas questões parecem não ter pátria.

Agora, a preferência por clubes de futebol no país:

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A tabela acima confirma a expressão “Espanholização” como sinônimo de concentração entre torcidas. Sozinhos, Real Madrid e Barcelona  representam incríveis 63,3% da torcida espanhola: 37,9% para os merengues e 25,4% para os culés. Um verdadeiro precipício separa a dupla de Atlético de Madrid (6,1%), Valencia (3,5%), Athletic Bilbao (3,3%) e Betis (3,2%). Outras oito agremiações (fora a seleção espanhola) marcam de 1% a 2%, enquanto sete torcidas não ultrapassam a marca unitária.

Para compararmos este panorama com o que se verifica no Brasil, é preciso uma normatização. Os números do país europeu não contemplam pessoas “sem clube”, de modo que estes percentuais se referem à torcida, e não à população espanhola. Por aqui, a estatística costuma contemplar a população geral. Com base na enquete Datafolha-2014, fizemos esta adaptação para uma melhor comparação:

Fig 03

O Flamengo detém 23,4% da torcida brasileira, enquanto o Corinthians concentra 18,2%. A soma de ambos, embora vultosa (41,6%), se encontra 21,7 pontos percentuais abaixo do que Real e Barcelona representam em seu país. Ainda assim, há semelhanças entre a dupla daqui e a de lá:

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A análise do perfil geográfico denota um Real Madrid muito mais espalhado, sendo a maior torcida em 21 dos 40 territórios – empata com o Barcelona em três. O Barça é líder em oito províncias, já considerando as três onde ficam empatados. Mal comparando, é como se o Real tivesse um perfil semelhante ao do Flamengo, enquanto o Barcelona seria o Corinthians. A maior diferença com relação ao Brasil é o grande número de territórios (doze) dominados por forças locais. O percentual dos três maiores em cada província pode ser visto aqui:

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Quanto ao perfil social, outra semelhança: a diferença entre Real e Barcelona diminui em meio aos mais ricos, aumentando entre os menos qualificados. Trata-se de situação em linha com o que acontece no Brasil, onde a torcida do Fla é mais popular e a do Corinthians mais rica:

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A pesquisa completa, muito pormenorizada, por ser acessada aqui e aqui. O material contempla diversas análises relacionadas à ideologia e ao perfil eleitoral de cada torcida, além de detalhar a distribuição geográfica dos adeptos de Real Madrid e Barcelona.

Um grande abraço e saudações!

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Agradecimentos ao leitor Ivens Thomaz pela contribuição

 

Opinião: Diga não ao “Desafio Técnico” no futebol

Quatro dias atrás, durante a Convenção Global Soccerex 2014, o presidente  Joseph Blatter afirmou a jornalistas que a FIFA pretende instituir no futebol o “Desafio Técnico”(Challenge Call). Assim como ocorre nos jogos de tênis, treinadores passariam a poder desafiar as decisões do juiz por uma ou duas vezes a cada tempo de jogo. Com a partida paralisada, a tecnologia entraria em campo visando esclarecer dúvidas acerca das decisões tomadas pelo trio de arbitragem.

Num primeiro momento, a medida aparenta ser um bem para o futebol. Implantada com sucesso outros esportes (como o futebol americano), o objetivo é nobre: acabar com injustiças que tanto pairam sobre o velho e violento esporte bretão. Ademais, a adoção de outras modernidades vem se mostrando um acerto. Foi o caso da “tecnologia da linha do gol” que, implantada na Copa do Mundo, validou um gol legítimo da França contra Honduras.  A percepção do torcedor brasileiro vai ao encontro desta sensação: uma enquete do Esporte Espetacular aponta incríveis 77% dos votantes sendo favoráveis à adoção da tecnologia.

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Confesso que me flagrei impelido a votar “Sim” na enquete. Quando fui acometido por um pensamento que mudou totalmente meu ponto de vista.

Chama atenção aos amantes dos outros esportes – em especial esportes norte-americanos – a obsessão que temos pelo “gol” no futebol. Trata-se de uma explosão de comemoração e festejos às raias da insanidade. E por que o gol é tão importante? Por sua raridade. Entre pontos, cestas e gols tão generosos em outros esportes, o futebol é o único cujos empates zerados não são nada raros, sem qualquer atitude para revertê-los. E se esta situação é frequente, partidas com uma das equipes em branco são ainda mais costumeiras. Eis o porquê da glorificação do momento máximo: você nunca sabe em quanto tempo comemorará outro gol de seu time. Pode realmente demorar.

A instituição do “Desafio Técnico” teria um efeito absolutamente nefasto: ser utilizado praticamente em todos os gols, buscando pequenos errinhos que possam invalidar o tento adversário. A não ser em situações de controvérsias recorrentes (como penalidades máximas), não consigo enxergar outro momento que fizesse tanto valer a pena a utilização do expediente. Faltas ou situações do tipo seriam “queimar desafio à toa”, já que a qualquer momento se poderia sofrer um gol perdendo a prerrogativa de questioná-lo. A administração da “estratégia dos desafios” se tornaria uma tática, assim como tempos técnicos no vôlei (“quebrar o ritmo” do adversário) ou as faltas no basquete (contar com erros no arremesso de lances livres).

O resultado é que a cada gol desafiado, a célebre comemoração de jogadores e torcedores iria para o lixo. Como quando se percebe, instantes depois, que um gol foi anulado por falta de ataque ou impedimento.

Será mesmo que devemos transformar o melhor momento do esporte num mero protocolo de espera, com base na fria confirmação de um concílio diante do monitor? É para se pensar, analisar e debater seriamente, tentando aprimorar ao máximo outras ferramentas à disposição.

Eu digo que não. O “Desafio Técnico” no futebol não vale a pena.

Um grande abraço e saudações!

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A correta atitude do aumento no preço dos ingressos do Fla

CRM Zen

Há um mês, lanterna do brasileirão. Há uma semana, virtualmente eliminado da Copa do Brasil. Por incrível que pareça o Flamengo se recuperou e hoje está “vivo” em ambas as competições. Mesmo assim, e pela milionésima vez, o clube acaba de adentrar mais uma crise política. No caso, a questão envolve o aumento no preço dos ingressos.

Segundo o Globoesporte.com, a reunião do Conselho Diretor realizada na noite de ontem foi tomada pelo embate entre diferentes poderes do clube. No olho do furacão, a disputa entre o departamento de futebol e o departamento de marketing pela manutenção ou não dos ingressos promocionais. Por ora, os preços foram aumentados, gerando o enorme mal estar relatado.

O departamento de marketing do Flamengo é o poder responsável por pensar o clube como negócio, gerindo uma entidade antes assolada pela irresponsabilidade e próxima à bancarrota. A eleição da atual diretoria foi o ponto de inflexão de um louvável processo de resgate da credibilidade e da saúde financeira do Rubro-Negro. Em 2013, o Fla assumiu a liderança do ranking de receitas desconsiderando-se transferências de atletas. Para 2014 o cenário indica a liderança absoluta, incluindo um inédito superávit nas contas. Grande parte deste modelo vem sendo financiado pelas receitas de bilheteria, conforme levantamento Pluri Consultoria relativo a 2013:

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A liderança sob a ótica da “Renda Total” se deu, em boa dose, pelo alto ticket médio – inferior apenas ao do Atlético-MG.  Mas em 2014 a coisa mudou de figura, segundo relatório Futdados/Footstats  relativo ao Campeonato Brasileiro. Embora vice-campeão no ranking de bilheteria, o Flamengo se encontra inimagináveis R$ 10 milhões abaixo do líder Corinthians. Devido aos ingressos subsidiados, seu ticket médio caiu para sétimo no mesmo ranking.

A questão do preço dos ingressos é mais complexa do que presumem os puristas, possuindo características que apontam para o esgotamento do modelo de descontos. São três as razões:

1 ) Descontos possuem prazo de validade

Um dos mantras do marketing esportivo: promoções precisam de um horizonte temporal bem definido, caso contrário seus descontos são internalizados pelos consumidores e perdem efeito. O Flamengo estabeleceu que seus ingressos cairiam enquanto a equipe precisasse de todo apoio possível. A torcida comprou a ideia e os resultados vieram. Eis um caso clássico de política que cumpriu aquilo a que se propôs, sendo a hora de sair de cena.

2 ) Flamenguistas apresentam comportamento inelástico

Esta é a uma conclusão do próprio Blog Teoria dos Jogos, que analisou as respostas por parte da torcida a modificações no preço dos ingressos durante o Brasileirão 2013. Os flamenguistas, nos últimos anos, vem apresentando comportamento típico de fidelidade, reagindo bem a descontos e não tão mal a majorações. Assim, o fim das promoções levaria a uma redução proporcionalmente menor do público pagante, aumentando os ganhos do clube com bilheteria.

3 ) O naco destinado ao Consócio Maracanã diminui à medida com que aumentam as rendas totais

Vejamos a tabela que relaciona as últimas partidas do Flamengo no Maracanã:

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Nos últimos tempos, nenhum expediente vem sendo tão controverso quanto a fatia das bilheterias abocanhadas pelo Consórcio Maracanã. Neste sentido, percebam que o percentual destinado ao Fla cresce à medida com que aumentam as receitas totais. Evidentemente, existe uma relação positiva com o público pagante, mas a relação inequívoca acontece perante a renda. O melhor exemplo são as partidas contra o Sport e o Atlético-MG. Frente aos pernambucanos o público pagante foi ligeiramente inferior, mas a bilheteria maior. Assim, o percentual destinado ao clube também foi maior, comprovando o argumento de que o Flamengo ganha proporcionalmente mais à medida com que melhor arrecada.

Diante do exposto, o Blog Teoria dos Jogos se posiciona favoravelmente ao aumento do preço dos ingressos – nunca perdendo de vista que tais movimentos devem responder a processos circunstanciais de oferta e demanda, o que levaria a novas promoções caso se façam necessárias.

Um grande abraço e saudações!

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Opinião: Exagero e hipocrisia na questão do racismo no Sul

CRM Zen

“Vem falar com o macaco! Vem xingar o macaco! Racista!”

Assim foi recebida Patrícia Moreira na porta da 4ª Delegacia de Polícia Civil de Porto Alegre. Aos xingamentos e protestos, bem ao feitio do que ocorre desde que foi flagrada pela ESPN proferindo “MA-CA-CO” em direção ao goleiro Aranha, do Santos. O jogo era do Grêmio, seu time do coração, que pelas demonstrações de racismo da torcida acabou excluído da Copa do Brasil. Como se não bastasse tanta polêmica, desde a noite de quarta circulam imagens que atribuem ao auditor Ricardo Graiche, do STJD, postagens em redes sociais de cunho supostamente racista.

Diante de tudo, vamos aos fatos. E apelemos ao bom senso:

1)      É preciso separar o joio do trigo quando nos referimos a injúrias proferidas nas arquibancadas de futebol. A torcida do Grêmio apelidou pejorativamente os colorados de “macacos” – e isto nem deveria ser demonizado como vem acontecendo entre os próprios gremistas. Os “macacos” do Internacional equivalem aos “urubus” do Flamengo ou aos “porcos” palmeirenses. Começou como injúria, depreciação, como forma de se diminuir o rival – e que torcida não o faz? Nos casos citados, os símbolos foram inteligentemente encampados pelas torcidas, dando um tapa de luva na provocação. Ocorre também de torcidas não admitirem o “apelido” dado pelos rivais: “Bambis”, “gambás”, “Marias”…  E quem há de abolir a provocação saudável em meio a rivalidades tão acirradas? Pedir “silêncio na favela”, ofender o “filho da puta” do juiz ou gritar a plenos pulmões que um jogador é “viado” se tornará o quê? Crime de difamação, discriminação econômica, social ou sexual? E o que dizer da “Macaca”, simpaticíssimo mascote da Ponte Preta? Tornou-se politicamente incorreta?

2)      Sim, racismo ou injúria racial constituem crimes. E o que aconteceu durante Grêmio x Santos  precisa de punição, foram ofensas voltadas a um jogador em específico. O “macaco”, no caso, não era uma abstração, uma depreciação coletiva. Era o goleiro Aranha, que reagiu por se sentir diminuído. Ele tem este direito. Mas por todo o exposto no parágrafo anterior – e por bom senso – o que acontece nos estádios deveria ser contemporizado enquanto não ultrapassar a linha vermelha. Descriminalizar idiotices não é sinônimo de tolerá-las ou aceitá-las. Tanto por parte da Justiça Desportiva quanto no âmbito do clube, medidas na esfera administrativa deveriam ser tomadas. Como um jogo com portões fechados, por exemplo. Quase R$ 1 milhão de prejuízo não soaria punitivo o suficiente? A exclusão dos identificados do quadro social do Grêmio não aparentaria educativo perante quem cogitasse cometer a mesma injúria?

3)      A garota errou, pisou na bola, é fato. E deu o tremendo azar de ser focalizada em rede nacional. Mas a verdade é que a alvura de sua pele trouxe à tona as tensões raciais de um país intolerante. Patrícia não foi a única a xingar. Mais: gremistas negros também ofenderam o goleiro do Santos. Só que temos a necessidade de encontrar bodes expiatórios. Alguém que, sozinho, verdadeiramente pague pelas chagas e mazelas de uma sociedade que se expõe doente. Pior: diante do erro alheio – pois quem erra é sempre o vizinho – o brasileiro se acha no direito de julgar e condenar. Como um deus, acima do bem e do mal, que tenha a prerrogativa de fazer justiça com as próprias mãos. Desde as primeiras horas após a polêmica, Patrícia teve telefones e endereços divulgados na internet. Sua célula familiar foi destruída, tendo inclusive a própria casa apedrejada. Com que direito?

4)      As imagens do bebê negro se passando por “embalagem de Pepsi” circularam o mundo antes de chegar ao Facebook do auditor, que tão somente fez… rir. Eu mesmo já havia visto a foto na rede social, postada por alguém que também… riu. A propósito, é extremamente improvável que a menininha tenha sido sequestrada por racistas obscuros responsáveis pela elaboração da foto. Os pais da menina – ou tios, primos, amigos – foram os responsáveis. Sem imaginar que gerariam tamanha cruzada, fizeram troça de sua fofura. Certamente o objetivo era compartilhar leveza através de uma brincadeira que só agora se tornou incompreendida.

Não estou aqui para defender quem quer que seja – seja auditor ou ofensora. Nem tenho razões para isto. Mas é impossível não deixar a pergunta: quem apedreja – real ou virtualmente – tem teto de vidro? Quem sonega imposto, passa a perna nos outros ou prejudica a coletividade mesmo nas pequenas coisas… tem envergadura moral para pagar de justiceiro?

Deveríamos ser menos hipócritas e concentrar tamanha fúria incontida contra os verdadeiros desmandos da nossa sociedade. Seríamos melhores se não negligenciássemos os verdadeiros doentes, dando a eles a dose certa de remédio. Deixando de matar alguns pacientes por excesso de medicação.

VINICIUS PAIVA

A Pesquisa da Vez: Uberlândia (2014 x 2011 x 2008)

CRM Zen

Localidade: Uberlândia/MG

Instituto: PS Marketing

Amostra: 400 entrevistas, entre 02 e 04 de agosto de 2014

Margem de erro: 5 p.p

Parece , mas não foi de propósito: na semana em que o Blog Teoria dos Jogos questionou a metodologia do Ibope no estado de Minas Gerais – citando exatamente a configuração do Trângulo Mineiro – trazemos à tona um estudo na cidade de Uberlândia. Fruto de nova parceria com o instituto PS Marketing, a pesquisa comprova tudo aquilo que falamos.

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A mesorregião do Triângulo Mineiro foi citada como a que melhor traduzia a miscelânea de torcedores que compõe o estado de Minas Gerais. Serviu também de base para a afirmação de que os 2,9% atribuídos ao Flamengo no estado eram absolutamente ilógicos frente a tantas regiões com liderança rubro-negra. Isto se ratifica através deste novíssimo estudo: 23% de Uberlândia torce pelo Flamengo, frente a 12,5% do Corinthians, 8% do Cruzeiro e 5,25% de São Paulo e Vasco. Palmeiras (4%), Atlético-MG (3,5%) e Botafogo (1,75%) são as equipes que ultrapassam 1% das preferências. O total de torcedores sem clube é de 31%.

Seguindo nova política do Blog Teoria dos Jogos, não serão publicadas divisões por renda, faixa etária, escolaridade e gênero em pesquisas com margem de erro igual ou superior a cinco pontos percentuais, pois a margem de cada tabulação se mostra excessivamente alta e distorce conclusões.

Há variações (dentro da margem de erro) em comparação com números anteriores,  mas o ordenamento se mantém semelhante. Já havíamos publicado números referentes a 2008 que mostravam a liderança do Fla, seguido de Corinthians, São Paulo e Vasco. Em 2011, o próprio PS Marketing divulgara estatísticas da cidade, com Flamengo, Corinthians e Cruzeiro compondo o pódio.

Enquanto houver paixão clubística, haverá debate em torno da metodologia das pesquisas, até porque muitas são realmente questionáveis. E questionar é a razão de ser deste Blog. Para nós, isto é tão importante quanto trazer ao grande público a verdade no ordenamento das massas.

TRÊS ANOS

Vela 3 anos

O Blog Teoria dos Jogos trocou de casa, mas não mudou de essência nem de nome. Sendo assim, hoje, 03/09/2014 é nosso ANIVERSÁRIO DE TRÊS ANOS! Parabéns!

Um grande abraço e saudações!

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Pesquisa Lance/Ibope 2014: considerações finais

Após repercutirmos a 5ª Pesquisa Lance-Ibope, cujos números começaram a ser divulgados na quarta-feira, trazemos à tona uma última análise a respeito de seus resultados. Isto porque, aos poucos e durante a fim de semana, o Lance publicou percentuais por estados e regiões, confirmando algumas das sensações aqui expostas.

No texto de quinta-feira, opinei que os ordenamentos excessivamente modificados presumiam viés amostral, prejudicando a confiabilidade da pesquisa. Como o Ibope habitualmente não divulga a metodologia de suas pesquisas, tal opinião se baseou em puro feeling, algo desenvolvido quando se estuda e analisa determinada área por muitos anos. Assim, sentenciei:

A impressão que fica é de um viés em direção a Belo Horizonte – onde o Atlético-MG de fato supera o Cruzeiro – e Salvador. Aparenta também uma Curitiba superdimensionada”.

Então vieram os percentuais de Minas Gerais, Paraná e Bahia:

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Ficou explícito que a grande maioria das entrevistas aconteceu nas capitais, daí o predomínio dos Atléticos Mineiro e Paranense. E nem é preciso ir longe para comprovar. Em primeiro lugar, analisemos a configuração de torcidas do estado de Minas com base em diversas publicações do antigo Blog Teoria dos Jogos do Globoesporte.com (Clique aqui).

Das 14 localidades pesquisadas, em metade a torcida do Flamengo leva vantagem sobre a do Corinthians. O Fla é líder em duas das quatro maiores cidades mineiras (Uberlândia e Juiz de Fora), além de superar o Corinthians em seis das dez maiores (inclui-se BH, Contagem, Ipatinga e Governador Valadares). No Triângulo Mineiro, possui hegemonia em Uberlândia e Araguari, perdendo para os paulistas em Uberaba. Por fim, detém ampla maioria em regiões pouco ou nada pesquisadas, como a Zona da Mata (2 milhões de habitantes) e partes do sul e do nordeste. Pesquisas anteriores atribuíam aos cariocas de 8% a 10% da torcida mineira, em algum equilíbrio com o Atlético-MG e larga dianteira sobre o Corinthians. Com isto em vista, os números do Ibope aparentam distorções até certo ponto risíveis.

Já no Paraná, o prejudicado muda de lado: o próprio Corinthians! De longe a maior torcida do estado, os paulistas tem a favor de si pesquisas anteriores bem mais completas, como a do Paraná Pesquisas. Embora algumas falhas metodológicas também sejam verificadas, a verdade é que os inacreditáveis 113 mil entrevistados pelo instituto deixam pouca margem para qualquer discussão.  O Corinthians possui ampla maioria paranaense, atingindo o dobro das preferências do Atlético-PR, clube a quem o Ibope atribuiu liderança em 2014.

Infelizmente nada pode ser dito quanto ao estado da Bahia, já que o Blog Teoria dos Jogos não publicou pesquisas nesta região. Mas a lógica enviesada certamente se faz presente com base nas razões justificadas abaixo.

O grande erro da pesquisa foi projetar para estados a configuração de capitais, como se as proporções fossem relativamente equânimes. No Brasil, existem três perfis de estados no tocante à configuração de torcidas:

1)      Estados homogêneos: torcidas da capital e do interior praticamente idênticas. Exemplos são justamente os três estados mais poderosos futebolisticamente: São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Há também exemplos opostos: regiões de total ausência de forças futebolísticas, com domínio de torcidas do eixo Rio-São Paulo (Exemplos: Amazonas, Espírito Santo, Piauí, etc.)

2)      Estados parcialmente heterogêneos: região metropolitana dominada por forças locais, interior não blindado à presença das torcidas de fora (Exemplos: Pará, Ceará, Bahia, Pernambuco – parcialmente)

3)      Estados completamente heterogêneos: região metropolitana dominada por forças locais, cada mesorregião do interior dominada por diferentes correntes. (Exemplos: Minas Gerais – influência mineira, paulista ou carioca dependendo da região; Paraná – influência paranaense, paulista, carioca ou gaúcha; e Santa Catarina – influência catarinense, paulista, carioca ou gaúcha).

Resumindo: a projeção dos índices da capital para o interior só é aceitável no tocante ao primeiro perfil, distorcendo completamente os resultados quando aplicada ao segundo e terceiro casos. Não se pode admitir um erro tão crasso vindo de empresa com tamanha expertise no mercado de pesquisas, esportivas ou não, como é o caso do Ibope.

Um grande abraço e saudações!

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