Arquivos mensais: outubro 2014

A Pesquisa da Vez: Brasília – EXCLUSIVO

Detalhamento da pesquisa

Localidade: Distrito Federal

Instituto: GPP

Amostra: 800 entrevistas, entre 11 e 12 de outubro de 2014

Margem de erro: 3,5%

Passadas as eleições, vamos ao que realmente interessa… futebol! De carona com o sem número de pesquisas eleitorais destas últimas semanas, o Blog Teoria dos Jogos apresenta aquilo que, em economia, se denomina “externalidade positiva”: a inédita e tão aguardada configuração de torcidas de Brasília!

Antes, um importante esclarecimento. O Blog Teoria dos Jogos, ainda em seus tempos de Globoesporte.com, chegou a publicar pesquisa parcialmente elaborada pelo Codeplan-DF – um órgão público que vem mapeando o Distrito Federal desde 2013. Alguns especialistas criticavam aquele mapeamento alegando excesso de não-consumidores de futebol como respondentes (majoritariamente, donas de casa). De fato, o número de “sem times” na casa de 40% não corresponde à realidade das grandes capitais brasileiras – mesmo as sem clubes de relevância. Em linha com o exposto, a pesquisa do Instituto GPP traz à tona números relativamente diferentes.

Fig 01

Sem surpresas: Brasília é do Mengão. Nada menos que 35% da capital veste rubro-negro, justificando o grande retorno auferido pelo marketing do clube na cidade. O senso comum também é confirmado através da segunda posição do Vasco (8%), embora a distância para as demais torcidas seja menor do que se convenciona. Da terceira à quinta posição, uma briga de foice. Com base na margem de erro, fica difícil dizer quem é maior entre São Paulo (6,1%), Corinthians (5,9%) e Botafogo (5,5%). Palmeiras (3,4%), Fluminense (2,9%), Cruzeiro (2,6%) e Santos (1,7%) completam os que superam 1% das preferências candangas. O Atlético (0,9%) quase chega lá.

Por gênero e faixa etária:

Fig 02

A torcida do Vasco é a que possui maior discrepância entre homens (10,5%) e mulheres (5,8%). Todos os demais apresentam maioria masculina em seus quadros, menos Flamengo e Cruzeiro. Por idade, a perpetuação rubro-negra está garantida. O clube sobe de 33,4% entre os mais velhos (acima de 60) para 41,1% entre 16 e 24 anos, o maior crescimento absoluto. Proporcionalmente, São Paulo e Corinthians vão bem. O Tricolor Paulista, dono de 10% dos corações mais jovens, confirma a impressão deste blogueiro nos tempos em que trabalhava em Brasília – ser são paulino parecia pré-requisito entre os estagiários. O Corinthians sobe a 6,6% e ambos ultrapassam um Vasco em queda livre (4,8%). A propósito, uma surpresa é o Cruzeiro à frente do Cruzmaltino entre jovens (5,5%). O Santos apresenta viés de alta, enquanto Palmeiras, Botafogo e Fluminense – principalmente o último – decrescem com o passar do tempo.

Por nível de instrução e renda:

Fig 03

Fig 04

As únicas torcidas que apresentam concentração relevante em nível superior são as de Fluminense (4,6%) e Cruzeiro (3,8%). Praticamente todas as demais possuem distribuição equânime ou com maioria em níveis intermediários de educação.

Já em termos econômicos, Brasília é quase única: por ser a unidade federativa com maior renda per capita, é possível tabular mesmo em faixas muito ricas, com o recorte ultrapassando 20 salários mínimos (R$ 14.480,00). Acima deste nível, Flamengo, Vasco e São Paulo não mudam quando comparados aos números absolutos; Corinthians e Botafogo caem, enquanto Cruzeiro e Fluminense crescem. Entre os mais pobres, Flamengo e Vasco se destacam, com o Santos também acima de sua média.

Um grande abraço e saudações!

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Sobre audiências, shares e veranicos

Os números do futebol no domingo que passou trouxeram uma situação educativa aos que se interessem pela temática “audiência televisiva”. Segundo informe do Departamento de Comunicação da Rede Globo, seguem os dados relativos a São Paulo:

Internacional x Corinthians

Globo – 18 pontos com 35%. Band – 5 pontos com 10%. Total: 23 pontos com 45%

Já no Rio de Janeiro:

Atlético-PR x Flamengo

Globo – 18 pontos com 44%. Band – 1 ponto com 3%. Total: 19 pontos com 46%

Antes, um adendo: Cada ponto de audiência equivale a 1% do universo pesquisado, o que em São Paulo significam 65.201 domicílios ou quase 200 mil indivíduos, enquanto no Rio, 39.660 domicílios ou aproximadamente 120 mil pessoas. Já o share (“participação”) traduz o percentual de televisores ligados em um determinado canal.

Conforme demonstrado em análises anteriores, a grande diferença de São Paulo pro Rio é a fatia destinada à Globo (maior na Cidade Maravilhosa) e à Band (mais forte em Sampa), No mais, o futebol em TV aberta se mostra relativamente padronizado – desde que se comparem torcidas de tamanho semelhante. Neste sentido, o fato de jogarem Flamengo e Corinthians, justo as duas maiores de cada praça, alinharia audiências.

Mas não foi o que aconteceu. A vitória corintiana no Beira Rio, com seus 23 pontos totais, proporcionou 21% mais do que a derrota flamenguista na Arena da Baixada. A discrepância, como veremos, não se relaciona com os resultados em campo.

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Tecnicamente é preferível maior audiência – como se viu no jogo em São Paulo – uma vez que patrocinadores vivem de exposição para massas. Mas sob outro ponto de vista, foi o futebol no Rio de Janeiro quem apresentou melhores números. Os 46% de participação no jogo do Flamengo (43% na Globo e 3% na Band) superaram os 45% da partida do Corinthians (35% na Globo e 10% na Band). Nunca esteve tão clara a distinção entre maior audiência (SP) e melhor audiência (RJ). Havia menos televisores ligados no Rio, mas a partida foi acompanhada em número proporcionalmente superior.

E por que tão poucos cariocas assistiram futebol, em claro contraste à realidade paulistana? Eis um exemplo esclarecedor do quanto datas, eventos ou circunstâncias influenciam na audiência da TV. No último domingo, foram medidas as maiores temperaturas do ano em grande parte do Brasil. Embora São Paulo não tenha passado incólume, a cidade não possui um chamariz como são as praias para a população do Rio. Na primeira tarde ensolarada do horário de verão, fervilhantes areias geraram enorme cooptação de consumidores, numa clara situação de concorrência de eventos.

Em outras ocasiões, a audiência do futebol – e da televisão como um todo – já se viu esvaziada por feriados prolongados ou festas de caráter popular. Razão pela qual calendários precisam ser planejados minuciosamente. Embora nenhum cuidado resista à chegada de um veranico…

Um grande abraço e saudações!

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Pesquisas eleitorais, torcidas e a discrepância Sensus x Ibope/Datafolha

Nas últimas semanas, vivemos o acirramento sem precedentes de algo que parecia esquecido: a rivalidade política. Apelações à parte, o engajamento provocado pelo segundo turno das eleições presidenciais é salutar a um país onde despolitização e ignorância são regra.

Qual a relação entre a disputa Aécio x Dilma e os assuntos geralmente abordados pelo Blog Teoria dos Jogos? Naturalmente, pesquisas. Depois de um primeiro semestre de amplo debate acerca das torcidas, o enfoque mudou. Em meio a percentuais, índices de rejeição e análises estado a estado, a verdade é que a metodologia das pesquisas eleitorais é basicamente a mesma verificada nas de torcida*. E mais: as discrepâncias entre pesquisas no segundo turno ocorrem por questões constantemente abordadas (e criticadas) neste espaço.

*O que diferencia tais pesquisas é a propensão a se modificarem escolhas quase que mediante a urna eleitoral. Dinâmica que explica por que institutos erram tanto durante as eleições.

Segundo Ibope e Datafolha, Aécio Neves (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) se encontram em rigoroso empate técnico. Após duas rodadas de pesquisas, ambos atestam Aécio com 45%, frente a 43% de Dilma (51% a 49% nos votos válidos). A última pesquisa Ibope ouviu 3.010 eleitores em 204 municípios, enquanto o Datafolha entrevistou 9.081 pessoas em 366 municípios.

Já o Instituto Sensus – em parceria com a revista Istoé – vem apresentando verdadeiros pontos fora da curva. Há uma semana, divulgou pesquisa com o tucano 17 pontos à frente. Ontem a dianteira se reduziu para a casa dos 13 pontos. A pesquisa foi realizada com 2.000 entrevistados em 136 municípios.

Por que tanta diferença? Embora isenções sejam questionadas numa disputa cada vez menos limpa, este não é o papel do Blog Teoria dos Jogos, pelo contrário. A análise aponta para algo tantas vezes verificado no debate das maiores torcidas: espaços amostrais mal delimitados que, embora corretos em seu perfil, refletem de maneira enviesada a realidade nacional.

Já virou um mantra do Blog: pesquisas descrevem, com maior ou menor fidelidade, o perfil da amostra. Se ela for nacional – o que requer interiorização e aumento de custos – tem-se uma fotografia das preferências do país. Se não, retratam-se tão somente as capitais, no máximo suas regiões metropolitanas. Uma clara questão de distribuição geográfica.

Ao visitar apenas 136 municípios, a pesquisa Istoé/Sensus enviesa a análise na direção das 63 regiões metropolitanas do país. Como o eleitor médio do PSDB se encontra nas classes mais ricas ou escolarizadas, sua candidatura é catapultada. Em direção oposta, Dilma – votada pelos mais pobres e sem instrução – cai. Não significa que a pesquisa esteja errada. O retrato das metrópoles pode ser fidedigno, acendendo o sinal amarelo na campanha de Aécio pela menor dianteira. O que não se pode é considerar a pesquisa Istoé/Sensus como nacional. Neste sentido, falha a revista ao expor os números sem esta ressalva.

Trata-se de algo relativamente parecido com as distribuições de Flamengo e Corinthians em território nacional. Rubro-Negros são mais espalhados e interiorizados. Já corintianos são equânimes, com leve tendência à concentração em capitais (pelo peso da cidade de São Paulo). Assim, toda vez que se pesquisam regiões metropolitanas, o alvinegro anula a vantagem carioca. Quando a amostra é maior – não apenas em número de entrevistados – o Fla volta a disparar na liderança.

Um grande abraço e saudações!

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O mapa do projeto “Nação Rubro-Negra” – EXCLUSIVO

A demanda é antiga. Desde que o Blog Teoria dos Jogos trouxe a público a distribuição geográfica do projeto sócio-torcedor do Corinthians, o Flamengo se tornara alvo para uma coluna com as mesmas informações. Após alguns percalços, felizmente a diretoria de marketing do Rubro-Negro se prontificou a disponibilizar esta importante informação em caráter totalmente exclusivo. Veja agora o número absoluto e o percentual de associados ao projeto Nação Rubro Negra por unidade federativa:

Fig 01

Nada menos que 70,32% dos sócios-torcedores se encontram no estado do Rio de Janeiro. Trata-se de um número 13 vezes superior ao quantitativo do DF (5,62%), segundo colocado no ranking. São Paulo surge na terceira posição (3,27%), desbancando estados do Sudeste tidos como amplamente rubro-negros – como Minas (3,26%) e Espírito Santo (3,21%). Santa Catarina (1,65%), Bahia (1,48%), Amazonas (1,25%), Paraná (1,23%), Goiás (1,03%) e Mato Grosso (1%) superam a marca unitária. No final da tabela surge o Rio Grande do Sul (0,19%) junto às três unidades menos populosas da federação: Amapá (0,18%), Acre (0,16%) e Roraima (0,14%).

Não seria diferente em um projeto focado em ingressos: a associação ao Nação Rubro-Negra só faz sentido aos que adquirem o produto “jogos no Maracanã”. No encontro que tivemos com o departamento de marketing do Flamengo (leia mais aqui), interpelei os responsáveis sobre o desincentivo associativo àqueles fora do estado do Rio. Argumentei que do tripé “ingressos + produtos + direito a voto”, o Nação Rubro-Negra só oferece a primeira opção – embora a última seja complexa pela fervilhante política do clube. Respondeu-se que a inserção de produtos (ex: camisas oficiais) encontra barreiras, embora não nos fossem esclarecidas quais. A distribuição de produtos como brindes também enfrentaria dificuldades pelo monopólio da Caixa sobre sorteios de qualquer natureza.

De volta ao perfil geográfico: a tabela seguinte utiliza informações extraídas do mapeamento promovido pelo Blog Teoria dos Jogos ao longo dos últimos três anos. Com base no tamanho exato da torcida do Fla em cada estado já mapeado, analisamos o índice de sucesso ou fracasso do projeto, numa comparação direta com os principais cases na área: as iniciativas de Internacional (onde 2,2% da torcida é associada) e Benfica, de Portugal (4% da torcida associada):

Fig 02

*Estados onde não se verificam substanciais diferenças entre torcidas de capital e interior. Números considerados foram os da capital.

ND: Não Disponível (Estados ainda não mapeados pelo Blog)

A surpreendente liderança do Rio Grande do Sul (0,93% de rubro-negros associados) é fruto de distorção por conta da base extremamente pequena – apenas 11.200 flamenguistas estimados. A verdade é que os 104 associados provavelmente correspondem a integrantes da Fla-RS, única embaixada do clube no estado. Entre “localidades rubro-negras”, apenas o Rio (0,50%) e o DF (0,42%) apresentam proporção de associados relevante, embora longe das referências do parágrafo anterior. Além destes, São Paulo (0,21%), Espírito Santo (0,13%) e Paraná (0,10%) possuem índice associativo aceitável. Os demais, em maior ou menor grau, se aproximam do traço estatístico. Destaques negativos vão para Maranhão, Paraíba, Pernambuco e Acre, todos com 0,02%. E ao Pará, lanterna na estatística, onde míseros 0,01% dos torcedores são sócios.

A recente aproximação, por parte do departamento de marketing, da chamada “mídia alternativa” (blogueiros, colunistas e congêneres) foi providencial para demonstrar o quanto se vem trabalhando para mudar o estado das coisas. Mas em face dos números apresentados, não se pode permitir tão pouca penetração em estados onde a torcida do Flamengo atinge metade da população. Compreendem-se dificuldades que estão aí justamente para serem superadas. Mas enquanto os únicos trunfos forem ingressos e doações unilaterais – que visem tão somente o fortalecimento das finanças – é improvável que verifiquemos mudanças substanciais. A flutuação do número de associados ao sabor dos bons resultados não é boa notícia para um clube cuja torcida se encontra 80% fora do estado de origem.

Um grande abraço e saudações!

E-mail da coluna: teoriadosjogos@globo.com

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