Arquivos mensais: janeiro 2015

A ascensão do Palmeiras

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Expectativa: Estado de quem espera uma ocorrência baseado em probabilidades ou na possível efetivação do fato. Perspectiva.

Com base em fundamentos que mais se aproximam da psicologia do que qualquer outra ciência, expectativas determinam muitas ocorrências no terreno econômico  – efeitos manada, profecias auto realizáveis, etc. Para o lado bom ou ruim, elas podem fazer com que um clube de futebol chafurde em sua própria incompetência ou floresça renascendo das próprias cinzas.

Desde que o São Paulo venceu a Libertadores e o Mundial de Clubes 2005, estabeleceu-se quem seria o time a ser batido no país. A boa fase levou o clube ao inédito tricampeonato brasileiro 2006-2008 e ao topo do ranking de receitas. Mas aí o Corinthians contra-atacou, trouxe o centroavante Ronaldo Fenômeno e gerou um inédito boom no mercado a seu favor. Conquistou títulos (incluindo um Brasileiro, a própria Libertadores e o Mundial) e a sonhada casa própria, tirando do arquirrival sua hospedaria na Copa do Mundo. Tornou-se o maior faturamento e a marca mais valiosa do Brasil.

Durante todo este período, outro paulistano vivia seu inferno, com rebaixamentos e sucessivos vexames. Subjugado, perdia para o Santos a condição de “terceira força” do estado. Afinal, de lá vieram Neymar, títulos, visibilidade…

Mas após uma década de predomínio dos rivais, eis que parece chegada a hora do Palmeiras acontecer. Ao menos é assim que vem enxergando o mercado e os próprios torcedores. Na semana em que ultrapassou o Grêmio como segundo maior número de sócios-torcedores, o alviverde ainda sobrepujou a concorrência fechando dois excelentes patrocínios para a temporada. Injeção de recursos que vem facilitando ao clube superar rivais inclusive na contratação de jogadores desejados nesta janela de transferências.

É verdade que a administração Paulo Nobre tem méritos. O presidente é credenciado, sereno e possui boa imagem, além de estar cercado por bons profissionais – o que levou à consolidação do ambiente favorável verificado. Entretanto, estamos diante da mesma diretoria que quase rebaixou o Verdão em pleno ano do Centenário, contratando mal e trazendo à torcida uma sensação de déjà vu. Nobre também se aproveita do prestígio para tomar empréstimos e repassar ao clube, em um pouco recomendável emaranhado envolvendo pessoa física e jurídica.

Mesmo assim, desde a virada do ano as coisas começaram a acontecer para o Palmeiras, o que se deu a partir de dois fatos:

1)  A construção da Arena Palmeiras – mais moderna e bem localizada arena multiuso de São Paulo. Ou melhor, ALLIANZ PARQUE, já que o antigo Parque Antarctica é o único grande estádio da capital a ter atraído parceiro de peso na venda de seus naming rights;

2)  A formatação do novo Avanti, programa de sócios-torcedores que necessitou ser totalmente reformulado ao não emplacar em sua primeira modelagem, sob administrações passadas.

Naturalmente, uma coisa esta interligada à outra, já que a euforia dos palmeirenses vem justamente da possibilidade de frequentar a nova casa através de um projeto que facilite a frequência. O Avanti o faz.

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O programa palmeirense se mostra diversificado e democrático, tendo seis categorias que partem de módicos R$ 9,99 mensais a incríveis R$ 599,99 – todos com clube de vantagens e descontos no Movimento por um Futebol Melhor. O grande diferencial é que qualquer torcedor menos abastado pode contribuir. Já os mais ricos (ou fanáticos) tem à disposição categorias que disponibilizam ingressos grátis para toda a família e nos melhores setores do estádio. Além disso, o Avanti acerta ao oferecer brindes a todas as modalidades, o que atrai palmeirenses que não frequentarão a arena – como aqueles de fora de São Paulo. Um bom exemplo é este mix, dado aos que se associam ao plano mais caro.

É lógico que as próprias virtudes do Avanti podem se tornar defeitos quando modalidades muito baratas se tornam predatórias sobre as que melhor rentabilizam. Por isto, mesmo com mais de 83 mil sócios-torcedores, o Palmeiras arrecada bem menos do que projetos com quadro associativo inferior, como o do Cruzeiro. Portanto, é preciso uma associação em massa para que se ganhe em quantidade – justamente o que vem acontecendo. É provável que o Palmeiras feche janeiro com recorde de novas adesões em apenas um mês, superando os mais de 19 mil sócios do Flamengo em novembro de 2013.

O grande problema das expectativas é que elas podem vir a não se confirmar. Apenas um bom ano dentro de campo, com vitórias e títulos, fará com que o Palmeiras confirme a tendência verificada nesta pré-temporada. No entanto, ainda que nem todos acreditem na prática, até a cromoterapia se encontra ao lado do Palmeiras: a esperança é verde.

Um grande abraço e saudações!

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A dívida dos clubes perante a União – 2013/2015

Em meio a debates acerca da aprovação de uma Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte, ontem a presidente Dilma vetou o artigo 141 da Medida Provisória 656 que propunha, sem qualquer contrapartida, o refinanciamento em 240 meses da dívida dos clubes de futebol. O Bom Senso FC celebrou a iniciativa, pois a inclusão do procedimento numa MP sem qualquer relação com o futebol foi enxergada como manipulação, visando o claro benefício dos integrantes da “Bancada da Bola” no Congresso Federal.

Hoje, a Folha de S.Paulo divulgou relatório da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) que mensura o tamanho da dívida dos 12 maiores clubes brasileiros perante a União. O levantamento – que exclui dívidas bancárias e com fornecedores, impostos estaduais e municipais – pode ser enxergado como uma fotografia dos maiores devedores do Brasil no mês de janeiro de 2015.

Porém no ano passado, o portal UOL (do grupo da Folha) divulgou o mesmo levantamento, à época se referindo ao período dezembro-2013/julho-2014. Com base nestas informações, o Blog Teoria dos Jogos compilou os números e elaborou uma tabela que traz à tona quais clubes vem melhor administrando suas dívidas. E quem são aqueles que se deixam conduzir por dirigentes pouco afeitos à responsabilidade no trato das finanças.

Fig 01

 

O líder da estatística é o Atlético-MG, com nada menos que R$ 282,6 milhões em dívidas federais. Trata-se de um número assombroso em se tratando de um clube cujo teto de receitas se encontra na casa dos R$ 230 milhões – o que o Galo faturou em 2013, melhor ano de sua história. Mais assustador é o fato de a dívida do Atlético ter subido 126,67% justamente de 2013 para 2014, sem que o clube tenha contraído dívidas pesadas, como quando se constrói um estádio próprio. Do ano passado para cá, a variação foi de 3,9%.

O segundo colocado é também o maior exemplo a ser seguido. Capitaneado por executivos que abandoaram a filosofia perdulária de anos anteriores, o Flamengo deve R$ 241,3 milhões, mas a dívida se mostra absolutamente controlada e em viés de queda.  A redução de 4,62% (2014 para 2015) sucedeu o estancar da sangria no exercício anterior, configurando também a maior amortização de dívida verificada no período.

O terceiro colocado, Botafogo, deve R$ 219,9 milhões, tendo merecido análise própria neste espaço há alguns meses. O Corinthians (R$ 186,5 milhões) ultrapassou o Fluminense (R$ 172,8 milhões) e apresentou o maior aumento em termos absolutos: R$ 44,5 milhões de 2014 para cá. O fato pode ser atribuído à construção da Arena de Itaquera, que fará com que o clube tenha que desembolsar nada menos que R$ 100 milhões até o meio do ano. De qualquer maneira, é bom ficar de olho na explosão da dívida Tricolor, que subiu inacreditáveis 80% de 2013 para 2014. A saída da Unimed pode ser o início de tempos sombrios no clube das Laranjeiras, conforme também analisado aqui no Blog.

Em sexto temos o Vasco da Gama (R$ 147,7 milhões), trazendo consigo uma grata surpresa. O clube reduziu sua dívida federal em 3,66% ao final de 2014 – sendo o único ao fazê-lo, além do arquirrival Flamengo. Para tanto, a equipe da Colina desembolsou R$ 14 milhões em pagamentos diversos, sendo agraciado com a tão esperada Certidão Positiva com Efeitos de Negativa. Trata-se de uma das certidões necessárias para credenciá-lo a receber recursos estatais, já que o Vasco era um dos patrocinados pela Caixa.

Infelizmente o levantamento não contempla dívidas anteriores do Internacional, mas ela foi agora a R$ 129 milhões. O oitavo é o Palmeiras (R$ 73,3 milhões), acendendo o sinal amarelo pelos sucessivos aumentos no montante devido. O nono é o Santos (R$ 66 milhões), em relativa estabilidade. Em décimo vem o Grêmio (R$ 40,9 milhões).

No fim da fila, Cruzeiro (R$ 19,7 milhões) e São Paulo (R$ 7,8 milhões) são aqueles com maior tranquilidade, possuindo dívidas em escala absolutamente administrável perante suas receitas. Entretanto, é bom ficar de olho na Raposa, pois seu aumento percentual no período 2013-2015 só perde para o do Atlético-MG.

Um grande abraço e saudações!

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O risco do populismo no Carioca-2015

Foto: Raphael Zarko (Globoesporte.com)
Foto: Raphael Zarko (Globoesporte.com)

Na semana passada, durante arbitral da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FFERJ), alguns dirigentes capitanearam uma manobra tentando valorizar o Campeonato Estadual com base em preços mais baixos ao longo do certame. Junto a antigas raposas que voltaram à tona, os cartolas partiram de uma premissa correta: existem preços não condizentes com a qualidade do espetáculo. Entretanto, mais uma vez a Federação ameaça matar o paciente ao prescrever remédios errados, outorgando soluções como se todos os clubes vivessem a mesma realidade.

Pra início de conversa, deixemos algo claro: o Blog Teoria dos Jogos sempre se opôs à precificação excessiva nas esvaziadas partidas do Campeonato Carioca. Não é aceitável, por exemplo, que um desinteressante Fla x Flu apresente ticket médio de final de campeonato (R$ 80), como ocorreu no ano passado. Historicamente, defendemos que os preços devem ser altos desde que haja demanda para tal, flutuando aos sabores da mesma e tendendo a zero nos casos em que o produto pouco valer. Infelizmente, este vem sendo o cenário do Estadual.

Entretanto, com base em algum conhecimento de sua própria demanda, a diretoria do Flamengo optou por cobrar em 2014 preços superiores à média, sendo um dos únicos a se salvar dos colossais prejuízos amargados pela maioria. Àquela altura, vendeu-se a ideia de que havia a necessidade de os rubro-negros “financiarem” um clube atolado em dívidas. Queira ou não, deu certo.

Ao tirarmos dos clubes a autonomia da própria precificação, incorre-se no erro crasso da generalização de soluções. É pouco inteligente atribuir a gigantes e nanicos uma mesma fórmula mágica, equiparando-os em seu abismo de envergadura. E isto nem é o pior…

Questionável até em termos legais, o arbitral decidiu que o Carioca não terá ingressos de meia-entrada. Todos serão comercializados a “preços promocionais”, o que na prática inviabiliza o expediente dos descontos para sócios-torcedores. Não é coincidência que os maiores prejudicados – Flamengo e Fluminense – tenham votado contra tamanho absurdo. A dupla é, disparadamente, quem possui o maior número de associados no Rio de Janeiro, segundo o Movimento por um Futebol Melhor. Aos 53 mil flamenguistas e 23 mil tricolores que pagam em dia suas mensalidades, seguem-se ridículos 15 mil vascaínos (a quinta maior torcida do Brasil) e oito mil botafoguenses. Quem menos tem a perder alinhou-se à equivocada estratégia da Federação.

Mas voltemos ao preço dos ingressos. Algumas estimativas apontam que, se mantidos os públicos do ano passado, o lucro do Flamengo em 2014 (algo em torno de R$ 1,3 milhão) se tornaria um prejuízo na mesma escala em 2015, já sob a política de preços vigente. Percebam que o carro-chefe das bilheterias do ano passado chafurdaria em enormes déficits pela nova regra. É de se imaginar qual o tamanho do prejuízo nas partidas envolvendo outras agremiações – especialmente em partidas entre pequenos ou nos estádios com maiores custos.

Neste ponto, outra ressalva: a projeção considera que os públicos pagantes serão iguais, ainda que os preços sejam bem menores. Como existe uma correlação negativa entre preços e quantidades na curva de demanda, é improvável que isto venha a acontecer, certo? Mais ou menos. Explica-se.

O Campeonato Carioca 2013 apresentou média de público de 2.411 espectadores, junto a um ticket médio de R$ 18,54 – segundo informa o FutDados. Já o Carioca-2014 elevou a média de público para 2.828 – o que só ocorreu porque o torneio teve uma final (Flamengo x Vasco)*, elevando a média em seus dois últimos jogos. Antes disso, a média era de 2.361 pagantes, praticamente idêntica à do ano anterior. Como o ticket médio subiu para a casa dos R$ 22, pode-se dizer que a reação da demanda foi completamente inelástica, praticamente não respondendo à valoração dos preços.

*O Campeonato de 2013 não teve final, com o Botafogo se sagrando campeão ao conquistar os dois turnos.

Embora o comportamento da demanda se modifique conforme a direção do vetor de preços – leia mais sobre isto aqui – é provável que o público carioca não atenda ao chamado mesmo com a queda de preços. Isto porque o grande problema do Campeonato Estadual do Rio de Janeiro não se relaciona unicamente ao preço, sendo mais uma questão de produto. Ainda que se tenha mexido nos preços, ninguém modificou o excesso de times sem tradição, jogos sem valor ou o desconforto nos estádios. Nem será por um passe de mágica que melhorará a qualidade das partidas, o acesso e a segurança nas arquibancadas. Sendo assim, é bom que os cartolas se preparem para um cenário sombrio: o completo afastamento das torcidas junto aos maiores prejuízos já verificados.

Um grande abraço e saudações!

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Ingleses ignoram o tamanho de suas torcidas

Confesso que o  objetivo era outro. Após a grande repercussão da coluna “A César o que é de César – Um Tratado sobre Audiências 2014“, pareceu interessante adentrar no acalorado debate acerca da distribuição de recursos do televisionamento – já que tantos consideram mais apropriado o modelo inglês*. Mas para tanto, é imprescindível conhecer o tamanho, distribuição e perfil de consumo das torcidas – algo que no Brasil é constantemente mapeado pelos institutos de pesquisa. Como este tipo de estudo não é uma tradição na Inglaterra, optei por contactar individualmente os 20 times da Premier League. O resultado foi surpreendente.

*Segundo o qual, pequena parcela dos recursos é distribuída de acordo com a audiência proporcionada pelas torcidas. Parte do dinheiro é dividido igualmente e outra parcela, proporcional à performance no ano anterior.

O perfil de quem consome o “produto Campeonato Inglês” não é um problema. Anualmente é divulgada uma Fan Survey, que detalha onde, quanto e por que os fanáticos pelo futebol inglês acompanham o torneio. No entanto, quando a questão se torna o tamanho das torcidas de futebol na Inglaterra, a coisa muda de figura, com agremiações aparentemente dando de ombros para informação.

Pode-se dizer até mais: eles negligenciam solicitações do gênero, algo inesperado em se tratando de clubes tão profissionais. O Blog Teoria dos Jogos entrou em contato com todos os integrantes da Premier League temporada 2014/2015: Arsenal, Aston Villa, Burnley, Chelsea, Crystal Palace, Everton, Hull City, Leicester, Liverpool, Manchester City, Manchester United, Newcastle, Queens Park Rangers, Southampton, Stoke City, Sunderland, Swansea, Tottenham, West Bromwich e West Ham. Os contatos foram passados diretamente pelo responsável de “Supporter Services” da Premier League, tornando indiferente a solicitação vir de um pequeno blog de um país distante. A mensagem, enviada no dia 12/01/2015, teve o seguinte teor:

Hello,

 First of all, my name is Vinicius Paiva, a 32 year-old Brazilian and economist. I really apologize for my poor English. 

I’m a blogger and marketing sports specialist. I edit “Blog Teoria dos Jogos” (http://www.blogteoriadosjogos.com/). One of the trending issues in my blog is related to something you don’t usually explore in England: the number of supporters of local clubs, all over the country.  

I have searched through Premier League’s Fan Surveys and nothing was said about that. Do you have any survey or poll – even if not recent – to provide (nome do time)’s number of supporters inside England? I’d like to approach the subject, and would appreciate very much in case of help. 

Regards from Brazil 

Vinicius Paiva

Inspirado numa excelente ideia do colunista Bernardo Pombo, do Blog “Pombo Sem Asa” do Globoesporte.com, o perfil do “Não Fale Conosco” na terra da rainha foi o seguinte:

Leicester (resposta no dia seguinte): “É impossível dizer quantos torcedores possuímos. Eles o fazem de todo o mundo, não apenas da Inglaterra. Vai ser difícil você conseguir a informação. Tudo o que podemos dizer é que vendemos 23 mil carnês para a temporada, temos 3.000 sócios e 5.000 sócios junior. Mas existem milhares de outros que não vem aos jogos regularmente, por uma ou outra razão.”

Burnley (resposta no dia seguinte): agradeceu e encaminhou para o departamento responsável, que não respondeu.

Manchester United (resposta no dia seguinte): agradeceu e encaminhou para o departamento responsável, que não respondeu.

Southampton (resposta no dia seguinte): “É muito difícil julgar nosso número de torcedores, uma vez que nem todo torcedor vem ao jogo, e nem todos os que vem aos jogos são torcedores! Não temos pesquisas que quantifiquem o tamanho de nossa torcida fora de Southampton, embora a Premier League FanSurvey  dê uma ideia na comparação as outros clubes.”

Não responderam, três dias depois: Arsenal, Aston Villa, Chelsea, Crystal Palace, Everton, Hull City, Liverpool, Manchester City, Newcastle, Queens Park Rangers, Stoke City, Sunderland, Swansea, Tottenham, West Bromwich e West Ham.

Ainda que soe estarrecedor, os times ingleses se saíram pior que os brasileiros no índice de respostas: dezesseis deles ignoraram e apenas dois se pronunciaram diretamente sobre o tema. Entre as respostas, uma interessante unidade em torno do completo desconhecimento com relação ao que ocorre fora dos domínios da cidade ou das cancelas do estádio.

Conhecer o tamanho das torcidas, nacional ou localmente, é o cerne do trabalho desenvolvido pelo Blog Teoria dos Jogos. Isto não ocorre para fomentar a mera rivalidade clubística – embora seja um saudável efeito colateral.  Quantificar as torcidas é mapear o perfil da demanda por produtos e serviços ligados a um clube. É impossível desenvolver iniciativas de marketing sólidas sem que se tenha clara a configuração deste público-alvo.

Devido à capilaridade da Premier League, resta claro que os ingleses ignoram esta questão com base na falácia de terem torcida globalmente – algo que, de fato, apenas alguns dos gigantes possuem. Há, ainda, que se diferenciar o torcedor do mero fã, pois estes se modificam ao sabor das boas fases, conforme comprovam pesquisas dentro do próprio Brasil. Se é verdade que existem hordas de torcedores de times ingleses fora do país (especialmente na Ásia), também é certo que o consumo mais robusto ocorre em âmbito nacional. Prova disto são os números de alguns times brasileiros, baseados na fidelização de consumidores em um mercado interno bem mais robusto.  As vendas de camisas de Flamengo e Corinthians e o número de sócios do Internacional se encontram em linha com o que se verifica entre os maiores times de lá.

Segundo o velho ditado, “é preferível pecar pelo excesso do que pela omissão”. Se as muitas pesquisas no Brasil trazem consigo estudos mal elaborados, o contrário também acontece. Conhecer detalhadamente o perfil das torcidas não é algo que se possa descartar, tanto que publicações de outros países europeus também o fazem. Assim podemos dizer que conhecemos perfeitamente nossas características, o que não acontece na Inglaterra. Por incrível que pareça, ao menos neste sentido o Brasil estaria à frente da pátria-mãe do velho e violento esporte que tanto amamos.

Um grande abraço e saudações!

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A César o que é de César – Um Tratado sobre Audiências 2014

INTRODUÇÃO

Após um período particularmente difícil, o Blog Teoria dos Jogos retoma suas publicações com a promessa de que este seja seu grande ano. E para fazer com que as postagens tenham cada vez mais frequência, contamos com a boa e velha fidelidade de você, leitor apaixonado por análises, estatísticas e pesquisas de torcida. A reedição desta parceria, que já deu muito o que falar, tem tudo para dar certo neste 2015 ainda incipiente.

Ao longo dos últimos anos o Blog Teoria dos Jogos se tornou um dos poucos espaços especializados na divulgação e análise de audiências televisivas na internet brasileira. Trata-se de uma questão que vem tomando cada vez mais corpo e importância.  É a audiência quem determina o número de transmissões de cada equipe, impactando tanto nos repasses da própria televisão quanto no investimento de anunciantes e patrocinadores.

Recentemente, uma vertente ideológico-filosófica questiona a “justiça” de se pagar tanto para determinados clubes (especificamente, Flamengo e Corinthians), o que supostamente geraria desequilíbrios maléficos. O resultado: políticos surfando nesta onda, apresentando projetos de lei e prometendo redistribuições equitativas.

Um assunto tão importante demanda análises mais racionais do que as que se tem notícia. Colunistas que distorcem a realidade com base em informações pela metade, jornalistas que sequer sabem a diferença de pontos e share, fundindo-os bizarramente… Pessoas que fomentam um tsunami de textos viciados e enviesados. Infelizmente no Brasil, o disseminar de determinadas “informações” é a maneira mais rápida de fazer mentiras parecerem verdades.

Pra início de conversa, é absolutamente impossível compreender audiências sem ter em mente a impossibilidade de fazê-lo apenas com base em números de… audiência. Soa paradoxal, mas significa que a audiência absoluta – medida através dos famosos “pontos” do Ibope – muitas vezes esconde distorções. Fins de semana com menos televisores ligados (ex: feriados), partidas jogadas em datas pouco usuais (ex: aos sábados) ou clubes com mais jogos às quartas (dia de audiências superiores) são variáveis que precisam ser levadas em conta.

Todas elas, entretanto, podem ser desmascaradas quando analisados o share, ou “participação” – que representa o percentual de televisores ligados em relação ao total de aparelhos. Portanto, não basta dizer que “meu time deu mais pontos de audiência”. Se o share for reiteradamente inferior, pode ser que ele esteja apenas sendo televisionado em condições mais favoráveis. Somente em igualdade de condições, quem dá mais share atinge maior pontuação. Eis a característica dos verdadeiros “campeões de audiência”.

Além do mais, a quantidade de partidas influi decisivamente nos números finais de uma dada equipe na TV. Quanto mais jogos transmitidos, maior tendência de queda pela exposição de más fases ou confronto com adversários despretensiosos. Times de menor torcida tem apenas clássicos veiculados  – justamente quando se registra maior audiência. Por fim, o mais natural: competições internacionais ou em fases avançadas fazem com que se alcance melhores números.

AUDIÊNCIAS DA TV EM 2014

No primeiro trimestre de 2014, este Blog divulgou parcialmente as audiências dos Estaduais, ainda nos tempos de Globoesporte.com. Agora, dividiremos a análise entre Brasileirão e Copas (Libertadores, do Brasil e Sul Americana). Separamos também as praças do Rio e de São Paulo. Por fim, audiências e shares totais se referem ao somatório de Globo e Band, emissoras responsáveis pela veiculação do futebol em TV aberta no país. Ainda que os globais tenham valor de mercado muito superior, não restam dúvidas que o somatório é o melhor mapeamento do universo de consumidores do futebol. Os dados foram apurados diretamente com a TV Globo.

RIO DE JANEIRO

Fig 01

A queda do Vasco para a Série B em 2014 gerou um claro impacto no perfil do televisionamento carioca. Indo contra o senso comum, o Fla se manteve estável na liderança (17 jogos), e os que subiram foram Botafogo (9 jogos) e Fluminense (14 jogos). Os times representam uma escalada no tocante à audiência total: 16,3 do Alvinegro contra 19,8 do Tricolor e 22,6 do Rubro Negro. O maior apelo do Flamengo se solidifica através da participação: 45%, contra 40% do Fluminense* e 35% do Botafogo.

*O levantamento não contempla o share de quatro jogos do Flu, contra um do Fla.

Conforme dito na “Introdução”, expor o percentual de jogos às quartas é importante por razões comportamentais. Torcedores tendem a assistir mais futebol na TV durante a semana, enquanto comparecem às arquibancadas nos fins de semana. Neste sentido, a distribuição dos jogos no Rio de Janeiro é relativamente equânime, com leve prejuízo ao Fogão (22% às quartas, frente a 29% da dupla Fla-Flu). O Bota também não se beneficiou com a transmissão de nenhum clássico, enquanto os dois Fla x Flus (entre as maiores audiências do ano) foram veiculados. Botafogo e Fluminense jogaram uma vez aos sábados – dia menos afeito aos bons números.

Fig 02

Com relação às Copas (Libertadores e do Brasil), não há que se fazer distinção ao dia da semana, pois todos os jogos são às quartas. Por conseguinte – e com base no parágrafo anterior – os números das agremiações se inflam. Também neste caso verificamos o retorno do Vasco às transmissões (5 jogos), em número superior a Botafogo e Fluminense (3 cada). Ainda assim, a primazia do Flamengo foi absoluta: 11 eventos, o equivalente ao somatório de todos os rivais.

Fluminense (17,3 pontos e 32% de share*) e Vasco (18 pontos e 32% de share) se notabilizam pelo equilíbrio. Mas por terem jogado apenas a Copa do Brasil, perderam feio para o Botafogo e seus 21,3 pontos (41% de participação). Isto porque 2014 marcou o retorno do Alvinegro à Libertadores, fazendo com que seus três jogos transmitidos valessem pela competição. Resta clara a diferença de apelo da competição continental em face ao mata-mata nacional.

*O levantamento não contempla o share de dois jogos do Flu

Cristalina novamente é a vantagem do Flamengo em audiência. Tendo jogado a Libertadores e a Copa do Brasil – e chegado longe na segunda – o Rubro-Negro amealhou nada menos que 26 pontos médios e 46% de share. Cerca de 50% a mais que o Fluminense, a título de comparação.

SÃO PAULO

Fig 03

Uma característica histórica do televisionamento em São Paulo é a predominância absoluta do Corinthians. Para que se tenha ideia, no BR-2014 foram 19 jogos, dois a mais que o Flamengo no Rio – mesmo com apenas três grandes cariocas na Série A. Mesmo assim, o ano trouxe à tona um processo nem sempre corriqueiro: o boom de partidas do São Paulo. Foram 17, muito acima da proporção de 2:1 a favor do Corinthians em 2013. Enquanto isso, Santos e Palmeiras não tem vez: apenas três e cinco transmissões, respectivamente.

Vem de Sampa as análises mais equivocadas por parte dos “especialistas” citados na Introdução. Isto porque a fotografia das audiências mostra um Corinthians, com 22,3 pontos médios, abaixo do Palmeiras (22,4). Um tanto óbvio, se levarmos em conta que dois dos cinco jogos do Verdão (altíssimos 40%) foram clássicos justamente diante do Corinthians! O mesmo ocorre com o Santos, alinhado ao Corinthians em 45% de share*. Das três partidas do Peixe em TV, duas (66%) foram clássicos – respectivamente contra Corinthians e São Paulo. Ora, para equipes com tão poucas transmissões, o alto percentual de clássicos gera um viés absolutamente irreal. É como se Palmeiras e Santos só aparecessem na TV para confrontarem Corinthians e São Paulo.

* O levantamento não contempla o share de três jogos do Corinthians, dois do Palmeiras e um do São Paulo.

Diante deste cenário, soaria apropriado comparar apenas Corinthians e São Paulo, dado o grande número de partidas e a diluição das “causas perturbadoras”. No entanto, veremos que até aí existem distorções.

Aparenta equilíbrio.  A audiência foi de 22,3 pontos a favor do Corinthians, contra 21,7 do São Paulo. A Fiel amealhou 45% de participação, frente a 42% dos tricolores. Mas um olhar acurado demonstra que o Tricolor foi premiado com transmissões em dia nobre: nada menos que 47% de seus jogos na TV foram às quartas, contra míseros 11% do Corinthians e nenhum (!) de Palmeiras ou Santos. Concentração injustificável em claro benefício ao clube do Morumbi. Em tempo: SPFC, Corinthians e Palmeiras jogaram uma vez aos sábados.

Fig 04

Embora 2014 tenha sido um ano atípico pela ausência de paulistas na Libertadores, viu-se nas outras Copas (do Brasil e Sul Americana) mais do mesmo. Pouco Palmeiras (dois jogos) e Santos (três), muito Corinthians e São Paulo (oito). O Palmeiras com audiências em baixa (16,5) e o Santos melhor por ter jogado duas semifinais da Copa do Brasil (18,7 pontos médios). Por fim, novamente o São Paulo em algum equilíbrio diante do Corinthians (18,6 a 19,7 em pontos). Aliás, se há um quesito que escancara o desânimo paulista, é o share: todos abaixo de 40%*. O pior foi o Palmeiras, com 31%. O melhor, adivinhem? Corinthians, 37%.

* O levantamento não contempla o share de um jogo do São Paulo e um do Corinthians.

CONCLUSÃO

A verdade é uma só: se excluirmos distorções de diferentes naturezas, Flamengo e Corinthians nadam de braçada no tocante às audiências. A primazia do Mengão no Rio é tão grande que independe das próprias “causas perturbadoras”. No lado oposto da Dutra, outros tentam (mas não conseguem) fazer frente ao Corinthians. Fla e Timão são carro-chefe em suas respectivas praças, muitas vezes insuflando números dos próprios rivais. Emissoras comerciais, como Globo ou Bandeirantes, viveriam enormes dificuldades se não lançassem mão deste trunfo.

Mesmo assim, fica uma pergunta. Em que pesem números relativamente parelhos, por que tamanha discrepância nos valores pagos a título de televisionamento? A resposta: em negócios de massa como a TV , qualquer variação pode representar somas vultosas de consumidores. Um ponto de audiência equivale a 193.281 pessoas em São Paulo e 109.982 no Rio. Por isto, o mercado precifica cada ponto adicional em muitos milhões de reais. Não é preciso registrar o dobro quando dois ou três pontos de diferença valem como diamante. É tão simples quanto isto.

A César o que é de César.

Um grande abraço e saudações!

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Post scriptum:

Um esclarecimento: Quando se diz que “cada ponto adicional vale milhões”, nos referimos a uma questão de audiência marginal. Não basta somar os repasses da TV e dividir pelos pontos de audiência para que se descubra o valor financeiro de cada ponto. O futebol na TV – principalmente na Globo – apresenta o que se pode chamar de “audiência inercial” flutuando entre 10 pontos (aos domingos) e 15 pontos (às quartas). Teoricamente, qualquer transmissão atinge esta marca. Aí reside o valor da audiência marginal (de cada ponto adicional): Numa quarta-feira, a diferença entre um clube que marque 21 pontos para outro que atinja 25 é enorme. Este é o xis da questão.