Arquivos mensais: Fevereiro 2015

Onde erra o Botafogo

Fig 01

Há pouco o Botafogo anunciou, com pompa e circunstância, o acerto com cinco empresas cujas marcas serão expostas no uniforme durante os clássicos com Flamengo e Fluminense. O anuncio foi enxergado como um “resgate da credibilidade”, após semanas jogando sem patrocinadores e expondo apenas o projeto “Sou Botafogo”.

A grande questão tem a ver com o naipe das empresas a se associarem ao Glorioso. Duas delas, renomadas, possivelmente sejam as que negociam patrocínio até o fim do ano: Netshoes (mangas) e Casa & Vídeo (costas e barra traseira). O problema são as demais. No peito, Supermercados Unidos, uma pequena rede de atuação quase exclusiva na Baixada Fluminense. A Naveg, ocupante da barra dianteira, comercializa produtos automotivos. Já a Zeex, locatária da omoplata, é tão somente uma varejista online.

As três empresas, corretíssimas ao patrocinarem uma grande marca do futebol brasileiro, devem agora estar abrindo champanhes. Pudera, até poucas horas ninguém fazia a remota ideia de suas áreas de atuação, algo que começa a mudar com explanações como a do parágrafo anterior. O problema reside na escolha feita pelo próprio Botafogo: a que tipo de empresas o Alvinegro pretende se associar?

Todos sabem que a Série B é a maior provação a qual um grande clube pode se submeter no Brasil. A menor visibilidade faz com que receitas de patrocínio desabem, ao cabo que bilheterias tendem a ser menores por conta do produto piorado. Se o clube não subir no primeiro ano, as receitas de televisionamento desmoronam à metade, asfixiando-o à morte. Trata-se de uma situação que ainda não aconteceu com nenhuma das doze grandes torcidas.

Fig 02

Neste contexto, nada mais natural que o “processo de abadalização” dos uniformes. Assim procedeu o Corinthians em 2008, loteando uma quantidade de espaços sem precedentes – incluindo as axilas. Assim o faz o Botafogo, e tem mesmo que fazê-lo. O drama neste caso não possui natureza quantitativa, mas qualitativa. Ainda utilizando o Corinthians como paralelo, o clube à época assinou com a gigantesca Hypermarcas e o mediano Grupo Silvio Santos. No fim, marcas famosas e com alguma identificação com seus consumidores. Mas o Botafogo…

Associando-se a conglomerados nanicos e sem nenhuma identificação com torcedores majoritariamente de classe média, o clube só faz desvalorizar propriedades que, há pouco, se tornaram case ao catapultarem a Viton 44 – proprietária do Guaraviton, Guaravita e Matte Viton (ainda assim uma empresa muito maior do que as atuais). O borrão aumenta quando relembramos a inacreditável parceria botafoguense com a Telexfree, empresa condenada pela justiça brasileira por atuar em esquema de pirâmide, situação flagrantemente ilegal.

É lógico que isto se dá pela situação de penúria dos cofres em General Severiano. Análise do próprio Blog Teoria dos Jogos apontou o Bota como detentor da pior relação receita/dívida do futebol brasileiro. Sem nenhuma capacidade de pagamento, escancara-se uma necessidade visceral de faturar, mas a que custo? Se é pra receber pouco, por que não seduzir grandes marcas com base no menor investimento?

O risco que se incorre é o do encolhimento irreversível da imagem do Botafogo aos olhos do mercado. A partir de então, não haverá resgate de credibilidade capaz de regular o gás deste fogão.

Um grande abraço e saudações!

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Não existe “espanholização” no Brasil…

…no máximo uma “italianização”, quiçá “enfrancesamento”. É o que trouxe à tona o Diário Ás, de Madrid, com um quadro comparativo entre direitos televisivos das principais ligas europeias na temporada 2013/2014. Ei-lo:

Fig 01

A título de comparação, e com câmbio de hoje, segue o ranking envolvendo os times brasileiros na temporada passada:

Valores relativos à TV aberta, não contemplando o pay per view
Valores relativos à TV aberta, não contemplando o pay per view

Percebe-se que, em face dos inúmeros paralelos equiparando Flamengo e Corinthians a Real Madrid e Barcelona, a verdade é que na península ibérica a coisa é muito mais concentrada. Os dois gigantes receberam nada menos que 7,7 vezes mais do que o Almería, integrante do último pelotão espanhol. Já no Brasil, Mengão e Timão angariaram 4 vezes mais do que clubes de fora do eixo RJ-SP-MG-RS.

Embora não se refute haver uma concentração por aqui – sendo também necessário debater os méritos da questão – a verdade é que perdemos até para a Itália neste quesito. No País da Bota, a Juventus sozinha recebeu 5,2 vezes mais do que o Sassuolo. Seríamos um intermédio entre ela e a França, onde o PSG faturou 3,4 vezes mais do que o primo pobre Ajaccio.

Percebam que em países cuja configuração de torcidas é bem conhecida – como no caso da Espanha, da Itália ou do próprio Brasil – recursos são direcionados de maneira concentrada aos chamados “trens pagadores”. Não é o caso da Inglaterra, onde por incrível que pareça os clubes não fazem a mais vaga ideia de quantos torcedores possuem. A Terra da Rainha apresenta a melhor repartição do dinheiro, com o Liverpool tendo recebido apenas 1,5 vez mais do que o Cardiff City. Na Alemanha, país em que estudos do gênero também não são comuns, o Bayern recebeu o dobro do Eintracht Braunschweig.

Ainda ontem divulgou-se o novo acordo envolvendo a Premier League e as televisões locais. A partir da próxima temporada, clubes ingleses passarão a receber algo em torno de 2,3 bilhões de euros por temporada, o que possivelmente não impactará no rateio proporcional entre si. O fato levou a ESPN a publicar comparações inapropriadas entre brasileiros e ingleses. Isto porque no Brasil os valores também aumentarão a partir da próxima temporada – algo negociado desde 2013. Por aqui também subiremos, com o novo ranking do televisionamento ficando assim:

Fig 03

E sim, é verdade: a concentração vai aumentar no Brasil, com os ricos recebendo 4,8 vezes mais do que os modestos.

Ainda assim, será menos que na Itália…

Um grande abraço e saudações!

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E se a Federação fizesse sua parte?

Após a intensa troca de acusações entre Flamengo, Fluminense e a Federação, eis que o Campeonato Carioca 2015 parece entrar em velocidade de cruzeiro. Não sem as devidas perdas de parte a parte: a FFERJ teve que acatar o preço dos ingressos acima do que gostaria, enquanto o Flamengo acusou a baixa de seu vice-presidente de marketing, Luiz Eduardo Baptista. Mas a polêmica está longe do fim, e agora responde pelo nível de receitas da Federação, incompatível com o prejuízo quase geral entre os participantes.

Em meio a 17 partidas deficitárias (total de 24), o cerne do criticismo se encontra nas taxas. Todos sabem (mas ninguém compreende o porquê) que a FFERJ cobra de seus filiados uma taxa de 10% sobre a bilheteria bruta nos jogos, enquanto a cobrança de praxe em outros estados é de 5%. Se a postura de “preço baixo a todo custo” soa paradoxal – uma vez que impacta sobre o próprio faturamento – a verdade é que taxas tão acima das demais fazem da Federação a líder em receitas do futebol carioca. Vejamos se não.

Com base nos boletins financeiros publicados no próprio site da FFERJ, o Blog Teoria dos Jogos preparou levantamento que mostra o tamanho do lucro/prejuízo de cada partida do Estadual do Rio. E mais: projetamos quais seriam os novos resultados financeiros caso a FFERJ cobrasse a taxa protocolar de 5% sobre o faturamento. O resultado é sintomático:

 

Foram consideradas apenas as contas “Taxa Ferj” dos borderôs
Clique para ampliar. Foram consideradas apenas as contas “Taxa Ferj” dos borderôs

Em primeiro lugar, é bom que se diga que os partidários de Rubens Lopes vem reduzindo a taxa cobrada ao longo do campeonato, ao ponto do percentual médio ficar em 9,69%. Ainda assim é quase o dobro do que deveria, sendo que o impacto desta apropriação não é desprezível. Se a taxa fosse de apenas 5%, a soma dos superávits do Carioca-2015 iria de R$ 300.884,10 para R$ 401.549,35 – um salto de consideráveis 33,4%.

Embora a tabela não apresente o rateio dos clubes em cada partida, fica claro que nenhum deles passa perto de ter arrecadado os R$ 193.042,00 da FFERJ nestas três primeiras rodadas. De fato, apenas o Flamengo jogou sempre no azul até aqui. No extremo oposto, o Vasco da Gama – mentor da política de preços baixos – até agora só chafurdou em prejuízos. Aliás, uma prova do quão pouco se capitaliza neste Carioca é justamente esta: a soma das vinte e quatro bilheterias atinge R$ 2.013.305,00, valor que não supera a receita do clássico entre Palmeiras x Corinthians, pelo Paulistão (R$ 2.646.893,75).

Um grande abraço e saudações!

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O ranking do pay per view 2014

Apenas a título de registro, segue o novo ranking de assinantes do pay per view da Globosat, assim como o valor exato do rateio entre cada um dos 18 clubes de futebol relacionados. Os números foram publicados originalmente em matéria no site da ESPN.

Ranking PPV

Ranking PPV2

Muita gente ainda confunde a metodologia utilizada para se alcançar estes percentuais. Tratam-se de duas pesquisas, elaboradas respectivamente por Ibope e Datafolha, em meio à base de assinantes do futebol na TV por assinatura (algo em torno de 1,2 milhão de pacotes). Com elas em mãos, a Globo faz uma simples média aritmética, distribuindo os recursos arrecadados segundo o tamanho auferido de cada torcida.

Importante assinalar que esta estatística reflete primordialmente os resultados do ano anterior (2013), com a maior parte das novas assinaturas acontecendo ao início da temporada. Razão pela qual o Flamengo, novamente líder, apresentou o segundo maior crescimento absoluto (0,52 pontos percentuais) – atrás apenas do Cruzeiro (0,90 p.p). A Raposa impulsionou sua participação com base no título brasileiro de 2013, sendo ajudada pelo desânimo dos atleticanos após o vexame do Mundial Interclubes. Ainda assim, o resultado dos mineiros foi extraordinário, com Cruzeiro (8,2%) e Atlético (7,7%) sendo superados apenas por Flamengo (15,2%) e Corinthians (12,8%).

São Paulo e Vasco (ambos 6,7%) apresentaram quedas drásticas, sendo a vascaína mais justificada pelo rebaixamento consumado naquela temporada. Detentores da terceira e quinta maiores torcidas do Brasil, seus resultados (5º e 7º lugares) não fazem jus à grandeza das massas. Enquanto isto o Palmeiras (5,8%) já apresentava pequena escalada ao ultrapassar o Fluminense (5,8%). É de se imaginar qual será o resultado do alviverde em 2015, considerando a euforia da torcida neste promissor início de temporada.

A diferença do Grêmio (7,2%) para o Internacional (5,6%) é de certa forma proporcional à configuração de torcidas nos estados do Sul. Já o Botafogo (3,8%) decepcionou, apresentando queda mesmo com Seedorf (à época) e prestes a disputar uma Libertadores após 18 anos. O alvinegro, aliás, se vê ameaçado pela maior surpresa da lista: O Bahia (3,7%), que tirou ninguém menos que o Santos (3,5%) do top-12.

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Tudo questão de elasticidade – uma análise da 1ª rodada do Carioca

Após intenso bate-boca por meio de notas oficiais entre dissidentes e a FFERJ, eis que se iniciou o Campeonato Carioca 2015. Eclipsado por uma discussão que chegou às raias da loucura – com direito a agressão verbal pelo presidente da Federação ao mandatário rubro-negro – o torneio servirá como laboratório a confirmar a correção de teses. De um lado, preços baixos propostos pela FFERJ (e o Vasco como mentor), sem direito a meia-entrada  e esvaziando projetos de sócio-torcedor. Do outro, o modelo proposto por Flamengo e Fluminense: liberdade precificatória (a fim de evitar prejuízos) e valorização dos associados com base no direito à meia entrada.

A opinião deste blogueiro foi exposta através da coluna “O risco do populismo no Carioca 2015”, podendo ser resumida em uma frase: o esvaziamento recente do campeonato não é (apenas) uma questão de preço, mas de produto. Os times são ruins, os estádios ruins, o espetáculo ruim – o que se reflete na baixa presença de público. Mas a FFERJ visa provar que este pensamento está errado. Para tanto, depende inequivocamente das respostas dadas pelo publico à redução do preço médio dos ingressos. Novamente, será tudo questão de elasticidade.

Há alguns anos o conceito de elasticidade-preço da demanda vem tendo utilização futebolística difundida pelo Blog Teoria dos Jogos. Agora não será diferente. Caso as respostas sejam exatamente proporcionais – ou seja, aumento do público nos estádios no mesmo nível da queda do preço (situação de elasticidade unitária) – viveremos uma situação em que ambos terão dificuldades em se provarem corretos. Se o aumento do público for mais do que proporcional aos descontos (demanda elástica), a Federação o usará como trunfo a confirmar seus ideais. Por outro lado, um aumento inelástico da presença de público (menos que proporcional à queda do preço) comprovará o produto defeituoso, fortalecendo Flamengo e Fluminense.

Decorrida a primeira rodada, de antemão se pode dizer – com toda dose de ironia – que os “economistas da Federação” tendem a dar com os burros n’água:

Fig 01

Após os oito primeiros jogos de 2014, a média de público ficara em 2.888 pagantes, com ticket médio de R$ 35,46. Já em 2015, se o ticket desabou para R$ 17,83 (queda de 49,72%), o mesmo não se pode dizer do público, cujo aumento foi de apenas 37,8% (média de 3.980). Isto num ano de maior demanda reprimida, com o estadual começando em fevereiro e com os grandes jogando pouquíssimos amistosos de pré-temporada no Rio. Mais: a segunda maior média de público foi de um confronto entre pequenos (Barra Mansa x Volta Redonda), partida que levou excepcionais 6.096 pagantes ao Estádio Raulino da Oliveira, na Cidade do Aço. Sem este jogo – um verdadeiro ponto fora da curva na comparação com 2014 – o aumento da média de público seria de apenas 27%.

Em termos absolutos, a coisa é ainda pior. A primeira rodada do Carioca 2014 apresentou faturamento médio de R$ 102.426,25. Neste ano, mesmo com o aumento do público pagante, a bilheteria desabou para R$ 70.961,25. Considerando a existência de despesas fixas e taxas à própria Federação (que, curiosamente, não foram reduzidas), soa quase impossível que as operações se custeiem a este nível de receitas. Tudo com o Maracanã – o mais caro dos estádios – tendo ficado de fora da rodada inicial.

Consensos são possíveis, conforme acordo entre Flamengo e FFERJ para que a próxima partida do Rubro-Negro seja jogada no Maracanã. Mas uma coisa é certa: se é cedo para que cheguemos a conclusões de toda natureza, nunca será tarde para revisitar equívocos, voltando atrás em decisões que lesam os cofres daqueles que realmente sustentam a Federação.

Um grande abraço e saudações!

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