Arquivos mensais: abril 2015

Distorções na Tabela do Brasileirão – versão 2014/2015

Há dois anos o Blog Teoria dos Jogos lançou o alerta: alguns integrantes da Série A podiam ser prejudicados ao verem suas partidas como mandantes muito concentradas nos piores dias, contrastando com a realidade dos rivais. A análise de 2013 – cujo título era o mesmo desta coluna – repercutiu bastante. Fontes próximas ao Blog atestaram a atuação de grandes clubes nos bastidores (junto à CBF), visando influir nas tabelas dos torneios subsequentes.

De lá pra cá muita coisa mudou? É o que analisaremos.

Inicialmente, faz-se necessário esclarecer uma interessante característica da audiência esportiva no Brasil: enquanto o futebol tem mais público pela TV nos dias úteis, aumenta o público nos estádios em fins de semana. Trata-se de algo facilmente verificável com base nas audiências divulgadas semanalmente pelo Blog Teoria dos Jogos no Twitter, bem como estabelecendo um recorte das médias de público do Campeonato Brasileiro.

Média geral de público – Brasileirão-2014:

Fig 01

Média de público – fins de semana (BR-2014):

Fig 02

Média de público – dias de semana (dias úteis – BR-2014):

Fig 03

O Blog Teoria dos Jogos agradece e credita o levantamento das informações (assim como a elaboração das tabelas) a Minwer Daqawiya, publicitário e colaborador do site Grêmio Libertador.

Parece óbvio o benefício financeiro (em termos de maiores bilheterias) dado aos que jogaram mais em casa nos fins de semana. Considerando que 27 das 38 rodadas se deram aos sábados e domingos, temos como padrão o percentual de 71%. Equipes que tiverem atuado menos do que isto aos fins de semana aparecem marcadas em tons de vermelho e amarelo –  eis os prejudicados. Em direção oposta, marcamos os beneficiados em tons de verde. Segue a distribuição:

Fig 04

Na comparação com o ano retrasado, percebe-se que o Corinthians, maior beneficiado à época (84%) teve seus jogos realocados, passando à condição de prejudicado. Em 2014 os paulistas apresentaram percentual de 63%, melhor apenas que os 58% do Coritiba. No outro extremo, Atlético-PR (89%), Atlético-MG e Internacional (84%) gozaram do benefício das bilheterias em níveis superiores aos demais.

A análise também pode se estender ao Brasileirão 2015, com a limitação de que a tabela só foi totalmente aberta até a 10ª rodada:

Fig 05

A parcialidade enviesa a análise. Até a 10ª rodada, alguns terão feitos apenas quatro jogos em casa, frente a outros com até seis. De qualquer maneira, Coritiba, Flamengo, Goiás, Internacional, Ponte Preta e Santos largam na frente, com todos os seus jogos em casa nos fins de semana. Já o Fluminense fará apenas metade deles no Maracanã.

Mediante as vinte diferentes realidades da Série A, soa impossível administrar tabelas de modo a igualar o percentual de todos. Mas ao trazer a público comparações intertemporais, o Blog Teoria dos Jogos monitora a existência ou não de benefícios/prejuízos sistemáticos para este ou aquele. Por ora, as distorções não parecem tão relevantes.

Um grande abraço e saudações!

E-mail da coluna: teoriadosjogos@globo.com

Siga @vpaiva_btj

Curtam o Blog Teoria dos Jogos no Facebook!

Rendas e públicos da Libertadores 2015

Finda a fase de grupos da Libertadores, confrontos definidos. E se já é possível saber que teremos dois embates entre brasileiros, podemos também comparar quem levou mais gente aos estádios e, principalmente, quem movimentou mais dinheiro nas bilheterias.

Fig 01

Fig 02

Em comparação com o ano passado, o público pagante do líder caiu ligeiramente. Ainda assim o Corinthians sobrou (39.234), com público 18% superior ao do segundo colocado, Internacional (33.025). Únicos que também participaram da edição passada, Cruzeiro e Atlético tiveram desempenhos antagônicos. Enquanto a média do Galo subiu (de 15.738 para 19.614), a Raposa despencou (de 35.947 para 23.149).

No tocante à renda, a dianteira corintiana é demolidora. Tendo superado a marca de R$ 3 milhões em todos os jogos, o clube paulista arrecadou em média R$ 3,3 milhões –74% a mais que o São Paulo (R$ 1,9 milhão). Apesar de segundo no ranking anterior, aqui o Internacional vai a terceiro (R$ 1,3 milhão), reversão que também acomete os mineiros. Embora tenha colocado mais gente no Mineirão, a capitalização do Cruzeiro foi decepcionante: meros R$ 814 mil por jogo. Quase 40% a menos do que em 2014.

Por fim, o ticket médio – função das estatísticas anteriores. Ao contrário do equilíbrio do ano passado, a dupla paulistana disparou: nada menos que R$ 86 para o Corinthians e R$ 73 para o São Paulo. O diminuto Estádio Independência faz com que a média do Galo suba (R$ 49), superando Internacional (R$ 41) e Cruzeiro (R$ 35).

Um grande abraço e saudações!

E-mail da coluna: teoriadosjogos@globo.com

Siga @vpaiva_btj

Curtam o Blog Teoria dos Jogos no Facebook!

Evasão de renda na Copa do Brasil?

Havia uma interessante expectativa em torno do jogo entre Salgueiro e Flamengo, pela 2ª fase da Copa do Brasil. O chamado “Carcará” – força em ascensão no futebol pernambucano – fazia o que se considerava a maior partida de sua breve década de história. O Flamengo, enorme onde quer que passe, arrastou multidões desde o desembarque em Juazeiro do Norte (Ceará) até o sertão pernambucano. Havendo ainda dúvidas quanto ao seu desempenho, por conta da eliminação diante do Vasco no Campeonato Carioca.

Em campo deu a lógica: Fla 2 x 0, classificação garantida pela regra das primeiras etapas da Copa do Brasil. A mesma que diz que o mandante só fica com 100% da renda caso garanta o jogo de volta. Se não acontecer (como ontem), o visitante abocanha nada menos que 60% da renda da partida.

E que renda. Acostumado a cobrar até R$ 3 pelos ingressos, ontem o Salgueiro capitalizou em grau máximo. Cobrando R$ 100 da sua torcida (primeiro lote) e R$ 200 dos visitantes (2º lote, também destinado aos locais), o clube poderia até entrar para o ranking das maiores rendas da história do futebol pernambucano – lista dominada pelo trio da capital. Infelizmente, ao final da partida estes recursos se tornaram fruto de discórdia entre as diretorias.

Tudo porque o borderô oficial teria apontado meros 4.900 pagantes em meio a 12.000 ingressos postos à venda. Mesmo com um Cornélio de Barros quase lotado. Segundo o Globoesporte.com, diante da possibilidade de evasão de renda, o chefe de segurança do Flamengo não recolheu os 60% a que tinha direito, prometendo reclamação formal diante da CBF.

A título de comparação, o Blog Teoria dos Jogos selecionou imagens do último jogo do Salgueiro como mandante, domingo passado, diante do Sport. Válida pelas semifinais do Campeonato Pernambucano, a partida também recebeu excelente público – oficialmente 9.307 pagantes (renda de R$ 137.660,00).

Fig 01

Agora as imagens de ontem, frente ao Flamengo.

Fig 02

O comparecimento da torcida do Salgueiro pareceu o mesmo, sendo a única diferença o maior número de flamenguistas (quando comparados aos visitantes do Sport). Em compensação, o espaço destinado aos visitantes era maior, acarretando certo espaço vazio. Durante a transmissão, percebeu-se que a maior parte dos rubro-negros se infiltrou entre os carcarás, a quem os ingressos saíram mais em conta.

Na manhã de hoje, jornalistas locais divulgaram que o público teria sido de 7.553 pagantes, com renda de R$ 570.200,00. Segundo os mesmos, a razão da discórdia seria a recusa do Flamengo em assinar o recibo para retirada do dinheiro.

Ao falarmos de centenas de milhares de reais, é imprescindível que não haja qualquer dúvida com relação ao rateio – um direito dos clubes. Até a publicação deste texto, o borderô oficial não havia sido publicado no site da CBF, como de costume. Parecem haver poucas evidências que justifiquem discrepâncias muito grandes entre o número de pagantes.

Com a palavra, as autoridades.

Um grande abraço e saudações!

E-mail da coluna: teoriadosjogos@globo.com

Siga @vpaiva_btj

Curtam o Blog Teoria dos Jogos no Facebook!

Dez perguntas para o Departamento Financeiro do Fla

Após a divulgação das demonstrações financeiras – onde apresentou a maior receita de 2014 e o maior lucro da história de um clube no Brasil – o Blog Teoria dos Jogos conversou com Paulo Dutra, diretor financeiro do Flamengo. Foram dez perguntas não apenas sobre publicação do balanço, mas também relativas ao uso do Maracanã e o valor pago pelo televisionamento dos jogos. A pergunta de nº 2 foi respondida por Bruno Spindel, diretor de marketing – cujo departamento gentilmente intermediou a entrevista. Vamos às perguntas:

1) A divulgação do balanço na segunda-feira confirmou aquilo que já se esperava: Flamengo líder em receitas do futebol brasileiro no ano de 2014, com R$ 347 milhões. Esta supremacia (que não ocorria há uma década) chegou mais cedo que o planejado?

PD: Quando traçamos a meta pra cada ano, não nos comparamos com o mercado. Esses R$ 347 milhões estavam dentro do valor orçado para 2015 e vieram no tempo esperado, graças ao trabalho de todos o clube.

2) Considerando a estagnação do projeto sócio-torcedor  e a crise econômica que pode impactar sobre patrocínios, onde haveria espaço para crescimento de receitas em 2015?

(Bruno Spindel) Entendemos que o sócio-torcedor voltará a crescer forte em breve. Há novos parceiros entrando na rede de descontos, em breve teremos kit sócio-torcedor nas bancas de jornais do Rio de Janeiro, novas modalidades de pagamento, retorno do Campeonato Brasileiro e outras novidades a serem anunciadas em breve que serão grandes incentivos a adesão de mais torcedores ao programa. Se o torcedor abraçar o programa teremos no futuro orçamento compatível com os maiores clubes do mundo e o céu sera o limite. A realização dos sonhos dos torcedores só depende deles. Além do retorno do crescimento do sócio-torcedor acreditamos que vamos entregar crescimento relevante na receita com patrocínios assim como um crescimento consistente na receita de lojas oficiais pela sua expansão pelo Brasil.

3) Existem diversas leituras quanto ao tamanho da dívida de um clube com base em seu balanço patrimonial. Qual seria o verdadeiro tamanho da dívida do Flamengo ao final de 2014?

 PD: Temos R$ 577 milhões de dívida líquida. A adesão do torcedor ao Nação Rubro-Negra e outras iniciativas do clube ajuda a pagar tudo sem perder competitividade.

4) A partir de 2016, o valor a receber pelo televisionamento aberto do Brasileirão saltará dos atuais R$ 115 milhões para R$ 170 milhões. O Flamengo utilizará toda esta sobra de caixa na amortização de sua dívida? 

PD: Ainda não foi aprovado o orçamento de 2016.

5) Ainda sobre receitas de televisionamento: Haveria uma desproporção nos repasses referentes ao Campeonato Estadual (menos de R$ 10 milhões), quando comparados ao que se paga pelo Brasileirão?

PD: São campeonatos distintos com públicos distintos então a comparação não cabe.

6) Para que a dívida se mantenha sob controle, é fundamental sua renegociação com base na Medida Provisória 671 (PROFUT). Segundo os cálculos do Flamengo, qual seria o superávit mensal após aderir ao Programa? Em outras palavras, quanto o clube pagava por mês na parcela de suas dívidas e quanto passará a pagar?

PD: O Flamengo ainda não possui estes cálculos pois a Receita Federal precisar regulamentar a forma de funcionamento do PROFUT. Vale salientar que o clube já se atualizou para acompanhar esse tipo de reforma com a aprovação do Conselho Deliberativo à Lei de Responsabilidade Fiscal Rubro-Negra.

7) Novamente segundo o balanço, o Flamengo teria recebido R$ 19.736.480,00 a título de “repasse de direitos federativos”. A que atletas tal conta se refere? O valor provisionado (mas não recebido) por Hernane Brocador e repasses pelo mecanismo de solidariedade da FIFA se enquadrariam aqui?

PD: Se refere principalmente aos jogadores Hernane e Caio Rangel

8) O empréstimo de R$ 24.789.160,00 contraído junto ao Consórcio Maracanã será abatido das receitas do clube no estádio? Se sim, ao longo de que período? O alto custo de se jogar por lá – algo que parece ter piorado em 2015 – não prejudicaria o honrar deste compromisso?

PD: O Flamengo tem o Maracanã como sua casa. O pagamento do empréstimo tem vencimento final em 2016, mesmo prazo do acordo em vigor.

9) Ainda o Maracanã: em entrevista ao Valor Econômico, o vice-presidente de finanças Rodrigo Tostes afirmou que o Flamengo teria capacidade de assumir o estádio – fazendo dele um sucesso financeiro – caso a Concessionária decidisse abandonar a gestão do estádio por desequilíbrios econômico-financeiros. Trata-se de uma possibilidade real?

PD: Não depende de vontade do Flamengo. O estádio foi licitado e o Consórcio Maracanã está fazendo a operação. Caso o Consórcio Maracanã decida que não deseja mais operar o estádio o Flamengo teria interesse em assumir a sua operação.

10) A festejada reversão do déficit dos esportes olímpicos (Prejuízo de R$ 12.873.236 em 2013, lucro de R$ 3.245.259 em 2014) veio para ficar? Há margem para melhorias ainda mais significativas nesta seara?

PD: Sempre existe margem para melhorias e esta gestão está e estará sempre buscando a conquista de campeonatos com responsabilidade

Um grande abraço e saudações!

E-mail da coluna: teoriadosjogos@globo.com

Siga @vpaiva_btj

Curtam o Blog Teoria dos Jogos no Facebook!

Análise Comparativa: As Finanças de Grêmio e Flamengo em 2014

Escrito por Cristiano M. Costa, Professor de Finanças e Contabilidade da UNISINOS e membro do Sócios Livres – Grêmio de Todos, em cujo blog o texto foi originalmente publicado. 

“Ontem (segunda) foram divulgadas as demonstrações financeiras do exercício 2014 de Grêmio e de Flamengo.  Os resultados mostram escolhas e circunstâncias distintas na vida administrativa dos clubes. Vamos a uma breve análise do que mostram os resultados.

O Clube de Regatas do Flamengo teve uma receita de 334 milhões e despesas da ordem de 229 milhões. O resultado dessa conta é um estrondoso superávit operacional de 105 milhões. Uma vez descontadas as despesas financeiras (custo dos juros da dívida) ainda sobraram 64 milhões.

Com isso o Flamengo amortizou sua dívida e recuperou patrimônio dos sócio após anos acumulando déficits. A pergunta de vocês certamente é: como o Flamengo fez isso?

Apostas de desporto?  Acesse! http://www.bet365.com/news/pt/betting/

O primeiro passo foi não aumentar as despesas. Na verdade elas reduziram em 3 milhões. O segundo foi incrementar receitas. Passaram de 259 milhões para 334 milões, um aumento de 75 milhões. De onde veio isso?

Ao contrário do que se pensa, apenas 5 milhões vieram do aumento do valor dos direitos de transmissão, que hoje são 115 milhões por ano.  O Flamengo elevou receitas em várias atividades: sócio-torcedor (+14 milhões), patrocínio (+26 milhões), incentivos fiscais (+22 milhões), e por aí vai. O Flamengo soube gerar receitas. Além disso, conseguiu reduzir as despesas financeiras (basicamente juros) em 6 milhões. Até a atividade de esportes olímpicos do Flamengo foi superavitária!

Além do resultado, o Flamengo deu uma aula de como apresentar seus resultados. Na apresentação do seu ativo intangível o clube apresentou o percentual que possui de cada um dos jogadores sob contrato. Vejam a imagem abaixo.

fla

Pra finalizar, o Flamengo ainda apresentou explicações sobre algumas transações importantes que ocorreram já em 2015 ao final do balanço. Entre elas o empréstimo do Pará. Seguem os detalhes:

fla2

Agora vamos aos dados do Grêmio. O Grêmio Foot-ball Porto Alegrense teve uma receita de 206 milhões e despesas da ordem de 207 milhões. O resultado dessa conta é um prejuízo de 1 milhão. Uma vez descontadas as despesas financeiras (inclusive custo dos juros da dívida) o prejuízo chegou a 31 milhões. O resultado ajustado do ano anterior, de 2013, mostra um prejuízo ainda maior: 56,8 milhões.

Com isso o Grêmio, mais uma vez, aumentou suas dívidas. A pergunta então é: como o Grêmio fez essa lambança financeira?

O Grêmio de fato aumentou a sua receita, de 183 milhões para 206 milhões. Esse crescimento se deu em função do aumento da receita com venda de atletas (+18 milhões), de ganhos de direitos de tansmissão (+6 milhões) e patrocínios (+13 milhões). O problema é que muitas receitas caíram. Entre elas: prêmios (- 5 milhões), quadro social (-7 milhões) e vendas da Grêmio Mania (-1 milhão).  No lado da receita o Grêmio não foi mal, mas poderia ter ido melhor. Pesou a dinâmica do nosso quadro social, que arrecadou 50 milhões em 2014, quando havia arrecado 57 em 2013 (melhor ano da história).

No lado das despesas o Grêmio gastou 207 milhões, um valor abaixo dos 214 milhões de 2013, mas ainda muito elevado para o tamanho de suas receitas. O gasto com pessoal do futebol profissional reduziu (-14 milhões), mas outras despesas aumentaram. Destaca-se aqui o aumento da despesa com quadro social (possivelmente engloba os custos da entrada de sócios na Arena) que aumentou em 13 milhões (despesa que já estava prevista).

O que destrói muito do resultado do Grêmio são as despesas financeiras e serviço da dívida. Praticamente todo o prejuízo do clube vem dessas rubricas. Os montantes que foram deixados para trás em 2014 assustam. As obrigações fiscais e trabalhistas devidas e que vencem no curto prazo saltaram de 6 milhões para 20 milhões.

O lado positivo é que o Grêmio possui um valor maior de atletas sob seus direitos. O ativo intangível aumentou em 14 milhões. Ou seja, parte pode se reverter em receita no exercício 2015, como as vendas de direitos de atletas já realizadas (e que poderão ser feitas).

Como podemos comparar os resultados de Grêmio e Flamengo? Ambos são frutos de escolhas e circusntâncias. Em ambos os casos os clubes não aumentaram despesas. O que é muito bom. A grande diferença é que o Flamengo aumentou extraordinariamente as suas receitas. Se o Grêmio tivesse um aumento equivalente ao do Flamengo (crescimento de 29% da receita) a nossa receita teria sido 60 milhões maior, e ao invés de um prejuízo de 31 milhões teríamos um superávit de 29 milhões.

Está claro que reduzir despesas deve ser parte da estatégia do Grêmio. O clube deve gastar de acordo com a sua realidade. O que deve ficar claro aos torcedores, sócios e dirigentes é que o clube não poderá crescer sem aumentar substancialmente as suas receitas. E aqui entra o papel da escolha administrativa que me referi no primeiro parágrafo.

O Grêmio deve unir seus dirigentes, conselheiros, movimentos políticos, sócios e torcedores na busca da elevação de receitas (simultaneamente a contenção de despesas). Aqui temos várias áreas que podemos atacar e a principal delas é trazer o torcedor e o sócio para perto do clube, gerando receitas, contribuido, e se associando.

Nosso quadro social hoje é responsável por 25% da arrecadação. Outros 7% vêm de royalties e da loja Grêmio Mania. Ou seja, 32% de tudo vem dos sócios diretamente. No Flamengo, esse valor é apenas 13%. Eles ainda vão crescer muito.

Outros dois aspectos diferenciam Grêmio e Flamengo e terão que ser buscados pela direção do clube. O primeiro deles é dificílimo de ser revertido: cotas de TV. O Flamengo arrecadou 115 milhões, o Grêmio 60 milhões. Aqui não temos saída, só um novo arranjo institucional, como a formação de uma Liga daria maior equidade. Ainda é um resquício do fim do Clube dos 13. O segundo é receita de bilheterias. Hoje as receitas do Grêmio são zero (na verdade 1 milhão). Já o flamengo arrecadou 40 milhões. Aqui a direção trabalha incessantemente para reverter a questão Arena. Perdemos uma fonte precisosa de arrecadação. Se ela fosse da mesma proporção da do Flamengo (ou seja, 13% da receita total) o Grêmio teria mais 40 milhões pra gastar. Aqui, cabe destacar que o Flamengo perdeu 8 milhões com bilheteria em virtude do novo contrato com Maracanã e interdições pré-Copa.

Em suma, a escolha que a direção gremista deve seguir está clara. O Grêmio deve sim reduzir despesas, mas precisamos urgentemente pensar em formas criativas e sustentáveis de aumentos de receitas. E essa bola não fica só no pé da direção. Ela está com todos nós, conselheiros, representantes de movimentos, sócios e torcedores.

Chegou a hora de todos trabalharem para marcar esse gol da arrecadação e geração de receitas!

PS: as demonstrações do Grêmio estão AQUI e as do Flamengo AQUI.

Obs: Esse post é de Opinião e não corresponde ao posicionamento oficial do Sócios Livres.”

Um grande abraço e saudações!

E-mail da coluna: teoriadosjogos@globo.com

Siga @vpaiva_btj

Curtam o Blog Teoria dos Jogos no Facebook!

O resgate do orgulho de ser rubro-negro

Gigante acordou
Imagem extraída do site https://flaeterno.wordpress.com

Era uma vez um clube de massa. Talvez mais do que isso: “o” clube de massa. Beneficiado pelo irradiar da cultura carioca em território nacional, sua torcida era (e talvez sempre tenha sido) esmagadora. Mas isto não se refletia em campo, simplesmente porque se vivia uma longínqua era em que capacidades fora dos gramados não se refletiam em potenciais dentro deles. Só a organização (a capacidade de peneirar e revelar jogadores) poderia fazer com que uma agremiação se destacasse perante tantas outras. Ou a sorte. Estamos nas décadas de 50, 60, 70.

Sem se destacar quanto ao primeiro fator – e não agraciado pelo segundo – o clube vencia menos campeonatos do que presumia sua grandeza e importância social e cultural. Dando de ombros, sua torcida – verdadeira expressão da paixão nacional – não parava de crescer. Ainda assim, seus rivais deitavam e rolavam. Um certo time do litoral paulista então… revelara um negrinho que fez da equipe um verdadeiro rolo compressor. Passava o rodo no tal “clube de massa”, cerne deste conto.

Eis que uma nova diretoria assumiu. Capitaneada por um certo tabelião, ostentava novos conceitos– palavrinhas então inéditas como “gestão” e que tais. A “modernização” – outra que soava como música naqueles tempos – veio finalmente acompanhada da sorte. Uma geração de ouro se fez revelar, liderada por um gênio. Na virada dos 70 para os 80, tudo mudou na vida deste clube. Ganhou absolutamente tudo o que disputou. Arrebatou corações de toda uma geração. Fez a FIFA reconhecê-lo como 8º maior clube do século XX.

Mas a “era de ouro” se foi. O tempo passa, a idade pesa – como também parecem pesar quando um mesmo grupo político se enraíza por tempo demais numa instituição. Com o desgaste, vieram oposições. E oposições. E mais oposições. A modernidade foi substituída pela irresponsabilidade. Em muitos momentos, o clube flertou com o banditismo. Presidentes mal intencionados, escorraçados, impichados. Conselheiros agindo como barões em um feudo. Nem o tabelião – que voltou! – deu mais jeito. Parou no tempo, assim como o clube. Que viu destruída sua imagem.

Daquele clube vitorioso vanguardista, pouco restou. Talvez sua torcida, crescente como que por milagre, alheia a toda sorte de bancarrotas técnicas e morais. Só que não bastava. À medida com que avançavam as décadas de 90 e 2000, novas palavrinhas vieram à tona: marketing esportivo, credibilidade. Conceitos inexplorados num clube onde a estrutura caía aos pedaços, promessas não eram cumpridas e salários, fictícios. Se fingia que pagava. Se fingia que jogava. Como levá-lo a sério?

A grande questão é que depois da tal “era do marketing esportivo”, sorte passou a contar menos que competência. Clubes bem geridos angariavam volumes inimagináveis de recursos, comprando quem “trazia sorte”. É a economia, estúpido! Adapte-se ou morra.

Por muito tempo, pareceu que aquele “clube de massa” morreria. Afogado, nas impagáveis dívidas contraídas por temerárias, calamitosas e sucessivas gestões.

Por sorte, tudo na vida é cíclico. À beira do abismo, surgiu um grupo de abnegados dispostos a salvarem o referido “clube de massa”. Mais: colocá-lo no impensável rumo, que, nos dias de hoje, se tornaram sinônimo de sucesso. A lógica era simples: tendo como sustentáculo o consumo de sua enorme torcida, três ou quatro anos de completa frugalidade se fariam imprescindíveis até que as contas ficassem em ordem. O resgate da credibilidade se daria com profissionalismo, seriedade e muito trabalho. Se consumando à medida com que mais e mais credores vissem honrados compromissos antes dados como perdidos.

Reverteu-se a lógica nefasta. O que tirou com uma mão, o mercado vem devolvendo com a outra. Ao caminhar para o fim de seu primeiro mandato, a tal diretoria quebrou todos os paradigmas. Atraiu investidores, alavancou receitas a níveis inéditos, renegociou dívidas – e o mais importante: as honrou. Dívidas que, a propósito, vem desabando ano após ano, cenário absolutamente promissor de futuro. Com o extermínio dos passivos, restará apenas a maior receita do Brasil, posto ao qual galgou já no ano de 2014. Bons tempos estão por vir.

Em meio a ameaças de rompimento perante a parasitária federação de futebol de seu estado, eis que no dia de ontem, o louvado “clube de massa” – novamente ocupante do trono do progressismo – se tornou o primeiro do país a se adaptar formalmente à Lei de Responsabilidade do Esporte. No futuro, aventureiros como aqueles aqui elencados responderão judicialmente, pagando do próprio bolso.

Sorria, rubro-negro. O “clube de massa” em questão é o Flamengo.

O Clube de Regatas do Flamengo.

Um grande abraço e saudações!

E-mail da coluna: teoriadosjogos@globo.com

Siga @vpaiva_btj

Curtam o Blog Teoria dos Jogos no Facebook!