Match Day – os contrastes da Arena do Grêmio

No último fim de semana, o Blog Teoria dos Jogos terminou com uma histórica distorção: a de nunca ter visitado Porto Alegre, tida e havida como a capital que hospeda a maior rivalidade futebolística do país. Como a tabela do Brasileirão só contempla uma partida por final de semana na cidade, o embate eleito para nossas tradicionais análises envolveu Grêmio e Joinville, na Arena do Grêmio. Sendo impossível partir sem conhecer o outro lado desta paixão, visitamos também as instalações do Internacional e o estádio da Beira Rio, em postagem que vai ao ar ainda esta semana.

Não dá pra fugir do lugar-comum: salta aos olhos de quem visita a Arena do Grêmio seus inacreditáveis contrastes. Construído numa região periférica de Porto Alegre, o estádio é visto como uma forma de valorizar um entorno que inclui a sintomática comunidade de “Farrapos”. As fotos a seguir dão uma boa noção do impacto da coisa:

Fig 01

 

Fig 02

Fig 03

Ao lado do estádio, torres residenciais em construção pela OAS (responsável pela Arena) surgem como novidades num entorno cuja proliferação de pequenos bares aparenta ser a única mudança real. Por ali, há uma certa semelhança com a região do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro:

Fig 04

Vencido o entorno – que conta ainda com uma grande rodovia (construída por conta do estádio) e uma linha de trem com ligação ao centro – surge ela, colossal. Surge a Arena do Grêmio:

Fig 05

Fig 06

Não sem antes uma ressalva. Como pode ser visto abaixo, e em linha com o que literalmente se verifica de Norte a Sul, a venda de artigos falsificados corre livre, leve e solta. Solta ao ponto de se ver na liberdade de criar uniformes em desacato ao estatuto do Grêmio – que veda quaisquer cores que não azul, branco e preto. O mais curioso: segundo relatos, a camisa feminina rosa é um verdadeiro sucesso de vendas:

Fig 07

Outro problema é a sujeira acumulada na cobertura do estádio pela ótica externa. Não tendo sido construído sob lonas tensionadas auto limpantes (como o Maracanã e o próprio Beira-Rio), implicará em permanentes custos de manutenção com limpeza, algo que não parece estar acontecendo.

Mas os poréns terminam por aqui. O que se vê a partir de então é um verdadeiro show de criatividade, requinte e imponência.

Para começar, a Arena do Grêmio é o único estádio do Brasil onde permanece o clima de Copa do Mundo – ironicamente justo onde o evento não foi hospedado. Isto porque ela possui o que se chama de “Esplanada” em seu entorno. As pessoas passam por uma revista inicial mas não entregam seus ingressos. A partir de então, sobem a rampa que dá acesso a esta área de convivência:

Fig 08

Fig 09

Fig 10

Por oficialmente não se configurar como parte das dependências do estádio, é permitido beber na Esplanada. Por isto, ela é dotada de diversas tendas da Heineken, um oásis de racionalidade em tempos de proibição de bebidas alcoólicas. Também é ali que o Tricolor explora potencialidades comerciais, com duas mega lojas e diversos espaços para aluguel*. Por fim, centros de atendimentos a sócios ou consulados trabalham a todo vapor, uma das mais valiosas experiências verificadas nesta passagem do Blog pelo Sul:

*O objetivo é transformar a Esplanada numa área comercial aberta permanentemente, alugando espaços para lojas e restaurantes. Dado o perfil do entorno, soa improvável que esta forma de capitalizar se torne bem sucedida.

Fig 11

Fig 12

Finalmente, as instalações internas são um choque na melhor acepção da palavra. Muito diferente da profusão de cimento cru da maioria dos estádios (mesmo de Copa do Mundo), na Arena o acabamento é primoroso. Pisos de cerâmica e porcelanato, paredes e banheiros pastilhados nas cores do clube:

Fig 13

Fig 14

Fig 15

Fig 16

A altura das arquibancadas valida a sensação de adentrarmos uma das maiores arenas do Brasil. Os assentos, todos acolchoados, são de longe os melhores já testados. Mesmo o espaço da “Geral do Grêmio”, onde domina o concreto desde que as cadeiras foram retiradas, não destoa tanto quanto a dimensão dada pelas fotografias:

Fig 17

Fig 18

Fig 19

Fig 20

Já a área dos camarotes possui zonas coletivas com música ao vivo e lanchonetes onde o espectador não perde nada do jogo. Os camarotes particulares, ainda que pequenos, também proporcionam vista integral da partida mesmo aos que optam por ficar dentro do lounge:

Fig 21

Fig 22

Fig 23

Justamente na noite em que virou para cima do Joinville (2 x 1), o Grêmio lançou também sua linha de essências personalizadas, denominada Alentto. Saindo na frente dos demais na exploração do marketing sensorial, grandes difusores de essência se espalharam pelos corredores, levando ao estádio o divertido rótulo de “mais cheiroso do Brasil”:

Fig 24

Desde que os assentos foram retirados da “Geral”, a capacidade da Arena caiu de 60 mil para 55 mil lugares, sendo os ingressos mais baratos em setores superiores – o que passa a impressão de estádio vazio mesmo com os 31 mil pagantes de domingo:

Fig 25

Este registro com número recorde de imagens dá a clara ideia da relevância desta análise. Sob alguns prismas, como de acabamento e usabilidade (Esplanada), trata-se de uma das melhores experiências já vividas pelo Blog Teoria dos Jogos em uma arena. Em outros, como localização e logística de acesso, das piores. Extremos que fazem da Arena do Grêmio uma verdadeira expressão da realidade brasileira, em suas dores e delícias.

Relembre algumas de nossas análises de match day em arenas brasileiras:

Maracanã: clique aqui 

Estádio Nacional de Brasília: clique aqui

Maracanã (camarotes): clique aqui

Mineirão: clique aqui

Nossos agradecimentos ao amigo e “guia turístico” @cristianomcosta, bem como ao departamento de marketing do Grêmio e à Arena Porto-Alegrense SA pela gentileza do convite.

Um grande abraço e saudações!

E-mail da coluna: teoriadosjogos@globo.com

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12 comentários sobre “Match Day – os contrastes da Arena do Grêmio

  1. Nunca teve cadeiras na geral. O que aconteceu foi que em um dos primeiros jogos oficiais a torcida comemorou com a tradicional avalanche dos tempos de olimpico e o guarda corpo da mureta cedeu. Para não ter que colocar cadeiras no setor, o Grêmio foi obrigado a colocar barras em toda a arquibancada, acabando assim com a avalanche, e por exigência do corpo de bombeiros teve que reduzir a capacidade do local, de 10 mil para 5.500.

  2. Caro Vinícius:
    Recebemos com prazer tua visita. Certamente estavas bem acompanhado.
    Só um comentário sobre tua análise: com a ocupação do entorno e as construções já projetadas, inclusive um shopping ao lado da Arena, a ocupação das áreas da esplanada será uma questão de tempo.
    Ademais, a maior parte da área de locações da Arena é “interna”, sendo direcionado para o público corporativo.

    Te aguardamos para uma nova visita!
    Abraços

  3. Algumas correções:

    1 – a Rodovia não foi construída em razão da Arena. Em razão da Arena somente a conclusão de algumas avenidas no entorno, várias das quais o Poder Público até hoje não fez e quer que a OAS as faça, apesar que o Beira Rio ganhou várias avenidas novas no entorno sem que a AG precisasse tirar um tostão do bolso.

    2 – a Arena foi construída pra durar pelo menos 50 anos. A esperança é que o bairro melhore com tempo, pois existem vários empreendimentos para a região. Uma naco bem grande da favela inclusive já foi removido para a construção das alças de acesso da Nova Ponte do Guaíba…

    3 – a localização tb foi pensada considerando que POA tem menos da metade da população de sua Região Metropolitana (1.5 milhão de pessoas em POA, 4 milhões na RM). A localização da Arena é de muito mais fácil acesso para o resto da população da RM, assim como para as pessoas do interior do estado, da Serra e do Litoral. Ao contrário de SP ou Curitiba, POA não está no centro de sua RM, mas no extremo Sul/Sudoeste dela. A logística de acesso portanto está prejudicada (enquanto as obras das avenidas no entorno não forem feitas) para os moradores de POA, mas facilitada para os outros 9,5 milhões de habitantes do RS, no qual aliás, o Grêmio tem mais torcida, enquanto em POA o Inter ganha.

    Tb lembre da estação do Trensurb à somente 1000 metros da Arena e do aeroporto, tb muito próximo.

    4 – a questão do número de espectadores já foi esclarecida por outro comentário. O setor da Geral originalmente era para ter capacidade de 10 mil espectadores em pé, mas a Brigada Militar reduziu para 5.500 espectadores por razões de segurança e colocou pára-avalanches. Por essas razões que a capacidade diminuiu de 60 para 55 mil.

    5 – cadeiras acolchoadas somente nos anéis VIP (2o – Gold e 3o – Camarotes) e no pequeno setor VIP no primeiro anel, para diretores, etc.

    6 – acredito que o que mais diferencia o interior da Arena de vários outros estádios que vi fotos não é o revestimento das paredes, mas sim o fato de ter forro enquanto em vários outros estádios, os corredores tem calhas de cabeamentos, canos, etc, visíveis, abaixo do concreto.

    7 – existem muitas coisas a melhorar ainda, e uma delas foi notada pelo autor da matéria: os assentos vazios no primeiro anel, mais caros, dando um aspecto de vazio à Arena especialmente na TV…

    1. obviamente, oq se quer não é a gentrificação do bairro, mas sim que os próprios moradores do bairro se beneficiem tb com a Arena, com oportunidades de trabalho, etc.

      a história do Grêmio sempre foi de abrir novas fronteiras em POA com seus estádios.

      O Fortim de Baixada foi construído em 1906 em uma área de descampado de POA, com sítios e fazendas ao redor. Algumas décadas depois virou o Bairro Moinhos de Ventos, o mais nobre de POA.

      Em 1953, quando o Grêmio construiu o Olimpico, esse se encontrava nos confins de POA… era zona periférica da cidade, com algumas vilas ao redor. Hoje em dia, dá pra se considerar o bairro Azenha quase como uma zona Central.

  4. Estive neste estádio no jogo Gremio x Palmeiras. A localização é boa, acesso fácil (taxi barato). O problema é a distancia da estação Azenha. Imaginei, pelas pesquisas do Google maps que fosse mais próximo. Mas caminhamos bastante pra chegar ao estádio para comprar ingresso. Depois somente fizemos trajeto de ônibus e taxi (que tem um preço bem acessível. Fiquei hospedado no Hotel Expressinho (do lado da estação Farroupilha). A região é bem carente, mas nada que assuste. Obviamente estava com amigos e não nos sentimos inseguros. Também não abusamos de sair da rota. Como as torcidas de Gremio e Palmeiras tem certos laços de amizade, não tivemos problema algum.
    Muito bom a tal Polar e gostamos muito do povo local. Seja gremista, seja comerciante que conhecemos. Tem uma casa em frente a entrada do visitante que vendia pastel (muito recheado) e cerveja.
    Muitas crianças carentes em volta do estádio pedindo dinheiro. Mas nada que incomode.

  5. E, comparando com nosso estádio, A Arena do Grêmio perde em localização e acessibilidade interna (subimos interminaveis escadas). Mas é tão bonito quanto o nosso com uma capacidade maior e um bom espaço de avanço entre cadeiras. No setor superior do Allianz é bem apertado.

  6. O acesso é ruim, mas o bairro é incrivelmente acolhedor. Sempre chego cedo aos bares e fico tomando uma cerveja, comendo um churrasco ou algum outro lanche com os amigos. Cerveja barata e povo muito gente boa, tomara que permaneça assim e que essa “diferença” de realidades continue, pois o bairro tb ganha com a arena ali. E o estádio, por dentro, é sem palavras, espetacular.

    Única coisa que podem melhorar é o acesso do trem ao estádio e a saída para os carros (ruas apertadas demais, em jogos com mais de 30 mil pessoas já demora muito pra sair), além de “povoar” mais a esplanada com bares, quiosques e até mesmo paisagismo. Acho ela muito crua.

    E só corrigindo: o espaço da geral nunca teve cadeiras, sempre foi concebido para não ter. A redução na capacidade se deu ao fato de que o numero máximo de torcedores na geral foi reduzido, tendo em vista o ocorrido no jogo contra a LDU, a colocação de para-avalanches (gradis) e orientação/exigência da polícia (brigada militar ou bombeiros, não recordo) pra diminuir o número de torcedores naquele local.

  7. Gostei da análise e das fotos, mas o que mais me chamou a atenção foi a ausência de algum comentário sobre os orientadores que trabalham dentro e fora da Arena, aqueles colaboradores de boné e jaqueta amarela, calça preta e sapato. Se não fosse pelos orientadores, muitas pessoas estariam perdidas ao procurarem os seus assentos e acredite, muitas não olham as placas com a indicação dos blocos e sentam em qualquer lugar.

  8. logo ao lado da Arena e da favela, ainda no mesmo bairro, tem ruas muito agradáveis e conjuntos habitacionais de classe média baixa MAS acolhedores e bem cuidados

    links do Streetview, basta afastar no GoogleMaps pra ver onde se encontra em relação à Arena e favela.
    https://goo.gl/maps/wOjvC

    https://goo.gl/maps/WRG2v

    https://goo.gl/maps/KmbiP

    https://goo.gl/maps/Hqonb

    a esperança é que outras partes do bairro sigam o mesmo destino.

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