Meia entrada: os riscos de uma cruzada inesperada

Flamengo e Maracanã anunciaram: a partir desta quinta, quando o Rubro-Negro encara o Cruzeiro, a utilização indiscriminada das meias entradas será fiscalizada e coibida. Trata-se de uma medida que visa garantir o cumprimento da lei estadual que exige a apresentação de documentos por parte dos estudantes. Evitaria ainda a malfadada evasão de renda resultante de milhares de torcedores que se utilizam de direitos para os quais não estão habilitados.

É fato: clube, concessionária e autoridades se baseiam em princípios corretos e agem de acordo com a legislação em vigor. No entanto, ao menos para hoje, o modus operandi tem tudo para se mostrar catastrófico. Explica-se.

Em redes sociais, o primeiro comunicado do Flamengo sobre a mudança de postura se deu na manhã da segunda-feira, 07/09, conforme se verifica em print do perfil rubro-negro no Twitter (@Flamengo). Ainda assim, tratava-se de uma mensagem protocolar, quase mera formalidade:

Fig 01

O problema é que, já na noite anterior, mais de cinco mil ingressos haviam sido vendidos pela internet, poucas horas após a vitória no Fla x Flu. A Concessionária Maracanã demorou mais: seu primeiro retweet sobre o tema aconteceu ontem (09/09), instantes após anunciarem a venda de 25 mil ingressos para Flamengo x Cruzeiro:

Fig 02

Apenas na manhã de hoje (10/09), comunicados verdadeiros foram expedidos dando o tom da nova política empregada. E a coisa é séria: quem não se comprovar estudante será obrigado a trocar ingressos de meia por inteira. Documentos falsificados encaminharão os responsáveis para esclarecimentos no Juizado Especial Criminal (Jecrim).

Questionado, o departamento de marketing do Flamengo alegou que o site oficial já vinha noticiando a questão desde a abertura das vendas para associados, se isentando da questão fiscalizatória, algo que estaria fora de sua alçada.

Não é bem assim que a banda toca.

O Rio de Janeiro sempre tolerou a “farra das meias entradas” em níveis muito superiores aos verificados em outras praças. O próprio Blog Teoria dos Jogos demonstrou, semana passada, que partidas na cidade apresentavam quase 60% de meias entradas, enquanto em outras localidades o percentual mal ultrapassava 5%. Ainda que esteja errado quem se vale do expediente, a histórica conivência por parte dos responsáveis levava a tal condição. Precificar tudo pelo “dobro da meia” evitava o trabalho de fiscalizar. Anunciar projetos de sócio-torcedor com valores a “partir de R$ 10” (mesmo com a maioria inapta) soava atraente.

O problema é que não adianta estabelecer uma data-limite no meio do processo. Muito menos achar que um clube não tem responsabilidade solidária pelos inconvenientes aos quais expõe sua torcida. Sem serem importunados, dezenas de milhares de flamenguistas compraram ingressos de meia entrada como sempre fizeram. Trocá-las por inteiras na hora do jogo, conforme proposto, só tende a caotizar bilheterias e gerar transtornos.

Agora todos sabem: a farra está chegando ao fim – ainda bem! A iniciativa privada agradece. Usuários devem se ater unicamente àquilo que tem direito.

Mas que, no Maracanã, este processo se inicie a partir da rodada do fim de semana. Sob pena de vermos um sem número de clarões eclipsando a bela festa que se prometia. Ou pior, incontáveis confusões envolvendo policiais e torcedores, repentinamente taxados como contraventores.

Em tempo: será que, com o fim da “farra”, os clubes estarão dispostos a baixar o preço dos ingressos?

Um grande abraço e saudações!

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Um comentário sobre “Meia entrada: os riscos de uma cruzada inesperada

  1. Mesmo com esta farra de meia-entradas o preço do ingresso do Rio nunca foi o maior entre os estados, pelo contrário, excetuando o Flamengo, os clubes cariocas sempre tiveram seus preços médios abaixo dos outros centros, sendo a do Fluminense a mais baixa de todas.
    Fico até surpreso em saber que a média de meia-entradas em outros estados ficam apenas entre 5% a 10% e acho que os clubes do Rio de Janeiro deveriam copiar o modelo de fiscalização que é utilizado nestes estados, pois, realmente, esta farra tem que acabar.
    Saudações Tricolores!

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