A Pesquisa da vez: Distrito Federal (nascidos e imigrantes)

Há cerca de um ano, a Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan-DF) terminou um robusto mapeamento sobre o perfil de seus moradores, no âmbito da 3ª PDAD (Pesquisa Distrital por Amostra Domiciliar). Uma das informações presentes era a configuração de torcidas da capital, algo extremamente valioso por conta da escassez de informações do gênero.

À época, o Blog Teoria dos Jogos chegou a publicar algumas parciais. Posteriormente, o mapeamento do Instituto GPP se mostrou mais próximo à realidade, já que a Codeplan-DF parecia concentrar respondentes excessivamente não-consumidores de futebol. De todo modo, os números acabaram parecidos, com a PDAD tendo a vantagem de oferecer cruzamentos inexistente em pesquisas sem o seu escopo.

É o caso do exposto hoje. No dia em que o Flamengo retorna a Brasília em um espetacular Estádio Nacional lotado, apresentamos o perfil das torcidas de capital divididas entre os “nascidos no DF” e os “imigrantes”.

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Qualquer cidade do Brasil poderia refutar a significância de um levantamento do gênero, pois as grandes ondas migratórias se passaram há décadas. Não é o caso de Brasília. Com uma população estimada em 2,7 milhões de habitantes, a sede do governo federal possui, ainda hoje, 1,4 milhão de pessoas que vieram de outros estados (51% do total). Como se fosse outra Brasília inserida nos limites distritais.

O quadro que denota o perfil das torcidas está exposto a seguir. Explanações posteriores ajudarão a compreendê-lo:

Fig 01
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Importante: os números não contemplam o “Nenhum”, ou seja, indicam a configuração entre as torcidas, e não em meio à população total. Razão pela qual todos os percentuais aparecem majorados.

Em meio aos 49% de brasilienses natos (chamados “Naturais do DF”), as maiores torcidas são: Flamengo (52,8%), Vasco (12,2%), São Paulo (7,6%), Corinthians (7%), Botafogo (5,9%), Fluminense (4,8%), Palmeiras (3,8%), Cruzeiro (1,8%) e Santos (1,2%). Atlético-MG, Grêmio e Internacional não atingem 1% da torcida.

Já entre os 51% de imigrantes que integram a sociedade brasiliense, o ordenamento se altera: Flamengo (42,9%), Vasco (12,1%), Corinthians (7,6%), Botafogo e Fluminense (6,3%), São Paulo (5,7%), Palmeiras (4,7%), Cruzeiro (4,6%), Atlético-MG (2,7%), clubes do Norte/Nordeste (1,8%), Santos (1,5%) e Grêmio (1,3%). O Inter fica abaixo de 1%.

Eis um comparativo tão inédito quanto fantástico. O confronto dos dados dá a ideia de como clubes de Minas Gerais, Nordeste e Sul se fazem presentes justamente por conta da existência de populações que deixaram para trás seus estados em busca de uma vida melhor no Planalto Central. E mais: a chegada de imigrantes (especialmente cruzeirenses e atleticanos) se mostra predatória sobre a torcida do Flamengo. Tanto que a maior torcida do Brasil se verifica em escala dez pontos percentuais superior entre brasilienses natos.

Tendo eles relevância, é de suma importância que se isolem os imigrantes, analisando seu perfil de torcidas em separado. As conclusões surpreendem pelas contradições entre a origem dos cidadãos e seus clubes do coração. Possivelmente consequência natural de um processo de inserção às características da sociedade local.

Norte/Nordeste

Os residentes no Distrito Federal oriundos dos estados do Norte/Nordeste são 795,9 mil, representando 56,0% do total de imigrantes. Mas clubes destas regiões atraem a preferência de apenas 2,6% deles. A imensa maioria de nordestinos e nortistas torce para times do Rio (75,6%) – destaque para Flamengo (50,5%) e Vasco (13,4%), seguidos de Botafogo (6,1%) e Fluminense (5,6%). Os imigrantes que apoiam clubes de São Paulo são 19,3%, pontuando Corinthians (7,5%), São Paulo (5,7%) e Palmeiras (4,8%). Mineiros, gaúchos e clubes de outros estados somam 2,5%.

Goiás

Já os nascidos em Goiás somam 184,8 mil e representam 13% dos imigrantes. Mas Goiás, Vila Nova e Atlético-GO atraem meros 3,5% da preferência dos torcedores. A maioria entre os goianos radicados no DF é Flamengo (44,9%), seguida do Vasco (13,0%), Corinthians (7,8%) e Botafogo (7,4%).

Minas Gerais

Um número expressivo de 254,1 mil mineiros se mudou para o DF, o que representa 17,9% do total de imigrantes. É entre eles que temos a maior surpresa: são majoritariamente flamenguistas (27,7%), seguidos de cruzeirenses (22,7%), atleticanos (12,9%) e vascaínos (8,6%). Do universo total de imigrantes – ou seja, somando os de outros estados, Cruzeiro, Atlético-MG e América-MG totalizam 7,4% das preferências.

Rio de Janeiro

Cariocas e fluminenses estão presentes em Brasília na escala de 4,7% do total – o que representa 66,9 mil imigrantes. Entre eles, lógico, prevalecem flamenguistas (47,4%), seguidos de vascaínos (17,1%), tricolores (15,3%) e botafoguenses (12,4%).

São Paulo

Embora haja apenas 50,8 mil imigrantes paulistas (3,6% do total), seus clubes concentram a predileção de 19,5% do universo total de imigrantes – número apenas inferior ao dos cariocas (67,6%). Entre aqueles que vieram de São Paulo, predominam corintianos (28,3%), são paulinos (20,7%), palmeirenses (12,7%) e santistas (8,9%). Mas acreditem: flamenguistas representam 17% deles, suficientes para suplantarem o Verdão e o Peixe.

Rio Grande do Sul

Imigrantes gaúchos são 20,2 mil no DF – ou 1,4% do total. Grêmio (40,7%) e Internacional (34,3%) monopolizam as atenções, embora não se perceba a famosa”blindagem” verificada no estado de origem, pois outras dez grandes agremiações atraem 23% das preferências. Destaque para os flamenguistas (9,8%).

Demais estados

Capixabas – presentas na tabela como “Restante Sudeste” – são flamenguistas (47%), vascaínos (17%) tricolores e botafoguenses (9% cada), números próximos à configuração dos cariocas. No combo Paraná + Santa Catarina (“Restante Sul”), 24,5% são flamenguistas, 10,3% corintianos, 8,9% vascaínos e 6,9% palmeirenses. Por fim, entre os egressos dos dois Mato Grossos “(Restante Centro Oeste”), também predominam torcedores do Flamengo (27,7%). Corinthians (13,0%), Vasco (11,9%) e São Paulo (9,7%) completam o ranking.

O Blog Teoria dos Jogos agradece a contribuição de Daniel Endebo.

Um grande abraço e saudações!

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4 comentários sobre “A Pesquisa da vez: Distrito Federal (nascidos e imigrantes)

  1. Será que podemos atrelar esta “supremacia” rubro-negra entre os imigrantes ao fato de encontrarmos 75% do total de flamenguistas nas classes C,D e E?

    Mais uma vez uma ótima apresentação dos dados e parabéns pela lucidez na abordagem dos mesmos.

    1. Na verdade, os índices obtidos pelo Flamengo na classe A são até maiores que os índices obtidos na classe C, por exemplo, e equiparáveis aos da classe D (não há, até onde sei, classe E).

      Ademais, os índices do Flamengo no DF (52%) são pouco menores que os índices do Flamengo no RJ, usualmente por volta de 55%. E o DF, como se sabe, é a unidade da federação com a maior renda per capita do país.

      Como se fosse pouco, todos os números de vendas de produtos e associações com patrocinadores mostram o valor da marca, que não seria primeira colocada em praticamente tudo se fosse torcida apenas de classe C, D e E (sic).

  2. Isso mostra que a mídia influencia e MUITO na escolha das pessoas.
    Onde já se viu o Flamengo com 17% das preferências dos paulistas e quase 10% da preferência dos gaúchos?
    Isso deveria ser mandado para os dirigentes de clubes gaúchos que vêem seus clubes com apenas 2, 3 partidas transmitidas para estados como SC e não fazem nada.

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