A Pesquisa da Vez: Uberlândia 2015

Localidade: Uberlândia/MG

Instituto: PS Marketing

Amostra: 400 entrevistas, entre 11 e 12 de março de 2015

Margem de erro: 5 p.p

De um tempo para cá, Uberlândia se tornou a cidade brasileira mais frequentemente mapeada no tocante a suas torcidas. Tudo começou em 2008, numa pesquisa elaborada pelo Instituto Veritá e publicada pelo antigo Blog Teoria dos Jogos (do Globoesporte.com). Depois, veio a “era” do instituto PS Marketing. Eles fizeram um estudo em 2011 e outro em 2014, já repercutidos neste espaço. Pouco mais de seis meses depois, voltaram à carga.

Ao contrário dos anos anteriores, desta vez a PS Marketing abriu os recortes por sexo, idade, renda e escolaridade. Mas o que seria boa notícia, infelizmente se tornou motivo de frustração. Tudo por conta da incapacidade do instituto de compilar e analisar suas próprias informações.

Outro esclarecimento importante é que em lugar algum as torcidas se modificam com o passar de meses. Por conta disto, modificações pontuais podem e devem ser atribuídas a movimentos dentro da margem de erro – em se tratando de nada desprezíveis cinco pontos percentuais.

Dito isto, vamos à atualização do perfil da segunda maior cidade do estado de Minas:

Fig 01

O Flamengo nada de braçadas na cidade, apresentando percentual (20%) que representa o dobro da segunda maior torcida, a do Corinthians (10%). Dentro das flutuações de margem de erro descritas, curioso notar que as duas maiores torcidas verificaram quedas idênticas – na casa de três pontos percentuais – desde o ano anterior. O Cruzeiro segue como terceiro maior (8%) e o São Paulo é quarto (7%). Em seguida temos Vasco (6%), Palmeiras (5%), Atlético-MG (4%), Santos (2,5%) e Uberlândia (1,25%). Todas as demais agremiações não ultrapassam a marca unitária. Indivíduos sem time somam importantes 31%.

Por gênero:

Fig 02

Entre os principais consumidores de futebol (indivíduos do sexo masculino) o Flamengo é ainda maior em Uberlândia, monopolizando 22% das preferências. Ainda entre eles, São Paulo e Vasco saltam a 9%, ultrapassando o Cruzeiro (8%) e se equiparando ao próprio Corinthians. O time paulista, aliás, é o único com maioria feminina (10%), algo há muito verificado em nossas análises. Em meio a elas, vascaínas são apenas 2%, um impressionante desequilíbrio de gênero da torcida cruzmaltina. Outro dado importante é a rejeição do futebol entre mulheres em escala duplicada: 42% das uberlandenses do sexo feminino não possuem time, contra 21% dos homens.

Por idade:

Fig 03

Uma das informações mais importantes em análises desta natureza, o perfil das torcidas por faixa etária foi onde a PS Marketing mais pisou na bola – o que denota que nem mesmo pesquisadores sabem lidar com números por eles produzidos. Percebam que na faixa mais jovem, Corinthians e Cruzeiro destoam, cada um com 33% das preferências. Com 17% – exatamente a metade – vem o São Paulo, e só então surge o Flamengo, com 8% (metade da metade). Nas faixas seguintes a coisa muda de figura, com o Flamengo tomando a dianteira inclusive entre jovens. O que teria acontecido?

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O problema começa pelo número excessivo de faixas, sete, algo demasiado em se tratando de uma pesquisa com baixo número de entrevistados. Se dentro de cada faixa a margem de erro é explosivamente maior, o que dizer do primeiro recorte – que inclui entrevistados com idade entre 16 a 17 anos? Enquanto os demais contemplam toda uma geração, com intervalos de oito a dez anos, pouquíssimos foram ouvidos numa faixa (16-17) que representa cerca de 3% da população brasileira. Assim, é praticamente certo que tenham sido apenas doze indivíduos: quatro corintianos e cruzeirenses, dois são paulinos, um flamenguista e um “nenhum”. Infelizmente, nada se pode auferir num universo tão restrito. E o instituto deveria saber disto.

Analisando as demais faixas, flamenguistas são maioria entre jovens e adultos, mas atingem o ápice (31%) entre 36 a 45 anos – a tão falada “era Zico”. O Corinthians cresce à medida com que rejuvenesce, saindo de 3% em meio a idosos para 14% entre 18 e 25 anos. O Cruzeiro é a segunda maior torcida dos 46 aos 55 anos (12%), o São Paulo é vice de 26 a 35 (14%) e o Palmeiras é terceiro entre 56 e 65 anos (8%). De maneira surpreendente, a supremacia acima dos 65 pertence ao Vasco, com 10% das preferências.

Por escolaridade e classes sociais, mais equívocos:

Fig 04

O instituto não explica a diferença entre Fundamental I e II, assim como não diz qual o nível de renda associado a cada uma das (novamente excessivas) classes sociais. O mesmo erro cometido nas faixas etárias pode ser verificado, já que na classe A1, apenas Flamengo, São Paulo e Nenhum aparecem com citações – denotando outro recorte minimalista.

Podendo se auferir tão pouco, o Blog Teoria dos Jogos espera que o instituto PS Marketing melhore suas análises, sob pena de desperdiçar estatísticas tão valiosas.

Um grande abraço e saudações!

E-mail da coluna: teoriadosjogos@globo.com

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Um comentário sobre “A Pesquisa da Vez: Uberlândia 2015

  1. Prezado Vinicius,

    Inicialmente quero agradecer a você pela publicação no Blog Teoria dos Jogos da pesquisa do Instituto PS Marketing sobre torcidas de times de futebol em Uberlândia-MG.

    Aproveito para dizer que concordo com você quando afirma que esta pesquisa, dado ao curto intervalo de tempo em relação à última aferição, seria desnecessária. Como é sabido, é mais fácil o torcedor trocar de religião, de família e de outros vínculos viscerais, que trocar de time de futebol!

    Sobre a margem de erro padrão de 5% para mais ou para menos, com nível de confiança estabelecido de 95,5%, é bom ressaltar que é válida somente para o conjunto da amostra. Assim, quando analisados por cortes obtidos pelos cruzamentos com os estratos, cada dado passa a ter uma margem de erro diferenciada, proporcional à sua representatividade no conjunto da amostra. Isso é válido para qualquer tipo de análise com dados cortes por cruzamento estatístico, independentemente do modo com o qual venha a ser processado.
    Quanto ao modo pelo qual foram feitos os cruzamentos, procuramos dar ênfase a cada componente do perfil da amostra, de modo a evidenciar como estão distribuídos os torcedores nos seus respectivos estratos sociais.

    Destaco que somente esse tipo de processamento estatístico permite demonstrar, por exemplo, como você mesmo o disse, que “42% das uberlandenses do sexo feminino não possuem time, contra 21% dos homens”; que 2/3 dos jovens entre 16 e 17 anos torcem para Corinthians e Cruzeiro; que 51% das pessoas sem instrução não torcem por nenhuma agremiação; e, que metade dos torcedores da classe A1 é flamenguista.

    É bom que saiba que, caso o processamento tivesse sido feito pela média geral, esses dados pertinentes às tendências de comportamento por estrato da amostra, como por exemplo, o posicionamento das pessoas com idade entre 16 e 17 anos passaria totalmente despercebido, dada a sua baixa representatividade diante do conjunto da amostra.

    Sobre a “diferença entre Fundamental I e II”, é o que se segue: o Fundamental 1 incompleto é o mesmo que o primário incompleto (aqueles que estudaram até a 3ª série ou 4º ano do Fundamental); o Fundamental 1 completo é o mesmo que o primário completo (aqueles que estudaram até a 4ª série ou 5º ano do Fundamental); o Fundamental 2 completo é o mesmo que o ginásio completo (aqueles que estudaram até a 8ª série ou 9º ano do Fundamental); o Médio completo é o mesmo que o colegial ou 2º grau completo; e, o Superior completo é o mesmo que o 3º grau completo. Cabe destacar que, pelo critério Brasil de Classificação Social, assim como uma lista de bens e recursos que as pessoas dispõem para uso próprio, o grau de instrução do(a) chefe da família também vale pontos para efeito de enquadramento da classe à qual cada respondente se enquadra.

    Quanto ao “problema com o número excessivo de faixas etárias”, asseguro a você que, nesse caso, é inferior ao número de faixas levantadas pelo IBGE.

    Dito isso, quero mencionar aqui que causou estranheza sua afirmativa de que “a PS Marketing pisou na bola – o que denota que nem mesmo pesquisadores sabem lidar com números por eles produzidos”.

    Principalmente porque as críticas feitas aos cortes apresentados são infundadas, visto que, se fosse outro tipo de processamento, seria impossível evidenciar as características próprias de cada estrato do público pesquisado.

    Atenciosamente,

    José Paulino
    @psmarketing.com.br

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