Arquivos mensais: fevereiro 2016

O ranking das cotas de TV – Estaduais 2016

Por conta das negociações com emissoras interessadas na transmissão do Brasileirão, só se fala em cotas de TV. No entanto, existe um torneio totalmente presente em nossas vidas, casas e aparelhos de TV, para o qual pouco nos atentamos. Tratam-se dos estaduais, cujas renegociações também se encontram em pleno vapor, ainda que envolvam cifras menos polpudas e distorções muito mais injustificáveis do que as geralmente apontadas.

Assim como tantas outras receitas de marketing, os valores pagos pelos estaduais não são fáceis de ser descobertos. Primeiro porque, nos balanços patrimoniais, a maioria dos clubes não discrimina as receitas de televisionamento. Eles classificam-nas como “Cotas de TV” numa conta única, sem separar Brasileirão, estaduais e outros torneios. E eles são muitos: Libertadores, Copa do Brasil, Primeira Liga ou amistosos, todos trazem recursos pagos pela televisão.

Enfim: com base em informações veiculadas na mídia, balanços, orçamentos e borderôs (como os da FERJ, que incluem cotas de TV), este seria o ranking dos quatro principais estaduais do país:

Fig 01

Percebam, em primeiro lugar, a discrepância de valores entre estaduais e o Brasileirão. Embora o nacional dure exatamente o dobro de um estadual (seis meses e vinte dias, contra três meses e dez dias do Carioca), a diferença paga chega, em alguns casos, a mais de dez vezes. Isto sem discrepância nas audiências – com leve tendência (acreditem) aos próprios estaduais: em 2015, dezesseis jogos do Paulista registraram média de 18,5 pontos para a Globo (quem paga a conta), enquanto 38 jogos dos clubes de São Paulo bateram 17,9 pontos no Campeonato Brasileiro.

Em segundo lugar, temos a diferença a favor do Paulista em detrimento dos demais torneios. Aí, parte da explicação reside nas rodadas de negociação: em São Paulo, os valores se referem à última leva de assinaturas*, fechada ao final de 2015 e válida pelos próximos anos. Já no Rio e no Rio Grande do Sul, o último ano do antigo contrato é justamente o atual, com conversas possivelmente iniciadas nos próximos meses. Antes do litígio entre Fla, Flu, FERJ e Primeira Liga, estimava-se para os cariocas algo em torno de R$ 11 milhões, que podem cair pela manutenção das incertezas.

*Estima-se que as luvas tenham ficado na casa dos R$ 20 milhões.

Ainda assim, a primazia de Corinthians, São Paulo, Palmeiras e Santos se manterá. Diferente do Brasileirão – quando a Globo equipara Flamengo e Corinthians – pelos estaduais, os times do estado mais rico se beneficiam da robustez de seu mercado. Isto num torneio transmitido apenas para dentro de suas fronteiras, ao contrário do Carioca – veiculado em outras 14 praças.

Em terceiro, verifica-se a total equiparação dos grandes de um mesmo estadual no rateio da grana. A projeção desta equidade distributiva configura um sonho para a maioria dos clubes envolvidos na gritaria contra a suposta “espanholização”. Seguindo critérios de audiência e número de partidas, Flamengo e Corinthians recebem muito mais do que seus pares no Campeonato Brasileiro. Nos estaduais, não.

Um quarto elemento ainda salta aos olhos. Miudezas à parte, os maiores times do Rio recebem igual aos grandes gaúchos e mineiros. E isto não se dá porque a Globo paga o mesmo, mas porque nestes, os clubes de menor investimento pagam a conta. Enquanto no Rio um pequeno desembolsa até R$ 2,5 milhões (em São Paulo, mais de R$ 3 milhões), no Rio Grande não se aufere mais do que R$ 800 mil. Melhor do que em Minas, onde restam míseros R$ 300 mil para cada agremiação.

Enquanto o foco no Brasileirão recai sobre absurdos bem menos inexplicáveis, a verdade é que as cotas de TV nos Estaduais são aquilo que se convencionou por “samba do crioulo doido”.  Valores baixos, distribuição heterodoxa e equiparação de clubes de porte totalmente diferente.

Que o diga a Ponte Preta, faturando quase igual ao Flamengo…

Um grande abraço e saudações!

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Um risco nada calculado

É amplamente sabido que a crise brasileira possui pouquíssimos precedentes em nossa história. Novidade, neste caso, é a possibilidade dela se abater sobre o mercado do futebol, que nos últimos anos se descolou totalmente dos níveis sofríveis atingidos pelo PIB brasileiro. Outro fato surpreendente são as dificuldades se abaterem sobre aquele que surgiu como principal “trem pagador” dos últimos dois anos: o Flamengo. O problema é que talvez a diretoria tenha subestimado uma importante questão, atrapalhando na delimitação de estratégias para combatê-la.

Partimos do orçamento elaborado pelo clube para 2016 – disponível no site oficial rubro-negro. Logo em seguida, uma planilha elaborada pelo Blog Teoria dos Jogos contendo todas as receitas do clube desde 2009, com base na mesma fonte:

Fig 02

 

Fig 01
Clique para ampliar

 

PS: as receitas 2016 foram orçadas, assim como as relativas a 2015 surgem como projeções, uma vez que as demonstrações financeiras só serão publicadas ao final de abril.

Fica claro que o clube aparentava convicção quanto ao rompimento da tão aguardada barreira dos R$ 400 milhões em receitas. Houve, sim, precauções: quedas pontuais esperadas nos patrocínios, sócio-torcedor, incentivos fiscais e clube social. Mas nada que contrabalanceasse o salto positivo de R$ 70 milhões originário do novo televisionamento. Aguardava-se, portanto, tranquilidade.

O problema é que ninguém passa incólume quando o PIB despenca mais de 4% em dois anos consecutivos – conforme projeções para 2015 e 2016. Assim, o ano na Gávea começou com a perda não reposta de dois patrocinadores importantíssimos: Jeep e Guaravita. Aliada à crise, o desalento dos torcedores impactou no projeto Nação Rubro-Negra de maneira mais intensa do que o desejável.

Entretanto, o elemento que mais tende a depreciar as finanças do Flamengo não tem relação com a bancarrota da economia, e sim com os Jogos Olímpicos. Por isto, pode-se dizer que a diretoria pecou ao subestimar a falta do Maracanã para esta temporada, bem como seu terrível efeito sobre as bilheterias do clube. Vejamos se não.

Num ano que se iniciou com receitas miseráveis em Macaé e Volta Redonda – além de uma ou outra venda de mando de campo na Primeira Liga – a peça orçamentária rubro-negra previu nada menos que a maior receita de bilheteria da história do clube. Isto mesmo: um ano depois de o Flamengo terminar o Brasileirão com 30 mil torcedores de média. Dois anos depois do título carioca. Três anos após a conquista da Copa do Brasil, numa final cuja arrecadação foi a segunda maior da história do futebol brasileiro. Depois de todos estes anos com Maracanã, o recorde viria em 2016?

Uma projeção mais conservadora nos traria os seguintes números:

Fig 03

Algo em torno de R$ 370 milhões manteriam a trajetória ascendente e superariam o ano anterior em pouco mais de R$ 20 milhões. Mas com perdas líquidas de R$ 50 milhões, se considerarmos o boom do televisionamento. Assim, é real a chance do Flamengo ter seu faturamento ultrapassado pelo Corinthians, principalmente depois do alvinegro faturar R$ 71,6 milhões apenas com a venda de jogadores. Isto sem contar os mais de R$ 70 milhões projetados pelos paulistas com bilheterias, já que as mesmas seguem direto para o fundo de investimentos responsável pelo pagamento da Arena.

É lógico que ainda estamos em fevereiro e tudo pode mudar. Mas num ano sem Maracanã, toda salvação aparece indissociável dos bons resultados, que alavancariam premiações, venda de jogadores e mandos de campo, número de associados e o preço das propriedades. Deste modo, o Flamengo dos muitos investimentos – Muricy, Guererro, argentinos e colombianos – parece não ter mais direito de errar dentro das quatro linhas. Sob pena de chafurdar diante do atoleiro maestralmente arquitetado nas cercanias do Planalto Central.

Um grande abraço e saudações!

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Um crime contra o futebol

 

Fig 01

Sim, nos referimos aos 537 pagantes (1.116 presentes) da partida Fluminense x Bonsucesso, vencida pelo Tricolor por 4 x 0 ontem, na cidade de Volta Redonda. Já virou lugar-comum vociferar quanto à insanidade de um campeonato de primeira divisão, com grande clube envolvido, ser jogado mediante tão pífias testemunhas. Mas existe a necessidade de interpretar as razões do ocorrido, já que apenas uma delas se refere àquilo contra o qual o torcedor se acostumou a bradar.

É óbvio e evidente: a maior parte da culpa recai sobre a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro, maquiavélica entidade que ignora o desenvolvimento do futebol carioca através do despotismo de dirigentes e aliados. Desde que o número de participantes do Estadual subiu para dezesseis – como forma de agradar apadrinhados – o evento deixou de merecer a alcunha de “espetáculo”. Retaliações contra afiliados que se insurgem contra imposições esdrúxulas e antidemocráticas coroam o estado das coisas. Sendo o Tricolor um dos maiores prejudicados, natural que o interesse de sua torcida pela competição desabe ainda mais.

A homérica culpa da FERJ, entretanto, termina aí. Restando o mau momento (duas derrotas antes da vitória de ontem) e uma avaliação equivocada da diretoria quanto à demanda por partidas de futebol que envolvam o clube.

Explica-se.

Com a entrega do Maracanã aos Jogos Olímpicos, o Fluminense novamente se viu alijado de um local ao longo da temporada 2016, escolhendo o Estádio Raulino de Oliveira (Volta Redonda) como lar. Embora não seja a primeira sequência do clube na cidade, a experiência anterior deveria tê-lo demovido da ideia. Tendo cerca de 9% da torcida de uma cidade de 260 mil habitantes (núcleo de uma mancha urbana de 450 mil), o Flu aparece com time de menor apelo local, segundo mapeamento recém promovido pelo Blog Teoria dos Jogos. Sempre considerando a margem de erro, trata-se de uma retração na ordem de 30% com relação ao verificado na capital, ou mesmo em outras regiões do interior fluminense. É nessas horas que pesquisas precisam ser consideradas.

Mediante demanda escassa, nada pode ser mais avassalador do que o excesso de exposição. Foi o que aconteceu em apenas sete dias, quando o Fluminense jogou nada menos que três vezes no mesmo estádio. Na primeira ocasião, tratava-se da primeira partida oficial do ano – estreia na Primeira Liga. Mas os excelentes 7.012 pagantes só aconteceram porque os ingressos foram trocados por 1 kg de alimento não perecível. De volta à realidade, quatro dias depois o Flu perdeu para os donos da casa na única em que não foi o mandante. Os 1.531 pagantes de domingo, então, se tornaram os 537 de ontem.

Seja pela falta de craques, competência ou atrativos, o fato é que no futebol do Brasil, geralmente a demanda reprimida se sacia já na primeira visita. Exemplo disso reside no arquirrival, Flamengo, detentor de torcida bem maior e desabrigado nas mesmíssimas ocasiões. Em 2013, o Rubro Negro recorreu a Juiz de Fora, vencendo o Campinense pela Copa do Braisl diante de 18.211 torcedores. Duas semanas depois, regressou e perdeu para a Ponte Preta à frente de apenas 8.932 pagantes. Passou, então, a recorrer a Brasília. Numa sequência de cinco jogos, viu seu público minguar de 63.501 (Santos 0 x 0 Flamengo) para 12.511 (Fla 1 x 1 Portuguesa).

Diante do exposto, resta ao Fluminense excursionar, mesmo que dentro do próprio estado. Cada nova localidade – seja Edson Passos ou Claudio Moacyr – apresenta níveis mínimos de demanda reprimida que Volta Redonda não mais possui. Fora do Rio, a própria Juiz de Fora surge como ótima anfitriã num processo de “visitas únicas” que pode ainda passar por Cariacica (ES) e Brasília.

Quanto ao prejuízo esportivo pela falta de um real mando de campo? Este entra no pacote de não se possuir estádio próprio…

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Uma informação valiosa

Para o Blog Teoria dos Jogos, um deleite. Habituados a trazermos informações de renda e público até nossa audiência, sempre nos vimos tolidos pela inexistência de estatísticas desta natureza fora do território nacional – ou pelos casos internos em que cai a obrigatoriedade. Pois no fim de semana que passou (e possivelmente apenas nesta ocasião), deu-se fim a um incômodo segredo.

No Brasil, a coisa vai além da mera obrigação legal regida pelo artigo 7º do Estatuto do Torcedor. É tradição o momento em que o locutor ou o telão do estádio anunciam os números relativos à renda e ao público das partidas de futebol. Tanto é que a Lei 10.671/2003, acima citada, exige apenas que eles sejam revelados pelos “serviços de som e imagem” do estádio. A posterior divulgação de borderôs completos nos sites da CBF ou das Federações vem apenas agregar aos nossos transparentes (e surpreendentes) hábitos.

Regidos por outros códigos de leis e costumes, lá fora as coisas são diferentes. Sempre se soube que uma partida de futebol na Europa movimenta milhões. Com estádios lotados e modernos (ou, no mínimo, bem conservados), a bilheteria acaba sendo fatia de todo um universo de fontes de receitas envolvidas naquilo que se convencionou por match day. Ainda assim, uma importantíssima fatia. Em que montante, afinal?

Pois ela foi divulgada. Saiu nas contas de Twitter de jornalistas e veículos que cobriam o clássico entre Milan e Internazionale, vencido pelos rubro-negros no San Siro:

Fig 01

Um total de 77.043 pagantes (sendo 19.504 associados) proporcionaram renda de € 3.924.812,20, o equivalente a inimagináveis R$ 16.915.940,58 – pela cotação de ontem. Dinheiro suficiente para suplantar a maior renda da história do futebol brasileiro, pouco superior aos R$ 14 milhões. O ticket médio do Derby della Madonnina ficou em € 42,76 (R$ 184,32), com associados pagando € 23,16 (R$ 99,83) e torcedores comuns, € 49,41 (R$ 212,96) em média.

Se considerássemos as características das economias de Brasil e Itália em termos nominais, perceberíamos um ingresso por lá bastante alinhado com que o se verifica aqui. Italianos possuíam, ao final de 2014, renda per capita 3 vezes maior que a brasileira – com tendência a atingir o quádruplo, graças à queda do PIB e à maxidesvalorização do Real em 2015.

Um indicador mais apropriado, contudo, aponta para uma análise baseada na paridade do poder de compra. Segundo ela, a diferença entre as rendas auferidas por italianos e brasileiros seria de 2,19 vezes – dados do Banco Mundial. Significa que o ticket médio do clássico milanês teria batido à casa dos R$ 84 – ainda assim, um valor verificado por estas bandas. A título de comparação, a partida Corinthians 1 x 0 XV de Pìracicaba, pela 1ª rodada do Campeonato Paulista 2016, recebeu 31.309 pagantes, com renda de R$ 1.643.455,00 e ticket de R$ 52,49.

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