Um crime contra o futebol

 

Fig 01

Sim, nos referimos aos 537 pagantes (1.116 presentes) da partida Fluminense x Bonsucesso, vencida pelo Tricolor por 4 x 0 ontem, na cidade de Volta Redonda. Já virou lugar-comum vociferar quanto à insanidade de um campeonato de primeira divisão, com grande clube envolvido, ser jogado mediante tão pífias testemunhas. Mas existe a necessidade de interpretar as razões do ocorrido, já que apenas uma delas se refere àquilo contra o qual o torcedor se acostumou a bradar.

É óbvio e evidente: a maior parte da culpa recai sobre a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro, maquiavélica entidade que ignora o desenvolvimento do futebol carioca através do despotismo de dirigentes e aliados. Desde que o número de participantes do Estadual subiu para dezesseis – como forma de agradar apadrinhados – o evento deixou de merecer a alcunha de “espetáculo”. Retaliações contra afiliados que se insurgem contra imposições esdrúxulas e antidemocráticas coroam o estado das coisas. Sendo o Tricolor um dos maiores prejudicados, natural que o interesse de sua torcida pela competição desabe ainda mais.

A homérica culpa da FERJ, entretanto, termina aí. Restando o mau momento (duas derrotas antes da vitória de ontem) e uma avaliação equivocada da diretoria quanto à demanda por partidas de futebol que envolvam o clube.

Explica-se.

Com a entrega do Maracanã aos Jogos Olímpicos, o Fluminense novamente se viu alijado de um local ao longo da temporada 2016, escolhendo o Estádio Raulino de Oliveira (Volta Redonda) como lar. Embora não seja a primeira sequência do clube na cidade, a experiência anterior deveria tê-lo demovido da ideia. Tendo cerca de 9% da torcida de uma cidade de 260 mil habitantes (núcleo de uma mancha urbana de 450 mil), o Flu aparece com time de menor apelo local, segundo mapeamento recém promovido pelo Blog Teoria dos Jogos. Sempre considerando a margem de erro, trata-se de uma retração na ordem de 30% com relação ao verificado na capital, ou mesmo em outras regiões do interior fluminense. É nessas horas que pesquisas precisam ser consideradas.

Mediante demanda escassa, nada pode ser mais avassalador do que o excesso de exposição. Foi o que aconteceu em apenas sete dias, quando o Fluminense jogou nada menos que três vezes no mesmo estádio. Na primeira ocasião, tratava-se da primeira partida oficial do ano – estreia na Primeira Liga. Mas os excelentes 7.012 pagantes só aconteceram porque os ingressos foram trocados por 1 kg de alimento não perecível. De volta à realidade, quatro dias depois o Flu perdeu para os donos da casa na única em que não foi o mandante. Os 1.531 pagantes de domingo, então, se tornaram os 537 de ontem.

Seja pela falta de craques, competência ou atrativos, o fato é que no futebol do Brasil, geralmente a demanda reprimida se sacia já na primeira visita. Exemplo disso reside no arquirrival, Flamengo, detentor de torcida bem maior e desabrigado nas mesmíssimas ocasiões. Em 2013, o Rubro Negro recorreu a Juiz de Fora, vencendo o Campinense pela Copa do Braisl diante de 18.211 torcedores. Duas semanas depois, regressou e perdeu para a Ponte Preta à frente de apenas 8.932 pagantes. Passou, então, a recorrer a Brasília. Numa sequência de cinco jogos, viu seu público minguar de 63.501 (Santos 0 x 0 Flamengo) para 12.511 (Fla 1 x 1 Portuguesa).

Diante do exposto, resta ao Fluminense excursionar, mesmo que dentro do próprio estado. Cada nova localidade – seja Edson Passos ou Claudio Moacyr – apresenta níveis mínimos de demanda reprimida que Volta Redonda não mais possui. Fora do Rio, a própria Juiz de Fora surge como ótima anfitriã num processo de “visitas únicas” que pode ainda passar por Cariacica (ES) e Brasília.

Quanto ao prejuízo esportivo pela falta de um real mando de campo? Este entra no pacote de não se possuir estádio próprio…

Um grande abraço e saudações!

E-mail da coluna: teoriadosjogos@globo.com

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4 comentários sobre “Um crime contra o futebol

  1. Em se tratando de Fluminense você é um semianalfabeto, se conhecesse o clube saberia perfeitamente que a nossa torcida talvez seja a de maior nível cultural entre todas no Brasil, por conseguinte a mais politizada.
    Por conta disto, estes atos ditatoriais do Sr. Rubinho “Miranda” contra a nossa agremiação jamais passariam incólume e a nossa resposta é esta aí, privilegiar a Primeira Liga e boicotar o Estadual, mesmo que com isto estejamos prejudicando nosso querido Tricolor.
    Acatamos o pedido de boicote feito pelos blogs tricolores, talvez mudemos de posição mais a frente, mas por enquanto esta é a nossa resposta a este ditador de araque.
    Saudações Tricolores!

  2. “…levando aos ridículos 537 pagantes da noite de ontem”. Fui ao jogo, e não me considero ridículo. Torci para meu querido Bonsucesso. Aliás, gostaria que vocês fizessem uma pesquisa de torcida por bairros do Rio levando em consideração os times locais.

  3. O Fluminense deveria tentar jogar em Laranjeiras e como provavelmente não vai conseguir, ajeitar algum estádio do subúrbio carioca. Teríamos um público de 3 ou 4 mil, mas sempre com estádio lotado e pulsando…

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