Arquivos mensais: Março 2016

Tudo sobre audiências – parte 1: O catapultar dos números em clássicos

Fig 01

Em tempos de renegociações envolvendo clubes e emissoras, ganhou importância o debate acerca das audiências como elemento balizador dos repasses. Para o leitor do Blog Teoria dos Jogos, não é nenhuma novidade acompanhar este tipo de análise por aqui. Já o fizemos em diversas outras ocasiões, afinal. No entanto, desta vez decidimos ir além: estudar esta questão sob diferentes óticas, junto a informações pouco conhecidas do grande público.

A série “Tudo sobre audiências“ será assim dividida:

Parte 1: O catapultar dos números em clássicos

Parte 2: Os campeões de audiência 2015

Parte 3: As audiências da Band

Parte 4: As maiores audiências RJ e SP

Parte 5: Audiências em queda: verdade ou mentira?

Todas as colunas vão se referir às audiências do futebol em TV aberta. Embora não sejam necessariamente consecutivas, toda vez que alguma delas for publicada, será linkada às anteriores, servindo como banco de dados para consultas de quem se interessar pelo tema.

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Há duas semanas, a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro divulgou a tabela da Taça Guanabara, contendo informações que apenas o olhar mais atento percebeu. Aos dois clássicos do Estadual 2016 que já foram televisionados em TV aberta (Flamengo x Vasco e Botafogo x Fluminense), a  tabela incluiu mais três: o Fla x Flu do Pacaembu, Vasco x Botafogo e Flamengo x Vasco. Isto faz com que sejam cinco os clássicos veiculados pela TV Globo para grande parte do Brasil (ou todo ele, via parabólicas), sem contar com as partidas decisivas do campeonato – muito provavelmente, novos clássicos.

Trata-se do maior número de grandes jogos do Carioca em TV aberta nos últimos tempos. Em 2013, apenas três clássicos foram transmitidos, todos decisivos. Em 2014, foram cinco – mas ao contrário do ano anterior, o Carioca não terminou por antecipação. No ano passado, em seis ocasiões tivemos embates de gigantes veiculados nestas mesmas condições.  Já em 2016, caso nenhum pequeno estrague a festa, podem ser até nove clássicos.

O ineditismo no número de clássicos televisionados inclui o Campeonato Paulista, onde historicamente houve mais jogos do tipo na TV (visando maiores audiências na cidade-sede do mercado publicitário). E é justamente esta a razão encontrada para tal mudança na programação da TV: as diferenças brutais de audiências entre “jogos comuns” e clássicos.

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No Campeonato Carioca 2016, dos onze jogos transmitidos até aqui, oito foram não-clássicos, com média de 20,7 pontos de audiência e 40% de share. Os três clássicos alcançaram 26,6 pontos e 50%. No Paulistão 2016, foram apenas nove jogos, dada a concorrência da Libertadores. Sete não-clássicos atingiram média de 20,6 pontos e 39% de participação. Os dois clássicos marcaram 27 com 49%. Todos os números consideram a soma das audiências de Globo e Bandeirantes.

Em retrospectiva, números parelhos. No Brasileirão 2015, o Rio assistiu a apenas três clássicos, com média de 26 pontos com 53%. Outros 36 jogos envolveram Fla, Flu, Vasco ou Bota contra outras agremiações, marcando 21,7 pontos e 42%. Em São Paulo, quatro clássicos com média de 24 pontos e 45%. Os 34 não-clássicos atingiram 22,5 pontos e 42%.

No Carioca 2015, foram seis clássicos, 28,3 pontos de audiência e 54% de participação. Treze não-classicos, 20,7 pontos e 40%. No Paulista 2015, sete clássicos com 28,3 pontos e 52%. Nove não-clássicos, 19,3 pontos e 38% de share.

No Brasileirão 2014, dois Fla-Flus proporcionaram 25,5 pontos e 53%. Trinta e sete não clássicos marcaram 19,7 pontos com 40%. Em Sampa, seis clássicos, 24,5 pontos e 49% de share. Trinta e dois não-clássicos alcançaram 21,1 pontos e 42%.

Por fim, os Estaduais-2014. No Rio, os cinco clássicos marcaram 25 pontos e 53%. Os onze não-clássicos, 17,7 pontos e 40%. Já em São Paulo, cinco clássicos, 25,6 pontos e 49%. Quatorze não-clássicos, 21,1 pontos e 43%.

Temos aqui uma amostra robusta: 244 jogos. E um veredicto: clássicos proporcionam audiência e share aproximadamente 25% superior aos jogos normais. Em números absolutos, isso representaria algo como 5,5 pontos e 10% de share adicional. Uma enormidade, se considerarmos que cada ponto de audiência representa 69 mil domicílios em São Paulo e 43 mil no Rio. Se o mercado precifica em muitos milhões cada ponto adicional – razão pela qual pagava tão mais a determinados times – imaginem o valor de mercado de um dérbi envolvendo grandes e apaixonadas torcidas.

Portanto, como já foi dito, esta seria uma razão para o aumento no número destes duelos na TV carioca. Trata-se de um processo que, mesmo já corriqueiro, tende também a se intensificar em São Paulo, à medida com que aumenta a concorrência com a cada vez mais diversificada TV fechada. Existem elementos limitadores, como bloqueios de transmissão para a própria praça. Mas é provável que nos futuros contratos estas cláusulas também se flexibilizem.

Um grande abraço e saudações!

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Todos saíram ganhando (Análises variadas sobre o Fla x Flu)

Fig 01

Talvez o torcedor surja como parte mais frustrada pelo decepcionante 0 x 0 entre Flamengo e Fluminense, jogado em plena cidade de São Paulo na tarde de ontem. Mas até estes foram vistos orgulhosos, ostentando suas cores em ambientação tão peculiar. A torcida do Flamengo, especialmente (e como se fosse necessário), provou mais uma vez seu potencial de encher qualquer estádio do Brasil. Este não foi, entretanto, o único sentido no qual o Fla x Flu do Pacaembu foi um sucesso.

Fig 02

Para o estádio, foi uma oportunidade de ouro. Relegado após a construção de duas arenas de ponta na cidade (Allianz Parque e Arena Corinthians), o Paulo Machado de Carvalho vinha recebendo pouquíssimas partidas. No ano passado, a falta de eventos foi tamanha que chegou-se a cogitar sua utilização em partidas de futebol de várzea. Com o Fla x Flu, o estádio não só ganhou vida como importantes recursos para sua manutenção. Tanto o público pagante de 28.727 quanto a renda de R$ 1.374.375,00 ocupariam a quarta posição no ranking do Campeonato Paulista 2016. A primeira, caso fossem desconsiderados três jogos na Arena Corinthians.

Fig 03

Já a poderosa mídia paulistana nunca havia dedicado tanto espaço para times do Rio. Além da cobertura da partida em si, o Fla x Flu rendeu um sem número de crônicas e análises que denotam o olhar curioso dos paulistanos (Leia algumas clicando aqui, aqui e aqui). Quase 24 horas após o fim do embate, matérias seguiam no top-5 das mais lidas e comentadas da Folha de S.Paulo. Reflexo do orgulho paulistano de se provarem cosmopolitas, com potencial para receber eventos de qualquer natureza.

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Desde o estádio revigorado, até os clubes superexpostos na sede do mercado publicitário, passando por curiosos pela configuração impensavelmente mista, sorriram todos naquela belíssima e azulada tarde de domingo.

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O Blog Teoria dos Jogos, presente ontem ao Fla x Flu, não tem por hábito realizar análises de match day que não envolvam arenas. Ainda assim, houve exceções – como a final da Copa América entre Chile e Argentina, no Estádio Nacional de Santiago. Segue então um breve resumo analítico e fotográfico do evento, para os muitos que ainda não conhecem o charmoso estádio.

Fig 04

Absurdamente bem localizado, o Paulo Machado de Carvalho é um estádio encrustado em área nobre entre a região central e a zona oeste da capital paulista. Relativamente próximo ao metrô, sua acessibilidade se torna plena também pela presença de importantes avenidas no seu entorno, como a Dr. Arnaldo, a Av. Pacaembu ou mesmo a Rua da Consolação e a Av. Paulista. Estacionar, entretanto, não é tão fácil nas ruas estreitas de seu entorno imediato.

Fig 05

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Em meio às mansões do bairro, o estádio é praticamente encaixado em um vale, sendo acessado pelo alto em diversos pontos (como no Tobogã ou nas cadeiras de cor laranja). Tombado pelo patrimônio histórico, quase nenhuma modificação substancial é permitida, o que fará do Pacaembu um eterno representante da old school e dos tempos pré-Maracanã, quando se impôs como maior estádio do Brasil.

Fig 07

Se tudo isto contribui com charme, por outro lado o Pacaembu se encontra bastante deteriorado, com cadeiras em mau estado, banheiros insuficientes e cabines químicas em alguns setores. As filas do lado de fora eram enormes (embora tenham fluído rápido), reflexo das poucas roletas. Em diversos lugares, torcedores se sentam diretamente no concreto, como se estivessem em um estádio 20 ou 30 anos atrás.

Fig 08

Em termos de visibilidade e conservação do gramado, absolutamente nada a reclamar. Na contramão do resto do país, a cerveja segue proibida no estado de São Paulo. Como compensação, em dias sem jogo o estádio possui um bar em funcionamento, anexo ao maior de todos atrativos: o Museu do Futebol. Outro resquício de modernidade é o pequeno placar eletrônico que expunha o nonsense do “Carioca 2016” a lado do símbolo da Prefeitura de São Paulo.

Fig 09

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Algumas curiosidades sobre o boletim financeiro do Fla x Flu, divulgado ao final da tarde de hoje:

Da renda total de R$ 1.374.375,00, os clubes levaram pra casa, juntos, R$ 692,951,42 (50%);

Este valor não foi maior porque conta da necessidade de 15% de repasses às Federações: 10% à FERJ (R$ 135 mil) e 5% à FPF (68 mil).  O total de despesas, aliás, foi alto: R$ 681.423,53;

Fla e Flu ficaram, cada um, com R$ 346.475,73. Mas sobre o valor rubro-negro incidiram R$ 51.971,36 de penhoras;

Foram devolvidos (não utilizados) 464 “ingressos promocionais” (cortesias), o que talvez explique algumas cadeiras vazias no setor manga, um dos muitos que tiveram seus ingressos esgotados;

De um total de pouco mais de 10 mil ingressos disponibilizados para a torcida do Fluminense no Tobogã, apenas 2.828 foram adquiridos. Por exclusão, cerca de 25 mil pagantes eram flamenguistas, além de alguns “neutros”.

Um grande abraço e saudações!

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EXCLUSIVO: a operação do Fla x Flu no Pacaembu

Fig 01
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Tida e havida como habitué na arte de recepcionar grandes eventos, São Paulo vai vivenciar, no próximo domingo, um episódio raro. Pela segunda vez em 114 anos de futebol na capital* (desde o início do Paulista) – a cidade receberá o Fla x Flu, um dos maiores clássicos do Brasil e do mundo, além de orgulho do vizinho e “concorrente” Rio de Janeiro.

*A primeira foi em 1942, terminando em 0 a 0, em jogo válido pelo torneio Quinela de Ouro

A notícia foi confirmada na última sexta-feira, desde que arrefeceram as tensões envolvendo a dupla e a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro. Assim, a capital paulista entrou para o rol de cidades que vem recepcionando clássicos cariocas – ao lado de Volta Redonda, Cariacica e Brasília – já que tanto Maracanã quanto Engenhão se encontram entregues ao Comitê Olímpico Internacional.

Muito se falou a respeito da operação deste clássico, com especulações acerca da venda do mando de campo e do pagamento de cotas fixas para os envolvidos. Não será assim. Flamengo e Fluminense vão operar a partida normalmente, compartilhando lucros na exata medida da venda de ingressos. Por parte das diretorias, a expectativa é a melhor possível: algo em torno de 35 mil pagantes, conforme nos confidenciou Bruno Spindel, diretor de marketing do Flamengo. A carga máxima será pouco superior a 37 mil ingressos.

Se depender dos preços, as torcidas não serão afugentadas. Sem intermediários, não houve necessidade de majorações irrealistas, como no último jogo do rubro-negro em Brasília. Assim, os valores estarão alinhados aos que ocorriam nas operações mais recentes do Pacaembu. Preços até um pouco inferiores aos verificados em muitas arenas:

Tobogã (Fluminense): R$ 50 (meia entrada a R$ 25)

Setores verde e amarelo (Flamengo): R$ 50 (meia entrada a R$ 25) – Se esgotados, abrem os portões 21 e 22;

Setor laranja (misto): R$ 60 (meia entrada a R$ 30)

Setor manga (misto): R$ 80 (meia entrada a R$ 40)

Setor azul numerado (misto): R$ 100 (meia entrada a R$ 50)

Eis aí principal novidade: um Pacaembu majoritariamente misto, tendo apenas os setores atrás dos gols como específicos a rubro-negros e tricolores. Trata-se de uma enorme transgressão à cultura de se espremer visitantes em “chiqueirinhos” nos clássicos. Diferente do Rio, em que um Maracanã misto (ainda que dominado por esta ou aquela torcida) já faz parte das tradições da cidade.

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A este “toque carioca” em pleno solo paulistano, outras questões interessantes serão avaliadas – como o percentual de meias entradas que será vendido. No Rio, estes ingressos constituem ampla maioria das vendas, numa processo de conivência quanto ao usufruto de direitos previstos em lei. Em São Paulo, as coisas costumam ser diferentes.

Cabe, portanto, aguardar pela confirmação ou frustração de expectativas. Na opinião do Blog Teoria dos Jogos, um Pacaembu à meia capacidade já seria uma surpresa positiva, dados os 2,5% de flamenguistas e menos de 0,5% de tricolores residentes em São Paulo. Mas o efeito-novidade jogaria a favor, atraindo muitos curiosos. Aliado a isto, a vinda de torcedores de todo o estado de São Paulo poderia até mesmo duplicar a demanda potencial. Por fim, teremos uma movimentada ponte aérea e inúmeros torcedores vindos do Rio e outros estados por vias rodoviárias.

Tende a ser um domingo animadíssimo.

Um grande abraço e saudações!

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Tamanho não é documento

Não é de hoje que os rankings envolvendo projetos de sócio-torcedor se tornaram uma coqueluche. Fogueira sobre a qual se jogou combustível quando a Ambev, na figura do seu “Movimento por um Futebol Melhor”, passou a disponibilizar seu Torcedômetro. Desde então, a discussão do “meu é maior do que o seu” tomou conta das mesas de bares – reais ou virtuais.

As atualizações mais sofisticadas incluem também os europeus – modo de se auferir os clubes com maior quantidade de sócios do mundo. A última publicação a fazê-lo foi a Máquina do Esporte, a quem pedimos licença para reproduzir o ranking na íntegra:

Fig 01

Mas também não é de hoje que o Blog Teoria dos Jogos alerta para o fato de, no tocante aos projetos associativos, tamanho não ser documento. Foi o que concluímos há dez meses, através da coluna “Sócio-Torcedor: quem fatura mais? Uma análise definitiva”. À época, dissemos que o ticket médio do projeto Nação Rubro-Negra, três vezes superior ao Fiel Torcedor, tornavam necessários 150 mil corintianos para equivalerem ao que o Flamengo arrecadava*. Verdadeiramente, a ótica mais importante.

*Proporção que começa a se aproximar, dados os 132.483 sócios alcançados pelo Corinthians, contra 60.143 do Flamengo (08/03/2016)

Trata-se de uma questão cuja pertinência é comprovada na comparação internacional. Foi o que fez o amigo Benny Kessel, do Blog Balanço da Bola, em coluna publicada no site Mundo Rubro Negro. Em análise sobre o Relatório de Gestão 2014/2015 dos portugueses do Benfica (antigos líderes do “ranking mundial”, atuais terceiros colocados), o colunista descobriu os seguintes elementos:

“– Do total de valores pagos pelos sócios-torcedores do Benfica, apenas 25% são transferidos para o clube;

– O clube obteve como rendimento 2,6 milhões de euros líquidos;

– A receita com sócios-torcedores representa 3% das receitas recorrentes com futebol (não considera venda de direito de atletas).

– Pelas demonstrações contábeis do Flamengo em 2014, do montante arrecadado com STs (R$ 30,4 milhões), o clube fica com R$ 21,9 milhões, ou seja, 75% do total, repassando 25% para a operadora do programa. No Benfica a relação é inversa, 75% para a operadora, 25% para o clube;

– Com o seu programa em 2014, o Flamengo obteve R$ 21,9 milhões de reais líquidos, valor que, em 31/12/2014 correspondia a 6,8 milhões de euros, quase 3 vezes mais do que o obtido pelo Benfica;

– As receitas líquidas do Flamengo representaram 7,7% do total das receitas recorrentes com futebol em 2014, 10,7% se considerarmos as receitas brutas. Bem mais do que os 3% apurados pelo Benfica.”

 De onde concluiu:

“Pelo menos em lucros obtidos com o programa, o Benfica não tem muito a ensinar ao Flamengo.”

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Nem ao Flamengo, nem a muitos dos nossos gigantes – como Corinthians, Palmeiras, Internacional, Grêmio e Cruzeiro. Todos capitalizando com seus projetos em níveis inéditos, independente da diferença no preço médio ou nos benefícios oferecidos por um ou outro.

Por tudo isto – e apesar dos inúmeros pesares – é pertinente que tratemos nosso recorrente complexo de vira-latas. Há, por aqui, profissionais sérios, capacitados e iniciativas de marketing de sucesso. O desafio é difundi-las a todos os clubes, bem como torná-las sustentáveis. Fugindo das intempéries típicas do universo futebol, como o sucesso apenas nas boas fases.

Um grande abraço e saudações!

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O Mapa do Televisionamento dos Estaduais 2016

Alguns anos após introduzir este conceito no cenário econômico e futebolístico, o Blog Teoria dos Jogos retoma seu mapa do televisionamento do estaduais, versão 2016. Trata-se de um levantamento acerca dos estaduais que são veiculados, detalhando para onde e qual percentual do PIB e da população cada um está exposto. Os números se referem apenas à TV aberta e à divisão de praças da Globo, detentora dos direitos de transmissão. A Bandeirantes, emissora licenciada, obedece às regras impostas por aquela, gerando um alinhamento na maioria dos estados.

Antes de trazermos os números, alguns esclarecimentos se fazem necessários. Estamos diante de um levantamento que foi “facilitado” ao longo dos anos, dada a simplificação na distribuição dos estaduais. Anteriormente, praças que não possuíam certames próprios se dividiam entre os do Rio e de São Paulo – com larga vantagem para os primeiros. Nos últimos anos, o Paulistão deixou de ser veiculado para lugares como Tocantins (que se voltou ao Rio), Mato Grosso e Mato Grosso do Sul (estaduais próprios).

Mas as baixas não são exclusividade do Campeonato Paulista. A última “dissidência” verificada se deu em Alagoas, há dois anos, quando o Campeonato Alagoano passou a ser assistido em detrimento do Carioca. Também ocorrem exceções, como no fim de semana em que a Globo Brasília optou por receber o sinal de São Paulo. Ainda assim, a hegemonia do Rio é incomparável: enquanto quinze unidades federativas alinham consigo, o Paulista hoje é visto apenas em seu estado de origem. Equiparando-o a outros onze torneios: Mineiro, Baiano, Gaúcho, Paranaense, Pernambucano, Cearense, Catarinense, Goiano, Alagoano, Mato-Grossense e Sul Mato-Grossense.

Feitas as ressalvas, vamos aos números:

Fig 01

 

Fig 02

Tamanha difusão torna natural a preponderância do Campeonato Carioca Brasil adentro. Somados, os quinze estados que o assistem representam 29,61% da população nacional. Exposto para 44 milhões de pessoas, o Paulistão possui abrangência de 21,72%. Mas o poderio econômico faz com que a balança se reverta a favor de São Paulo sob a ótica do PIB. Semanalmente, as marcas de Corinthians, São Paulo, Palmeiras e Santos são divulgadas para o equivalente a 32,13% do Produto Interno Bruto. Os 60 milhões de brasileiros voltados aos times do Rio representam 27,14% da economia brasileira.

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Numa comparação entre os dois principais estaduais, percebemos o Paulista com potencial de renda 18% superior ao Carioca. No entanto, há uma semana expusemos que a diferença que a Globo paga por ambos é muito superior. Estima-se que nas negociações pelo Carioca-2017, Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo possam auferir entre R$ 11 milhões e R$ 12 milhões cada um. O que faria o quarteto carioca assistir aos paulistas embolsarem no mínimo 40% a mais.

Ainda em termos comparativos, viajemos à era pré-Teoria dos Jogos.  Em 2011, descobrimos que este blogueiro já compilara um mapa do televisionamento, publicando-o no blog Olhar Crônico Esportivo, do amigo Emerson Gonçalves. Naquele tempo, o Carioca era veiculado para 30,6% da população (0,99 ponto percentual a mais do que hoje) e 26,97% do PIB. Ou seja, ainda que marginalmente, pode-se dizer que o Estadual do Rio cresceu 0,17 p.p em valor – o que não corre com o Paulista. Nestes cinco anos, os clubes de São Paulo verificaram queda de 3,51 p.p na população e 4,23 p.p no PIB para o qual se expõem. Tratam-se de reduções acentuadas.

Após São Paulo e Rio, a ordem dos estaduais sob a ótica do PIB nos brinda com os Campeonatos Mineiro (9,16%), Paranaense (6,26%), Gaúcho (6,23%), Catarinense (4,03%) e Baiano (3,84%).

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O faroeste envolvendo a Globo e o Esporte Interativo

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Todos sabem que a Globo é a maior rede de televisão do Brasil e uma das maiores do mundo. Primando por excelência, além de dominar o entretenimento e o jornalismo, sempre coube a ela ditar as regras no tocante ao televisionamento do futebol. Simplesmente porque nunca teve concorrentes à altura, econômica ou estruturalmente, para sentir-se ameaçada em seu reinado. Assim, esteve nas mãos da Globo a transmissão e exploração do futebol brasileiro em suas diferentes mídias: TV aberta, fechada, pay per view, mobile e internet.

Já o Esporte Interativo é de conhecimento mais recente. Pequeno canal esportivo fundado no Rio de Janeiro, demorou para entrar nas TVs por assinatura pela falta de envergadura ao encarar operadoras, Globosat e os titãs da concorrência (Fox Sports e ESPN) – todos conglomerados internacionais. Clube ao qual adentrou há pouco mais de um ano, ao ser adquirido pela Turner, proprietária das redes CNN, TNT, Cartoon Network, Boomerang e outros.

O Esporte Interativo ficou grande. E passou a encarar a Globo naquilo que ela mais preza. Sendo exclusivamente um canal fechado, ofereceu um caminhão de dinheiro aos clubes pela propriedade. Prometendo rateio à inglesa, citação de naming rights e maior flexibilidade de horários.

A negociação deu errado diante dos clubes de maior torcida: Corinthians, São Paulo, Vasco, Botafogo, Cruzeiro e Atlético-MG fecharam ou tendem a fechar com a Globo. Por outro lado, seduziu Santos, Atlético-PR, Coritiba, Internacional e Bahia. Outros podem vir, aumentando o inédito rompimento da exclusividade global, ao menos no tocante a este ambiente em específico.

O problema é que o embate passou a ser enxergado por boa parte da opinião pública e da mídia “especializada” como um bang-bang. Aqueles antigos filmes de faroeste que opõem claramente o bandido opressor ao mocinho redentor. Clara e respectivamente representados pela vilã Globo e o herói Esporte Interativo.

Não é por aí. Nem um pouco.

Se é correto o conceito de “monopolista” aplicado à Globo nas últimas décadas, ele o seria com base nos princípios schumpeterianos do termo. A emissora foi simplesmente a vencedora, tendo sua primazia construída com base no mérito, em anos de parceria e ótimos serviços prestados. E, sim, nos preceitos de livre mercado! Afinal, na hora H, os concorrentes nunca sustentam a postura inicial de confrontamento a ela.

Tudo, evidentemente, apesar dos pesares. Dos interesses que envolvem as Organizações Globo. Da intransigência em seus princípios comerciais, no engessamento da programação ou nas exageradas exigências quanto à postura “chapa branca” de seus profissionais. Ninguém está aqui para defendê-la.

Ainda assim, não temos uma vilã, mas uma renomada empresa líder de mercado. E até por isto, com muito poder de barganha, condição que todo entrante pequeno e desprestigiado almeja alcançar.

Por outro lado, o Esporte Interativo surge como um sopro de renovação. Injetando recursos – ou fazendo com que a Globo o faça, ao suas cobrir propostas – oferece coisas novas e bacanas. Mas não se enganem, todos aqui possuem interesses e proibições, regra que passa longe de não se aplicar ao canal. Conflitos entre fornecedores e clientes, afinal, sempre transparecem – mas só quando a relação está consumada. Apelar para o emocional ou vender-se como uma espécie incompreendida de Robin Hood não faz o feitio da Time Warner, controladora da Turner. Que nos EUA, de boba nunca teve nada.

Cabe a nós aguardarmos as cenas dos próximos capítulos, na certeza de que a dicotomia já está estabelecida – dado o fechamento de contratos com ambas as emissoras. Aguardemos ainda as futuras rodadas de negociação pelo mais desejado filão, o do televisionamento aberto, que não contará com o Esporte Interativo. Nem por isto são aceitáveis as acusações de fragilização dos clubes perante a futura rodada de conversações. Ninguém sabe como estará o mercado daqui a um ou dois anos.

No mais, entrantes sempre poderão suplantar a Globo – vide a Fox Sports, com os direitos da Copa Libertadores. Basta oferecer mais, oferecer melhor. E convencer os clubes da pertinência da migração. Alguém falou que seria fácil?

Um grande abraço e saudações!

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