Reflexões esportivas e econômicas sobre o “engodo” de Volta Redonda

Fig 01

“Volta Redonda é o túmulo do futebol”.

Eis a frase recentemente proferida por um importante profissional na área de marketing esportivo, num debate interno do qual este blogueiro participa. Apesar de captar o olhar de quem só acompanha o futebol carioca à distância, num primeiro momento soa difícil discordar da assertiva. Os péssimos públicos auferidos por Flamengo, Fluminense e Botafogo no estádio da cidade, o Raulino de Oliveira, são o mote.

Os que se insurgem descontentes com os públicos na Cidade do Aço são, cada vez mais, respaldados por análises vindas da grande imprensa. Há quatro dias foi Gustavo Setti, representando a ESPN, quem abordou a detestável ambientação sob a ótica dos torcedores. Hoje foi a vez d’O Globo, sob a respeitável figura de Carlos Eduardo Mansur. Desde antes, sites e blogs vem dispendendo tempo e neurônios na infrutífera tentativa de compreender a ausência de público.

Chegou a nossa vez. Não a primeira, diga-se de passagem. Desde sempre o Blog Teoria dos Jogos se dedica a compreender, justificar ou refutar questões que envolvam a presença de público e a escolha de Volta Redonda como palco – leia uma análise anterior aqui. Mas desta vez vamos um pouco além, tanto no que se refere à pertinência das críticas dirigidas, quanto na contextualização econômica da questão.

É fato, os públicos em Volta Redonda são péssimos. Mas isto não acontece por improvidência divina ou como fruto de uma população desapegada ao futebol. Terra natal deste blogueiro, é com conhecimento de causa (algo que Juca Kfouri não possui) que afirmo: Volta Redonda é uma cidade como qualquer outra, o que inclui ser também uma cidade apaixonada por futebol.

Mas…

1- A cidade recebe jogos demais – com apelo de menos

Tendo recebido 27 jogos nesta temporada (21 dos grandes cariocas), o Raulino de Oliveira é o estádio mais utilizado do Brasil em 2016. Apenas o Independência, em Belo Horizonte, se aproxima – recepcionando 24 partidas. Mas aí as diferenças vão desde o tamanho dos mercados até a importância dos torneios, considerando-se a ausência de jogos válidos pela Libertadores em solo voltarredondense.

A grande questão é que, no Brasil, cidades de médio porte não costumam ter demanda suficiente para recepcionar mais do que um ou dois eventos. Vide o exemplo de Juiz de Fora, em Minas Gerais – tantas vezes considerada uma “meca” para os clubes do Rio. Com seus 550 mil habitantes, não recebeu mais do que 4.384 pagantes na vitória do Botafogo sobre o Atlético-PR, pelo Brasileirão. Já o Flu foi desde incríveis 23.985 torcedores na final da Primeira Liga (contra o mesmo Furacão) até ridículos 1.406 pagantes, no confronto diante do Criciúma, pela fase de grupos da mesma Liga. É possível que na Cidade do Aço houvesse mais gente.

“Mas e os três clássicos entre Fluminense e Botafogo na cidade?”, alguém retrucaria. Estes só vem a confirmar cada palavra proferida no tópico, já que a reiteração foi a chave do saciamento da demanda e da perda de chamariz. Em 13/03/2016, registraram-se 4.378 pagantes em Fluminense 1 x 1 Botafogo. Em 24/04/2016, 3.562 pagaram ingressos em Flu 0 x 1 Bota. Já no último domingo, o Tricolor deu o troco (1 x 0) mediante 2.860 pagantes – verifique aqui. Mais cristalino, impossível.

2- O comparecimento per capita não é pior do que o da capital

Volta Redonda possui 260 mil habitantes segundo o Censo 2010. Na condição de principal cidade, integra ainda uma conurbação com Barra Mansa, Pinheiral e Barra do Piraí (parcialmente) que detém quase 500 mil habitantes. Semelhante, portanto, à Juiz do Fora do exemplo anterior. Se considerarmos o público médio apenas nos jogos de Flamengo, Fluminense e Botafogo (3.225 pagantes), pode-se dizer que ele representa 1,24% da população da cidade e 0,65% da conurbação. Estes percentuais – se aplicados aos 6,4 milhões de habitantes da capital e aos 11,6 milhões da região metropolitana do Rio de Janeiro – equivaleriam, respectivamente, a inatingíveis médias de público de 79 mil e 75 mil torcedores no Maracanã.

3- Nem todos os times cariocas tem demanda suficiente na cidade

Aqui a argumentação vem baseada em informações exclusivas do Blog Teoria dos Jogos, que mapeou pela primeira vez o perfil de torcidas na cidade. O que se descobriu foi que a monumental diferença no tamanho da torcida do Flamengo (42,9%) para as demais (todas abaixo de 10,8%*) é algo contra o qual fica difícil lutar. De fato, os 10,6% de botafoguenses e os 8,6% de tricolores representariam 27 mil e 22 mil torcedores, respectivamente. Num estádio com capacidade para 20 mil, é como se mal houvesse torcida suficiente para o completo preenchimento de um Raulino de Oliveira.

*A pesquisa foi realizada cerca de duas semanas após o rebaixamento do Vasco, identificando número suspeitamente alto de não-respondentes (7,8%). É possível que parte destes tenham representado vascaínos em desalento.

Não por acaso, mesmo sem qualquer clássico jogado na cidade, o Flamengo conseguiu atrair públicos próximos aos 8 mil pagantes por duas vezes. Enquanto isto, o Fluminense jogou três vezes para menos de 800 testemunhas. Já o Botafogo, apesar da baixa média de público em Volta Redonda, consegue ter um comparecimento médio 60% inferior quando se apresenta em São Januário, em pleno Rio de Janeiro. O problema é mesmo a cidade?

Fig 02

**

A verdade, então, recai sob outros aspectos. Que apontam para o fato de o principal produto esportivo do suposto “país do futebol” (quem merece a alcunha é a Inglaterra) apresentar graves problemas, tanto da parte da demanda quanto da oferta.

Olhando para a demanda, as restrições orçamentárias do brasileiro realmente impactam sobre o comparecimento aos estádios, inviabilizando-o ao nível desejado. Não são poucos os torcedores que alegam a impossibilidade da presença semanal dada a “desimportância dos jogos”. Optam, assim, por reservar dinheiro para fases e embates mais importantes. Se beneficia quem joga o que realmente vale – leia-se a Copa Libertadores. Torneio que faz com que os cinco clubes de melhor média em 2016 sejam justamente os cinco que participaram dele.

Neste sentido, comparar o Brasil com Alemanha, Inglaterra, França ou Espanha – só porque todos são países importantes no mundo do futebol – soa quase como deboche. Naqueles lugares, jogos desimportantes também enchem, ou ao menos não ficam às moscas. Simplesmente porque futebol é lazer, e existe gente suficiente com capacidade para usufruir desta opção sem prejuízo das demais.

Indo além: os problemas de demanda no futebol brasileiro se aprofundam em cidades do interior, condição ocupada por Volta Redonda. Nas grandes capitais, além da maior renda, existe ainda o facilitador que é a existência de times locais fortes e com apelo. Ainda assim, poucas preenchem tais características: em maior escala, apenas São Paulo, Rio, Belo Horizonte e Porto Alegre, com Salvador, Recife e Curitiba correndo por fora. Marginalmente, Fortaleza ou Belém (pela quantidade) e Florianópolis (dado o poder aquisitivo).

Enquanto isso, sob a ótica da oferta reside um número ainda maior de complicadores ao futebol como espetáculo. É nesta conta, afinal, que se coloca o péssimo produto oferecido, com dirigentes corruptos, times fracos e com rebarbas da Europa, estádios ruins e gramados esburacados. Mais: aqui entram os graves problemas de segurança pública e falta de infraestrutura de transportes, elementos tão atribuídos como razões da ausência do público nos estádios. Clubes que superaram algumas destas dificuldades, como Corinthians e Palmeiras, vem destoando dos demais.

Em suma, são variados e complexos os componentes da demanda por jogos de futebol no Brasil – questão que muito em breve será retomada aqui no Blog Teoria dos Jogos. Como tal, em Volta Redonda não haveria de ser diferente. A cidade veio tão somente expor a urgência com que se fazem necessárias mudanças estruturais na gestão dos clubes, via planejamento e capacidade de visão de longo prazo. Sem, no entanto, servir como mártir de coisa alguma.

Um grande abraço e saudações!

E-mail da coluna: teoriadosjogos@globo.com

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9 comentários sobre “Reflexões esportivas e econômicas sobre o “engodo” de Volta Redonda

  1. Procuro ir a todos os jogos do Flamengo e fico meio decepcionado com o público que comparece nesses jogos. Talvez se os administradores promovessem ingresso a preços populares o público volte a frequentar. Fica a dica. SRN

    1. Ingresso a preços populares mata o sócio torcedor. Está fora de cogitação. Eu fui de graça a um jogo em VR, com transporte incluído, graças ao ST. A verdade é que o brasileiro (e o carioca especialmente) não gostam muito de ir a estádio. Sempre há um monte de desculpas para justificar a ausência (calor, frio, distância, adversário fraco, ingresso caro, horário, tv aberta etc).

  2. Se o Flamengo desse gratuidade para o sócio-torcedor do plano raça ou maior, creio que o Raulino estaria sempre cheio… Mas a diretoria parece não se importar com o fato do clube de maior torcida do mundo jogar em estádio vazio…

  3. Um fato relevante é que mesmo os jogos sendo em Volta Redonda a grande maioria é transmitido em TV aberta na cidade. Talvez se ocorresse igual quando é realizado no maracana, o jogo não é transmitido para a regiao metropolitana do RJ.. Assim, se a pessoa tiver de sair de casa para ir ao bar ver o jogo por exemplo, opte a ir pro estádio!

  4. Concordo que o público é pequeno, mas, considerando os péssimos espetáculos proporcionados pelos jogos dos campeonatos nacionais e regionais, a quantidade de jogos que são disputados e a maioria mostrados pela TV, o fato de Volta Redonda ser uma Cidade de trabalhadores que lutam no dia a dia para sustentar as famílias com um baixo salário pago no país (rico dificilmente vai a jogos), a população da cidade 237 mil habitantes de acordo com o IBGE, a media de 3 mil pessoas por jogo não tão insignificante assim é mais de 1% da população. São Paulo 11 milhões de habitantes, teria que ter uma média 110 mil torcedores por jogos na capital, Rio de Janeiro 4,5 milhões de habitantes, média teria que ser de 45 mil por partida e vai por ai. Outro dado que deveria constar nesta coluna. A segurança, raramente ocorre briga como acontece em todos os jogos disputados entre clubes grandes em Estádios como o Mané Garrincha em Brasilia e vários Estádios de São Paulo e outras capitais, a distancia entre Volta Redonda e a capital do Estado e o principal. A finalidade do Estádio da Cidadania que além de ser usado frequentemente pela CBF e Federação do Rio, é também um centro de atendimento médico. (Clinica da Cidadania com atendimento de mais de mil pessoas por dia,o Estádio também atende a educação, pois em suas dependências existe uma Faculdade que atende mais de mil estudantes se preparando para o mercado de trabalho. E vai por ai. O Estádio da Cidadania foi construído para atender o time local e hoje se tornou um palco nacional pela sua funcionalidade e isto ninguém reconhece, pelo menos a imprensa que não gosta de se deslocar para o interior para acompanhar os grandes clubes que sem um local adequado para sediar seus jogos invadem a nossa cidade.

  5. excelente matéria… o blog buscou a fundo e estudou o caso .. nao foi como a matéria ridícula, e sem conteudo nenhum, do Juca que simplesmente só falou besteira e mostrou ser um cara ignorante e desinformado.

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