Arquivos mensais: junho 2016

Se você fosse César Martins…

Cesar Martins

… se jogaria naquela bola de Gabriel Jesus, de maneira tão intempestiva quanto estilosa, estando o goleiro Muralha já batido e o gol palmeirense se configurado como fato?

É alto, bastante alto o percentual de torcedores cuja resposta à pergunta seria “não” – crucificando o zagueiro do Flamengo pela bobagem na derrota diante do Palmeiras, domingo passado, em Brasília. O que pouca gente sabe é que, tecnicamente, a questão é discutível. Legitimando debate aparentemente alheio ao escopo deste espaço, uma vez que remete a um importante ramo da teoria econômica: a teoria dos jogos, homônima ao Blog.

A teoria dos jogos é a ciência que analisa a interação estratégica entre dois players, de modo que um tente prever a iniciativa do outro e com isto, tomar sua decisão com base nesta presunção de antecipação. Trata-se, portanto, de um jogo de cooperação – que tem no “dilema dos prisioneiros” sua interatividade mais conhecida.

Entretanto, um modelo mais simples serve como um dos pilares da teoria, sem avançar à matriz de resultados do “dilema”, um pouco mais complexa. Ela diz respeito aos “jogos de soma zero”. Também pertencentes à teoria dos jogos, tratam-se de jogos em que o ganho de um jogador representa necessariamente a perda do outro. É aqui que chegamos ao cerne do debate. Isto porque o gol, numa ótica mais estrita – ou seja, desatrelada à soma de tentos que nos leva ao resultado final de uma partida – pode ser enxergado como um jogo de soma zero. Se a bola cruza a linha, um dos times foi o vencedor daquele evento específico. O outro perdeu. Uma defesa do goleiro, automaticamente, inverte a lógica de vencedores e vencidos.

Agora tudo começa a clarear, já que a aplicação deste conceito tem completa relação com uma atitude inicialmente mal vista no mundo da bola – ainda que válida e devidamente penalizada por sua antidesportividade: quando colocar a mão na bola, cometendo um pênalti que tente evitar a fatalidade da derrota?

Certamente não foi com a teoria econômica em mente, mas por completo instinto, que o craque Luisito Suarez – não exatamente conhecido por ser um jogador limpo – enfiou a mão numa bola que daria a Gana o gol da classificação, em pleno último minuto da prorrogação, nas quartas-de-final da Copa de 2010. Após o tiro livre perdido pelo africano, não restaram dúvidas da pertinência (e até da inteligência) de alguém que trocou sua presença nesta e na partida seguinte pela expulsão e a incerteza de uma penalidade.

Independente da discussão que evoca moralidade e correção política, a verdade é que a iniciativa é válida, sua punição é dura e prevista de antemão. Entre mortos e feridos, a defesaça do uruguaio foi louvada por uma nação tradicional, mas que vinha carente de preponderância futebolística até aquele momento. Quem não celebraria caso o contemplado fosse seu país nas mesmas condições, que atire a primeira pedra.

Sob esta ótica, Suarez teria feito a coisa certa.

Em direção oposta, lembram-se do gol de cabeça do goleiro Lauro, da Portuguesa, diante do Flamengo, no mesmo Estádio Nacional de Brasília? Decerto muitos se lembram do fato, mas não de seus pormenores. Por isso, ajudamos a recordar. Também era o último minuto da partida. A questão é que o tirambaço do arqueiro – que dez anos antes havia feito seu único gol na carreira justamente sobre o Flamengo – poderia ter sido evitado pelo lateral Leonardo Moura, posicionado sobre a linha do gol. A bola bateu em sua barriga antes de entrar. E os dois pontos que o Flamengo perdeu naquele jogo de soma zero (já que o time vencia) quase fizeram falta ao final do campeonato, quando os dois clubes perderam pontos por irregularidades que culminaram no rebaixamento paulista.

Sob esta ótica, Leonardo Moura teria feito a coisa errada.

Eis que, três anos depois, o mesmo Flamengo se vê diante de situação parecida. César Martins, irregularmente e com boa dose de ironia, realizou defesa que foi eleita a melhor da rodada pelos telespectadores do programa É Gol, do Sportv. “Tratam-se de casos completamente diferentes”, alega a maioria. Eram 25 do segundo tempo e a expulsão não se fez benéfica pelo fato de Jean ter convertido a cobrança. Com no mínimo 20 minutos pela frente, o Flamengo se viu diante do prejuízo de ter um jogador a menos na tentativa de correr atrás do empate.

Pode até ser verdade. Mas por outra ótica, 25 minutos do segundo tempo representam 70 minutos do tempo agregado – portanto, 77% da peleja transcorrida. Segurar o resultado com um jogador a menos era algo que o mesmo Fla havia feito dois jogos antes (diante da Ponte) e em situação muito mais adversa (fora de casa e por quase todo o segundo tempo). Por fim, caso o pênalti tivesse sido desperdiçado, 100% dos que se insurgiram contra elegeriam o zagueiro como salvador. Ou, no mínimo, o crucificariam menos, caso o Palmeiras viesse a desempatar beneficiado pela vantagem numérica.

Saindo do campo técnico e entrando no da opinião: pode ser que o prejuízo pela ausência do zagueiro – péssimo, outrora afastado do elenco e que entregou também o primeiro gol ao Palmeiras – nem fosse tão problemática assim.

Portanto, e tendo em vista todas estas considerações, é possível que Cesar Martins tenha feito a coisa certa. Instintivamente e no afã de ajudar, talvez você que critica fizesse o mesmo no lugar dele.

Por fim, nem mesmo a patética possibilidade de condenação do atleta pelo STJD mudaria a conclusão desta coluna. Na improvável hipótese de pena máxima, Martins só perderia seis dos nove jogos de gancho, uma vez que só tem mais 21 dias de contrato com o Flamengo. De qualquer maneira, é de se lamentar o nível atingido pelo patrulhamento de procuradores e aspones do futebol em geral. Luis Suarez, no episódio citado, sequer foi a julgamento. Valeu a punição esportiva, que com sua ausência ajudou a acarretar a derrota uruguaia na partida seguinte.

Um grande abraço e saudações!

E-mail da coluna: teoriadosjogos@globo.com

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