Arquivos mensais: julho 2016

Rio 2016: primeiras impressões

Fig 01

Seria impossível que um espaço como o Blog Teoria dos Jogos ficasse de fora do maior evento esportivo do mundo. Na mesma escala de grandeza do acontecimento, caprichamos na antecedência e já nos encontramos instalados dentro do Parque Olímpico da Barra da Tijuca. O objetivo é promover uma odisseia que passará também por outros clusters e venues olímpicos, ilustrando-as com visitações e análises de match day – não apenas no Parque Olímpico mas em locais como o Maracanãzinho, a arena de vôlei de praia ou o Estádio de Remo da Lagoa. Pra quem se lembra de termos feito coberturas na Euro 2012 e na Copa América 2015, tornou-se imperativo vivenciar experiência tão única em pleno Rio de Janeiro.

Eis as primeiras impressões do clima, da estrutura e da cidade em geral, a menos de dez dias do início dos Jogos Olímpicos Rio 2016.

UM RIO EM OBRAS

Fig 02

 

É verdadeiro o que se disse a respeito do canteiro de obras que é a cidade, a tão pouco tempo de algo tão importante. A correria começa no Parque Olímpico, supostamente já terminado, mas onde são erguidas muitas estruturas temporárias. A Barra da Tijuca segue com grande efetivo visando terminar a estação Jardim Oceânico do metrô – suas composições já se encontram em testes de operação. No Centro, tapumes escondem a região do Boulevard Olímpico onde ficará a tocha, enquanto se verificam obras de um trecho do VLT que não será inaugurado a tempo. Nem é preciso citar a correria dentro das instalações da Vila dos Atletas.

AMBIENTE EM EVOLUÇÃO

Apenas recentemente algumas regiões foram decoradas ou envelopada com a identidade visual da Rio 2016, existindo a sensação de que a cidade poderia estar mais “vestida” para a festa. O número de estrangeiros, outro termômetro, só parece verdadeiramente sintomático no entorno do Parque Olímpico. Com tantas más notícias e preocupações a respeito de zika ou da violência, é de se questionar a projeção de mais de 500 mil visitantes de outros países.

SEGURANÇA OSTENSIVA

Desde a chegada das forças de segurança, aumentou substancialmente o número de homens destinados à manutenção da ordem no Rio. Mas o efetivo não parece distribuído de maneira uniforme pela cidade. O exército, por exemplo, se concentra majoritariamente nas adjacências da Barra da Tijuca.

PARQUE OLÍMPICO “ASSÉPTICO”

Fig 03

 

Ainda temporariamente às escuras, a falta de iluminação no Parque Olímpico não permite admirar a beleza e imponência de arenas como as do tênis, natação e basquete à noite. Mas é de dia e no calor que se percebe que faltou natureza: escassas árvores foram plantadas apenas no entorno imediato dos estádios. Assim, o descampado soa um tanto “acimentado”, fazendo jus à afirmação do ditado popular que diz que o sol é para todos, mas a sombra para poucos.

Um grande abraço e saudações!

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Um acerto chamado “Arena Botafogo”

Fig 01

No próximo sábado, data peculiar para um clássico da envergadura de um Botafogo x Flamengo, ocorre a inauguração do mais novo estádio de “propriedade” do Glorioso. Trata-se da Arena Botafogo, na Ilha do Governador. Com o perdão pela utilização indevida e um tanto banalizada da expressão “arena” (tudo o que o velho Estádio Luso Brasileiro não é), o fato é que a parceria com a Portuguesa/RJ constituiu grande bola dentro por parte da diretoria alvinegra. E o Blog Teoria dos Jogos explica o porquê.

Fruto de um acordo que resultou em investimentos na ordem de R$ 5 milhões por parte do clube da Estrela Solitária, a Arena Botafogo ergueu-se como um estádio para 15 mil torcedores na zona norte do Rio de Janeiro. Não se trata de novidade: em 2005, Botafogo e o mesmo Flamengo reformaram o próprio Luso Brasileiro (à época renomeado Arena Petrobras) por conta da interdição do Maracanã para os Jogos Panamericanos. A importância do retorno à Ilha ocorre pelo reconhecimento, por parte dos botafoguenses, de duas verdades inconvenientes:

1-É melhor investir agora do que pagar com o rebaixamento.

Desde o ano passado, o Botafogo ocupa a condição de clube mais endividado do país. Para piorar, é também o de pior relação receita/dívida, dada a simplória 13ª posição no ranking de receitas em 2015. Seu faturamento, inferior ao do Atlético-PR, equivale a apenas 16% do passivo total. Diante deste cenário, o que justificaria a custosa remodelação de um estádio antigo, ultrapassado e relativamente mal localizado – que só será utilizado até que o Engenhão volte às suas mãos?

Justamente o entendimento de que o clube não possui cancha para suportar a competitividade do Campeonato Brasileiro sem o imprescindível fator-casa verificado em sua cidade-sede. Ainda que a instalação das arquibancadas tubulares surja como um sunk cost para o Botafogo, a verdade é que o clube não conseguiria conviver com o apequenamento resultante de um terceiro rebaixamento. Diminuição que viria tanto pela queda das receitas quanto em termos institucionais. As duas passagens pela Segundona provaram: após ser abraçado pelos alvinegros na campanha da série B em 2003, ano passado o Bota apresentou apenas a sétima melhor média de público do torneio (9.337 pagantes).

2-Fora do Rio, o clube não possui torcida que justifique excursionar

Esta possivelmente seja a conclusão mais delicada. Após viver a ilusão de “os clubes do Rio de Janeiro terem torcida nacional”, nos últimos anos os fatos batem à porta do Alvinegro de maneira contumaz. Na condição de mandante ou visitante, quanto mais afastado do Rio, menor é o quantitativo de botafoguenses nos estádios. Algo comprovado não apenas pelas pesquisas de torcida aqui divulgadas (clique aqui e aqui), mas também escancarado pelo mapa de calor do ranking das torcidas no Facebook, importante iniciativa do Globoesporte.com:

Fig 02

A dura realidade é que Brasília ou Vitória são simples manchinhas um pouco menos claras. Fora do Rio de Janeiro, o único lugar onde o Botafogo possui representatividade é a Zona da Mata mineira, região que tem em Juiz de Fora sua capital informal. Mesmo lá, os números do Botafogo este ano são sofríveis: 7.091 pagantes, média catapultada por um clássico diante do Flamengo pelo Carioca. Sem aqueles 16.150 torcedores, restariam ao Glorioso decepcionantes 4.071 pagantes em três jogos do Brasileirão. Surpresa nenhuma: com seus pouco mais de 500 mil habitantes, JF vivencia processo semelhante ao da malfadada cidade de Volta Redonda.

Antes mesmo da inauguração, alvinegros já vivem algum alento pela melhoria dos resultados do time no Brasileiro. Ainda assim, assombra a 14ª posição, apenas um ponto acima da zona da degola. Diante disto, se nas arquibancadas do Engenhão os botafoguenses se reunirem em celebrações pela participação na Série A 2017, em muito deverão agradecer pela ousadia da pilotagem rumo às cercanias do Aeroporto do Galeão.

Um grande abraço e saudações!

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As maiores rendas da história – versão 2016

Na noite de ontem, o Morumbi viveu mais uma jornada de emoções, culminando num resultado nada feliz para o único representante brasileiro na Libertadores. Mas se uma derrota em casa não constava no script, ao menos uma coisa fez os são paulinos se orgulharem: os quase 62 mil pagantes proporcionaram a maior receita de bilheteria da história do clube, recolocando-o no top-10 das maiores rendas. Ranking este que apresenta “novidades novas” e outras um tanto mais antigas, se é que assim podemos dizer:

RANKING EM JOGOS ENTRE CLUBES

1) Atlético-MG 2 x 0 Olímpia-PAR – Mineirão (MG) – 24/07/2013 – Público: 56.557 – Renda:  R$ 14.176.146,00 – Final Libertadores 2013;

2) Flamengo 2 x 0 Atlético-PR – Maracanã (RJ) – 27/11/2013 – Público: 57.991 – Renda: R$ 9.733.785,00 – Final Copa do Brasil 2013;

3) Grêmio 2 x 1 Hamburgo-ALE – Arena do Grêmio (RS) – 08/12/2012 – Público: 46.969 – Renda: R$ 8.599.614,00 – Amistoso de inauguração;

4) Cruzeiro 0 x 1 Atlético-MG – Mineirão (MG) –26/11/2014 – Público: 39.786 – Renda: R$ 7.855.510,00 – Final Copa do Brasil 2014;

5) São Paulo 0 x 2 Atlético Nacional-COL – Morumbi (SP) – 06/07/2016 – Público: 61.766 – Renda: R$ 7.526.480,00 – Semifinal Libertadores 2016;

6) Santos 0 x 0 Flamengo – Mané Garrincha (DF) – 26/05/2013 – Público: 63.501  – Renda: R$ 6.948.710,00 – Brasileirão 2013;

7) Atlético-MG 4 x 3 Lanús-ARG – Mineirão (MG) – 23/07/2014 – Público: 54.786 – Renda: R$  5.732.930,00 – Recopa 2014;

8 ) Palmeiras 2 x 1 Santos – Allianz Parque (SP) – 02/12/205 – Público: 39.660 – Renda: R$ 5.336.631,25 – Final Copa do Brasil 2015;

9) Cruzeiro 3 x 0 Grêmio – Mineirão (MG) – 10/11/2013 – Público: 56.864 – Renda: R$ 5.231.711,00 – Brasileirão 2013;

10) Palmeiras 0 x 2 Sport – Allianz Parque (SP) – 19/11/2014 – Público: 35.939 – Renda: R$ 4.915.885,00 – Brasileirão 2014;

Obs1: Partidas recém incluídas no ranking aparecem em negrito.

Obs2.: Os valores expressam a renda bruta de partidas na história recente do nosso futebol, não sendo corrigidos pela inflação. O objetivo deste levantamento é justamente a comparação intertemporal de valores, evidenciando a majoração dos preços ao longo dos anos 

Muitos podem estranhar a presença da inauguração da Arena do Grêmio entre as maiores. O fato é que apenas recentemente foram divulgados os números da partida contra o Hamburgo, jogada três anos e meio atrás. Valendo-se de uma brutal demanda reprimida em face da nova casa, os gaúchos catapultaram-se à terceira posição no ranking em jogos entre clubes. A derrota do São Paulo, ontem, cravou o quinto posto. E duas partidas do Atlético-MG deixaram a lista das 10 mais. Agora, temos dois jogos do Atlético-MG, Palmeiras, Cruzeiro e Flamengo (considerando-o mandante de fato naquele 0 x 0 contra o Santos em Brasília), além de um do Grêmio e um do São Paulo.

RANKING EM JOGOS DA SELEÇÃO

1) Brasil 1×0 Sérvia – Morumbi (SP) – 6/6/2014 – Público: 63.280 – Renda: R$8.693.940,00 –Amistoso

2) Brasil 2 x 2 Inglaterra – Maracanã (RJ) – 02/06/2013 – Público: 57.280 – Renda: R$ 8.615.730,00 – Amistoso;

3) Brasil 3 x 0 França – Arena do Grêmio (RS) – 09/06/2013 – Público: 51.643 – Renda: 6.833.515,00 – Amistoso;

4) Brasil 2 x 0 México – Allianz Parque (SP) – 07/06/2015 – Público: 34.659 – Renda: R$ 6.737.030,00 – Amistoso;

5)  Brasil 0 x 0 Argentina – Mineirão (MG) – 18/06/2008 – Público: 52.527 – Renda: 6.605.255,00 – Eliminatórias Copa 2010;

6) Brasil 2 x 2 Uruguai – Arena Pernambuco (PE) – 25/03/2016 – Público: 43.898 – Renda: R$ 4.961.890,00 – Eliminatórias Copa 2018;

7)  Brasil 1 x 0 Romênia – Pacaembu (SP) – 07/06/2011 – Público: 30.059 – Renda : R$ 4.357.705,00 – Amistoso;

8 )  Brasil 4 x 2 Chile – Pituaçu (BA) – 09/09/2009 – Público: 30.370 – Renda: R$ 4.350.425,00 – Eliminatórias Copa 2010;

9)  Brasil 2 x 1 Paraguai – Arruda (PE) – 10/06/2009 – Público: 55.252 – Renda: R$ 4.322.555,00 – Eliminatórias Copa 2010;

10)  Brasil 2 x 1 Uruguai – Morumbi (SP) – 21/11/2007 – Público 65.379 – Renda: R$ 4.321.225,00 – Eliminatórias Copa 2010;

Novidade também no ranking envolvendo apenas partidas da Seleção. O empate que complicou o escrete canarinho nas Eliminatórias, diante do Uruguai, no Recife, passou a integrar a sexta posição. Temos agora quatro jogos realizados na cidade de São Paulo (sendo um no longínquo 2007), dois no Recife (a grande surpresa) e um no Rio, Porto Alegre, Belo Horizonte e Salvador. No ranking agregado, à medida com que sobe a “nota de corte”, fica cada vez mais difícil constarem novas partidas:

RANKING AGREGADO (SELEÇÃO + CLUBES)

1) Atlético-MG 2 x 0 Olímpia-PAR – Mineirão (MG) – 24/07/2013 – Público: 56.557 – Renda: R$ 14.176.146,00 – Final Libertadores 2013;

2) Flamengo 2 x 0 Atlético-PR – Maracanã (RJ) – 27/11/2013 – Público: 57.991 – Renda: R$ 9.733.785,00 – Final Copa do Brasil 2013;

3) Brasil 1×0 Sérvia – Morumbi (SP) – 6/6/2014 – Público: 63.280 – Renda: R$ 8.693.940,00 – Amistoso

4)  Brasil 2 x 2 Inglaterra – Maracanã (RJ) – 02/06/2013 – Público: 57.280 – Renda: R$ 8.615.730,00 – Amistoso;

5) Grêmio 2 x 1 Hamburgo-ALE – Arena do Grêmio (RS) – 08/12/2012 – Público: 46.969 – Renda: R$ 8.599.614,00 – Amistoso de inauguração;

6) Cruzeiro 0 x 1 Atlético-MG – Mineirão (MG) –26/11/2014 – Público: 39.786 – Renda: R$ 7.855.510,00 – Final Copa do Brasil 2014;

7) São Paulo 0 x 2 Atlético Nacional-COL – Morumbi (SP) – 06/07/2016 – Público: 61.766 – Renda: R$ 7.526.480,00 – Semifinal Libertadores 2016;

8 )  Santos 0 x 0 Flamengo – Mané Garrincha (DF) – 26/05/2013 – Público: 63.501 – Renda: R$ 6.948.710,00 – Brasileirão 2013;

9)   Brasil 3 x 0 França – Arena Grêmio (RS) – 09/06/2013 – Público: 51.643 – Renda: 6.833.515,00 – Amistoso;

10) Brasil 2 x 0 México – Allianz Parque (SP) – 07/06/2015 – Público: 34.659 – Renda: R$ 6.737.030,00 – Amistoso;

Já os maiores tickets médios da história são o lado mais estático. Ainda assim, a vultosa média da partida do Grêmio (R$ 183) tornou-se integrante, atingindo o 5º posto:

MAIORES TICKETS MÉDIOS DA HISTÓRIA

1) Atlético-MG 2 x 0 Cruzeiro – Independência (MG) – 12/11/2014 – Público: 18.578 – Renda: R$ 4.741.300,00 – Final Copa do Brasil 2014 – Ticket: R$ 255

2) Atlético-MG 2 x 0 Olímpia-PAR – Mineirão (MG) – 24/07/2013 – Público: 56.557 – Renda:  R$ 14.176.146,00 – Final Libertadores 2013 – Ticket: R$ 250; 

3) Cruzeiro 0 x 1 Atlético-MG – Mineirão (MG) –26/11/2014 – Público: 39.786 – Renda: R$ 7.855.510,00 – Final Copa do Brasil 2014 – Ticket: R$ 197

4) Brasil 2 x 0 México – Allianz Parque (SP) – 07/06/2015 – Público: 34.659 – Renda: R$ 6.737.030,00 – Amistoso – Ticket: R$ 194;

5) Grêmio 2 x 1 Hamburgo-ALE – Arena do Grêmio (RS) – 08/12/2012 – Público: 46.969 – Renda: R$ 8.599.614,00 – Amistoso de inauguração – Ticket: R$ 183

6) Flamengo 2 x 0 Atlético-PR – Maracanã (RJ) – 27/11/2013 – Público: 57.991 – Renda: R$ 9.733.785,00 – Final Copa do Brasil 2013 – Ticket: R$ 167;

7) Brasil 2 x 2 Inglaterra – Maracanã (RJ) – 02/06/2013 – Público: 57.280 – Renda: R$ 8.615.730,00 – Amistoso – Ticket: R$ 150;

8 ) Brasil 1 x 0 Romênia – Pacaembu (SP) – 07/06/2011 – Público: 30.059 Renda: R$ 4.357.705,00 – Amistoso–Ticket: R$ 145;

9) Brasil 4 x 2 Chile – Pituaçu (BA) – 09/09/2009 – Público: 30.370  Renda: R$ 4.350.425,00 – Eliminatórias Copa 2010– Ticket: R$ 143; 

10) Brasil 1×0 Sérvia – Morumbi (SP) – 6/6/2014 – Público: 63.280 – Renda: R$8.693.940,00 –Amistoso – Ticket: R$ 137;

Um grande abraço e saudações!

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Opinião: por que os jogos Rio-2016 são necessários

Fig 01

De novo aquela mesma história: o país em profunda crise investindo uma fábula em estruturas esportivas de legado questionável. Nenhuma externalidade positiva no tocante ao meio ambiente, dados os fracassos da despoluição da Baía da Guanabara e das lagoas da cidade. Laboratório anti dopagem descredenciado após vultosos investimentos em sua implementação. Completo mau humor político em meio a um processo de impeachment presidencial. Críticas internacionais só menos ferinas do que aquelas feitas pela nossa própria população – há muito contrária à realização de grandes eventos. Obras atrasadas, inaugurações pouquíssimo tempo antes do acendimento da tocha e sem o devido período de testes. Violência. Desemprego. Caos. O cenário brasileiro a pouco mais de um mês dos Jogos Rio-2016 parece, como sempre, vocacionado ao desastre.

Diante deste panorama, soa um despautério se manifestar a favor da realização das Olimpíadas em solo brasileiro. Afinal, “não tem saúde, não tem educação”. Não tem nem salário do funcionalismo público estadual em plena sede do torneio. Mas o Blog Teoria dos Jogos é a favor da realização dos Jogos Rio-2016. E desde que você já não esteja armado até os dentes, nos prontificamos a explicar o porquê.

Em primeiríssimo lugar, não seríamos insensíveis ou alienados a ponto de nos posicionarmos desta maneira sob qualquer circunstância. Se naquele longínquo 2009 – quando houve a eleição do Rio em detrimento de gigantes como Chicago, Tóquio e Madri – o Brasil apresentasse qualquer sintoma da doença terminal que o acometeria anos depois, os Jogos Olímpicos deveriam ser mandados às favas. É fato, afinal, que existem outras prioridades. Mas infelizmente não foi o que aconteceu, e poucos imaginavam que o governo petista pós-2010 – através da eleição de Dilma Rousseff – destruiria o país como de fato o fez. Portanto, o primeiro argumento é: não há o que fazer contra as Olimpíadas. Eles são uma realidade com a qual cada um dos 200 milhões de brasileiros precisam conviver. Com maturidade.

Em segundo, inexistem paralelos a serem feito entre o maior evento esportivo do planeta, que se iniciará em breve, e seu maior campeonato de futebol – a Copa do Mundo, também jogada por aqui recentemente. A justiça norte americana explicitou ao mundo o quão bandidos são os dirigentes da FIFA, de confederações continentais e nacionais (entre elas a CBF), encalacrando um sem número de cartolas por crimes de corrupção. Até onde se sabe, e apesar de existirem caixas pretas a serem descobertas, o mesmo não se passa no Comitê Olímpico Internacional. Ou seus dirigentes teriam o mesmo destino.

Nunca houve por parte da FIFA qualquer preocupação com a permanência de um legado, tanto que as obras demandadas eram somente as caríssimas e superfaturadas arenas de futebol. Apenas por isto as cidades-sede eram cobradas. Algo diferente se passa com os Jogos Olímpicos. Até por concentrar um número inacreditável de atletas, jornalistas e turistas numa única cidade (segundo estimativas, mais de 500 mil este ano), existem profundas preocupações com relação a logísticas de natureza hoteleira, de transportes e segurança. Gerando fortes cobranças quanto à implementação destes planos de ação.

Neste sentido, Jogos Olímpicos e Mundial da FIFA diferem como água e óleo. Enquanto o torneio de 2014 teve dispêndios 100% públicos, o desse ano apresenta mais da metade dos investimentos de natureza privada. Ao cabo que a Copa só se preocupou em erguer estádios, as Olimpíadas promovem uma verdadeira revolução no tocante à mobilidade urbana e paisagística da cidade. Elefantes brancos da Copa foram trocados por estruturas desmontáveis no evento do COI. Mesmo com atrasos e alguns projetos finalizados após os Jogos, o fato é: com as Olimpíadas, e apenas por causa delas, tais projetos saíram do papel. Ou há alguns anos era possível imaginar um Rio de Janeiro com:

-Metrô até a Barra da Tijuca;

-Uma nova via expressa (Transolímpica), duas décadas após a construção da última (Linha Amarela);

-A Perimetral no chão e uma nova via composta pelo maior túnel subterrâneo do Brasil;

-A revitalização da região portuária, com um passeio público se estendendo por quilômetros e levando a uma das atrações turísticas mais impressionantes da cidade, o Museu do Amanhã, de Santiago Calatrava. Além de futuros bares e restaurantes;

-A modernização do Centro, recortado por modernos VLTs e desafogado do tráfego de ônibus e carros;

-A implementação de quatro corredores de BRTs, totalizando 150 kms, 165 estações e interligando aeroportos, metrô, trens e VLT;

-A duplicação do Elevado do Joá?

É óbvio que não deveria haver necessidade de uma localidade receber evento internacional para presentear seus cidadãos com direitos tão básicos quanto estruturas de transportes e lazer. Também não parece razoável que todo um país financie obras focadas numa única cidade, como vem acontecendo por conta dos repasses do governo federal ao Rio. Mas a verdade é que infelizmente é assim que as coisas acontecem no Brasil. Se a seletividade dos investimentos o direcionam à mais conhecida referência internacional do país, devemos exigir que estes valham a pena, pois o fomento ao turismo na porta de entrada presume importante capacidade multiplicadora país afora.

Por fim, temos ainda o lado esportivo. E a antologia de, pela primeira vez, a América do Sul receber a maior festa do esporte mundial. As Olimpíadas são único evento a fazerem com que todo o planeta, sem exceções, direcione olhares para uma única cidade ao longo de quinze dias. Em face das dificuldades enfrentadas pelo país e pelo povo brasileiro em geral, parece besteira. Mas não foram poucos aqueles que, após bradarem e se insurgirem contra a realização da Copa, se arrependeram amargamente por não terem adquirido ingressos. No fim das contas, esqueceu-se que haveria, sim, Copa do Mundo – e que ela é um acontecimento de proporções magnânimas. Seria lamentável que arrependimento similar acometesse nossa população pela segunda vez.

Nada, nem uma linha sequer de todo o exposto, pode nos fazer esquecer das mazelas que envolveram e envolvem a realização dos Jogos Olímpicos. Assim, que tal pensarmos em trancafiar sem piedade os irresponsáveis que permitiram a queda de uma ciclovia recém construída, ceifando duas vidas? O que acham de investigar, identificar e punir àqueles que desviarem cada centavo do dinheiro público empregado nas obras – já que muitas empreiteiras estão envolvidas com a Lava Jato? Se a Operação abriu o maravilhoso precedente da punição aos ricos e poderosos, não há razões para ser diferente. Mais: por que não enterrarmos a carreira política daqueles que vivem de fazer promessas não cumpridas que só nos fazem humilhar perante a opinião pública global? O caso da despoluição da Baía da Guanabara serve como ótima referência.

Apoiar as Olimpíadas no Brasil não significa, em absoluto, agir com conivência quanto a suas mazelas. Ou com falta de sensibilidade perante a tudo que lhe é inerente. Quando a verdadeira redoma de excelência deixar o Rio, ao final dos Jogos, restará a velha e desprivilegiada população carioca a lutar contra a violência que marca seu dia-a-dia. Condição que faz dela a heroína da resistência nesta história.

Apoiar as Olimpíadas no Brasil é apenas compreender que a análise racional reduz os paralelos com relação ao pior que já tivemos. Que o brasileiro tem muito a aprender, mas que também pode ensinar, em meio à saudável e pacífica convivência entre povos, há mais de um século fomentada pelo espírito olímpico. E é também vislumbrar que, apesar dos muitos pesares, sairemos desta com um Rio de Janeiro muito melhor do que entrou, servindo de espelho do que se deve – e principalmente não se deve – projetar para o resto do país.

Um grande abraço e saudações!

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