Arquivos mensais: setembro 2016

Pesquisas antigas e a importância de se fazer as perguntas corretas

Tudo começou com o jornalista Cássio Zírpoli, autor de um blog no Diário de Pernambuco cuja pegada é parecida à do Blog Teoria dos Jogos no que se refere às pesquisas de torcida. O enfoque: pesquisas realizadas pelo Ibope em Pernambuco e em regiões metropolitanas, entre os anos de 1969 e 1971. A descoberta do material é atribuída ao colaborador do Blog Teoria dos Jogos e pesquisador Clayton Silvestre – que já nos havia o disponibilizado há alguns anos. À época e por questões de pauta, não a publicamos, mas agora a repercussão veio com força pelo fato de o Redação Sportv tê-la explorado em sua edição desta manhã. E pelos resultados da pesquisa terem supostamente colocado o Santos na condição de maior torcida do Brasil no passado.

Você está certo disto?

Pra início de conversa, é importante contextualizar o que representava o Santos Futebol Clube em 1969. Supercampeão em tempos de grandes esquadrões, o Peixe era de longe o maior clube do Brasil. Tudo graças aos inúmeros títulos enfileirados por aquele time dos sonhos capitaneado por Pelé, que incluíam duas Copas Libertadores, dois Mundiais Interclubes, seis títulos nacionais, quatro Rio-São Paulo e uma sequência infindável de títulos paulistas. Os muitos anos de preponderância tornavam natural a relevância, inclusive em termos de tamanho de torcida. Por muito tempo o Santos foi, sim, o queridinho no coração de muitos brasileiros.

Daí a ter detido a maior torcida do país, vai uma distância. Fruto de distorções bastante comuns em se tratando de vieses em pesquisas do gênero. A questão aqui é: numa pesquisa de opinião, quando não se fazem as perguntas corretas, os resultados saem inequivocamente defeituosos. Vejamos se não:

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O grande pecado da pesquisa de 1969 foi não ter perguntado: “qual é o seu time?”, como convencionalmente se faz. Ao perguntar “no seu entender, qual o clube de futebol mais querido em todo o Brasil?” o que o Ibope fez foi, indiretamente, arguir: “Para qual time você acha que as outras pessoas torcem”? E aí, os números saíram totalmente desalinhados da realidade. Alinharam-se com o que se verificava no país em termos de conquistas e idolatria.

Tanto é que a ordem das coisas se restabeleceu quando a pergunta passou a ser “no seu entender, qual o clube de futebol mais querido do seu estado?”. Aí sim as pessoas deixaram de responder pelos outros, passando a expor sua verdadeira preferência particular. Com isto, o Santos retornou a um padrão intermediário, ainda que muito superior ao que se verifica hoje:

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Em tempos atuais, soa impensável o Peixe deter a segunda maior torcida do estado de São Paulo – atrás apenas do Corinthians. Tão impensável quanto imaginar que, mesmo com apenas 21% de seu estado de origem, pudesse fazer frente ao Corinthians e seus 50% no mesmo estado. Que dirá ao Flamengo, desde sempre hegemônico no Rio e em tantas outras regiões não contempladas porque a pergunta se restringia aos times do próprio estado.

A conclusão a que chegamos é que perguntas mal formuladas levarão a resultados descolados da realidade.

Sendo assim, como analisar em retrospecto a questão das maiores torcidas do passado? Isto, logicamente, o Blog Teoria dos Jogos já fez, em postagem datada de 26 de agosto de 2014. E lá, concluímos ser possível fazê-lo ao: 1) analisarmos as tabulações por faixas etárias de pesquisas atuais; 2) Nos basearmos em pesquisas antigas (desde que fizessem as perguntas corretas); 3) Verificarmos o que diziam publicações de época. Este último elemento, de fato, aponta para um Santos mais preponderante. Algo que não resiste à análise dos dois primeiros elementos, desde muito apontados para a supremacia de Flamengo e Corinthians em termos nacionais.

Um grande abraço e saudações!

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Tudo sobre audiências – parte 4: as maiores audiências RJ e SP 2016

Há alguns meses o Blog Teoria dos Jogos iniciou uma série de análises relacionadas às audiências televisivas do futebol brasileiro, assim dividida:

Parte 1: O catapultar dos números em clássicos

Parte 2: Os campeões de audiência 2015

Parte 3: As audiências da Band

Parte 4: As maiores audiências RJ e SP 2016

Parte 5: Audiências em queda: verdade ou mentira?

Após um breve intervalo, que incluiu uma pausa para os Jogos Olímpicos – período profissionalmente muito atribulado – decidimos retomar às análises desde seu tópico 4, dada a saída da TV Bandeirantes das transmissões futebolísticas em torneios nacionais. Devidamente incentivado e “provocado”, importante dizer, pelo amigo Fábio Sormani, da Fox Sports, a quem estas tabelas são dedicadas.

As audiências do futebol em 2016 dividem-se entre as praças do Rio de Janeiro e de São Paulo – únicas divulgadas pela TV Globo semanalmente. Dividem-se ainda entre os principais torneios do ano: Campeonatos Estaduais, Copas (Libertadores, do Brasil e Sul Americana) e Brasileirão. Por fim, os números são separados por dia da semana e pela natureza dos jogos (clássicos ou não), dada a primazia de audiências verificadas às quartas feiras ou em confrontos entre times grandes.

Lembrando que: 1) Cada ponto de audiência equivale a 69 mil domicílios em São Paulo e 43 mil no Rio, enquanto o share significa o percentual de televisores ligados naquele canal; 2) Todos os números se referem apenas à audiência em TV aberta da Globo, menos para os Estaduais, que representam a soma Globo + Band, pois neles ainda havia o compartilhamento dos direitos televisivos; 3) As estatísticas contidas nesta coluna não contemplam a rodada do último fim de semana (24 e 25/9) no Brasileirão.

CAMPEONATOS ESTADUAIS

Pode-se dizer que os campeonatos estaduais são aqueles em que as audiências mais estão expostas a “causas perturbadoras” a lhes enviesarem. Isto porque se tratam de torneios de tiro curto com alto índice de clássicos transmitidos. Assim, clubes com menos torcida tendem a aparecer em poucos jogos, primariamente em clássicos – onde as audiências são naturalmente mais altas. Assim, muitas estatísticas acabam por se insuflar de maneira irreal. Outro benefício que precisa ser relativizado acomete àqueles que chegam à final do campeonato, geralmente um oásis de bons números em meio a um marasmo de audiências regulares.

Dito isto, vamos às análises:

RIO DE JANEIRO

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Embora o clube mais televisionado durante o Campeonato Carioca tenha sido o Vasco (nove jogos), foram os sete do Flamengo que apresentaram os melhores números do torneio. Na média final, o Rubro Negro teve um audiência de 27,1 pontos com 49%, contra 25,1 (48%) dos cruzmaltinos, 24,2 (47%) do Botafogo e 22,2 (42%) do Fluminense. Percebam a discrepância entre Flu e Bota pelo fato do alvinegro ter ido à final, catapultando seus números. No campeonato como um todo, ambos tiveram cinco jogos transmitidos.

Quando separamos a análise por dia de semana (DDS) e fim de semana (FDS), chegamos a algumas outras conclusões. Apesar do Vasco ter tido nove jogos na telinha, apenas um se deu nos dias de audiência mais alta, a quarta-feira. E não foi um jogo qualquer, mas um Flamengo x Vasco pela fase de grupos da Taça Guanabara, que explodiu como poucas vezes: 37 pontos de audiência com 57% de participação. De qualquer maneira, o time da Colina passou nada menos que oito vezes aos domingos, desproporção não atingida por nenhum de seus rivais.

Sob outro ponto de vista, separamos clássicos de jogos contra times pequenos – o que também faz uma diferença brutal. Aí os beneficiados são outros:

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Dos nove jogos vascaínos na TV, nada menos que seis foram clássicos – sendo dois pelas finais, diante do Botafogo. Até por ser um dos finalistas, o clube da Estrela Solitária se viu bastante inflado, já que quatro de suas cinco transmissões se deram em clássicos. Por outro lado, o Flamengo e principalmente o Fluminense tiveram maior número de jogos contra times pequenos, elemento de evidente impacto negativo. De qualquer maneira, as audiências do Flamengo superaram as dos rivais sob todos os aspectos: 30 pontos (55%) em clássicos e 23,3 (42%) contra pequenos. Neste último caso, os números do Mengão foram 19% superiores aos do Tricolor, segundo colocado – uma enormidade em se tratando destas informações.

SÃO PAULO

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Se no Rio o mais transmitido foi o campeão estadual, São Paulo viveu situação antagônica. O Santos, campeão paulista, tive míseros três jogos na TV – sendo dois na final, contra o Audax. O outro, como veremos adiante, foi um clássico. O resultado foram números artificialmente superiores aos de todos os demais: 25,6 pontos e 47% de share. No outro extremo está o Corinthians, com seus oito jogos na TV. Com eles, marcou 24,5 pontos médios e 45%. O São Paulo teve cinco jogos, 22,2 pontos e 42% em média. O Palmeiras, quatro jogos, 24,5 pontos e 46%.

A análise por dia da semana em Sampa diz menos do que no Rio, já que muitos paulistas jogavam a Libertadores enquanto a Globo Rio veiculava seus times no Carioca. Sendo assim, apenas Corinthians (duas vezes) e São Paulo (uma) apareceram na telinha às quartas. Já a análise que separa clássicos de jogos contra pequenos é bem mais reveladora:

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Antes, é importante dizer que o Paulistão deste ano teve, excepcionalmente, um número de clássicos transmitidos menor do que no Rio. Seu campeão de exposição foi o Corinthians, com três jogos, 28,3 pontos e 51%. Os números dos outros podem parecer iguais (São Paulo, 28 pontos) ou maiores (Palmeiras, 29 pontos), mas existe um porém: 75% dos clássicos transmitidos (três de quatro) foram contra o time de Itaquera, ou seja, é exatamente o Corinthians quem ajuda a inflar os rivais. Já o Santos, tendo confrontado duas vezes um pequeno em plena final, nadou de braçada neste recorte.

COPAS

Eis uma estatística muito mais simples de ser analisada: copas só são jogadas às quartas, tornando desnecessária a separação por dia. Também são raros os clássicos nestas circunstâncias – este ano, por exemplo, não aconteceu nenhum. Ou seja, a única coisa a ser considerada aqui é o peso do torneio.

RIO DE JANEIRO

Nenhum time da Cidade Maravilhosa jogou a Libertadores 2016. Sendo assim, a maioria das análises se refere à Copa do Brasil, com exceção dos três últimos jogos do Flamengo, válidos pelas fases intermediárias da Sul Americana:

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Isso mesmo: foram sete jogos rubro-negros, com audiências 22% superiores às do Vasco (26,3 a 21,6 pontos). Cinco jogos vascaínos e três tricolores (20,3 pontos, em média). E nenhum. Nenhum joguinho do Botafogo para contar história…

SÃO PAULO

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Na Terra da Garoa houve maior equilíbrio entre o líder Corinthians (nove jogos, 26,1 pontos com 40%) e o segundo colocado, São Paulo (oito jogos, 25,5 pontos com 39%). Parte da explicação recai sobre o fato de o Tricolor ter chegado às semifinais da Libertadores, enquanto o Corinthians parou nas oitavas. Assim como o Botafogo, o Palmeiras simplesmente não apareceu na TV nestes torneios. Já o Santos, uma única vez: contra o Gama, pela Copa do Brasil (18 pontos).

BRASILEIRÃO

RIO DE JANEIRO

As transmissões do Brasileirão retomam a necessidade de separação segundo o dia da semana. Contudo, no Rio não se faz necessário repartir clássicos e jogos regulares, uma vez que apenas um foi veiculado na cidade: Fluminense x Botafogo, num domingo de inexpressivos 20 pontos com 38%.

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Na ausência do Vasco (que joga a Série B), o grande beneficiado foi o Fluminense que, este ano, apareceu tantas vezes quanto o Flamengo (11 cada). Os dois tiveram igualdade também no perfil das transmissões: quatro em dias de semana, sete em fins de semana. Assim, a comparação entre ambos pode se dar sob bases equânimes.

Em boa dose por conta da fantástica audiência do jogo contra o Palmeiras, o Rubro Negro atropela o Tricolor sob a ótica das quartas feiras: 30,5 com 47% a 23 com 36% – resultado 33% superior. Nos fins de semana, a superioridade flamenguista cai para a casa dos 19% (23 pontos contra 19,3). Já o Botafogo teve cinco jogos, todos aos finais de semana – esvaziando seus números. No geral, portanto, o Fla marca em média 25,7 pontos com 44%. O Flu, 20,6 com 37%. O Bota, 18 com 35%.

Importante: um jogo do Alvinegro aconteceu sábado, dia de audiências tradicionalmente inferiores.

SÃO PAULO

Diferente do Rio, em São Paulo retomam-se análises não só por dia de semana mas também por clássicos. Isto porque, por lá, já foram veiculados cinco dérbis neste Brasileirão. A começar pela primeira ótica:

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Em Sampa também há empate envolvendo Corinthians e São Paulo, ambos com 11 partidas televisionadas. E o perfil é quase o mesmo: Timão quatro vezes às quartas, sete aos fins de semana. Soberano, três às quartas, oito aos domingos. Em compensação, o Corinthians se apresentou num sábado. Sendo assim, em analogia à dupla Fla-Flu no Brasileirão, pode-se considerar justa a comparação direta entre Corinthians e São Paulo.

Às quartas, o Corinthians vence o São Paulo por apertados 25,5 a 24,3 (mesmo share: 40%). Aos fins de semana, um pouco mais de folga: 22,6 (com 43%) para um, 20,1 (com 37%) para outro. Só que em termos gerais, Corinthians (23,6 com 42%), São Paulo (21,3 com 38%) e Santos (23 com 44% em dois jogos) perdem para o Palmeiras (24,1 com 41%). Por quê?

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A explicação reside aqui. Entre as agremiações com mais televisionamentos, o maior percentual de clássicos pertence ao Palmeiras (três de sete). O São Paulo fez três clássicos diluídos num universo de 11 transmissões. O Corinthians, apenas dois em 11. Nas partidas regulares, onde as audiências vem sem tanta facilidade, os 22,9 pontos do Corinthians em nove jogos superam os 22 pontos em 4 jogos do Verdão. Aqui, o Santos é novamente um ponto fora da curva: dois jogos, dois clássicos.

COMPARAÇÕES INTERNAS

No Rio, resta claro que, sob qualquer aspecto, o Flamengo apresenta audiências muito superiores às de seus rivais. Inclusive, pode-se dizer que em condições normais de temperatura e pressão, Vasco, Fluminense e Botafogo se equivalem – com certa vantagem cruzmaltina.

Já em São Paulo, há maior equilíbrio entre o líder Corinthians e o São Paulo – ainda que não se discuta a supremacia do primeiro. Palmeiras e Santos, alguns passos abaixo, se veem tão relegados que geralmente aparecem apenas em clássicos ou jogos decisivos. Seria importante vê-los em mais partidas regulares, proporcionando uma melhor base de comparação. De qualquer maneira, em anos anteriores a dupla já apresentou alguns índices bem fracos.

Aqui, uma questão particular que explica meu grande ponto de discordância com relação ao Sormani. Eu considero que diferenças de alguns pontos de audiência (e share) justificam as diferenças nas cotas de televisionamento, tendo em vista que um mercado tão competitivo quanto o da TV aberta precifica cada ponto marginal em muitos milhões. Sormani tem outro ponto de vista, entendendo injustificáveis as diferenças, por pequenas que seriam.

Não há certo ou errado neste debate, apenas interpretações.

COMPARAÇÃO RIO X SÃO PAULO

Nem todo ano é assim, mas em 2016, o rei das audiências no Rio (Flamengo) supera o preferido de São Paulo (Corinthians) sob todos os recortes – incluindo Copas em que os Paulistas disputaram a Libertadores. O que faz retornarmos ao que é sempre dito: o Rubro Negro se beneficia de audiências maiores e nacionalmente mais dispersas. O Alvinegro, da supremacia nos principais mercados – que não se resumem ao seu berço, já que Paraná ou Rio Grande do Sul muitas vezes alinham com a Globo São Paulo. Por isso, é importante analisar o quantitativo médio de praças alinhando com a transmissão de cada um deles. Assunto para outra coluna…

Um grande abraço e saudações!

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A fábula de um rubro-negro paulistano

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Novamente na manhã de ontem, a torcida do Flamengo deu enorme demonstração de força em praças externas – desta vez, uma nem sequer inédita. Pela segunda vez em 2016, os flamenguistas encheram o Pacaembu, em São Paulo, vencendo o Figueirense por 2 x 0 e mantendo a perseguição ao líder Palmeiras. Ainda que o sucesso comercial das incursões à cidade justifiquem-nas plenamente, a verdade é que ainda há quem desconheça e estranhe as verdadeiras intenções do Rubro Negro em terras bandeirantes. Para compreendê-las, um breve retrospecto histórico se faz necessário.

Ao contrário do senso comum, não foi a Rede Globo na década de 80, nem as ondas do rádio em meados de 1960. Naturalmente, estes meios ajudaram muito a propagá-lo, tornando-o ainda maior. Mas a fama de “maior torcida do Brasil” atribuída ao Fla vem desde algumas décadas antes. Decerto iniciada pela importantíssima condição de capital federal, ocupada pelo Rio até abril de 1960. Isto fazia da cidade um polo exportador de tendências, influenciando culturalmente todo o resto do país. Fazia também despejar sobre as demais seu poderio econômico, já que até a década de 50 era o Rio – e não São Paulo – a maior e mais rica cidade do Brasil.

A perda deste status trouxe ao Rio uma lenta e gradual desimportância. Mas se culturalmente a Cidade Maravilhosa segue como referência, em termos econômicos ela definitivamente se viu destronada pelo colosso paulistano. Hoje 85% maior (população) e 101% mais rico (PIB), é o município de São Paulo quem dita as regras em áreas-chave como mercado financeiro, publicidade e mídia. Bem aí, nossa reconstituição volta a se cruzar com escopo inicial do texto.

Iniciadas as primeiras conversas que levaram à criação da “Só Fla” – e consequentemente à eleição dos executivos capitaneados por Eduardo Bandeira de Mello – uma parcela delas se deu em São Paulo. Trata-se de um testemunho ocular deste blogueiro, paulistano de residência e integrante original da associação. Como é sabido, alguns dos componentes da antiga “Chapa Azul” eram altos executivos de empresas sediadas em São Paulo – desde operadoras de TV por assinatura a meios de pagamento. Outros, ainda que situados no Rio de Janeiro, eram banqueiros e operadores do mercado financeiro.

O ingrediente que deu liga à mistura foi a compreensão, por parte destes profissionais, da desimportância acometida sobre o Flamengo ao longo de quase 20 anos de vexames esportivos e administrativos. Outrora referência, o clube se tornou motivo de chacota. Sinônimo de tudo de pior que um profissional – fosse ele dirigente ou atleta – poderia almejar. Em direção oposta, catapultados pelo potencial de rendas e por uma mídia cada vez mais influente e (questionavelmente) combativa, os clubes de São Paulo trilharam outro caminho. O Flamengo ficou para trás.

Mas como toda fábula tende para um final feliz, ao longo dos últimos quatro anos este processo não só estancou, como iniciou reversão. Ainda assim, num contexto em que nem tudo é reversível: o Flamengo só pode modificar o inerente a si: gestão e resultados. Não mudará o fato de o dinheiro circular muito mais em São Paulo do que no Rio. Nem o maior interesse de Band, Record, RedeTV ou UOL sobre os clubes do mercado que lhes paga as contas. Por isto, o reconhecimento: se não pode vencê-los, o Flamengo deve juntar-se a eles.

Maioral em torcida, o Rubro Negro é relevante em todo Brasil, menos no estado do Rio Grande do Sul – palavra do Blog Teoria dos Jogos, especializado no tema. Só que em São Paulo, o Fla se beneficia mais de um vultoso quantitativo absoluto do que percentual, respondendo por 2,5% dos torcedores da cidade. Por que não cativá-los, portanto? Atrair a juventude, tentar fidelizá-la? Junte-se a isso a promessa de retomada da antiga preponderância, brigando por títulos e vencendo de maneira incontestável. Como ontem, em pleno solo paulistano. Eis a receita do banquete vislumbrado.

Nada disto tem relação com “querer ser paulista” ou dar as costas à sua verdadeira identidade – mais nacional do que carioca. Tem tudo a ver com negócios e estratégia. Com a busca por novos mercados e maior exposição. Desde que sem megalomanias, com pragmatismo e os dois pés no chão, faz o Flamengo muito bem. Ele não se tornará nativo: sob a ótica dos que aqui residem, há quatro times mais importantes. Mas num trabalho de longo prazo, pode, sim, flertar com a cidade e o estado. Visitá-los mais vezes. Cortejá-los, atraindo toda a sua simpatia – o que para alguns é quase amor.

Os holofotes virão natural e consequentemente.

PS: Como torcedor não vive de razão, mas de paixão, parece uma boa ideia incentivar – desde que de comum acordo entre as diretorias – uma “invasão” bem maior do que a de 2008 ao Morumbi, daqui a duas rodadas. O anfitrião, em má fase e com poucas pretensões, certamente não se oporia à possibilidade explorar a capacidade ociosa de seu imenso estádio. Para o Fla, o ganho intangível de perpetuar no imaginário coletivo algo que pode perdurar por décadas. Que o digam os corintianos.

Um grande abraço e saudações!

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Palmeiras x Fla tem audiência de decisão e quebra recordes

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Na noite de ontem, Palmeiras e Flamengo se enfrentaram no que vem sendo considerada uma decisão antecipada do Campeonato Brasileiro de 2016. Embora seja cedo para afirmações nesta direção, dadas as treze rodadas ainda pendentes, a verdade é que as audiências televisivas refletiram uma expectativa de final de campeonato. Para o Rio de Janeiro, o empate de 1 x 1 entre alviverdes e rubro-negros rendeu espetaculares 37 pontos de audiência com 55% de share. Parece muito, e é mesmo. Principalmente se fizermos uma retrospectiva das grandes audiências do futebol nos últimos anos.

Os índices constituíram a maior audiência da Globo no Campeonato Brasileiro desde a última rodada do Brasileirão 2009 – exatamente quando o Flamengo se sagrou campeão. Naquela ocasião, a vitória de 2 x 1 sobre o Grêmio rendeu à emissora 42 pontos com 72% de share, também considerando apenas a praça do Rio de Janeiro. Desde então, apenas a decisão da Copa do Brasil de 2013 alcançou resultado melhor. Na noite de 27/11/2013, o Flamengo (sempre ele) venceu o Atlético-PR por 2 x 0 e rendeu à TV dos Marinho 38 pontos com 61% de share. Como a Band também transmitiu aquela partida (o que não acontece mais), a audiência total daquela ocasião ficou em 41 pontos com 66%.

Se considerarmos a audiência somada Globo + Band, além das finais de 2009 e 2013, apenas outros dois jogos superaram a partida de ontem no Rio. Foram eles: a segunda partida das oitavas de final da Copa do Brasil 2015, entre Flamengo x Vasco (41 pontos com 64% totais) e o antológico Santos 4 x 5 Flamengo de 2011 (39 com 60%). Uma surpreendente partida entre Fla e Vasco válida pela fase de grupos da Taça Guanabara deste ano marcou os mesmos 37 pontos, mas com share superior (57%). Lembrando que em todos estes casos, a audiência da Globo sozinha foi menor do que a emissora marcou ontem.

Mas os números de ontem não foram impressionantes apenas sob a ótica carioca. Mesmo em São Paulo, recentemente a Globo jamais atingiu 37 pontos com uma partida do Brasileirão. É verdade que por seis vezes a Globo marcou entre 39 e 46 (!) pontos, todas envolvendo jogos do Corinthians. No entanto, em cinco oportunidades o torneio era a Libertadores em estágios avançados. Na outra, tratava-se da final da Copa do Brasil de 2009. Isolando apenas o Campeonato Brasileiro, Corinthians x Palmeiras (última rodada de 2011) e São Paulo x Corinthians (25ª rodada do mesmo ano) marcaram, respectivamente, 41 e 38 pontos, mas no agregado com a Band. Sozinha, a Vênus Platinada não ultrapassa os 30 pontos em São Paulo há anos.

A Globo do Rio também igualou sua melhor audiência absoluta no futebol 2016. Ela pertence à final Olímpica, entre Brasil x Alemanha, momento em que atingiu os mesmos 37 pontos, mas com incríveis 60% de share em plena tarde de sábado. No absoluto, a conquista  do ouro segue como a maior audiência do futebol no ano, com 45 pontos totais (73%) – graças aos 5 pontos atingidos pela Record (8%) e 3 da Band (5%). Em São Paulo também foi assim: 46 pontos totais (70%), sendo 35 com 53% na Globo, 6  com 9% na Band e 5 com 8% na Record.

Para terminar, ontem a Globo São Paulo optou por veicular Coritiba x Corinthians em detrimento do clássico do Allianz Parque – que demandaria a exceção de exibir a partida para a mesma praça. Assim, o resultado foram protocolares 26 pontos com 40% de participação.

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A Pesquisa da Vez: capitais brasileiras (SPC/CNDL) – EXCLUSIVO

No início da tarde de hoje, o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) divulgaram uma estudo sobre os hábitos de consumo dos torcedores no Brasil. Por se tratarem de instituições relacionadas ao crédito e adimplemento, o foco da pesquisa recaiu sobre questões orçamentárias, como capacidade de pagamento e gastos excessivos com produtos e serviços relacionados ao futebol. Maiores detalhes sobre a pesquisa podem ser vistos no site da SPC Brasil (clique aqui).

Sendo um questionário aplicado nas 27 capitais brasileiras, o estudo veio naturalmente acompanhado de uma pesquisa de torcidas. Assim, o Blog Teoria dos Jogos entrou em contato com o SPC Brasil e teve acesso aos números de maneira exclusiva. No entanto, muitos esclarecimentos se fazem necessários.

Em primeiro lugar, não se trata de uma pesquisa nacional, já que as entrevistas se concentraram tão somente nas 27 capitais brasileiras, e com amostra bastante limitada: 620 torcedores. Além disso, por ter focado o universo de torcedores (e não o universo populacional), o “Nenhum” (pessoas sem time) foi descartado, fazendo com que o percentual de cada torcida subisse. Só que o mais importante é que a pesquisa não seguiu proporcionalidades primordiais. Isto que significa que 63% dos respondentes foram homens, mesmo numa sociedade de maioria feminina. Em termos geográficos, entrevistou-se um número muito maior de cariocas (16,6%) do que paulistanos (20,1%) proporcionalmente, levando a uma superestimação dos números atrelados aos times do Rio. Depois das duas maiores metrópoles vieram Salvador (8,3%), Porto Alegre (6,8%), Curitiba (6,1%), Fortaleza (5,6%), Recife (5,4%), Belo Horizonte (4,2%) e Manaus (4%).

Todas as limitações abordadas acima não inviabilizam este estudo de abordagem criativa e diferenciada. A questão é que, mais do que nunca, a pesquisa SPC/CNDL reflete tão somente o perfil de sua amostra. Por conta disto, o Blog Teoria dos Jogos optou por expor seus resultados sem proceder maiores análises sobre os recortes de gênero, idade, renda e fanatismo. Convidamos, portanto, nossos leitores a fazê-lo.

Seguem os números:

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