A fábula de um rubro-negro paulistano

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Novamente na manhã de ontem, a torcida do Flamengo deu enorme demonstração de força em praças externas – desta vez, uma nem sequer inédita. Pela segunda vez em 2016, os flamenguistas encheram o Pacaembu, em São Paulo, vencendo o Figueirense por 2 x 0 e mantendo a perseguição ao líder Palmeiras. Ainda que o sucesso comercial das incursões à cidade justifiquem-nas plenamente, a verdade é que ainda há quem desconheça e estranhe as verdadeiras intenções do Rubro Negro em terras bandeirantes. Para compreendê-las, um breve retrospecto histórico se faz necessário.

Ao contrário do senso comum, não foi a Rede Globo na década de 80, nem as ondas do rádio em meados de 1960. Naturalmente, estes meios ajudaram muito a propagá-lo, tornando-o ainda maior. Mas a fama de “maior torcida do Brasil” atribuída ao Fla vem desde algumas décadas antes. Decerto iniciada pela importantíssima condição de capital federal, ocupada pelo Rio até abril de 1960. Isto fazia da cidade um polo exportador de tendências, influenciando culturalmente todo o resto do país. Fazia também despejar sobre as demais seu poderio econômico, já que até a década de 50 era o Rio – e não São Paulo – a maior e mais rica cidade do Brasil.

A perda deste status trouxe ao Rio uma lenta e gradual desimportância. Mas se culturalmente a Cidade Maravilhosa segue como referência, em termos econômicos ela definitivamente se viu destronada pelo colosso paulistano. Hoje 85% maior (população) e 101% mais rico (PIB), é o município de São Paulo quem dita as regras em áreas-chave como mercado financeiro, publicidade e mídia. Bem aí, nossa reconstituição volta a se cruzar com escopo inicial do texto.

Iniciadas as primeiras conversas que levaram à criação da “Só Fla” – e consequentemente à eleição dos executivos capitaneados por Eduardo Bandeira de Mello – uma parcela delas se deu em São Paulo. Trata-se de um testemunho ocular deste blogueiro, paulistano de residência e integrante original da associação. Como é sabido, alguns dos componentes da antiga “Chapa Azul” eram altos executivos de empresas sediadas em São Paulo – desde operadoras de TV por assinatura a meios de pagamento. Outros, ainda que situados no Rio de Janeiro, eram banqueiros e operadores do mercado financeiro.

O ingrediente que deu liga à mistura foi a compreensão, por parte destes profissionais, da desimportância acometida sobre o Flamengo ao longo de quase 20 anos de vexames esportivos e administrativos. Outrora referência, o clube se tornou motivo de chacota. Sinônimo de tudo de pior que um profissional – fosse ele dirigente ou atleta – poderia almejar. Em direção oposta, catapultados pelo potencial de rendas e por uma mídia cada vez mais influente e (questionavelmente) combativa, os clubes de São Paulo trilharam outro caminho. O Flamengo ficou para trás.

Mas como toda fábula tende para um final feliz, ao longo dos últimos quatro anos este processo não só estancou, como iniciou reversão. Ainda assim, num contexto em que nem tudo é reversível: o Flamengo só pode modificar o inerente a si: gestão e resultados. Não mudará o fato de o dinheiro circular muito mais em São Paulo do que no Rio. Nem o maior interesse de Band, Record, RedeTV ou UOL sobre os clubes do mercado que lhes paga as contas. Por isto, o reconhecimento: se não pode vencê-los, o Flamengo deve juntar-se a eles.

Maioral em torcida, o Rubro Negro é relevante em todo Brasil, menos no estado do Rio Grande do Sul – palavra do Blog Teoria dos Jogos, especializado no tema. Só que em São Paulo, o Fla se beneficia mais de um vultoso quantitativo absoluto do que percentual, respondendo por 2,5% dos torcedores da cidade. Por que não cativá-los, portanto? Atrair a juventude, tentar fidelizá-la? Junte-se a isso a promessa de retomada da antiga preponderância, brigando por títulos e vencendo de maneira incontestável. Como ontem, em pleno solo paulistano. Eis a receita do banquete vislumbrado.

Nada disto tem relação com “querer ser paulista” ou dar as costas à sua verdadeira identidade – mais nacional do que carioca. Tem tudo a ver com negócios e estratégia. Com a busca por novos mercados e maior exposição. Desde que sem megalomanias, com pragmatismo e os dois pés no chão, faz o Flamengo muito bem. Ele não se tornará nativo: sob a ótica dos que aqui residem, há quatro times mais importantes. Mas num trabalho de longo prazo, pode, sim, flertar com a cidade e o estado. Visitá-los mais vezes. Cortejá-los, atraindo toda a sua simpatia – o que para alguns é quase amor.

Os holofotes virão natural e consequentemente.

PS: Como torcedor não vive de razão, mas de paixão, parece uma boa ideia incentivar – desde que de comum acordo entre as diretorias – uma “invasão” bem maior do que a de 2008 ao Morumbi, daqui a duas rodadas. O anfitrião, em má fase e com poucas pretensões, certamente não se oporia à possibilidade explorar a capacidade ociosa de seu imenso estádio. Para o Fla, o ganho intangível de perpetuar no imaginário coletivo algo que pode perdurar por décadas. Que o digam os corintianos.

Um grande abraço e saudações!

E-mail da coluna: teoriadosjogos@globo.com

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7 comentários sobre “A fábula de um rubro-negro paulistano

  1. Só tem um problema com essa ideia da invasão: O flamengo não poderá ter torcida contra o SP por conta da punição do jogo do primeiro turno contra o Palmeiras.

  2. Gostei da abrangência e as estratégias de marketing e de aumento de valor da marca Flamengo. Disto isso, e guardadas as devidas proporções, sabemos que o meu time, o Cruzeiro tem muita torcida no ESPÍRITO Santo. No DF e em Goiás, e se subir mais um pouco ainda vai encontrar torcedores no Norte. Você acha viável e até inevitável para que um Clube que queira se perpetuar , no caso o Cruzeiro, mandar jogos para estas regiões a fim de conquistar mais mercados e novos torcedores?

  3. Perdoe-me, mas discordo…Para se obter expansão, precisa encantar com futebol e ter a mídia ao seu lado. Melhor futebol, acho difícil para o Flamengo. O momento é favorável, mas um time assim não se sustenta, (e olha q o time não é tudo isso), por conta da pressão da dívida, que é imensa! O poder de arrecadação é alto, mas a dos rivais paulistas é no mínimo igual. A força da mídia aqui em SP, sempre será toda concentrada nos grandes paulistas. A verdade é que o Flamengo ainda aproveita o grande número de pessoas nortistas e nordestinos que vivem em SP…Mas até isso, com o tempo, vai equalizar, pois os paulistas tb ganham terreno nessas áreas. A força econômica de SP, pouco a pouco, vai engolir a força midiática e a influência cultural carioca, aproveitada pelo Flamengo no passado…O clube continuará a ser grande, claro, mas a tendência é no melhor dos cenários, estagnar.

  4. Adorei!! Isso é prova da imensidão do Fla. Não somos uma torcida localizada num estado apenas. É muito mais nacional do que carioca. Sei que tem preconceito a respeito de quem nasceu no nordeste e torce para o mengão, porém o meu amor ao flamengo vai além.. . Ainda que nascesse no Japão, uma vez tivesse a oportunidade de conhecer o Mengo, seria eternamente mengão!!!!

  5. Só tem um problema com essa idéia de invasão: Não somos, não seremos invasão nunca, somente atente ao fato de que a torcida rubro negra já aqui está radicado em todo SP e estado, o que é diferente do significado invasão! Abraços!!!

  6. Já ouviu falar da Rádio Nacional? Consulta lá o almanaque dela pra ver como a torcida do flamengo foi forjada. Nada maior que a força da propaganda. Um clube de elite que se popularizou artificialmente rs O tempo se encarregou de diminuir esse clube que vive de lampejos

    abç

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