OPINIÃO: Da devastação ao auge em dois atos

 

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Os últimos dias reservaram para nós, brasileiros, uma sequência de tragédias e superações que nem de longe imaginaríamos enfrentar. Na madrugada de terça-feira, o impacto de um avião lotado de sonhos e esperanças ceifou a vida de um time de futebol inteiro, numa colina próxima a Medellín. Levando junto seu corpo técnico e diretivo, além de mais de 20 jornalistas, renomados e anônimos, experientes e iniciantes. No total, incluídos os tripulantes bolivianos (país de origem da aeronave), foram ceifadas 71 vidas.

Dos destroços, se fizeram o primeiro gigante: a Associação Chapecoense de Futebol. Agremiação de existência recente, não tanto quanto a guinada que levou à sua ascensão meteórica. A caminho da Colômbia, jogaria a primeira final continental de sua história. Mais: da história de Santa Catarina – denotando importância não apenas para uma cidade, hoje em destroços, como para toda a região. Ou mesmo para o país, simpáticos que sempre fomos ao “Verdão do Oeste”.

O desaparecimento da Chape, agora sem elenco para jogar, ironicamente fez dela o maior clube do planeta. Vide as homenagens mundo afora, vindas dos maiores ídolos, das principais equipes e suas ligas. A imprensa estrangeira, em linha com a nacional, passou a só falar da Chapecoense, vítima da pior tragédia da história de uma equipe esportiva.

Das lágrimas, um oceano de afeto. E desta solidariedade – que gerará ajuda financeira e imunidade competitiva aos guerreiros Condá – surgiram os maiorais. Únicos conseguirem a façanha de unir este universo de rancores e intolerâncias chamado futebol.

Pois não é que apenas dois dias depois, a devastação deu lugar ao auge? Sim, o auge. O auge da humanidade neste ano nefasto, marcado por tragédias, conflitos e maracutaias. Marcado por tanto deboche. O apogeu se deu pelas mãos colombianas, um país que se viu envolvido numa tragédia sem perder nenhum sequer dos seus. Mas que se dedicou sobremaneira ao resgate e tratamento das vítimas. O auge se deu também através das mãos da torcida do Atlético Nacional de Medellín – representando e representado por todo o povo colombiano. Responsáveis que foram pelo mais emocionante tributo já prestado ao Brasil em 516 anos de existência.

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A homenagem aconteceu no estádio Atanasio Girardot, no exato momento em que aconteceria a primeira partida da final da Copa Sulamericana entre Atlético e Chapecoense. Uma quantidade fenomenal de pessoas lotou não somente as arquibancadas como as avenidas no seu entorno. Todas de branco, orando e cantando a Chapecoense. Prestando louvor aos que se foram. E exaltando o Brasil – sim, o Brasil. Tido por eles como espelho e referência em muitos dos inúmeros discursos emocionados.

Deste espetáculo de amor e compaixão, fez-se o segundo maior time do mundo: o Atlético Nacional de Medellín, coincidentemente verde como os nossos. E desde então, ocupante de um espacinho no coração de milhões de brasileiros que jamais imaginariam ser confortados assim, de maneira tão genuína e espontânea.

A partir de agora, os dois gigantes seguem caminhos opostos: o Atlético, rumo ao topo, ao Mundial de Clubes – campeão da Libertadores que é. Já a Chape, a caminho de uma reconstrução que pode e deve ser assumida por cada um de nós. Em comum a ambos, uma ligação, agora visceral, umbilical. E eterna.

Se formos inteligentes, extrairemos destes episódios lições das mais valiosas. A cumplicidade, o amparo e o respeito, renegando rixas, rancores e toda sorte de violências. Ainda que haja uma Floresta Amazônica separando a si dos coirmãos. Nobres ensinamentos dos nossos inesquecíveis amigos colombianos.

E-mail da coluna: teoriadosjogos@globo.com

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