Arquivos mensais: Abril 2017

Match Day: Arena da Baixada

Dizem que não há nada melhor do que aliar trabalho e lazer. O Blog Teoria dos Jogos concorda, há anos trazendo até vocês prazerosas análises de match day em arenas e estádios do Brasil e do mundo. Quando o evento envolve seu time do coração, tanto melhor. Sendo assim, fomos até Curitiba acompanhar o confronto entre Atlético-PR e Flamengo, anteontem na Arena da Baixada, pela fase de grupos da Libertadores. Não deixando escapar nada além dos três pontos.

Antes, é preciso dizer que algumas das percepções estarão limitadas a uma visita que percorreu apenas caminhos e acessos destinados aos visitantes. Ainda assim, nos trouxe impressões interessantes do estádio localizado numa zona densamente povoada da capital paranaense. Chamaram atenção, por exemplo, ruazinhas no entorno sem tanta aglomeração, com o acúmulo de pessoas se intensificando apenas perto dos portões do estádio. Pessoas  eram vistos relaxando tranquilamente em suas residências de classe média – a poucos metros da típica bagunça que envolve os grandes eventos. Um edifício em especial quase se confundia com a Arena, tamanha a proximidade.

As primeiras impressões foram solapadas por uma logística de entrada que funcionou mal, lembrando os piores momentos do antigo Maracanã. Dois pontos de afunilamento – a triagem para revista e a passagem pelas catracas, dentro de uma “mini esplanada” – geraram balbúrdia, aperto e falta de educação. Importante dizer que a maioria dos desrespeitos, como furadas de fila e tentativas de entrar sem ingresso, vieram importados pelos muitos cariocas que viajaram até Curitiba. Pessoas que frequentam a Arena relataram que tais confusões não condizem com a normalidade. De qualquer maneira, corredores e escadarias apertados soaram como uma falha estrutural, ao menos à ocasião de um setor abarrotado por cerca de 4,5 mil visitantes.

Dentro das instalações, o panorama mais conhecido da Arena da Baixada: um estádio incrível. Mas de uma sobriedade inquietante e algo asséptica, dadas as cadeiras em tons de cinza ao estilo E.L James. Preenchido pelo negro-rubor atleticano (e, naquela noite, também do Flamengo) o coliseu se torna ainda mais belo, dando margem para questionamentos acerca da paleta de cores selecionada. No que tange ao conforto, pouco a reclamar – talvez uma certa superlotação no setor inferior dos visitantes.

Mas as principais curiosidades em se tratando da casa do Atlético são duas: grama sintética e cobertura. No primeiro caso, poucas avaliações podem ser feitas no olhômetro. De qualquer maneira, a aparência é claramente de algo não-natural, ao cabo que a bola parece correr e quicar normalmente. Quanto à cobertura, trata-se de algo majestoso, proporcionando um ganho ímpar de qualidade na experiência. Principalmente em noites frias e com ameaça de chuva, como era o caso.

Um efeito colateral: a proibição de fumar, em se tratando de ambiente fechado. Longos anúncios nos alto falantes chamavam atenção para o fato, o que não evitou certas “marolas”. Outra relativa imperfeição vem do formato da arquibancada, que impede a visualização do setor superior pelo inferior. Pior: camarotes atleticanos entre os dois níveis da torcida do Flamengo geraram alguns princípios de bate-boca.

Ainda assim, a atmosfera do Joaquim Américo Guimarães (seu nome oficial) é estonteante. Em parte pelo ambiente fechado e seu alarido de ginásio, mas também pela própria torcida do Furacão, articulada e atuante. Um acanhado mosaico foi preparado para a entrada do time em campo. Uma das inscrições dizia “Soy Loco Por Ti”, acompanhada por outras faixas em espanhol que remetiam à velha pedância latinizante das torcidas do Sul.

Uma recém instalada faixa de LED – algo que até então apenas a Arena Corinthians possuía – dava ares de NBA ao espetáculo.

Por fim, e novamente deixando claro se tratar apenas do setor de visitantes, banheiros e corredores internos eram simples e acanhados, assim como havia pouca variedade nos bares (nenhum produto foi consumido). Bebidas alcoólicas não se encontravam disponíveis.

Um grande abraço e saudações!

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Razões pelas quais o Carioca foi parar na UTI

Fonte: Fox Sports

Textos, análises e colunas elencando as razões da falência do Estadual do Rio se tornaram tão abundantes quanto oxigênio. Mais ainda num ano em que a Taça Rio se tornou inacreditavelmente amistosa, com grandes duelando em confrontos esvaziados e sem qualquer sentido – já que as semifinais estavam previamente determinadas. No entanto, ainda que sejam maioria, nem todos os motivos da bancarrota são tão óbvios quanto parecem. Tentando ir além, fugiremos do senso comum e indicaremos a viabilidade da adoção de medidas que tentassem reverter os sintomas, tirando o paciente chamado Campeonato Carioca de sua experiência de quase-morte.

1- Fórmulas esdrúxulas

Apesar de já existirem muitos defeitos, até 2007 o regulamento do Carioca era um dos únicos itens presentes em sua pauta de exportações. Tanto o Campeonato Mineiro quanto o Gaúcho, cada um a seu tempo, chegaram a copiar a fórmula que apregoava “doze times, dois grupos, todos contra todos dentro (Taça Guanabara – 1º turno) e fora (Taça Rio – 2º turno) de seus grupos. Campeões dos dois turnos fazem a final. Quem ganhar os dois é campeão direto”.

Preocupada porque dois campeonatos se encerraram sem finalíssima em curto período (2011 e 2013), a Federação de Futebol do Estado do Rio (FERJ) mudou as regras no ano de 2014, passando a funcionar na base do grupo único, todos contra todos, 15 rodadas. A partir de então, a Taça Rio começou a não valer nada, sendo disputada apenas pelos times pequenos do estado. Este torneio foi o embrião das inúmeras mudanças que viriam a seguir, culminando na edição de pior fórmula em todos os tempos: a atual.

Viabilidade de se proceder mudanças: Alta. Basta querer (e votar em Arbitral) para que os moldes presentes até 2013 retornem.

2- Excesso de times

Importante notar que o número de equipes participantes tem relação inequívoca com o item anterior. Foi a partir de 2008 que a Federação, visando atender ao maior número de interesses possível, insuflou o Carioca de 12 para 16 times. Isto aumentou o número de datas destinadas ao Estadual – em direção contrária a tudo o que se apregoa atualmente – e maximizou a quantidade de jogos de baixa qualidade, sendo pequenos contra pequenos ou grandes contra pequenos.

Numa tentativa de remediar o mal – mas ainda mantendo a ascendência sobre os menores, cujos votos são valiosos para a manutenção do poder – em 2017 a FERJ procedeu uma emenda que, para variar, saiu pior do que o soneto. O torneio segue tendo 16 clubes, mas a primeira fase foi disputada por apenas seis pequenos – que constituíram o famigerado “Grupo A”. Ela incluiu os dois primeiros colocados da Série B de 2016, mais os quatro times de pior campanha no Estadual 2016 (exceto os rebaixados!). Deste imbróglio, apenas dois tiveram a sorte de se juntar aos dez clubes previamente qualificados para o “Carioca de verdade”. Outros quatro foram disputar a aberração chamada “quadrangular do rebaixamento” – como se, ao jogarem apenas contra outros pequenos, já não se sentissem rebaixados de antemão.

Em resumo: diminuíram os jogos de grandes contra pequenos por meio de ferramentas que trouxeram ainda mais injustiças e distorções: a) Um time pode subir da segunda divisão, investir para montar uma equipe e não ter sequer a possibilidade de enfrentar os grandes; b) Torneios envolvendo nanicos sem apelo prolongam-se indefinidamente em paralelo ao estadual principal, impactando negativamente na média de público e positivamente na tábua de artilharia. Isto mesmo: você sabia que o artilheiro do Estadual 2017 é Max, da Cabofriense, que jogou apenas os “torneios da morte”?

Viabilidade de se proceder mudanças: Média. Seria alta, já que basta a Federação decidir pelo fim dos torneios paralelos e o retorno ao Estadual com 12, ascensão e descenso diretos. Mas onde entraria o desejo de se controlar, na base do cabresto, votos do maior número possível de agremiações? Vai contra o projeto de perpetuação no poder que impera na FERJ.

 3- Desvalorização dos pequenos e do interior

Outra decisão equivocada que impactou sobre a média de público foi a proibição, alguns anos atrás, de a maioria dos pequenos mandarem jogos em seus estádios e cidades. À época, alegou-se falta de estrutura para transmissões, falta de segurança, laudos dos órgãos técnicos e outras tantas coisas inexistentes nos cem campeonatos anteriores. O resultado, todos viram: excesso de jogos em cidades com estádios autorizados mas sem demanda para eventos tão pobres e numerosos, como Volta Redonda ou Macaé. O Estádio Raulino de Oliveira passou a receber inúmeros grandes desinteressados e jogando com reservas. O Resende teve que encará-los na mesma cidade, a 40 km de casa, desequilibrando a questão esportiva pela falta do efeito-mandante. Ou seja, uma canetada chafurdou o equilíbrio, as rendas e os públicos da competição.

Viabilidade de se proceder mudanças: Baixa. A Federação passaria a ter que ajudar os pequenos na adequação e manutenção de seus estádios. Ajuda bem diferente (e mais cara) do que a usual, através do mero fornecimento de bolas, chuteiras, uniformes…

4- Desvalorização do produto

Deveria ser péssimo para a FERJ que alguns de seus principais integrantes tenham rompido entre si por não coadunarem com as práticas alheias. Que outros, por alinharem ideologicamente, digam amém a toda sorte de ingerências – principalmente as que prejudicam os insatisfeitos. A Federação deveria fomentar o consenso, e não alimentar a beligerância – como se verifica nos dias atuais.

Deveria ser péssimo para a FERJ que a média de público do Estadual seja a menor da década, impactando negativamente em sua imagem e prejudicando vendas tanto para o público geral (bilheterias) quanto para veículos de mídia e patrocinadores (placas publicitárias, naming rights, receitas de televisionamento, etc).

Deveria ser péssimo para a FERJ que o Estadual do Rio de Janeiro – outrora o mais importante – se tornasse motivo de chacota entre torcedores e profissionais de estados com bem menos tradição no esporte. Mas muito mais público…

Viabilidade de se proceder mudanças: nula, enquanto déspotas se perpetuarem em seus cargos e intervenções do poder público não chegarem às federações de futebol.

Não adentraremos no debate da falta da qualidade dos times, que impacta visceralmente no baixo apelo do certame. Nem na insegurança de eventos que atraem bandidos e culminam em pancadarias e mortes – boçalidades em ambientes que deveriam celebrar a congregação. Tais questões não serão abordadas porque, além de envolverem outras esferas (gestão esportiva, segurança pública, etc), se fazem presentes em todos os outros estados. São chagas brasileiras, portanto. Nosso foco é tudo aquilo que pode ser fruto de análise e alvo de medidas drásticas por parte dos responsáveis pelo Campeonato Carioca de futebol.

Pois se quem manda nos estaduais são as federações, a do Rio de Janeiro – na figura do sr. presidente Rubens Lopes – é a principal responsável pela implosão de seu próprio torneio.

Um grande abraço e saudações!

E-mail da coluna: teoriadosjogos@globo.com

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