Arquivos mensais: maio 2017

Esclarecimentos a respeito das finanças do Flamengo

Ao final de uma elogiada série de publicações acerca das finanças dos clubes brasileiros, o jornalista Rodrigo Capelo, da Época, nos brindou com suas análises a respeito da situação do Flamengo. O conteúdo revela o que já se convencionou como “chover no molhado”: a ótima gestão financeira do Rubro Negro. Mas suscita dúvidas a respeito da primazia econômica do clube no cenário atual. Tudo porque, se a situação é muito boa na comparação com cinco anos atrás, em termos absolutos existem mais dificuldades do que presume nossa vã filosofia.

Arte gráfica -Revista Época

Segundo o autor, o Flamengo teria arrecadado, de fato, R$ 468,7 milhões em 2016, um contraponto aos R$ 510 milhões contidos no balanço patrimonial do clube. Tudo porque contabilidade, embora seja uma ciência exata, é passível de interpretações e diferentes óticas. A principal delas é a questão dos regimes de caixa (o que de fato entrou) e competência (o que foi registrado, apesar de ocorrido em outros exercícios). Em seu balanço 2016 (que pode ser baixado aqui), o Flamengo comunica o recebimento de R$ 120 milhões de luvas pelo televisionamento, mas registra pouco mais de R$ 100 milhões a título de valor presente. Destes, R$ 70 milhões foram adiantados e outros R$ 50 milhões virão em duas parcelas (2019 e 2021). Isto significa uma diferença de aproximadamente R$ 30 milhões entre o que o clube já de fato arrecadou e o que contabiliza. Adicionalmente, R$ 11.345.000,00 adiantados pela REX pelo arrendamento do Edifício Hilton Santos (Morro da Viúva), ainda na administração Patricia Amorim, só foram contabilizados no exercício passado. Isto porque o acordo que desobrigou o Flamengo a devolver aquela quantia só foi fechado no ano que passou. Diante disto, teríamos a tal diferença de aproximadamente R$ 41,3 milhões entre receitas contabilizadas e as de fato verificadas.

Algo parecido, ainda que em vetores opostos, ocorre sob a ótica do endividamento. Segundo o balanço flamenguista, a dívida líquida teria caído para R$ 390 milhões em 2016. Capelo, em seu texto, considera R$ 469,6 milhões. Já a BDO Brazil, uma das principais empresas de auditoria do país, crava R$ 460,6 milhões. Novamente nos deparamos com questões conceituais, pois o Flamengo considerou quase todo seu ativo – que subtraído ao passivo, nos leva à mensuração do endividamento. O problema é que ativos como imobilizado ou intangível não devem ser considerados, segundo interpretação corrente, ainda que o clube o tenha feito. Presume-se, portanto, um endividamento maior, o que explica a situação do Flamengo ser boa, mas não maravilhosa como presumem aqueles que nele colaram a pecha de “novo rico”.

Uma terceira problemática passa pelos empréstimos contraídos. Conforme esclarecido nos parágrafos acima, a dívida ainda é alta e muitas das despesas são descoladas das receitas. Pagamentos imediatos e inadiáveis (como folhas salariais) ocorrem em descompasso com afluxos inconstantes como bilheterias ou premiações por título. Por conta disto, a captação de empréstimos no mercado durante a gestão Bandeira de Mello se deu a uma média de quase R$ 50 milhões anuais – exatamente o valor orçado para 2017:

Fonte: Orçamento 2017 do C.R. do Flamengo

Isto leva o Flamengo à condição de detentor de uma dívida bancária cara, com taxas de juros próximas aos 2% mensais. Trata-se de um passivo que, embora em queda*, o faz em ritmo menor do que o aumento das receitas, já que estas precisam ser rateadas com a administração do futebol (salários, aquisição de direitos econômicos, luvas, etc) e a composição de patrimônio (Ex: CT Ninho do Urubu).

*Apenas com bancos, caiu de R$ 130,3 milhões em 2015 para R$ 111,5 milhões em 2016.

Fonte: Balanço patrimonial 2016 – C.R. do Flamengo

A consequência é algo que não costuma passar pela cabeça do leitor comum, sempre confrontado com números contabilmente tão bons. A redução global do endividamento do Flamengo, ainda que excelente, nem sempre se dá na exata medida dos superávits acumulados:

Fonte: Análise de Mercado – Clubes Cariocas (BDO)

Em se tratando de uma administração premiada por sua austeridade, temos ideia do tamanho das dificuldades. Operacionalizar um clube com passivos importantes e demandas esportivas ainda mais altas não é nada fácil, afinal. Num próximo texto, trataremos das expectativas financeiras do Flamengo após o fabuloso aporte que se aventa, fruto do repasse do jovem Vinicius Junior ao Real Madrid, da Espanha.

Um grande abraço e saudações!

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Match Day – Morumbi Concept Hall (Camarote Unyco)

Quem acompanha o Blog Teoria dos Jogos conhece nosso hábito de promover visitações aos estádios de futebol, seja em suas áreas nobres ou arquibancadas. O exemplo mais recente de experiência na condição de torcedor comum se deu há poucas semanas, quando estivemos na Arena da Baixada, em Curitiba, para uma partida da Libertadores. Já as experiências prime tiveram representação, entre tantos outros lugares, nas duas mais recentes arenas paulistas: o Business Lounge da Arena Corinthians e os camarotes do Allianz Parque.

No entanto, faltava visitar o último grande estádio particular da cidade – na verdade, o mais antigo deles. Que além de pioneiro em sua grandiosidade, foi também o primeiro a oferecer um mix de opções aos que demandam experiências mais sofisticadas. Em tempos de difícil definição sobre o significado da expressão “arena”, o Estádio Cícero Pompeu de Toledo – mais conhecido como Morumbi – oferece, do alto de seus 56 anos, uma das visitações mais surpreendentes entre as vivenciadas ao longo do nosso processo.

É bom deixar claro: o Morumbi é um estádio antigo, tornando irremediável a obsolescência de sua estrutura geral. Nada diferente de outros estádios tradicionais, mesmo fora do Brasil, como o Camp Nou (Barcelona) ou o Vicente Caldeirón (Atlético de Madrid – em vias de desativação). Uma olhada na estrutura dos anéis superiores de arquibancadas deixa isso claro. O posicionamento dos camarotes também: em localização térrea, impede que se tenha plena noção de profundidade a quem acompanha as partidas. Erro que também cometia, ainda que antagonicamente, o antigo Maracanã e seus camarotes na última (e mais distanciada) fila de arquibancadas. Este tipo de equívoco não existe nas novas arenas.

Mas se existe um problema na “localização geográfica” dos camarotes do Morumbi, eles se equivalem aos demais – e em alguns casos, os superam – no tocante as suas outras características. Tudo fruto da excelente ideia chamada Morumbi Concept Hall, que há dez anos iniciou a utilização da estrutura térrea do estádio mesmo em dias sem futebol. Por lá, se verificam desde academias de ginástica a buffets infantis, passando por uma loja oficial, restaurantes e até um pub. Todos abertos em dias de jogos, possibilitando desfrutar de uma gama de serviços bastante rara nas experiências de match day brasileiras.

Ao longo dos espaçosos corredores do Morumbi Concept Hall, encontram-se os camarotes do estádio. E a primeira coisa a chamar atenção foi como o Tricolor se aproxima de seus parceiros comerciais, oferecendo a todos os seus inúmeros patrocinadores o espaço próprio. Além destas salas corporativas, vemos ainda espaços de agências de marketing esportivo e empresas especializadas em hospitalidade. O principal e mais grandioso é o Unyco, que gentilmente atendeu à solicitação de nossa visita, sendo o local onde apreciamos a partida São Paulo x Defensa Y Justicia, na última quinta feira.

Disposto em um grandioso salão, o Espaço Unyco muitas vezes é utilizado para eventos ou gravações de programas de rádio e TV. Com sofás, mesas e bistrôs, o ambiente é refinado e de bom gosto, proporcionando o que há de melhor no que concerne também à culinária. No dia da visita, havia desde petiscos a um apropriado risoto, dada a fria noite de outono. Em meio a eles, bebidas, hambúrgueres e bem preparados sanduíches, como o de pernil com cebola caramelizada.

Mas se o que interessava naquela noite era futebol, para isto também havia opções. Como em todos os outros camarotes do primeiro anel do Morumbi, os torcedores podem escolher entre as cadeiras externas e o lounge interno com visão do campo. Do lado de fora, há mais experiência de estádio, ouvindo a torcida cantar e se integrando a ela (o que pouco aconteceu na ocasião). Se a escolha for o lado de dentro – o que muitos quiseram por conta da temperatura – luxuosas poltronas se dispõem diante televisores ligados em canais esportivos, oferecendo a possibilidade de não perder nenhum detalhe de cada lance.

Ao final, uma improvável e frustrante eliminação acometeu à torcida do são paulina presente ao Espaço. Um paradoxo no tocante à sensação que ficou com o Blog Teoria dos Jogos: uma das melhores experiências num estádio de futebol desde sempre.

Um grande abraço e saudações!

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As razões para o encolhimento do Maracanã

Argentina x Alemanha – Final da Copa do Mundo 2014

De norte a sul, o domingo foi de festa por conta do esperado desfecho dos campeonatos estaduais. Especialmente no Rio, onde um esvaziado campeonato se arrastou por quase três meses, a final nos reservou uma epopeia que apenas um Fla x Flu é capaz de proporcionar. Seguindo roteiro diferente do último embate entre as duas equipes, 22 anos antes, o Flamengo sagrou-se campeão carioca invicto pela sexta vez em sua história.

Em meio a tudo, festa nas arquibancadas: foram 58.399 pagantes, 68.165 presentes e uma renda de R$ 3.242.130,00. Ótimos números para a realidade do futebol atual, uma vez que tivemos o maior público do ano no Brasil. Mas insuficientes para estancar questionamentos que tomam de assalto a cabeça dos torcedores. Se o estádio nunca mais atingirá os 194.063 aficionados do Fla-Flu de 1963, ou mesmo os 120.418 presentes ao clássico do gol de barriga em 1995, por que então o Maracanã não pode alcançar sua capacidade máxima estabelecida, de 78.838 pessoas? Numa final de Copa do Mundo com 74.738 torcedores, onde estariam estes supostos quatro mil lugares?

Decerto, pouco saberemos responder acerca da caixa preta chamada Copa do Mundo. Nada além do fato de, em grandes eventos, posicionamentos de câmera e modificações cerimoniais eliminarem lugares, reduzindo a plenitude de sua capacidade. Mas quanto ao Maracanã do dia-a-dia, tão presente em nosso cotidiano, torna-se quase um dever explicar a razão de tamanhas discrepâncias.

Flamengo x Universidad Católica – Libertadores 2017

Segundo apurações do Blog Teoria dos Jogos, a verdadeira capacidade do Jornalista Mário Filho em 2017 é de 72.285 lugares – eis o que consta no Certificado de Registro, documento emitido pelo Corpo de Bombeiros para autorizar seu funcionamento. Tratam-se de 6.553 lugares a menos do que capacidade máxima. E a razão vem da quantidade de cadeiras quebradas e sem reposição.

Estamos falando de um problema que existe desde o começo das operações da Concessionária Maracanã SA, em 2013. Algo que se intensificou após o Comitê Organizador das Olimpíadas assumir o estádio, devolvendo-o em estado de penúria. Historicamente, o ritmo de cadeiras quebradas foi de 25 por partida, gerando um esvaziamento progressivo ao longo do tempo. Para piorar, a fornecedora dos assentos foi à falência e não existe mais. Por estas e outras, o fato é que em quatro anos, novas cadeiras nunca foram compradas, sendo realizada apenas a manutenção e o remanejamento das que tinham salvação.

Explicado o déficit de lugares, temos um outro problema: as cadeiras cativas. Acreditem ou não, elas foram adquiridas em caráter vitalício à época da construção do Maracanã, em 1950. Atualmente, passam de 5.000, mas por problemas que remetem a heranças, espólios e congêneres, aproximadamente 2.300 se encontram fora de uso e descadastradas pela Suderj (que ainda existe). Em razão das perpétuas inoperantes, chegamos ao número mágico de 69.790 ingressos disponibilizados para o Fla x Flu, segundo seu borderô. Com 1.625 devoluções de cortesias, cativas e gratuidades, atingimos o público presente de 68.165 torcedores ontem.

Espaços vazios no Fla x Flu decisivo do Estadual 2017

Diante deste quadro, não podemos dizer que o Maracanã é sequer o maior estádio do Brasil, uma vez que o Estádio Nacional de Brasília (Mané Garrincha) possui capacidade oficial superior: 72.788 pessoas. Seu maior público, na prática, foi de 69.389 durante os Jogos Olímpicos 2016 – equivalente ao máximo comportado em solo carioca. Além disso, tanto Morumbi quanto Castelão e Mineirão possuem dimensões semelhantes, muitas vezes superando o Mário Filho sob a ótica dos públicos pagantes:

-67.052 é a capacidade total de público do Morumbi desde 2013. Seu recorde recente, 66.369 presentes (58.446 pagantes), se deu em um São Paulo x Cruzeiro válido pela Libertadores 2015;

-63.999 pagantes, o recorde da Arena Castelão, durante a partida Fortaleza x Juventude, pela Série C 2016;

-56.854 pagantes (58.893 presentes) foram ao Mineirão assistir à peleja envolvendo Cruzeiro e Grêmio, pelo Brasileirão 2013.

Nuas e cruas, estas são as verdades sobre as atuais condições do estádio do Maracanã.

Um grande abraço e saudações!

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