Esclarecimentos a respeito das finanças do Flamengo

Ao final de uma elogiada série de publicações acerca das finanças dos clubes brasileiros, o jornalista Rodrigo Capelo, da Época, nos brindou com suas análises a respeito da situação do Flamengo. O conteúdo revela o que já se convencionou como “chover no molhado”: a ótima gestão financeira do Rubro Negro. Mas suscita dúvidas a respeito da primazia econômica do clube no cenário atual. Tudo porque, se a situação é muito boa na comparação com cinco anos atrás, em termos absolutos existem mais dificuldades do que presume nossa vã filosofia.

Arte gráfica -Revista Época

Segundo o autor, o Flamengo teria arrecadado, de fato, R$ 468,7 milhões em 2016, um contraponto aos R$ 510 milhões contidos no balanço patrimonial do clube. Tudo porque contabilidade, embora seja uma ciência exata, é passível de interpretações e diferentes óticas. A principal delas é a questão dos regimes de caixa (o que de fato entrou) e competência (o que foi registrado, apesar de ocorrido em outros exercícios). Em seu balanço 2016 (que pode ser baixado aqui), o Flamengo comunica o recebimento de R$ 120 milhões de luvas pelo televisionamento, mas registra pouco mais de R$ 100 milhões a título de valor presente. Destes, R$ 70 milhões foram adiantados e outros R$ 50 milhões virão em duas parcelas (2019 e 2021). Isto significa uma diferença de aproximadamente R$ 30 milhões entre o que o clube já de fato arrecadou e o que contabiliza. Adicionalmente, R$ 11.345.000,00 adiantados pela REX pelo arrendamento do Edifício Hilton Santos (Morro da Viúva), ainda na administração Patricia Amorim, só foram contabilizados no exercício passado. Isto porque o acordo que desobrigou o Flamengo a devolver aquela quantia só foi fechado no ano que passou. Diante disto, teríamos a tal diferença de aproximadamente R$ 41,3 milhões entre receitas contabilizadas e as de fato verificadas.

Algo parecido, ainda que em vetores opostos, ocorre sob a ótica do endividamento. Segundo o balanço flamenguista, a dívida líquida teria caído para R$ 390 milhões em 2016. Capelo, em seu texto, considera R$ 469,6 milhões. Já a BDO Brazil, uma das principais empresas de auditoria do país, crava R$ 460,6 milhões. Novamente nos deparamos com questões conceituais, pois o Flamengo considerou quase todo seu ativo – que subtraído ao passivo, nos leva à mensuração do endividamento. O problema é que ativos como imobilizado ou intangível não devem ser considerados, segundo interpretação corrente, ainda que o clube o tenha feito. Presume-se, portanto, um endividamento maior, o que explica a situação do Flamengo ser boa, mas não maravilhosa como presumem aqueles que nele colaram a pecha de “novo rico”.

Uma terceira problemática passa pelos empréstimos contraídos. Conforme esclarecido nos parágrafos acima, a dívida ainda é alta e muitas das despesas são descoladas das receitas. Pagamentos imediatos e inadiáveis (como folhas salariais) ocorrem em descompasso com afluxos inconstantes como bilheterias ou premiações por título. Por conta disto, a captação de empréstimos no mercado durante a gestão Bandeira de Mello se deu a uma média de quase R$ 50 milhões anuais – exatamente o valor orçado para 2017:

Fonte: Orçamento 2017 do C.R. do Flamengo

Isto leva o Flamengo à condição de detentor de uma dívida bancária cara, com taxas de juros próximas aos 2% mensais. Trata-se de um passivo que, embora em queda*, o faz em ritmo menor do que o aumento das receitas, já que estas precisam ser rateadas com a administração do futebol (salários, aquisição de direitos econômicos, luvas, etc) e a composição de patrimônio (Ex: CT Ninho do Urubu).

*Apenas com bancos, caiu de R$ 130,3 milhões em 2015 para R$ 111,5 milhões em 2016.

Fonte: Balanço patrimonial 2016 – C.R. do Flamengo

A consequência é algo que não costuma passar pela cabeça do leitor comum, sempre confrontado com números contabilmente tão bons. A redução global do endividamento do Flamengo, ainda que excelente, nem sempre se dá na exata medida dos superávits acumulados:

Fonte: Análise de Mercado – Clubes Cariocas (BDO)

Em se tratando de uma administração premiada por sua austeridade, temos ideia do tamanho das dificuldades. Operacionalizar um clube com passivos importantes e demandas esportivas ainda mais altas não é nada fácil, afinal. Num próximo texto, trataremos das expectativas financeiras do Flamengo após o fabuloso aporte que se aventa, fruto do repasse do jovem Vinicius Junior ao Real Madrid, da Espanha.

Um grande abraço e saudações!

E-mail da coluna: teoriadosjogos@globo.com

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3 comentários sobre “Esclarecimentos a respeito das finanças do Flamengo

  1. Gostava muito de entrar aqui quando o foco eram as pesquisas de torcida e as análises estatísticas, metodológicas e críticas muito bem feitas. Ultimamente fala-se muito sobre Flamengo, o que não interessa outros torcedores. Que tal outro blog para trazer um pouco mais de “isenção” e para separar conteúdos?

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