O histórico de Botafogo e Flamengo na Ilha do Governador

É amplamente sabido que, há quatro anos, o Maracanã foi entregue de maneira irresponsável a um grupo empresarial envolvido nos mais escandalosos episódios de corrupção. Depois de tudo vir à tona, gerir instalações futebolísticas tornou-se a última prioridade da hoje moribunda Concessionária Maracanã S.A. Por conta disto, Botafogo (primeiramente) e Flamengo (um ano depois) encontraram no estádio Luso Brasileiro, de propriedade da Portuguesa-RJ, uma solução tão pertinente quanto paliativa. Ao longo da temporada 2016, o Alvinegro fez 13 partidas na (à época) denominada “Arena Botafogo”. Recentemente, o Rubro-Negro completou seu 15º embate na atual “Ilha do Urubu”. Assim, já se faz possível estabelecer comparações em questões que vão além do resultado dentro das quatro linhas.

Mas antes, são necessários alguns esclarecimentos. Em primeiro lugar, parece claro que diferentes clubes fazem contabilizações distintas no que tange a critérios de apropriação de despesas. Por não se tratarem de documentos auditados, borderôs (ou “boletins financeiros”, como descritos no site da CBF) podem conter informações não necessariamente fidedignas. Entretanto, com o avançar das boas práticas, acredita-se que estas informações se aproximem cada vez mais da realidade. Tanto que elas referenciam diversas análises, rankings e estudos.

Em segundo lugar, clubes também vivenciam realidades próprias no que diz respeito ao tratamento do sócio-torcedor, às suas política de preços ou mesmo às fases atravessadas por cada um. O projeto “Sou Botafogo”, por exemplo, possui modalidades de acesso gratuito (mediante pagamento de mensalidade, naturalmente), o que inexiste no “Nação Rubro-Negra”. Conforme veremos adiante, isto pode ter impacto sobre as deduções das despesas.

Quanto ao momento esportivo vivido por Botafogo e Flamengo, pode-se afirmar que foram semelhantes no recorte adotado. Onze dos treze jogos do Botafogo no estádio em 2016 foram válidos pelo Brasileirão, com o clube terminando na quinta colocação e angariando vaga na pré-Libertadores. Atualmente, o Flamengo ocupa o sétimo posto no torneio, algo que lhe proporcionaria classificação para a mesmíssima fase da competição continental.

Por fim, uma última observação. É comum que a mídia especializada subtraia, do público presente, o número de gratuidades, auferindo assim o público pagante de cada partida. Trata-se de um expediente distorcivo, uma vez que nesta conta são ignoradas as cortesias. Percebam, no borderô da partida Flamengo 4 x 1 Bahia, que tais valores entram como receitas de maneira fictícia – pois foram distribuídas, não compradas. Posteriormente, há um movimento de débito de igual valor no campo das despesas.

Em jogos do Botafogo – ao menos à época da Arena Botafogo – o valor subtraído a título de “ingressos promocionais” (nome técnico das cortesias) era ligeiramente superior ao que entrava como receita. Presume-se que seja por conta das tais categorias de sócios com livre acesso, conforme detalhado no terceiro parágrafo. Como não se tratavam de valores tão consideráveis, presume-se a comparação entre os borderôs de Botafogo e Flamengo como em pé de igualdade.

Devido aos esclarecimentos acima, optamos por acrescentar duas colunas às já tradicionais colunas de “renda”, “público” ou “ticket médio”. Elas contém o número de “cortesias” e a subtração do público pagante pelas cortesias, chegando ao número real de frequentadores de estádio a título oneroso. Por fim, temos o resultado financeiro das partidas e o percentual de lucro, quando houver.

Vamos às tabelas:

BOTAFOGO

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O público total médio do Botafogo jogando na Ilha do Governador foi de 9.885 pessoas por jogo, um número 10% superior à média de pagantes (8.966) e nada menos que 27% acima do número “real” de pagantes (7.776) – uma vez que houve em média 1.190 cortesias* por partida. O maior público total foi de 15.170 pessoas (Botafogo 0 x 0 Coritiba) e o menor, 4.839, num embate contra o Bragantino pela Copa do Brasil. A maior renda (R$ 480.060,00) ocorreu no jogo de maior público, bem como a operação mais lucrativa (R$ 196.920,92). Já o maior ticket médio, de R$ 39,23, se deu na partida inaugural do estádio, um empate em 3 x 3 diante do próprio Flamengo.

*Considerando questões já abordadas no tocante às cortesias do Botafogo

Percebe-se claramente que, após uma inauguração minimamente rentável, o Botafogo passou a acumular uma série de prejuízos. Na pior sequência, cinco confrontos entre o Bragantino e o Santos, o clube ficou no vermelho em quatro. Mas com a briga pelo G-6, que se iniciou posteriormente e durou até as últimas rodadas, os déficits foram amenizados. De qualquer maneira, cinco dos 13 jogos tiveram prejuízo, enquanto o  resultado financeiro médio foi de meros R$ 12.940,57 por partida.

FLAMENGO

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O público total médio do Flamengo na Ilha do Urubu é de 12.551, número 11% superior à média de pagantes (11.255) e incríveis 29% acima da média dos que realmente pagaram ingresso (9.697, descontadas as 1.558 cortesias por jogo).O maior público (18.204) se deu na partida Flamengo 0 x 1 Grêmio, mas a maior renda aconteceu no confronto anterior: R$ 1.182.167,00, na vitória de 2 x 0 sobre o São Paulo. Já o pior público foi verificado durante a Copa Sul Americana, com apenas 6.074 comparecendo à goleada de 5 x 0 sobre o Palestino. O ticket médio vem variando entre R$ 32,42 e incríveis 73,50.

Pode-se dizer que o processo verificado pelo Flamengo é exatamente oposto ao do Botafogo. Numa euforia inicial, a lua-de-mel com o novo estádio fez com que todas as oito primeiras partidas fossem (bastante) lucrativas. Até o famigerado Flamengo 0 x 2 Vitória, o lucro médio vinha superior a R$ 400 mil por jogo. Com a desilusão, um impacto negativo dramático: seis prejuízos nas últimas sete partidas na Ilha, mesmo diante de uma nada desconsiderável redução do ticket médio. Assim, o resultado financeiro do Flamengo no período se viu esvaziado a uma média de R$ 179.333,65.

COMPARAÇÃO BOTAFOGO X FLAMENGO

Ao longo do período estudado, os números do Flamengo superam os do Botafogo na seguinte magnitude:

–   Público total 27% maior (12.551 x 9.885);

–   Público descontadas as gratuidades 24% maior (11.255 x 8.966);

–   Público pagante total (sem gratuidades e cortesias) 25% maior (9.697 x 7.776);

–   Quantidade de cortesias distribuídas 30% maior (1.558 x 1.190);

–  Renda bruta média 165% maior (R$ 654.077,67 x R$ 246.107,69);

–  Ticket médio 96% superior (R$ 53,90 x R$ 27,45).

Não restam dúvidas que os resultados rubro-negros no estádio foram, até aqui, consideravelmente superiores. Talvez não ao nível esperado para uma torcida quatro vezes maior na cidade do Rio, mas aí entram questões como a limitada capacidade do estádio, que impede o insuflar dos números em momentos de maior demanda. Ou mesmo o ticket médio com o dobro do tamanho, que serve como um regulador da demanda – especialmente em momentos de escassez.

De qualquer maneira, apenas duas vezes o Rubro Negro atingiu a capacidade máxima reservada para sua torcida: 18 mil pessoas contra Grêmio e Vitória. Todas as outras partidas tiveram menos de 15 mil – e ainda, em cinco ocasiões, menos de 10 mil. Isto mostra o quão falacioso é o pensamento do “sold out todo jogo”, baseando-se nas médias históricas do Maracanã. Trata-se de um padrão de comportamento já verificado na torcida do Atlético-MG, enquanto mandante de partidas no Independência e no Mineirão: quanto menor o estádio, menor é a demanda em níveis inferiores à limitação da capacidade.

Por outro lado, apesar da renda média bastante inferior, as operações alvinegras na antiga Arena Botafogo se mostraram muito mais enxutas. Isto pode ser percebido pelos resultados em partidas com rendas semelhantes, quais sejam: Botafogo 3 x 2 Atlético-MG (renda: R$ 359.455,00) e Flamengo 2 x 0 Atlético-PR (R$ 373.214,00). Apesar dos faturamentos equivalentes, o Botafogo auferiu R$ 122 mil de lucro, em face aos R$ 20 mil de prejuízo do rival.

Finalmente, em termos esportivos o Flamengo vem se saindo melhor. Após 15 jogos, foram 11 vitórias, 2 empates e 2 vitórias, com excelentes 77% de aproveitamento em pontos. Já o Botafogo encerrou sua passagem com 7 vitórias, 3 empates, 3 derrotas e um aproveitamento de 61%. Curiosamente, nenhum dos dois venceu quando o estádio da Ilha do Governador atingiu seus maiores públicos.

Um grande abraço e saudações!

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