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O Campeonato Carioca deve acabar? Debate e sugestões

Fluminense em Los Larios: público médio de 579 pagantes (2 jogos)

Cerca de 2.300 pagantes por jogo. Treze por cento de média de ocupação dos estádios (algumas verdadeiras pocilgas). Praticamente todos os jogos deficitários. Não restam dúvidas: o Campeonato Carioca 2018 é o pior de todos os tempos. Diante deste quadro desolador, muitas pessoas tendem a desenvolver a ideia de que o torneio precisa acabar. Elas estão certas. Mas não acabar no sentido de “deixar de existir”. Na verdade, parece claro que o Campeonato Estadual do Rio de Janeiro precisa ser reinventado, em bases completamente diferentes das atuais.

A PERTINÊNCIA DOS ESTADUAIS

Indo além do caso específico fluminense, existe um grande debate acerca de os estaduais saírem do calendário em detrimento de um Brasileirão em moldes europeus, ocupando todo o calendário sempre (e apenas) aos fins de semana. Mas em enquete realizada no perfil de Twitter deste blogueiro, apenas um terço dos votantes acha que os estaduais devem realmente ter fim, ao passo que dois terços sugerem sua redução e enxugamento. Os que acham que nada deve ser feito somam um mísero por cento.

A opinião do Blog Teoria dos Jogos caminha na direção da maioria. Explica-se.

Primeiramente, embora o fracasso acometa à imensa maioria, ele não é exatamente uma realidade para todos. O Campeonato Paulista é sempre citado como sucesso de público e crítica, com médias próximas aos 8 mil torcedores e clubes inacreditavelmente próximos aos 30 mil pagantes por jogo (caso do Palmeiras). Em um torneio com tantos times e estádios pequenos, passa longe de ser um fiasco. Já no Campeonato Mineiro, embora com uma média nem tão reluzente de 5 mil torcedores por jogo, vemos o Cruzeiro incrivelmente inflado pela motivação de sua torcida. Como resultado, a média celeste superior aos 21 mil pagantes.

Em segundo lugar, causa espécie que um país que se critique pela falta de memória permita que uma tradição secular como os estaduais simplesmente desapareça. Por mais de 50 anos os estaduais nadaram de braçada, tendo como única concorrência o antigo Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais. Só no final da década de 50, por conta da criação da Libertadores e pela difusão da aviação comercial em território brasileiro, vieram a surgir os primeiros campeonatos verdadeiramente nacionais envolvendo clubes. Se olharmos a importância histórica do Campeonato Carioca então, vira covardia. Quando teve início, o Rio de Janeiro tinha um milhão de habitantes, enquanto São Paulo acolhia apenas 100 mil. Podemos inferir qual era, de longe, o campeonato mais importante. E até o meio da década de 90 – um “dia desses” nesta longa timeline – Carioca e Paulista dividiam tanto o protagonismo quanto a condição de torneios mais importantes (e bem jogados) no Brasil.

Por fim, temos que os estaduais proporcionam ao futebol a capilaridade necessária para o bom funcionamento do processo de revelação e garimpo de novos talentos. Enquanto países muito menores que o Brasil (como a Inglaterra) possuem até dez divisões em seus campeonatos nacionais, o Brasil possui apenas quatro. Mas um olhar atento demonstra que, na verdade, seriam mais de 60: os 27 estaduais de primeira divisão, pelo menos 27 segundas divisões e alguns outros estratos.

O FRANKENSTEIN CARIOCA

De volta às peculiaridades do Rio, apesar da importância demonstrada nos três últimos parágrafos, vivemos recentemente o esquartejamento do Campeonato Carioca. Um torneio que, há alguns anos, era enxuto, chamativo e superavitário a ponto de exportar sua fórmula para outros regionais importantes. Quem não se lembra do saudoso formato com 12 clubes, duas chaves e campeões da Guanabara e da Taça Rio se enfrentando na final? À época, tanto o Campeonato Mineiro quanto o Gaúcho copiaram a fórmula fluminense.

Eis que, no afã de exercer seu coronelismo, a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FERJ) decidiu afagar a clientela responsável pela perpetuação de seus dirigentes no poder. Assim, inchou o torneio para dezesseis clubes a partir da edição de 2008. Paradoxalmente, proibiu que a maioria dos pequenos jogassem em seus estádios, alegando uma suposta “falta de estrutura” que, nos tempos áureos, nunca havia sido problema. Isto destroçou a demanda por futebol em inúmeras localidades. Algumas a reprimiram, passando a ter representação sem receberem times grandes (ex: Resende, Angra dos Reis). Outras, por possuírem estádios “chancelados”, viveram o oposto: se tornaram sede informal de vizinhos indesejados. Isto terminou por atrair uma quantidade excessiva de jogos desinteressantes e sem importância para cidades como Volta Redonda (principalmente) e Macaé. Nem embates contra os grandes passaram a salvar.

Posteriormente, a pé de cal. Os torneios de 2010, 2011 e 2013 foram decididos sem finalíssima, já que Botafogo, Flamengo e novamente o Botafogo venceram os dois turnos. Assim, o Rio ficou sem seu crème de la crème, perdendo bilheterias e cedendo espaço para a veiculação nacional do Paulista em TV aberta. Isto fustigou a criatividade malévola dos “jênios” da FERJ, que optaram por abolir o antigo formato e deram espaço aos abjetos moldes atuais. O resultado prático fez desmoronar a média de público do Carioca, de cerca de oito mil pagantes por jogo em 2009 para os atuais dois mil.

Como se não bastasse a degradação relatada, o monstro parido para 2018 foi de dar inveja ao Dr.Viktor Frankenstein. Assim como no ano que passou, os vencedores de turno garantem-se apenas na semifinal do torneio – o que fez com que o Flamengo fosse campeão em 2017 mesmo sem levar a Guanabara ou a Taça Rio. Só que agora, caso um mesmo clube vença as duas fases (algo que apenas o Rubro-Negro pode fazer), um dos eliminados do torneio (o Boavista) é simplesmente ressuscitado para compor as semifinais! E a final torna-se partida única, numa verdadeira obra de ficção científica.

O QUE DIZ (E COMO AGE) A FERJ

Desconectada da realidade como alguém intoxicado por botulismo, a FERJ vem se saindo com verdadeiras pérolas para remediar e justificar os vexames de seu campeonato. Em 2014, passou a maquiar borderôs, incluindo cotas líquidas de TV de modo a tornar positivos resultados deficitários de bilheteria. Mais recentemente, amparou-se nas audiências televisivas como muleta para a negação do fracasso, como se realmente fosse possível temperar uma caldeirada utilizando-se de bugalhos. Em resposta a matérias veiculadas pelos jornais O Globo e Extra, a Federação recorreu à desfaçatez para negar que o formato da competição fosse “fator preponderante, predisponente” ou “desencadeante dos estádios vazios”.

O QUE FAZER – UMA PROPOSTA PARA O CARIOCA

Entrando da seara da opinião pessoal, resta claro que o Campeonato Estadual do Rio de Janeiro precisa ser enxugado ao máximo. Ao máximo MESMO, o que contemplaria algo em torno de dez datas de televisão. Assim, o Carioca serviria como uma espécie de torneio início da temporada que realmente interessa aos clubes. Visando maximizar apelo, emoção e imprevisibilidade, seu formato deveria ser o de copa. Mais do que isso: o de Copa do Mundo, com pequenos grupos classificando para confrontos de mata-mata. A seguir, os moldes de uma proposta, entre tantas outras que podem ser sugeridas através de nossas mídias sociais e endereços de e-mail:

1- Retorno aos doze clubes. Quatro grupos de três times, os quatro grandes como cabeças-de-chave;

2- Todos contra todos em jogos de ida e volta. Pequenos mandando jogos em SEUS ESTÁDIOS – por menores que sejam. (Responsabilidade da FERJ deixá-los em condições);

3- Fase de grupos: quatro jogos para cada clube, seis datas (um sempre folga). Classificam-se os dois primeiros de cada grupo para as quartas-de-final em JOGO ÚNICO no esquema A1 x B2; A2 x B1; C1 x D2; C2 x D1. Primeiros colocados de cada grupo como mandantes (única vantagem). Classificam-se para as semifinais os vencedores, pênaltis para jogos empatados;

4- O último de cada grupo compõe um grupo da morte (quatro times). Todos contra todos, jogos de ida e volta (6 jogos). Os dois últimos são rebaixados;

5- Semifinais no mesmo formato das quartas. Final em dois jogos, sem vantagem (resultados iguais proporcionam prorrogação e pênaltis, em persistindo o empate);

6- Número de jogos para os classificados: entre cinco (eliminados nas quartas) e oito (finalistas).  Número de jogos para os integrantes do grupo da morte: dez. Classificação para as quartas rendendo premiação apenas inferior à do título, de modo a compensar os que por ventura façam apenas cinco jogos;

7- Todas as dez rodadas das fases principais (grupos, quartas, semi e final) televisionadas e aos finais de semana.

8 – Negociação com a TV Globo para manutenção dos valores pagos a título de televisionamento – a despeito da redução das transmissões à metade – com o compromisso da entrega de um produto atraente, chamativo e viável.

Um grande abraço e saudações!

E-mail da coluna: teoriadosjogos@globo.com

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