Arquivos mensais: abril 2018

A Pesquisa da Vez: Datafolha 2018

Detalhamento da pesquisa:

Localidade: Todo o território nacional

Instituto: Datafolha

Amostra: 2.826 entrevistas, em 174 municípios, entre 29 e 30 de janeiro de 2018

Margem de erro: 2 p.p

Tão fresquinha que nem a Folha de São Paulo – porta voz do instituto Datafolha – divulgou os números completos ainda. Mas como era de se esperar, o Blog Teoria dos Jogos preenche esta lacuna, trazendo a público todas as informações sobre a mais recente pesquisa de torcidas no Brasil. Após um período de quase-banalização, eis que as pesquisas rarearam – o último estudo nacional do Datafolha datava de 2014, também às vésperas da Copa. Vamos, portanto, aos resultados, com importantes considerações em seguida.

Iniciemos com o velho (e de certa forma cansativo) debate: a quem pertence a maior torcida do Brasil? Olhando para os números acima, não restam dúvidas: Flamengo 18% contra Corinthians 14%. Mas quem leu a primeira matéria da Folha de S.Paulo a respeito coçou a cabeça: no cabeçalho, é dito que ambos estariam empatados no limite da margem de erro, pois uma variação negativa do Flamengo contra uma positiva do Corinthians equipararia as coisas em 16%. Trata-se, no mínimo, de uma desonestidade intelectual, típica dos que precisam afagar a maioria no estado-sede. Isto porque a chance desta variação ocorrer é a mesma de o Flamengo verificar majoração positiva em dois pontos, com o Corinthians decaindo os mesmos dois. Nesta hipótese, pertenceria ao Flamengo a surra de 20% a 12%, configuração tão irreal quanto. Mas isto a Folha não diz.

Tem mais. Margens de erro não funcionam na base do “dois pontos percentuais pra todo mundo”. Fosse assim, clubes com 1% das preferências (como o Bahia) variariam entre 3% e… -1%! Ou mesmo zero, levando proeminentes torcidas regionais à condição de inexistência. Parece óbvio que estas não são opções válidas. A questão é que margens de erro são proporcionais ao “tamanho do número”, sendo assim, quanto menor o percentual, menor a margem. Só isto já é suficiente para dizer que mesmo a variação benéfica aos paulistas (eles pra cima e cariocas para baixo) não seria suficiente para atingir a condição de empate técnico. Sendo assim, é correto afirmar: Não existe qualquer dúvida sobre a inexistência de um empate na primeira posição. Para alguns, uma verdade inconveniente.

Finda esta questão, é bom recordar que foi o Datafolha quem ocultou, por semanas a fio, a pesquisa elaborada por eles mesmos em 2014. Ocultação denunciada pelo Blog Teoria dos Jogos em uma das colunas de maior repercussão na sua história. Curiosamente, apenas um dia depois, o instituto revelou a pesquisa que havia retido.

Além do entrevero envolvendo margens de erro, existe outro bem problemático em tudo o que o Datafolha faz: o arredondamento. Foi ele que, seis anos atrás, colocou torcidas em convulsão por conta da equiparação do Fluminense à Portuguesa, atribuindo a ambos 1% das preferências nacionais. Pressionado pela opinião pública, o instituto se viu obrigado a divulgar os números exatos, que revelaram um Fluminense com 1,46%, contra 0,51% da Lusa. Se é quase irresponsável divulgar que uma torcida três vezes maior seja igual à outra, beira a inconsciência acreditar que a torcida tricolor possa mesmo ser três vezes superior à da Lusinha – e não dez, quinze ou até vinte vezes. Esta sempre foi uma das grandes críticas ao instituto: o enfoque excessivo de sua amostragem no estado de São Paulo.

Pois bem, se agora a Lusa nem aparece, outro empate pode ser atribuído à questão do arredondamento: aquele entre Bahia e Vitória, no mesmo 1% das preferências. Inúmeras pesquisas atribuem à massa tricolor algo entre 50% a mais e o dobro dos rubro-negros da Boa Terra. É quase certo que numa nova divulgação de números exatos, o mesmo fosse identificado. Fica a questão: se todos os institutos divulgam pesquisas com uma casa decimal, por que o Datafolha insiste em não fazê-lo? Não custaria absolutamente nada além de duas digitações, a da vírgula e a do décimo.

Mas ainda existe um último questionamento. Na pesquisa divulgada hoje, o Sport sequer aparece na lista dos votados – ou seja, o Leão pernambucano foi acomodado dentro de nada desprezíveis 8% de “outros”. Só que numa pesquisa fidedigna, seria imperativo que os pernambucanos aparecessem (bem) à frente do Vitória, pois algumas outras já o colocaram mesmo adiante do Bahia. Se torcidas tão importantes estão dentro do “outros”, e se este agregado atingiu índice tão proeminente (equiparado ao tamanho do São Paulo, terceira maior torcida do país), por que não abri-lo? Novamente: o que custa revelar os percentuais de todos os que bateram 1% – mesmo os que o fazem com base no famigerado arredondamento? A mesma reivindicação se aplica aos importantes Atlético-PR e Coritiba, agregados dentro de um catadão que não lhes é de direito.

Debatidas as derrapagens, vamos aos números dos que ainda não citamos. O São Paulo surge com 8%, o Palmeiras com 6%, Vasco e Cruzeiro, 4%, Grêmio, Santos e Internacional, 3%, Atlético-MG com 2%, Botafogo e Fluminense, 1%. De todos, apenas o Cruzeiro variou positivamente, um ponto percentual acima da pesquisa de 2014. Vasco, Botafogo e Fluminense variaram um para baixo.

Em tese, estaríamos diante de acomodações naturais e dentro da margem de erro, pouco ou nada sugerindo crescimento ou diminuição de torcidas. Somado ao controverso arredondamento, pode-se muito bem explicar o surpreendente empate envolvendo cruzmaltinos e celestes (exemplo: 4,4% para o Vasco e 3,6% para o Cruzeiro se tornaria um 4% a 4%).O fato de o ordenamento colocar o Gigante da Colina à frente da Raposa comprova seu patamar superior. Mas é sempre bom ficar atento ao decréscimo há muito identificado no seio da torcida vascaína. Analogamente, o Bahia aparece à frente de Bota e Flu, comprovante de que os baianos há algum tempo acionaram a seta e ultrapassaram dois dos quatro cariocas.

Vamos às tabulações por sexo, idade, escolaridade e renda:

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A sensação de grandes torcidas às ruas tem relação inequívoca com o tamanho das mesmas entre homens. Não, não de trata-se de sexismo, mas de engajamento comprovado em números. Tanto que apenas 12% dos brasileiros afirmam não torcer por nenhum time, contra relevantes 32% delas. Esta e outras razões (como a violência) constituem o porquê de estádios serem ambientes tão majoritariamente masculinos. Sob esta ótica, a maioria rubro-negra é ainda mais proeminente: 19%, contra 15% do Corinthians e 10% do São Paulo. E o Vasco descola do Cruzeiro, marcando 6% contra 4%.

Em direção oposta, a melhor configuração de torcidas possível é aquela em que a diferença entre homens e mulheres não é tão grande, afinal, elas também fazem número. E muito mais, compõem uma enorme massa potencial de consumo em franco crescimento. Neste sentido, ponto negativo para São Paulo e Vasco, que possuem torcida feminina equivalente à metade da masculina. Uma louvável exceção: apenas o Galo mineiro surgiu com atleticanas em quantidade superior à de atleticanos. Caso raro.

A análise por faixa etária empata com a das rendas como recortes mais importantes nas pesquisas. Isto porque uma aponta o tamanho futuro das massas, enquanto outro indica quem consome ou tem potencial de consumir – mesmo em torcidas menores do que outras. Vamos à avaliação do primeiro grupo.

Por idade, não é de hoje, o Flamengo encerra toda e qualquer controvérsia quanto à sua liderança. Na faixa mais jovem, entre 16 e 24 anos, o Mengão explode a incríveis 24%, contra 17% do Timão. Isto, ao menos por ora, é indicativo de que nossa geração não verá qualquer mudança no topo do ordenamento. O aumento entre a garotada rubro-negra é tão impactante que supera em muito faixas reconhecidamente pertencentes à “era Zico”: 20% entre 35 e 44 anos, e 18% entre 45 e 59 anos.

Mas percebam outra estatística interessante: entre os mais velhos (acima de 60), a torcida do Corinthians surge maior que a do Fla (11% a 9%). Em tese, indicativo de que um dia corintianos foram maioria, correto? Errado. Ao menos em se tratando das pesquisas do passado e de antigos relatos em jornais e revistas, que desde sempre atribuíram aos cariocas a condição de Mais Querido. Uma explicação recai sobre o “desalento” que acomete às faixas etárias mais avançadas. Notem que, entre jovens, quem não tem time soma apenas 13%, catapultados a 31% entre os mais velhos. É como se mais flamenguistas do que corintianos tivessem “desistido” em meio à longa jornada. Se olharmos para os últimos 20 anos, notaremos claramente que vem sendo mais fácil e prazeroso (em termos de títulos) integrar os quadros da Fiel…

Mais um que cresce entre os jovens é o São Paulo: marca 8% no geral e 11% em meio àqueles entre 16 e 24. Isto nos leva à impressionante tendência de que, no futuro, Flamengo, Corinthians e São Paulo somem 52% da torcida brasileira – numero hoje estacionado nos 40%. Os demais clubes se encontram em tendência de estabilidade, mas outros como Palmeiras e Vasco sugerem propensão à queda (decerto, os três últimos anos do Palmeiras ainda não foram captados). Importante também mirar os números do Santos, que marca 4% entre os mais velhos (“era Pelé”) e despenca para 1% entre a segunda faixa mais avançada, que já pouco assistiu aos desfiles do Rei. Após isso, santistas voltam a subir lenta porém consistentemente, até atingir 3% entre os jovens. Santas gerações de Robinho, Diego, Neymar e Ganso. Olhem para o Botafogo e percebam que uma única geração mágica no passado remoto deixou de fazer verão: 3% entre os mais velhos, 1% nas demais faixas etárias.

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Já que falamos da sua importância, abordemos os parâmetros de renda antes da escolaridade. O mais questionável, sem sombra de dúvidas, é o Flamengo tão superior ao Corinthians entre os mais ricos – aqueles com renda média superior aos 10 salários mínimos (R$ 10 mil). Os 19% a 11% a favor do Rubro-Negro não estão em linha com outras pesquisas que já demonstraram equilíbrio ou mesmo o Corinthians à frente. A explicação recai sobre a margem de erro do recorte (apenas 97 entrevistados), já que, em proporção, são poucos os brasileiros com renda mais alta. Portanto, a amostragem relativamente pequena, com menos de 3 mil entrevistas, acaba se saindo a vilã.

Mas se é isto que os números apontam, é o que temos: um enorme potencial de renda, ainda que adormecido, em meio aos rubro-negros. Faz sentido que haja cada vez mais flamenguistas endinheirados: em 2017, o Sudeste foi a única região do país que verificou queda na renda média da população. O Brasil que mais cresce, há anos, é o Brasil que enverga preto e vermelho, pois 80% da Nação se encontra espalhada entre as regiões Norte, Nordeste e Centro Oeste (alguma coisa no Sul, veremos adiante). E por que tanto potencial estaria adormecido? Bom… desde o início do ano, o Nação Rubro Negra, projeto de sócio-torcedor do clube, já perdeu inimagináveis 44 mil associados (em defesa da torcida, existem explicações racionais). Fora relatos variados sobre a dificuldade de se fomentar propensão ao consumo entre os verdadeiramente ricos na torcida.

Em termos proporcionais, o crescimento mais acentuado entre ricos pertence ao São Paulo. O Tricolor do Morumbi sobe de 7% em meio aos mais pobres para incríveis 13% acima de 10 salários, expressivo aumento de 86%. Suficiente, inclusive, para colocá-los à frente dos arquirrivais corintianos sob esta ótica. O Palmeiras vem a reboque, saindo de 5% para 9% entre os abastados (80% de aumento). Mais que eles, só o Grêmio, que vai de 2% até 5% (150% a mais), embora números pequenos tenham maior tendência de apresentarem variações fora da curva. O Cruzeiro é outro que sobe (de maneira menos acentuada) e atinge 5%. O que faz com que tanto a maior torcida mineira quanto a gaúcha superem um Vasco estacionado nos 4%. Inter e Botafogo vão bem neste quesito, enquanto o Fluminense se mantém estável – não condizendo com o enorme potencial de renda dos tricolores no Rio. Neste último caso, o impacto negativo viria dos torcedores do Fluzão país afora.

No que tange aos mais pobres, destaque para o Bahia, que parte de 2% na faixa mais humilde até o completo desaparecimento acima dos cinco salários. O Flamengo torna latente sua vocação popular, acachapando 20% contra 13% do Corinthians. Eis um recorte com confiabilidade bastante alta: entrevistaram nada menos que 1.333 pessoas, 47% da amostra.

Por escolaridade, quem mais cresce à medida com que aumentam os anos de estudo é novamente o São Paulo, saindo de 7% entre os menos letrados para 11% mediante os mais. Na média, a variação de todos os clubes é menos expressiva do que nas análises de idade e renda. Os 18% fixos apresentados pelo Flamengo entre pessoas com ensino fundamental, médio e superior indicam que o contínuo aumento do número de estudantes nas faculdades vem tornando mais equânime esta estatística. De todo modo, outras torcidas crescem com os anos de estudo, como a do Grêmio.

O estudo apresenta ainda a configuração de torcidas divididas entre populações economicamente ativas ou não, o que julgamos se tratar de um dado menos relevante.

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Aqui, relevância absoluta: torcidas dissecadas de acordo com as regiões do país. Apesar do oba-oba como se fora novidade (sempre eles…), Corinthians maior do que Flamengo no Sudeste é mais velho do que andar para frente – basta olhar para a populações de seus estados de origem. Na região mais rica do país, corintianos marcam 19%, flamenguistas 14%, são paulinos 10%, palmeirenses e cruzeirenses, 8%. Depois temos Atlético-MG (5%), Vasco e Santos (4%, ambos), Botafogo e Fluminense (2% cada). Nos dedicamos de maneira abrangente ao Sudeste por se tratar da única região em que aglutinação dos “outros” faz pouquíssima diferença, insignificantes 2%. Nas demais, conforme veremos, o vergonhoso “catadão dos excluídos” impacta sobre os números finais, o que decerto modificaria o ordenamento.

No Sul, os adeptos que realmente se fazem notar são do Grêmio (20%), Internacional (18%), Corinthians (12%) e Flamengo (8%). Atlético-PR, Coritiba, Paraná, Figueirense, Avaí, Chapecoense, Criciúma e Joinville se aglutinam na infâmia dos 10%.

No Nordeste, o Fla inicia seu processo de extrapolação de limites, marcando 23% contra 9% do Corinthians. O Vasco vai bem, ultrapassa São Paulo e Palmeiras e atinge 6% das preferências, mesmo índice do Bahia. Enquanto o Vitória sua para atingir 3%, fazendo recordar o absurdo relatado no sexto parágrafo. Aqui, o baixo clero mais parece alto, pois atinge 14% dos habitantes. Certamente um Sport gigantesco, mas não somente ele: Santa Cruz, Ceará, Fortaleza, Náutico e tantos outros que fica difícil citar a todos.

No Centro Oeste, o Flamengo é tão soberano quanto no Nordeste, inclusive mantendo o índice. Mas o Corinthians cresce bastante, a ponto de atingir 15% da amostragem. Isto porque o Mato Grosso do Sul é um estado de maioria corintiana, ao passo que Mato Grosso se divide entre Flamengo e Corinthians. Goiás e Distrito Federal se incumbem de fazer a balança pender para lados cariocas. Pela mesma razão, São Paulo (9%), Palmeiras (6%) e Santos (4%) são tão maiores que o Vasco (2%). Dada a fraqueza dos clubes locais, o catadão soma 7%, decerto composto por clubes de fora da região.

Já o Norte ultrapassa a barreira do inimaginável, com o Flamengo abarcando 37% de toda a região. Trata-se de um número superior ao que demonstra a maioria, senão todas as pesquisas já publicadas. Por conta dos também absurdos 19% de “outros”, sobra pouco para Corinthians (8%), Vasco (7%) e São Paulo (6%) dividirem. Mas… 19% de outros? Sim, amigo. Deixaram de fora nada menos que dois fenômenos paraenses: Remo e Paysandu, cada um com torcida superior a um milhão de pessoas. Numa região com cerca de 16 milhões de habitantes, escorrem pelo ralo cerca de 13% só com a dupla Re-Pa.

Dois comparativos interessantes: com o Mapa das Torcidas do Facebook, detalhado até o mínimo denominador pelo Blog Teoria dos Jogos, e com os dados por região da pesquisa Datafolha 2014. No primeiro caso, diferenças por vezes substanciais de acordo com a região. Outras vezes, semelhanças um tanto surpreendentes. O que não muda é o ordenamento das torcidas, basicamente igual.

Já o segundo comparativo nos apresenta um Corinthians com importante variação positiva no Sul (de 6% em 2014 para incríveis 12% agora) e caindo no Norte (de 11% até 8%). O Flamengo sobe forte no Norte (de 32% para 37%) e mais delicadamente no Sul (de 6% para 8%), com queda equivalente no Centro Oeste (de 25% até 23%). O Palmeiras sobe dois pontos percentuais no Sul e cai três no Norte. O Santos cai três no Sul e sobe dois no Centro Oeste. O Vasco cai dois no Centro Oeste, o Grêmio cai dois no Sul e o Bahia sobe dois no Nordeste. Todas as demais variações são unitárias, por isso menos representativas.

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Nossa última estatística recai sobre o perfil das torcidas segundo a natureza e o porte dos municípios. Contraditórias entre si, bagunçam o imaginário rubro-negro, povoado pela “maioria à medida com que se interioriza”. Segundo o Datafolha, a diferença entre Flamengo e Corinthians se reduz no interior, e não o contrário. Seriam 18% a 15% a favor do Rubro-Negro país adentro, em face de imponentes 20% a 13% nas capitais (com boa diminuição da margem ao contemplarem demais cidades das regiões metropolitanas). Lembrando que os interiores compuseram ampla maioria da amostra, conforme demonstra a tabela. Mas quando nos debruçamos sobre o porte do município, o vetor é oposto: 19% a 13% pró-Fla nas menores cidades (até 50 mil habitantes), 17% a 16% nas maiores (acima de 500 mil). Fica o dito pelo não-dito.

Para terminarmos, tabelas de lambuja quem fomentam saudáveis discussões clubísticas, sem maiores divagações. Trata-se do interesse de cada torcida por futebol e pela Copa do Mundo, fonte de interessantes apontamentos.

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As audiências dos estaduais 2018 – Rio e São Paulo

Por algum tempo, audiências em queda do futebol na TV aberta preocuparam executivos da Globo. Tratava-se, entretanto, de um processo natural, em face do crescimento da TV fechada e do pay per view – produtos majoritariamente controlados pelo próprio grupo Globo. De qualquer maneira, se a tendência se mantivesse, era de se questionar a pertinência da manutenção dos jogos de quarta e domingo, em detrimento de transmissões mais exclusivas ou requintadas, como a Champions League e a Seleção Brasileira.

Mas a enorme crise que assola o país desde 2014, bem como o processo de redução da TV paga pelo crescimento do streaming, fizeram com que o processo se revertesse de maneira robusta. Se por um lado existem prejuízos pela diminuição da venda de pacotes de TV fechada e pay per view, por outro a Globo voltou a navegar com imensa supremacia sobre a concorrência, ao menos no tocante aos campeonatos do Rio e de São Paulo. Os números a seguir se referem às recém-finalizadas edições de 2018 para os dois principais estaduais do Brasil.

Para compreendê-los, importante ter em mente as diferenças de audiências entre jogos televisionados às quartas (maiores) e domingos/fins de semana (bem menores, mais ainda nas excepcionalidades dos sábados), junto ao óbvio apelo dos clássicos na comparação com confrontos de grandes contra pequenos. Além disso, o tamanho das torcidas faz toda diferença neste universo, bem como a participação em jogos decisivos ou nas finais dos torneios. Por fim, cada ponto de audiência representa 70,5 mil domicílios ou 199,3 mil indivíduos em São Paulo. No Rio, 44,05 mil lares e 116,9 mil pessoas.

RIO DE JANEIRO

Mais inesperado do que o título do Botafogo foi o fato de o Alvinegro ter sido o clube mais televisionado do Cariocão 2018. Foram nada menos do que oito transmissões, contra sete do costumeiro líder Flamengo. Tudo se deveu à reta final do campeonato, pois as cinco últimas transmissões do estadual* foram clássicos envolvendo o Botafogo – apenas uma contemplou o Flamengo. Antes desta sequência, ou seja, no campeonato “regular”, eram seis jogos do Fla contra três do Bota. Ao final, o Vasco atingiu cinco jogos na TV e o Fluminense três.

*Foram eles: Vasco x Botafogo (semifinal Taça Rio), Fluminense x Botafogo (final Taça Rio), Flamengo x Botafogo (semifinal estadual), Botafogo x Vasco e Vasco x Botafogo (finalíssimas).

De qualquer maneira, e como veremos adiante, nem o excesso de clássicos envolvendo a Estrela Solitária foram capazes de fazê-lo suplantar o clube de maior torcida no agregado final. O Mengão terminou o Carioca com a excelente média de 28,4 pontos de audiência por jogo, número 10% superior aos 25,7 do Fogão (o share foi mais equilibrado: 50% a 48%). O Vasco fez 24,6 pontos médios e o Fluminense, 20,6, sendo único com share abaixo dos 40%. Importante relembrar que, diferente do que ocorre no Brasileirão, no estadual os quatro grandes recebem a mesma cota de televisionamento por parte da Globo.

Sob o espectro dos clássicos e não-clássicos (grandes x pequenos), o Botafogo tinha tudo para fazer valer a vantagem ter tido tantas transmissões em jogos com apelo. Das oito partidas do Glorioso na TV, seis foram clássicos – número que nenhum outro chega perto (o Vasco teve três, o Fla dois e o Flu apenas um). Mas índices apenas razoáveis, como o Flamengo x Botafogo do sábado de Carnaval (naturais 23 com 51%, por se tratar de um feriado com baixo número de televisores ligados) ou o Flu x Bota da decisão da Taça Rio (23 com 45%) jogaram seus números para baixo.

Até mesmo as audiências das decisões frente ao Vasco (26 e 29 pontos, respectivamente) podem ser consideradas decepcionantes, já que os Fla x Flus do ano anterior marcaram nada menos que 35 e 40 pontos. Sendo assim, o Bota marcou 28,3 pontos nos grandes embates, à frente apenas do Flu (23) e superado por Vasco (28,6) e Flamengo (30,5). Detalhe: os únicos clássicos rubro-negros foram contra o próprio Botafogo – aquele do sábado de Carnaval e outro de audiência absurda (38 pontos com 58%), na semifinal geral.

É sob a ótica dos jogos menores que a supremacia do Flamengo fica cristalina. Por saber que a vantagem do Rubro-Negro para os demais é enorme, a Globo marca muitos mais jogos dele – foram cinco, contra dois dos outros grandes. E a diferença do Fla (27,6 pontos) para o Flu (19,5), segundo colocado, foi voraz: 42% a mais. Neste recorte, o Botafogo foi o pior do Rio, embora leve vantagem sobre o Vasco no quesito participação (38% a 37%).

A última análise recai sobre jogos de meio e fim de semana. Às quartas, o pior da estatística anterior dá uma remontada e assume a liderança: o Botafogo. Muito porque seus dois únicos jogos nestas condições foram clássicos na reta final do Carioca, contra Vasco e Flamengo. O clube da Gávea, em segundo, teve três confrontos nas noites nobres do futebol, sendo dois contra nanicos. Vasco e Fluminense tiveram um joguinho cada, mas o do cruzmaltino foi um clássico contra o Botafogo, enquanto o Tricolor encarava a modesta Portuguesa – daí seu desempenho tão abaixo dos demais.

Por fim, os finais de semana – seriam “domingos”, mas o sábado de Carnaval nos obrigou a mudar a nomenclatura. Neles, nada de novo: Flamengo na cabeça (25,5 com 49%). E novamente de forma inconteste, pois apenas um de seus quatro dominicais foi clássico – o tal desfile de Carnaval. Aqui, chamou atenção mesmo a final da Taça Guanabara, entre o Mais Querido e o Boavista, com impactantes 34 pontos com 55%. Participantes da final, Vasco (23) e Botafogo (22,8) vem em seguida, sendo que o clube de General Severiano foi quem mais teve jogos. O Tricolor das Laranjeiras teve média de 20,5, desta vez não tão afastado quanto nos recortes anteriores.

SÃO PAULO

COMPARATIVO COM O RIO

Na comparação com os números expostos do Rio, pode-se dizer que São Paulo levou vantagem em 2018, com seu estadual terminando numa média de 25,7 pontos de audiência, contra 24,7 do Carioca. Além do maior número de datas (20 a 17), pesaram as audiências explosivas da final entre Corinthians e Palmeiras, junto aos números decepcionantes da Cidade Maravilhosa. Excluindo as finalíssimas, o Rio vinha com 24,3 de média, contra 24,2 do Paulistão. Virtudes da presença da maior torcida na final, em face da ausência em terras cariocas. No ano passado, os Fla x Flus decisivos tiveram 37,5 pontos de média, contra 27,5 dos recentes Vasco x Botafogo. Em compensação, a final paulista de 2018 superou a todo e qualquer confronto recente: inacreditáveis 39,5 pontos médios antenados à consagração corintiana.

Em Sampa, deu a lógica, com o Timão mais televisionado (nove oportunidades) e com maior média de audiência (31,2 e 52%). Mesmo fora das finais, o São Paulo teve oito jogos na TV, dois a mais do que o Palmeiras. O Tricolor ficou atrás do Verdão nas médias (26 com 44% contra 27,3 com 48% dos vice-campeões), mas se considerarmos sua ausência nas finais (além de elementos que veremos adiante), podemos considerar os números são paulinos satisfatórios. O mesmo não se pode dizer quanto ao Santos, como também veremos a seguir.

Dos quatro jogos do Peixe no Paulistão – clube menos exibido – três foram clássicos. Trata-se de um expediente recorrente da Globo, que na verdade até abriu uma exceção este ano. A veiculação de Ferroviária x Santos foi considerada uma enorme excepcionalidade por parte da emissora, uma vez que há sete anos não se transmitia o Peixe em qualquer jogo que não clássicos. O resultado? Um verdadeiro fiasco: 13 pontos com 28% de participação, a menor entre os dois principais mercados desde os 12 pontos de um jogo do Botafogo pelo Brasileirão 2014. OK, o clube da Vila jogou no famigerado sábado de Carnaval, mas o share de meros 28% deixa claro que a audiência foi ruim mesmo. Não é à toa, portanto, tamanho sumiço…

Na análise dos clássicos, o trio de ferro da capital foi muitíssimo bem, deixando claro que o apelo das rivalidades paulistanas anda em alta. Foram 35,8 pontos do Corinthians, 34,3 do Palmeiras e 32,3 do São Paulo – os três, por exemplo, acima do Flamengo neste quesito. O ponto fora da curva novamente foi o Santos (25,6), mesmo com seus três clássicos na fase de grupos indo parar na TV. Em sua defesa, o fato de nenhum destes jogos ser decisivo. Já em jogos contra pequenos, a grande notícia foi o destaque dado ao São Paulo, com cinco apresentações contra quatro do Corinthians. Conforme demonstra o exemplo carioca, a emissora não costuma deixar tais embates nas mãos de quem sabe que não dará retorno. De fato, o clube do Morumbi teve desempenho razoável (22,2 e 38%), numa consolidada segunda colocação.

Por dia da semana, mais do mesmo. Outro empate entre corintianos e são paulinos em veiculações às quartas, com o Corinthians na frente em pontuação por dois pontos e três no share. O Palmeiras teve apenas um joguinho e o Santos, pasmem, zerou neste quesito. A mesma concentração não foi vista nos fins de semana, quando Corinthians e Palmeiras jogaram cinco e São Paulo e Santos, quatro vezes cada. Catapultados pelas finais, alvinegros e alviverdes marcaram média de 32,5 (com 56%) e 28 pontos (com 50%), deixando para trás aqueles que ficaram pelo caminho.

Um grande abraço e saudações!

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