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OPINIÃO: Da devastação ao auge em dois atos

 

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Os últimos dias reservaram para nós, brasileiros, uma sequência de tragédias e superações que nem de longe imaginaríamos enfrentar. Na madrugada de terça-feira, o impacto de um avião lotado de sonhos e esperanças ceifou a vida de um time de futebol inteiro, numa colina próxima a Medellín. Levando junto seu corpo técnico e diretivo, além de mais de 20 jornalistas, renomados e anônimos, experientes e iniciantes. No total, incluídos os tripulantes bolivianos (país de origem da aeronave), foram ceifadas 71 vidas.

Dos destroços, se fizeram o primeiro gigante: a Associação Chapecoense de Futebol. Agremiação de existência recente, não tanto quanto a guinada que levou à sua ascensão meteórica. A caminho da Colômbia, jogaria a primeira final continental de sua história. Mais: da história de Santa Catarina – denotando importância não apenas para uma cidade, hoje em destroços, como para toda a região. Ou mesmo para o país, simpáticos que sempre fomos ao “Verdão do Oeste”.

O desaparecimento da Chape, agora sem elenco para jogar, ironicamente fez dela o maior clube do planeta. Vide as homenagens mundo afora, vindas dos maiores ídolos, das principais equipes e suas ligas. A imprensa estrangeira, em linha com a nacional, passou a só falar da Chapecoense, vítima da pior tragédia da história de uma equipe esportiva.

Das lágrimas, um oceano de afeto. E desta solidariedade – que gerará ajuda financeira e imunidade competitiva aos guerreiros Condá – surgiram os maiorais. Únicos conseguirem a façanha de unir este universo de rancores e intolerâncias chamado futebol.

Pois não é que apenas dois dias depois, a devastação deu lugar ao auge? Sim, o auge. O auge da humanidade neste ano nefasto, marcado por tragédias, conflitos e maracutaias. Marcado por tanto deboche. O apogeu se deu pelas mãos colombianas, um país que se viu envolvido numa tragédia sem perder nenhum sequer dos seus. Mas que se dedicou sobremaneira ao resgate e tratamento das vítimas. O auge se deu também através das mãos da torcida do Atlético Nacional de Medellín – representando e representado por todo o povo colombiano. Responsáveis que foram pelo mais emocionante tributo já prestado ao Brasil em 516 anos de existência.

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A homenagem aconteceu no estádio Atanasio Girardot, no exato momento em que aconteceria a primeira partida da final da Copa Sulamericana entre Atlético e Chapecoense. Uma quantidade fenomenal de pessoas lotou não somente as arquibancadas como as avenidas no seu entorno. Todas de branco, orando e cantando a Chapecoense. Prestando louvor aos que se foram. E exaltando o Brasil – sim, o Brasil. Tido por eles como espelho e referência em muitos dos inúmeros discursos emocionados.

Deste espetáculo de amor e compaixão, fez-se o segundo maior time do mundo: o Atlético Nacional de Medellín, coincidentemente verde como os nossos. E desde então, ocupante de um espacinho no coração de milhões de brasileiros que jamais imaginariam ser confortados assim, de maneira tão genuína e espontânea.

A partir de agora, os dois gigantes seguem caminhos opostos: o Atlético, rumo ao topo, ao Mundial de Clubes – campeão da Libertadores que é. Já a Chape, a caminho de uma reconstrução que pode e deve ser assumida por cada um de nós. Em comum a ambos, uma ligação, agora visceral, umbilical. E eterna.

Se formos inteligentes, extrairemos destes episódios lições das mais valiosas. A cumplicidade, o amparo e o respeito, renegando rixas, rancores e toda sorte de violências. Ainda que haja uma Floresta Amazônica separando a si dos coirmãos. Nobres ensinamentos dos nossos inesquecíveis amigos colombianos.

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Ajustando expectativas contra o maior jejum em 20 anos

Muito já se falou a respeito do processo de resgate da credibilidade do Clube de Regatas do Flamengo, assim como o que vem a reboque: fortalecimento das finanças, modernização da estrutura física, implantação de preceitos de governança, etc. No fim das contas, os objetivos daqueles que defendem a austeridade convergem até com o intuito dos mais irresponsáveis: vencer. Conquistar títulos. E recolocar o Flamengo na trilha dos mais vitoriosos do Brasil e da América do Sul.

Completadas quatro temporadas da administração Eduardo Bandeira de Mello, já se pode fazer um balanço acerca das metas atingidas. Sem sombra de dúvidas, positivo: o Flamengo não apenas equacionou seu passivo como elevou sobremaneira o faturamento, fazendo com que, pela primeira vez, a relação receita/dívida se tornasse unitária. O que, pouco a pouco, liberou recursos para investimentos no futebol, culminando na montagem de um elenco competitivo e na terceira/segunda colocação ao final do Brasileiro 2016. Nada mal.

O problema é a outra face da moeda. Ouve-se desde 2013 que “ano que vem tem tudo para ser o ano do Flamengo”. Nesta toada, o clube vem se aproximando perigosamente de uma estatística pra lá de negativa. Após dois títulos nos dois primeiros anos deste mandato (2013 e 2014), o Rubro Negro fecha o biênio 2015-2016 sem levantar nenhuma taça. Caso as boas expectativas para 2017 não se confirmem, o clube igualará uma sequência sem títulos que só teve paralelo há 20 anos, quando o Estadual-1996 interrompeu seca que durava desde 1993. Vejamos:

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OBS: Apenas títulos de torneios oficiais e relevantes foram considerados

A questão é que o Flamengo é um clube diferente, desacostumado a passar sem títulos mesmo nos piores momentos institucionais ou financeiros. Corinthians, Botafogo, Palmeiras e Grêmio, por exemplo, viveram extraordinárias secas que variaram (ou ainda variam) entre uma e duas décadas. Já o Fla não costuma passar de dois anos. O ritmo se manteve até na década mais vitoriosa: aprofundando a retrospectiva, veremos outras duas estiagens: 1984-85 e 1988-89. Um 2017 sem títulos, portanto, remeteria o Flamengo aos tempos de vacas magras das décadas de 60 e 70, quando passava longe de fazer frente aos principais adversários.

Preocupa o fato de a maior parte do investimento planejado para 2017 ter sido adiantado, muito para contratar atletas que não se firmaram como Donatti, Cuellar ou Mancuello. Por outro lado, boas aquisições como Alex Muralha e Diego podem se somar a outras, cirúrgicas, que devem ser feitas visando compor os 11 principais. Além do mais, desde a assunção de Bandeira & Cia, era exatamente 2017 o ano mirado como ponto de inflexão nas potencialidades do clube.

De renomada competência financeira e jurídica, mas tida como frágil no gerenciamento do futebol, esta diretoria terá, a partir de 2017, a chance de reescrever sua história dentro dos gramados. Tendo a Libertadores como meta – após dois anos consecutivos fora, algo que não aconteceu após a conquista da Copa do Brasil em 2006. Sendo assim, pela primeira vez o Flamengo disputará a principal competição do continente com elenco digno de sua robustez financeira. Desculpas, definitivamente, não serão mais aceitas.

Um grande abraço e saudações!

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Um acerto chamado “Arena Botafogo”

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No próximo sábado, data peculiar para um clássico da envergadura de um Botafogo x Flamengo, ocorre a inauguração do mais novo estádio de “propriedade” do Glorioso. Trata-se da Arena Botafogo, na Ilha do Governador. Com o perdão pela utilização indevida e um tanto banalizada da expressão “arena” (tudo o que o velho Estádio Luso Brasileiro não é), o fato é que a parceria com a Portuguesa/RJ constituiu grande bola dentro por parte da diretoria alvinegra. E o Blog Teoria dos Jogos explica o porquê.

Fruto de um acordo que resultou em investimentos na ordem de R$ 5 milhões por parte do clube da Estrela Solitária, a Arena Botafogo ergueu-se como um estádio para 15 mil torcedores na zona norte do Rio de Janeiro. Não se trata de novidade: em 2005, Botafogo e o mesmo Flamengo reformaram o próprio Luso Brasileiro (à época renomeado Arena Petrobras) por conta da interdição do Maracanã para os Jogos Panamericanos. A importância do retorno à Ilha ocorre pelo reconhecimento, por parte dos botafoguenses, de duas verdades inconvenientes:

1-É melhor investir agora do que pagar com o rebaixamento.

Desde o ano passado, o Botafogo ocupa a condição de clube mais endividado do país. Para piorar, é também o de pior relação receita/dívida, dada a simplória 13ª posição no ranking de receitas em 2015. Seu faturamento, inferior ao do Atlético-PR, equivale a apenas 16% do passivo total. Diante deste cenário, o que justificaria a custosa remodelação de um estádio antigo, ultrapassado e relativamente mal localizado – que só será utilizado até que o Engenhão volte às suas mãos?

Justamente o entendimento de que o clube não possui cancha para suportar a competitividade do Campeonato Brasileiro sem o imprescindível fator-casa verificado em sua cidade-sede. Ainda que a instalação das arquibancadas tubulares surja como um sunk cost para o Botafogo, a verdade é que o clube não conseguiria conviver com o apequenamento resultante de um terceiro rebaixamento. Diminuição que viria tanto pela queda das receitas quanto em termos institucionais. As duas passagens pela Segundona provaram: após ser abraçado pelos alvinegros na campanha da série B em 2003, ano passado o Bota apresentou apenas a sétima melhor média de público do torneio (9.337 pagantes).

2-Fora do Rio, o clube não possui torcida que justifique excursionar

Esta possivelmente seja a conclusão mais delicada. Após viver a ilusão de “os clubes do Rio de Janeiro terem torcida nacional”, nos últimos anos os fatos batem à porta do Alvinegro de maneira contumaz. Na condição de mandante ou visitante, quanto mais afastado do Rio, menor é o quantitativo de botafoguenses nos estádios. Algo comprovado não apenas pelas pesquisas de torcida aqui divulgadas (clique aqui e aqui), mas também escancarado pelo mapa de calor do ranking das torcidas no Facebook, importante iniciativa do Globoesporte.com:

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A dura realidade é que Brasília ou Vitória são simples manchinhas um pouco menos claras. Fora do Rio de Janeiro, o único lugar onde o Botafogo possui representatividade é a Zona da Mata mineira, região que tem em Juiz de Fora sua capital informal. Mesmo lá, os números do Botafogo este ano são sofríveis: 7.091 pagantes, média catapultada por um clássico diante do Flamengo pelo Carioca. Sem aqueles 16.150 torcedores, restariam ao Glorioso decepcionantes 4.071 pagantes em três jogos do Brasileirão. Surpresa nenhuma: com seus pouco mais de 500 mil habitantes, JF vivencia processo semelhante ao da malfadada cidade de Volta Redonda.

Antes mesmo da inauguração, alvinegros já vivem algum alento pela melhoria dos resultados do time no Brasileiro. Ainda assim, assombra a 14ª posição, apenas um ponto acima da zona da degola. Diante disto, se nas arquibancadas do Engenhão os botafoguenses se reunirem em celebrações pela participação na Série A 2017, em muito deverão agradecer pela ousadia da pilotagem rumo às cercanias do Aeroporto do Galeão.

Um grande abraço e saudações!

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Opinião: por que os jogos Rio-2016 são necessários

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De novo aquela mesma história: o país em profunda crise investindo uma fábula em estruturas esportivas de legado questionável. Nenhuma externalidade positiva no tocante ao meio ambiente, dados os fracassos da despoluição da Baía da Guanabara e das lagoas da cidade. Laboratório anti dopagem descredenciado após vultosos investimentos em sua implementação. Completo mau humor político em meio a um processo de impeachment presidencial. Críticas internacionais só menos ferinas do que aquelas feitas pela nossa própria população – há muito contrária à realização de grandes eventos. Obras atrasadas, inaugurações pouquíssimo tempo antes do acendimento da tocha e sem o devido período de testes. Violência. Desemprego. Caos. O cenário brasileiro a pouco mais de um mês dos Jogos Rio-2016 parece, como sempre, vocacionado ao desastre.

Diante deste panorama, soa um despautério se manifestar a favor da realização das Olimpíadas em solo brasileiro. Afinal, “não tem saúde, não tem educação”. Não tem nem salário do funcionalismo público estadual em plena sede do torneio. Mas o Blog Teoria dos Jogos é a favor da realização dos Jogos Rio-2016. E desde que você já não esteja armado até os dentes, nos prontificamos a explicar o porquê.

Em primeiríssimo lugar, não seríamos insensíveis ou alienados a ponto de nos posicionarmos desta maneira sob qualquer circunstância. Se naquele longínquo 2009 – quando houve a eleição do Rio em detrimento de gigantes como Chicago, Tóquio e Madri – o Brasil apresentasse qualquer sintoma da doença terminal que o acometeria anos depois, os Jogos Olímpicos deveriam ser mandados às favas. É fato, afinal, que existem outras prioridades. Mas infelizmente não foi o que aconteceu, e poucos imaginavam que o governo petista pós-2010 – através da eleição de Dilma Rousseff – destruiria o país como de fato o fez. Portanto, o primeiro argumento é: não há o que fazer contra as Olimpíadas. Eles são uma realidade com a qual cada um dos 200 milhões de brasileiros precisam conviver. Com maturidade.

Em segundo, inexistem paralelos a serem feito entre o maior evento esportivo do planeta, que se iniciará em breve, e seu maior campeonato de futebol – a Copa do Mundo, também jogada por aqui recentemente. A justiça norte americana explicitou ao mundo o quão bandidos são os dirigentes da FIFA, de confederações continentais e nacionais (entre elas a CBF), encalacrando um sem número de cartolas por crimes de corrupção. Até onde se sabe, e apesar de existirem caixas pretas a serem descobertas, o mesmo não se passa no Comitê Olímpico Internacional. Ou seus dirigentes teriam o mesmo destino.

Nunca houve por parte da FIFA qualquer preocupação com a permanência de um legado, tanto que as obras demandadas eram somente as caríssimas e superfaturadas arenas de futebol. Apenas por isto as cidades-sede eram cobradas. Algo diferente se passa com os Jogos Olímpicos. Até por concentrar um número inacreditável de atletas, jornalistas e turistas numa única cidade (segundo estimativas, mais de 500 mil este ano), existem profundas preocupações com relação a logísticas de natureza hoteleira, de transportes e segurança. Gerando fortes cobranças quanto à implementação destes planos de ação.

Neste sentido, Jogos Olímpicos e Mundial da FIFA diferem como água e óleo. Enquanto o torneio de 2014 teve dispêndios 100% públicos, o desse ano apresenta mais da metade dos investimentos de natureza privada. Ao cabo que a Copa só se preocupou em erguer estádios, as Olimpíadas promovem uma verdadeira revolução no tocante à mobilidade urbana e paisagística da cidade. Elefantes brancos da Copa foram trocados por estruturas desmontáveis no evento do COI. Mesmo com atrasos e alguns projetos finalizados após os Jogos, o fato é: com as Olimpíadas, e apenas por causa delas, tais projetos saíram do papel. Ou há alguns anos era possível imaginar um Rio de Janeiro com:

-Metrô até a Barra da Tijuca;

-Uma nova via expressa (Transolímpica), duas décadas após a construção da última (Linha Amarela);

-A Perimetral no chão e uma nova via composta pelo maior túnel subterrâneo do Brasil;

-A revitalização da região portuária, com um passeio público se estendendo por quilômetros e levando a uma das atrações turísticas mais impressionantes da cidade, o Museu do Amanhã, de Santiago Calatrava. Além de futuros bares e restaurantes;

-A modernização do Centro, recortado por modernos VLTs e desafogado do tráfego de ônibus e carros;

-A implementação de quatro corredores de BRTs, totalizando 150 kms, 165 estações e interligando aeroportos, metrô, trens e VLT;

-A duplicação do Elevado do Joá?

É óbvio que não deveria haver necessidade de uma localidade receber evento internacional para presentear seus cidadãos com direitos tão básicos quanto estruturas de transportes e lazer. Também não parece razoável que todo um país financie obras focadas numa única cidade, como vem acontecendo por conta dos repasses do governo federal ao Rio. Mas a verdade é que infelizmente é assim que as coisas acontecem no Brasil. Se a seletividade dos investimentos o direcionam à mais conhecida referência internacional do país, devemos exigir que estes valham a pena, pois o fomento ao turismo na porta de entrada presume importante capacidade multiplicadora país afora.

Por fim, temos ainda o lado esportivo. E a antologia de, pela primeira vez, a América do Sul receber a maior festa do esporte mundial. As Olimpíadas são único evento a fazerem com que todo o planeta, sem exceções, direcione olhares para uma única cidade ao longo de quinze dias. Em face das dificuldades enfrentadas pelo país e pelo povo brasileiro em geral, parece besteira. Mas não foram poucos aqueles que, após bradarem e se insurgirem contra a realização da Copa, se arrependeram amargamente por não terem adquirido ingressos. No fim das contas, esqueceu-se que haveria, sim, Copa do Mundo – e que ela é um acontecimento de proporções magnânimas. Seria lamentável que arrependimento similar acometesse nossa população pela segunda vez.

Nada, nem uma linha sequer de todo o exposto, pode nos fazer esquecer das mazelas que envolveram e envolvem a realização dos Jogos Olímpicos. Assim, que tal pensarmos em trancafiar sem piedade os irresponsáveis que permitiram a queda de uma ciclovia recém construída, ceifando duas vidas? O que acham de investigar, identificar e punir àqueles que desviarem cada centavo do dinheiro público empregado nas obras – já que muitas empreiteiras estão envolvidas com a Lava Jato? Se a Operação abriu o maravilhoso precedente da punição aos ricos e poderosos, não há razões para ser diferente. Mais: por que não enterrarmos a carreira política daqueles que vivem de fazer promessas não cumpridas que só nos fazem humilhar perante a opinião pública global? O caso da despoluição da Baía da Guanabara serve como ótima referência.

Apoiar as Olimpíadas no Brasil não significa, em absoluto, agir com conivência quanto a suas mazelas. Ou com falta de sensibilidade perante a tudo que lhe é inerente. Quando a verdadeira redoma de excelência deixar o Rio, ao final dos Jogos, restará a velha e desprivilegiada população carioca a lutar contra a violência que marca seu dia-a-dia. Condição que faz dela a heroína da resistência nesta história.

Apoiar as Olimpíadas no Brasil é apenas compreender que a análise racional reduz os paralelos com relação ao pior que já tivemos. Que o brasileiro tem muito a aprender, mas que também pode ensinar, em meio à saudável e pacífica convivência entre povos, há mais de um século fomentada pelo espírito olímpico. E é também vislumbrar que, apesar dos muitos pesares, sairemos desta com um Rio de Janeiro muito melhor do que entrou, servindo de espelho do que se deve – e principalmente não se deve – projetar para o resto do país.

Um grande abraço e saudações!

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Pelo fim da figuração

Imagem: www.colunadoflamengo.com
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Não se trata mais da construção de “um novo Flamengo” – mote de onze entre dez campanhas eleitorais na história do clube. Durante o pleito que transcorre neste instante nas dependências da Gávea, o contingente eleitoral escolherá pela manutenção de um irreversível caminho iniciado em 3 de dezembro de 2012. Processo este que, há três anos, não tinha prazo para terminar, mas que agora já tem.

Como todos sabem, concorrem a Chapa Azul, de Eduardo Bandeira de Mello, a Verde, de Wallim Vasconcellos, e a Branca de Cacau Cotta. Este último, retrógrado representante da velha política, nunca teve remota possibilidade. A decisão ficará, portanto, entre Bandeira e Wallim, com grande vantagem para o atual mandatário. Conforme já indicam pesquisas de boca de urna, a revalidação de seu mandato parece questão de horas.

Não se tratam de promessas, do excesso ou da falta de agressividade da chapa concorrente. O fato é: salvo exceções, a maioria dos que introduziram a bem sucedida austeridade rubro negra compõe a atual Chapa Verde. Mas quem garantiu sua execução despersonalizada – após a diáspora dos originais – foi a diretoria que hoje integra a Azul. Assim, quem quer que vença terá como desafio algo além de um processo que parece caminhar com as próprias pernas. Estamos diante de uma mudança muito mais difícil: a de valores. E o implementar de uma real cultura vencedora.

Já abordamos o tema por aqui recentemente, na coluna “Por que o Flamengo não é um Corinthians?”. Por lá, foi dito que o Flamengo só não é maior (em termos de resultados, daí a comparação com o alvinegro paulista) por conta do tamanho de sua dívida e da falta de cultura vencedora. Mas o primeiro problema parece ter um deadline: já em 2016, a dívida rubro-negra equivalerá à sua receita, numa relação de 1:1 que há apenas três anos era de 1:3. Depois, a tendência é que o jogo vire, com a administração da dívida equivalendo à questão da dívida externa federal*.

*Antiga chaga das finanças nacionais, hoje o Brasil possui reservas em moeda estrangeira suficientes para quitar sua dívida externa, não o fazendo por ser melhor remunerado aplicando estes dólares. Trata-se de um caso clássico de administração sustentável da dívida.

Assim, temos que o principal problema do Flamengo deixou de ser financeiro, mas esportivo, pelo papel de figurante que protagoniza na maioria das competições. Isto, por surpreendente que pareça, tem menos relação com a qualidade das contratações do que com valores morais reinantes no Ninho do Urubu. O que não significa que a solução advenha de cláusulas contratuais por bom comportamento ou palestras motivacionais reiterando “o tamanho da instituição”. Há, sim, que se investir, mas não no time.

Dado o baixo nível intelectual do jogador brasileiro médio, o respeito se dá pelo usufruto. Quando adentra um centro de treinamento alagado, tomado pelo barro, matagal e contêineres improvisados, algo lhes diz que as coisas por ali são “menos sérias” do que em outras agremiações pelas quais passou. Neste sentido, um histórico que inclui até despejos (lembram do Fla-Barra?) depõe contra. Nem sempre a memória é tão curta quanto se diz.

O mesmo se aplica quando inexiste real identidade do clube com aquilo que deveria ser sua casa – na ausência de uma para chamar de sua. Ainda que a torcida se sinta totalmente à vontade, estádio que é de todos, não é de ninguém. Diante disto, adversários agradecem, mandam lembranças e anseiam pelo retorno ao salão de festas.

Tem mais. Quando o jovem da base é criado entre campos esburacados; ensinado a vencer e não a se desenvolver; e ainda assim endeusado sem a devida orientação e blindagem, a tendência é que só desabroche a centenas de quilômetros do Rio. Saindo como refugo de onde se revelou, enterra consigo todo um investimento sobre ele dispensado.

Estes e outros exemplos ajudam a narrar o quanto há que se modificar no estado de coisas do Flamengo. Tão certo quanto o fato de, hoje, o clube estar muito melhor do que há três anos, temos a insuficiência da mudança verificada. Pois não existe torcedor rubro-negro que não concorde que do jeito que está, não dá pra continuar.

Um grande abraço e saudações!

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Por que o Flamengo não é um Corinthians?

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Em fevereiro de 1982 – mês e ano de nascimento deste blogueiro – a revista Placar se saiu com uma de suas capas mais marcantes e polêmicas. Dirigida à época pelo corintianíssimo Juca Kfouri, a publicação questionou o porquê do clube tido e havido como “Flamengo paulista” se encontrar tão abaixo do original. Desestruturado, endividado e com provincianismos de um clube de colônia, o Corinthians chafurdava na Taça de Prata do Brasileirão (equivalente à atual Série B), enquanto o Mais Querido colhia os frutos de sua geração mais vitoriosa – incluindo os títulos da Libertadores e do Mundial, meses antes.

Só que nossa pergunta difere do “por que o Corinthians não é um Flamengo”, de três décadas atrás. A indagação é contrária.

Seria para tanto?

Decerto já houve momentos mais propícios para denotar a reversão de papéis entre os dois gigantes. Um período marcante, por exemplo, foi a temporada de 2005. À época, os do Parque São Jorge, fazendo valer a força de sua marca, atraíram investidores internacionais que culminaram na montagem de um verdadeiro esquadrão. Tal qual há uma semana, atletas de exceção como Tevez e Mascherano deram ao Timão o título Brasileiro daquele ano. Enquanto um Rubro Negro jogado às traças vivia da falta de credibilidade até mesmo para assinar um cheque. Os meses com mais de 90 dias geravam debandadas que fragilizavam o elenco, a ponto de o Flamengo terminar o Carioca na inacreditável oitava colocação. Não só: o time caiu nas oitavas da Copa do Brasil frente ao Ceará, lutando contra o rebaixamento no Brasileiro até as últimas rodadas.

Se hoje as coisas aparentam melhores – ao menos no tocante à catástrofe rubro-negra – por que então a indagação?

A resposta tem origem num panorama novo. Bem administrado após anos de falcatruas, o Flamengo vem fazendo valer seu peso no campo dos negócios. A partir de 2014, o Mengão assumiu a liderança do ranking de receitas e faturamento de marketing, mantendo-se no topo das audiências e das vendas de pay per view. Tais parâmetros, contudo, eclipsam uma intransponibilidade que impede a conversão de cifras em títulos.

Enquanto o Corinthians entra como favorito na maioria das competições, o Flamengo segue na condição de mero figurante em muitas delas – que o diga as duas últimas eliminações na primeira fase da Libertadores. Ao passo que o novo hexacampeão recheia sua sala de troféus, rubro-negros completarão dois anos sem nenhuma conquista.

Novamente: por quê?

Primeiramente, temos a questão da dívida: não basta ter a maior receita se o endividamento também for brutal. Embora a situação do Flamengo tenha melhorado – de inacreditáveis R$ 750 milhões para algo próximo a R$ 450 milhões – não restam dúvidas que a amortização teria apenas tirado o rubro-negro do leito de uma UTI. Longe de ter a “doença” curada, o Fla destina mais de R$ 10 milhões mensais ao pagamento de impostos e passivos diversos. Grosso modo, é como se o Corinthians arcasse com somente metade deste valor. Dinheiro que sobra limpo para investir no que mais importa ao torcedor: a montagem do elenco.

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Em segundo lugar, uma questão abstrata chamada “cultura vencedora”, inerente aos que historicamente levaram a sério toda a ciranda do futebol, desde a revelação, passando pelas condições de trabalho e culminando na seriedade da busca pelos objetivos. A cultura vencedora está presente não apenas no Corinthians, mas na maioria dos paulistas – o que explica um São Paulo destroçado pelo maior rival e ainda assim dentro do G4. É ela que justifica os gaúchos sempre tão fortes, raramente vistos lutando por algo diferente do título. Em desenvolvimento também nos de Belo Horizonte, esta é a cultura que há décadas falta não só ao Flamengo, mas a todo o futebol carioca. Se neste período beliscaram conquistas, o fizeram pela grandeza das instituições, à revelia da seriedade com que Flamengos patricistas ou Vascos euriquistas trataram a coisa.

Por fim, e é lógico, existe um sem número de outros “detalhes”: infra estrutura (CTs de ponta e estádios próprios, escassos no Rio); credibilidade institucional (que resulta em mais negócios e maiores somas), etc.

Mas o fato é que nem dívida, nem cultura vencedora, nem infra estrutura ou credibilidade, nada se resgata do dia para a noite. Pelo contrário. São conquistas que levam anos, que dependem da implementação de um novo pensamento e da solidificação do profissionalismo. Algo impossível quando diretorias sérias não se sucedem.

Enquanto não germinarem as sementes plantadas pela atual gestão – seja com os atuais ou seus bons concorrentes – os flamenguistas seguirão desprovidos da satisfação de se verem à frente daqueles que, um dia, neles se espelharam. Já que no Corinthians, mesmo aos trancos e barrancos, o processo de resgate se iniciou ainda na década de 90.

O lado bom é que o Flamengo está, sim, no caminho certo. E mesmo diante do caos vivido há tão pouco tempo, em uma coisa ninguém será um Flamengo: na grandeza de sua torcida. Não é pouco, visto que o resgate passará de maneira indelével pelas mãos da Nação.

Um grande abraço e saudações!

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Meia entrada: os riscos de uma cruzada inesperada

Flamengo e Maracanã anunciaram: a partir desta quinta, quando o Rubro-Negro encara o Cruzeiro, a utilização indiscriminada das meias entradas será fiscalizada e coibida. Trata-se de uma medida que visa garantir o cumprimento da lei estadual que exige a apresentação de documentos por parte dos estudantes. Evitaria ainda a malfadada evasão de renda resultante de milhares de torcedores que se utilizam de direitos para os quais não estão habilitados.

É fato: clube, concessionária e autoridades se baseiam em princípios corretos e agem de acordo com a legislação em vigor. No entanto, ao menos para hoje, o modus operandi tem tudo para se mostrar catastrófico. Explica-se.

Em redes sociais, o primeiro comunicado do Flamengo sobre a mudança de postura se deu na manhã da segunda-feira, 07/09, conforme se verifica em print do perfil rubro-negro no Twitter (@Flamengo). Ainda assim, tratava-se de uma mensagem protocolar, quase mera formalidade:

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O problema é que, já na noite anterior, mais de cinco mil ingressos haviam sido vendidos pela internet, poucas horas após a vitória no Fla x Flu. A Concessionária Maracanã demorou mais: seu primeiro retweet sobre o tema aconteceu ontem (09/09), instantes após anunciarem a venda de 25 mil ingressos para Flamengo x Cruzeiro:

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Apenas na manhã de hoje (10/09), comunicados verdadeiros foram expedidos dando o tom da nova política empregada. E a coisa é séria: quem não se comprovar estudante será obrigado a trocar ingressos de meia por inteira. Documentos falsificados encaminharão os responsáveis para esclarecimentos no Juizado Especial Criminal (Jecrim).

Questionado, o departamento de marketing do Flamengo alegou que o site oficial já vinha noticiando a questão desde a abertura das vendas para associados, se isentando da questão fiscalizatória, algo que estaria fora de sua alçada.

Não é bem assim que a banda toca.

O Rio de Janeiro sempre tolerou a “farra das meias entradas” em níveis muito superiores aos verificados em outras praças. O próprio Blog Teoria dos Jogos demonstrou, semana passada, que partidas na cidade apresentavam quase 60% de meias entradas, enquanto em outras localidades o percentual mal ultrapassava 5%. Ainda que esteja errado quem se vale do expediente, a histórica conivência por parte dos responsáveis levava a tal condição. Precificar tudo pelo “dobro da meia” evitava o trabalho de fiscalizar. Anunciar projetos de sócio-torcedor com valores a “partir de R$ 10” (mesmo com a maioria inapta) soava atraente.

O problema é que não adianta estabelecer uma data-limite no meio do processo. Muito menos achar que um clube não tem responsabilidade solidária pelos inconvenientes aos quais expõe sua torcida. Sem serem importunados, dezenas de milhares de flamenguistas compraram ingressos de meia entrada como sempre fizeram. Trocá-las por inteiras na hora do jogo, conforme proposto, só tende a caotizar bilheterias e gerar transtornos.

Agora todos sabem: a farra está chegando ao fim – ainda bem! A iniciativa privada agradece. Usuários devem se ater unicamente àquilo que tem direito.

Mas que, no Maracanã, este processo se inicie a partir da rodada do fim de semana. Sob pena de vermos um sem número de clarões eclipsando a bela festa que se prometia. Ou pior, incontáveis confusões envolvendo policiais e torcedores, repentinamente taxados como contraventores.

Em tempo: será que, com o fim da “farra”, os clubes estarão dispostos a baixar o preço dos ingressos?

Um grande abraço e saudações!

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Opinião: Eleições e repercussões do racha na diretoria do Fla

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Sempre foi de conhecimento público, mas a ferida só se mostrou realmente aberta quando Luiz Eduardo Baptista abandonou o barco. A revolta pela postura do clube na disputa com a FERJ foi, de certa forma, mero pretexto do ex-vice presidente de marketing do Flamengo para renunciar ao cargo em fevereiro. A questão ali era reassumir o comando dos movimentos em um jogo de xadrez que ocorria no coração da antiga “Chapa Azul”, hoje rachada.

Eduardo Bandeira de Mello foi eleito presidente do Flamengo em meio a um contexto ímpar. Impedido pelo estatuto de se candidatar, Wallim Vasconcelos cedeu o posto a ele como fruto de uma decisão colegiada. Os empresários – que se uniram para extirpar o câncer da administração anterior – coordenariam de maneira não personalista, através de decisões tomadas via consenso ou maioria em seu chamado “núcleo duro”. Mandariam todos, mesmo aqueles que não tivessem cargo formal na direção.

O que alega este grupo – que hoje anuncia oposição nas eleições de dezembro mesmo ocupando cargos na atual diretoria – é justamente que o presidente não honrou com o combinado. Supostamente envaidecido com o sucesso de uma gestão cujos méritos seriam dos notáveis, Bandeira internalizara benefícios políticos, ganhando luz própria e passando a agir com base em seus ideais. O parlamentarismo – com figura presidencial tão somente protocolar – teria se tornado presidencialismo de fato.

Foi com base no exposto que BAP, já há alguns meses, passou a arquitetar reuniões em São Paulo com antigos e atuais nomes da diretoria do Fla. Tendo como consequência o lançamento (de novo!) de Wallim Vasconcelos como candidato e representante da filosofia original dos azuis.

A grande questão é a seguinte: Até que ponto o Flamengo saiu perdendo com o ofuscar de antigas lideranças? Se analisarmos friamente, veremos que é verdade: o presidente ganhou envergadura que fugia do planejamento original. Mas estaríamos de fato diante de um caso onde “o combinado não sai caro”? Em meio a tantas pressões dentro e fora dos gramados, Bandeira se mostrou sereno, ousado, pacifista e rompedor na medida certa. Encarou desafios com capacidade que muitos dos que hoje lhe fazem oposição – caso do próprio Wallim, quando vice de futebol – não fizeram. Proporcionou, assim, uma guinada não planejada em sua direção. Baseada em virtudes que lhe devem ser atribuídas.

O resultado foi verificado por todos. De uma instituição arrasada, alvo de toda sorte de processos e chacotas, o Flamengo se impôs. Fez valer seu peso em ouro e se consolidou como clube de maior receita, marca mais valiosa e maior faturamento de marketing do Brasil. Jogadores de prestígio voltaram a querer envergar o Manto, enquanto o próprio governo federal o colocou na dianteira de um processo de moralização do futebol.

É lógico que tais mudanças não se devem apenas a alguém, mas a toda a filosofia implantada pelo grupo que elegeu (e hoje refuta) o presidente. Mas também é fato que, se metade daqueles nomes hoje se lançam opositores, a outra metade segue firme no intuito de continuar fazendo o Flamengo maior. Estes inúmeros profissionais – espalhados pelos departamentos jurídico, de administração, comunicação, patrimônio e marketing – são uma realidade, tornando seus possíveis substitutos incógnitas. Caberia mudar um time vitorioso e perder expertise a esta altura, mediante tão bons resultados?

E mais: será mesmo que alguns dos que trabalham pela “nova oposição” o fazem só por pensarem no colegiado? Ora, se a insurreição ocorreu justamente quando seus nomes, antes tidos e havidos como “verdadeiros mandatários do Flamengo”, se perderam em desimportância à sombra da liderança positiva de Eduardo Bandeira de Mello…

Se o racha entre as boas mentes rubro-negras só faz interessar a antigos corvos que se ouriçam na hipótese de voltarem à carga, a manutenção deste Flamengo higienizador é algo que interessa, por baixo, a trinta e cinco milhões de brasileiros. Isto porque, ideologicamente, a doutrina tem a simpatia de milhões de outros. É algo que independe das cores que se enverga.

Eis, portanto, minha particular posição, na condição de editor do Blog Teoria dos Jogos e associado rubro-negro com direito a voto. Uma posição a favor do presidente Eduardo Bandeira de Mello nas eleições do final do ano.

VINICIUS PAIVA

Análise Comparativa: As Finanças de Grêmio e Flamengo em 2014

Escrito por Cristiano M. Costa, Professor de Finanças e Contabilidade da UNISINOS e membro do Sócios Livres – Grêmio de Todos, em cujo blog o texto foi originalmente publicado. 

“Ontem (segunda) foram divulgadas as demonstrações financeiras do exercício 2014 de Grêmio e de Flamengo.  Os resultados mostram escolhas e circunstâncias distintas na vida administrativa dos clubes. Vamos a uma breve análise do que mostram os resultados.

O Clube de Regatas do Flamengo teve uma receita de 334 milhões e despesas da ordem de 229 milhões. O resultado dessa conta é um estrondoso superávit operacional de 105 milhões. Uma vez descontadas as despesas financeiras (custo dos juros da dívida) ainda sobraram 64 milhões.

Com isso o Flamengo amortizou sua dívida e recuperou patrimônio dos sócio após anos acumulando déficits. A pergunta de vocês certamente é: como o Flamengo fez isso?

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O primeiro passo foi não aumentar as despesas. Na verdade elas reduziram em 3 milhões. O segundo foi incrementar receitas. Passaram de 259 milhões para 334 milões, um aumento de 75 milhões. De onde veio isso?

Ao contrário do que se pensa, apenas 5 milhões vieram do aumento do valor dos direitos de transmissão, que hoje são 115 milhões por ano.  O Flamengo elevou receitas em várias atividades: sócio-torcedor (+14 milhões), patrocínio (+26 milhões), incentivos fiscais (+22 milhões), e por aí vai. O Flamengo soube gerar receitas. Além disso, conseguiu reduzir as despesas financeiras (basicamente juros) em 6 milhões. Até a atividade de esportes olímpicos do Flamengo foi superavitária!

Além do resultado, o Flamengo deu uma aula de como apresentar seus resultados. Na apresentação do seu ativo intangível o clube apresentou o percentual que possui de cada um dos jogadores sob contrato. Vejam a imagem abaixo.

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Pra finalizar, o Flamengo ainda apresentou explicações sobre algumas transações importantes que ocorreram já em 2015 ao final do balanço. Entre elas o empréstimo do Pará. Seguem os detalhes:

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Agora vamos aos dados do Grêmio. O Grêmio Foot-ball Porto Alegrense teve uma receita de 206 milhões e despesas da ordem de 207 milhões. O resultado dessa conta é um prejuízo de 1 milhão. Uma vez descontadas as despesas financeiras (inclusive custo dos juros da dívida) o prejuízo chegou a 31 milhões. O resultado ajustado do ano anterior, de 2013, mostra um prejuízo ainda maior: 56,8 milhões.

Com isso o Grêmio, mais uma vez, aumentou suas dívidas. A pergunta então é: como o Grêmio fez essa lambança financeira?

O Grêmio de fato aumentou a sua receita, de 183 milhões para 206 milhões. Esse crescimento se deu em função do aumento da receita com venda de atletas (+18 milhões), de ganhos de direitos de tansmissão (+6 milhões) e patrocínios (+13 milhões). O problema é que muitas receitas caíram. Entre elas: prêmios (- 5 milhões), quadro social (-7 milhões) e vendas da Grêmio Mania (-1 milhão).  No lado da receita o Grêmio não foi mal, mas poderia ter ido melhor. Pesou a dinâmica do nosso quadro social, que arrecadou 50 milhões em 2014, quando havia arrecado 57 em 2013 (melhor ano da história).

No lado das despesas o Grêmio gastou 207 milhões, um valor abaixo dos 214 milhões de 2013, mas ainda muito elevado para o tamanho de suas receitas. O gasto com pessoal do futebol profissional reduziu (-14 milhões), mas outras despesas aumentaram. Destaca-se aqui o aumento da despesa com quadro social (possivelmente engloba os custos da entrada de sócios na Arena) que aumentou em 13 milhões (despesa que já estava prevista).

O que destrói muito do resultado do Grêmio são as despesas financeiras e serviço da dívida. Praticamente todo o prejuízo do clube vem dessas rubricas. Os montantes que foram deixados para trás em 2014 assustam. As obrigações fiscais e trabalhistas devidas e que vencem no curto prazo saltaram de 6 milhões para 20 milhões.

O lado positivo é que o Grêmio possui um valor maior de atletas sob seus direitos. O ativo intangível aumentou em 14 milhões. Ou seja, parte pode se reverter em receita no exercício 2015, como as vendas de direitos de atletas já realizadas (e que poderão ser feitas).

Como podemos comparar os resultados de Grêmio e Flamengo? Ambos são frutos de escolhas e circusntâncias. Em ambos os casos os clubes não aumentaram despesas. O que é muito bom. A grande diferença é que o Flamengo aumentou extraordinariamente as suas receitas. Se o Grêmio tivesse um aumento equivalente ao do Flamengo (crescimento de 29% da receita) a nossa receita teria sido 60 milhões maior, e ao invés de um prejuízo de 31 milhões teríamos um superávit de 29 milhões.

Está claro que reduzir despesas deve ser parte da estatégia do Grêmio. O clube deve gastar de acordo com a sua realidade. O que deve ficar claro aos torcedores, sócios e dirigentes é que o clube não poderá crescer sem aumentar substancialmente as suas receitas. E aqui entra o papel da escolha administrativa que me referi no primeiro parágrafo.

O Grêmio deve unir seus dirigentes, conselheiros, movimentos políticos, sócios e torcedores na busca da elevação de receitas (simultaneamente a contenção de despesas). Aqui temos várias áreas que podemos atacar e a principal delas é trazer o torcedor e o sócio para perto do clube, gerando receitas, contribuido, e se associando.

Nosso quadro social hoje é responsável por 25% da arrecadação. Outros 7% vêm de royalties e da loja Grêmio Mania. Ou seja, 32% de tudo vem dos sócios diretamente. No Flamengo, esse valor é apenas 13%. Eles ainda vão crescer muito.

Outros dois aspectos diferenciam Grêmio e Flamengo e terão que ser buscados pela direção do clube. O primeiro deles é dificílimo de ser revertido: cotas de TV. O Flamengo arrecadou 115 milhões, o Grêmio 60 milhões. Aqui não temos saída, só um novo arranjo institucional, como a formação de uma Liga daria maior equidade. Ainda é um resquício do fim do Clube dos 13. O segundo é receita de bilheterias. Hoje as receitas do Grêmio são zero (na verdade 1 milhão). Já o flamengo arrecadou 40 milhões. Aqui a direção trabalha incessantemente para reverter a questão Arena. Perdemos uma fonte precisosa de arrecadação. Se ela fosse da mesma proporção da do Flamengo (ou seja, 13% da receita total) o Grêmio teria mais 40 milhões pra gastar. Aqui, cabe destacar que o Flamengo perdeu 8 milhões com bilheteria em virtude do novo contrato com Maracanã e interdições pré-Copa.

Em suma, a escolha que a direção gremista deve seguir está clara. O Grêmio deve sim reduzir despesas, mas precisamos urgentemente pensar em formas criativas e sustentáveis de aumentos de receitas. E essa bola não fica só no pé da direção. Ela está com todos nós, conselheiros, representantes de movimentos, sócios e torcedores.

Chegou a hora de todos trabalharem para marcar esse gol da arrecadação e geração de receitas!

PS: as demonstrações do Grêmio estão AQUI e as do Flamengo AQUI.

Obs: Esse post é de Opinião e não corresponde ao posicionamento oficial do Sócios Livres.”

Um grande abraço e saudações!

E-mail da coluna: teoriadosjogos@globo.com

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O resgate do orgulho de ser rubro-negro

Gigante acordou
Imagem extraída do site https://flaeterno.wordpress.com

Era uma vez um clube de massa. Talvez mais do que isso: “o” clube de massa. Beneficiado pelo irradiar da cultura carioca em território nacional, sua torcida era (e talvez sempre tenha sido) esmagadora. Mas isto não se refletia em campo, simplesmente porque se vivia uma longínqua era em que capacidades fora dos gramados não se refletiam em potenciais dentro deles. Só a organização (a capacidade de peneirar e revelar jogadores) poderia fazer com que uma agremiação se destacasse perante tantas outras. Ou a sorte. Estamos nas décadas de 50, 60, 70.

Sem se destacar quanto ao primeiro fator – e não agraciado pelo segundo – o clube vencia menos campeonatos do que presumia sua grandeza e importância social e cultural. Dando de ombros, sua torcida – verdadeira expressão da paixão nacional – não parava de crescer. Ainda assim, seus rivais deitavam e rolavam. Um certo time do litoral paulista então… revelara um negrinho que fez da equipe um verdadeiro rolo compressor. Passava o rodo no tal “clube de massa”, cerne deste conto.

Eis que uma nova diretoria assumiu. Capitaneada por um certo tabelião, ostentava novos conceitos– palavrinhas então inéditas como “gestão” e que tais. A “modernização” – outra que soava como música naqueles tempos – veio finalmente acompanhada da sorte. Uma geração de ouro se fez revelar, liderada por um gênio. Na virada dos 70 para os 80, tudo mudou na vida deste clube. Ganhou absolutamente tudo o que disputou. Arrebatou corações de toda uma geração. Fez a FIFA reconhecê-lo como 8º maior clube do século XX.

Mas a “era de ouro” se foi. O tempo passa, a idade pesa – como também parecem pesar quando um mesmo grupo político se enraíza por tempo demais numa instituição. Com o desgaste, vieram oposições. E oposições. E mais oposições. A modernidade foi substituída pela irresponsabilidade. Em muitos momentos, o clube flertou com o banditismo. Presidentes mal intencionados, escorraçados, impichados. Conselheiros agindo como barões em um feudo. Nem o tabelião – que voltou! – deu mais jeito. Parou no tempo, assim como o clube. Que viu destruída sua imagem.

Daquele clube vitorioso vanguardista, pouco restou. Talvez sua torcida, crescente como que por milagre, alheia a toda sorte de bancarrotas técnicas e morais. Só que não bastava. À medida com que avançavam as décadas de 90 e 2000, novas palavrinhas vieram à tona: marketing esportivo, credibilidade. Conceitos inexplorados num clube onde a estrutura caía aos pedaços, promessas não eram cumpridas e salários, fictícios. Se fingia que pagava. Se fingia que jogava. Como levá-lo a sério?

A grande questão é que depois da tal “era do marketing esportivo”, sorte passou a contar menos que competência. Clubes bem geridos angariavam volumes inimagináveis de recursos, comprando quem “trazia sorte”. É a economia, estúpido! Adapte-se ou morra.

Por muito tempo, pareceu que aquele “clube de massa” morreria. Afogado, nas impagáveis dívidas contraídas por temerárias, calamitosas e sucessivas gestões.

Por sorte, tudo na vida é cíclico. À beira do abismo, surgiu um grupo de abnegados dispostos a salvarem o referido “clube de massa”. Mais: colocá-lo no impensável rumo, que, nos dias de hoje, se tornaram sinônimo de sucesso. A lógica era simples: tendo como sustentáculo o consumo de sua enorme torcida, três ou quatro anos de completa frugalidade se fariam imprescindíveis até que as contas ficassem em ordem. O resgate da credibilidade se daria com profissionalismo, seriedade e muito trabalho. Se consumando à medida com que mais e mais credores vissem honrados compromissos antes dados como perdidos.

Reverteu-se a lógica nefasta. O que tirou com uma mão, o mercado vem devolvendo com a outra. Ao caminhar para o fim de seu primeiro mandato, a tal diretoria quebrou todos os paradigmas. Atraiu investidores, alavancou receitas a níveis inéditos, renegociou dívidas – e o mais importante: as honrou. Dívidas que, a propósito, vem desabando ano após ano, cenário absolutamente promissor de futuro. Com o extermínio dos passivos, restará apenas a maior receita do Brasil, posto ao qual galgou já no ano de 2014. Bons tempos estão por vir.

Em meio a ameaças de rompimento perante a parasitária federação de futebol de seu estado, eis que no dia de ontem, o louvado “clube de massa” – novamente ocupante do trono do progressismo – se tornou o primeiro do país a se adaptar formalmente à Lei de Responsabilidade do Esporte. No futuro, aventureiros como aqueles aqui elencados responderão judicialmente, pagando do próprio bolso.

Sorria, rubro-negro. O “clube de massa” em questão é o Flamengo.

O Clube de Regatas do Flamengo.

Um grande abraço e saudações!

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