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O resgate do orgulho de ser rubro-negro

Gigante acordou
Imagem extraída do site https://flaeterno.wordpress.com

Era uma vez um clube de massa. Talvez mais do que isso: “o” clube de massa. Beneficiado pelo irradiar da cultura carioca em território nacional, sua torcida era (e talvez sempre tenha sido) esmagadora. Mas isto não se refletia em campo, simplesmente porque se vivia uma longínqua era em que capacidades fora dos gramados não se refletiam em potenciais dentro deles. Só a organização (a capacidade de peneirar e revelar jogadores) poderia fazer com que uma agremiação se destacasse perante tantas outras. Ou a sorte. Estamos nas décadas de 50, 60, 70.

Sem se destacar quanto ao primeiro fator – e não agraciado pelo segundo – o clube vencia menos campeonatos do que presumia sua grandeza e importância social e cultural. Dando de ombros, sua torcida – verdadeira expressão da paixão nacional – não parava de crescer. Ainda assim, seus rivais deitavam e rolavam. Um certo time do litoral paulista então… revelara um negrinho que fez da equipe um verdadeiro rolo compressor. Passava o rodo no tal “clube de massa”, cerne deste conto.

Eis que uma nova diretoria assumiu. Capitaneada por um certo tabelião, ostentava novos conceitos– palavrinhas então inéditas como “gestão” e que tais. A “modernização” – outra que soava como música naqueles tempos – veio finalmente acompanhada da sorte. Uma geração de ouro se fez revelar, liderada por um gênio. Na virada dos 70 para os 80, tudo mudou na vida deste clube. Ganhou absolutamente tudo o que disputou. Arrebatou corações de toda uma geração. Fez a FIFA reconhecê-lo como 8º maior clube do século XX.

Mas a “era de ouro” se foi. O tempo passa, a idade pesa – como também parecem pesar quando um mesmo grupo político se enraíza por tempo demais numa instituição. Com o desgaste, vieram oposições. E oposições. E mais oposições. A modernidade foi substituída pela irresponsabilidade. Em muitos momentos, o clube flertou com o banditismo. Presidentes mal intencionados, escorraçados, impichados. Conselheiros agindo como barões em um feudo. Nem o tabelião – que voltou! – deu mais jeito. Parou no tempo, assim como o clube. Que viu destruída sua imagem.

Daquele clube vitorioso vanguardista, pouco restou. Talvez sua torcida, crescente como que por milagre, alheia a toda sorte de bancarrotas técnicas e morais. Só que não bastava. À medida com que avançavam as décadas de 90 e 2000, novas palavrinhas vieram à tona: marketing esportivo, credibilidade. Conceitos inexplorados num clube onde a estrutura caía aos pedaços, promessas não eram cumpridas e salários, fictícios. Se fingia que pagava. Se fingia que jogava. Como levá-lo a sério?

A grande questão é que depois da tal “era do marketing esportivo”, sorte passou a contar menos que competência. Clubes bem geridos angariavam volumes inimagináveis de recursos, comprando quem “trazia sorte”. É a economia, estúpido! Adapte-se ou morra.

Por muito tempo, pareceu que aquele “clube de massa” morreria. Afogado, nas impagáveis dívidas contraídas por temerárias, calamitosas e sucessivas gestões.

Por sorte, tudo na vida é cíclico. À beira do abismo, surgiu um grupo de abnegados dispostos a salvarem o referido “clube de massa”. Mais: colocá-lo no impensável rumo, que, nos dias de hoje, se tornaram sinônimo de sucesso. A lógica era simples: tendo como sustentáculo o consumo de sua enorme torcida, três ou quatro anos de completa frugalidade se fariam imprescindíveis até que as contas ficassem em ordem. O resgate da credibilidade se daria com profissionalismo, seriedade e muito trabalho. Se consumando à medida com que mais e mais credores vissem honrados compromissos antes dados como perdidos.

Reverteu-se a lógica nefasta. O que tirou com uma mão, o mercado vem devolvendo com a outra. Ao caminhar para o fim de seu primeiro mandato, a tal diretoria quebrou todos os paradigmas. Atraiu investidores, alavancou receitas a níveis inéditos, renegociou dívidas – e o mais importante: as honrou. Dívidas que, a propósito, vem desabando ano após ano, cenário absolutamente promissor de futuro. Com o extermínio dos passivos, restará apenas a maior receita do Brasil, posto ao qual galgou já no ano de 2014. Bons tempos estão por vir.

Em meio a ameaças de rompimento perante a parasitária federação de futebol de seu estado, eis que no dia de ontem, o louvado “clube de massa” – novamente ocupante do trono do progressismo – se tornou o primeiro do país a se adaptar formalmente à Lei de Responsabilidade do Esporte. No futuro, aventureiros como aqueles aqui elencados responderão judicialmente, pagando do próprio bolso.

Sorria, rubro-negro. O “clube de massa” em questão é o Flamengo.

O Clube de Regatas do Flamengo.

Um grande abraço e saudações!

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Identificando os problemas do projeto ST do Flamengo

Fig 01

Há exatos dois anos, a diretoria do Flamengo aplacava uma histórica demanda reprimida ao finalmente lançar seu projeto de Sócio-Torcedor – o Nação Rubro-Negra. Com base em seis pacotes – que depois se tornaram sete – o projeto dividiu opiniões. A maioria (entre eles este blogueiro) enxergou menos virtudes do que o desejado. Outros elogiaram a empreitada com base na aprovação tácita dos quase 30 mil associados em suas primeiras semanas. Veio a arrancada para o título da Copa do Brasil e o NRN sofreu seu segundo boom, ultrapassando a barreira dos 64 mil sócios. Tudo parecia uma festa.

Entretanto, os audaciosos objetivos da diretoria (que chegou a falar até em 200 mil associados) estancaram. Em 2014, desanabolizado pelos resultados em campo, o que se viu foi uma perda em massa de integrantes. Estagnado em 2015, o Nação Rubro Negra se encontra hoje com pouco mais de 55 mil sócios, na modesta sétima posição do ranking do Movimento por um Futebol Melhor – onde chegou a ser terceiro. Apesar da torcida imensamente maior, nos últimos meses o Flamengo foi ultrapassado por Palmeiras, Corinthians, Cruzeiro e Santos.

Visando identificar o porquê da não conversão de torcedores em novos sócios, o Prof. Rodrigo Fortuna coordenou – em parceria com a Trevisan Escola de Negócios e o Instituto Brasileiro de Gestão e Marketing Esportivo (IBGME) – uma pesquisa tendo o Sócio-Torcedor do Flamengo como mote. Segundo o material – gentilmente disponibilizado para o Blog Teoria dos Jogos em primeira mão – o objetivo é “mapear os motivos pelos quais o torcedor do Clube de Regatas do Flamengo não adere como esperado ao programa”, bem como “identificar potenciais oportunidades para maior exploração deste programa”. Para tanto, foram aplicados 746 questionários entre torcedores (associados e não-associados) via internet. Os resultados serão expostos a seguir.

Quanto ao perfil da amostra:

Fig 02

Fig 03

Fig 04

Percebam que a localização geográfica dos respondentes é oposta à dos sócios-torcedores, mas está em linha com a distribuição nacional da torcida do Flamengo (cerca de 80% fora do estado do Rio). Isto significa que a pesquisa é mais fiel na leitura da opinião dos não-sócios – 69% dos que responderam ao questionário. A concentração entre homens é a convencional em se tratando do consumidor de futebol no Brasil. Já a maioria de respondentes jovens (de 13 a 24 anos) torna delicada a questão dos custos, como veremos adiante.

Entre os sócios-torcedores:

Fig 05

Considerando que o único plano entre R$ 30,01 e R$ 60,00 é o “Raça” (R$ 39,90 por mês), pode-se dizer que nada menos que 67,1% aderiram a ele. O pacote “Tradição” (R$ 29,90), lançado posteriormente e com menos benefícios, cooptou 23,3% dos respondentes. Juntos, nos levam à leitura de que 90,4% dos flamenguistas refutam as cinco modalidades mais caras (de R$ 69,90 a R$ 199,90 mensais).

Fig 06

A motivação de 81,6% dos associados em “apoiarem financeiramente o clube” presume o que se convenciona por heavy user – torcedores que “compram areia no deserto” quando o assunto é Flamengo. Trata-se de um perfil de consumidor restrito, possivelmente quase que totalmente cooptado pelo programa. Novos sócios que se pretende atrair possuem perfil diferente, como veremos no mapeamento de quem não se associou:

Fig 07

Os não-sócios até afirmam que ajudar é prioridade – embora num percentual representativamente inferior (55,3%). Mas conforme veremos, para eles o problema mesmo envolve o dispêndio. Sejam valores ou formas de pagamento:

Fig 08

Simplesmente 47,8% desejariam pagar menos de R$ 20 nas mensalidades – algo que não é oferecido pelo clube. Outros 23,9% gostariam de pagar entre R$ 20,01 e R$ 30,00, intervalo em que já se encontra o pacote “Tradição”, ao qual não se associam por outras razões. Importante salientar que apenas 4,9% dos respondentes se mostram dispostos a arcar com mais de R$ 60 por mês – e que quase metade destes arcaria com mais de R$ 100. Trata-se de um público que não deve ser desprezado, mas só será cativado por experiências prime.

Fig 09

Finalmente, o mais importante. A ausência de cartão de crédito é justificativa para 26% dos que ainda não se associaram. Este percentual pode ser somado aos 12% que não gostariam de pagar à vista no boleto – fazendo da “forma de pagamento” a maior desvantagem para 38% dos entrevistados. A falta de benefícios é alegada por 22% dos não-sócios, enquanto 21% acham altos os valores dos planos. Apenas 11% dependem do desempenho do time de futebol. Meros 1% não confiam na atual diretoria, um trunfo e tanto para a reversão do cenário aqui exposto.

Outro trunfo são as relações comerciais dos não-sócios com patrocinadores do Fla:

Fig 10

Diante do exposto, o Blog Teoria dos Jogos conclui que o foco dado a descontos e prioridades sobre ingressos atingiu o esgotamento. A maioria – sócios ou não – quer contribuir financeiramente com o Flamengo, mas os que não o fazem encontram dificuldades com métodos de pagamento e preços dos pacotes. Um número nada insignificante se vê distanciado pela falta de benefícios, ao se encontrar geograficamente afastado do clube. Portanto, a disponibilização das seguintes modalidades supriria grande parte da demanda:

1) Um plano a R$ 9,90 mensais com possibilidade de pagamento via boleto e sem qualquer benefício além de uma carteirinha de sócio. Viria a suprir a demanda dos que querem contribuir mas não podem por falta de dinheiro ou cartão de crédito. Boletos possuem alto inadimplemento, mas a completa ausência de benefícios não canibalizaria pacotes superiores. Parcerias com a Caixa (para expedição dos boletos) ou com a Tim (pagamento via conta telefônica) reduziriam sobremaneira a inadimplência.

2) Envio anual de mix de produtos oficiais e/ou licenciados para todos os associados entre os pacotes +Raça (R$ 69,90) e Paixão (R$ 159,90). Quanto mais cara a mensalidade, melhores os produtos – em linha com o palmeirense Avanti (clique nos “kits Avanti” e veja)

3) Disponibilização de uma experiência avançada por ano (lugar no camarote do Maracanã ou viagem com o elenco em partida fora do estado) aos assinantes do pacote +Paixão (R$ 199,90), além do melhor mix de produtos conforme descrição do item anterior.

O Blog Teoria dos Jogos agradece e parabeniza o Prof. Rodrigo Fortuna, a quem maiores informações podem ser solicitadas através do e-mail rodrigo.fortuna@ibgme.org

Um grande abraço e saudações!

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Opinião: Diga não ao “Desafio Técnico” no futebol

Quatro dias atrás, durante a Convenção Global Soccerex 2014, o presidente  Joseph Blatter afirmou a jornalistas que a FIFA pretende instituir no futebol o “Desafio Técnico”(Challenge Call). Assim como ocorre nos jogos de tênis, treinadores passariam a poder desafiar as decisões do juiz por uma ou duas vezes a cada tempo de jogo. Com a partida paralisada, a tecnologia entraria em campo visando esclarecer dúvidas acerca das decisões tomadas pelo trio de arbitragem.

Num primeiro momento, a medida aparenta ser um bem para o futebol. Implantada com sucesso outros esportes (como o futebol americano), o objetivo é nobre: acabar com injustiças que tanto pairam sobre o velho e violento esporte bretão. Ademais, a adoção de outras modernidades vem se mostrando um acerto. Foi o caso da “tecnologia da linha do gol” que, implantada na Copa do Mundo, validou um gol legítimo da França contra Honduras.  A percepção do torcedor brasileiro vai ao encontro desta sensação: uma enquete do Esporte Espetacular aponta incríveis 77% dos votantes sendo favoráveis à adoção da tecnologia.

Fig 01

Confesso que me flagrei impelido a votar “Sim” na enquete. Quando fui acometido por um pensamento que mudou totalmente meu ponto de vista.

Chama atenção aos amantes dos outros esportes – em especial esportes norte-americanos – a obsessão que temos pelo “gol” no futebol. Trata-se de uma explosão de comemoração e festejos às raias da insanidade. E por que o gol é tão importante? Por sua raridade. Entre pontos, cestas e gols tão generosos em outros esportes, o futebol é o único cujos empates zerados não são nada raros, sem qualquer atitude para revertê-los. E se esta situação é frequente, partidas com uma das equipes em branco são ainda mais costumeiras. Eis o porquê da glorificação do momento máximo: você nunca sabe em quanto tempo comemorará outro gol de seu time. Pode realmente demorar.

A instituição do “Desafio Técnico” teria um efeito absolutamente nefasto: ser utilizado praticamente em todos os gols, buscando pequenos errinhos que possam invalidar o tento adversário. A não ser em situações de controvérsias recorrentes (como penalidades máximas), não consigo enxergar outro momento que fizesse tanto valer a pena a utilização do expediente. Faltas ou situações do tipo seriam “queimar desafio à toa”, já que a qualquer momento se poderia sofrer um gol perdendo a prerrogativa de questioná-lo. A administração da “estratégia dos desafios” se tornaria uma tática, assim como tempos técnicos no vôlei (“quebrar o ritmo” do adversário) ou as faltas no basquete (contar com erros no arremesso de lances livres).

O resultado é que a cada gol desafiado, a célebre comemoração de jogadores e torcedores iria para o lixo. Como quando se percebe, instantes depois, que um gol foi anulado por falta de ataque ou impedimento.

Será mesmo que devemos transformar o melhor momento do esporte num mero protocolo de espera, com base na fria confirmação de um concílio diante do monitor? É para se pensar, analisar e debater seriamente, tentando aprimorar ao máximo outras ferramentas à disposição.

Eu digo que não. O “Desafio Técnico” no futebol não vale a pena.

Um grande abraço e saudações!

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Opinião: Exagero e hipocrisia na questão do racismo no Sul

CRM Zen

“Vem falar com o macaco! Vem xingar o macaco! Racista!”

Assim foi recebida Patrícia Moreira na porta da 4ª Delegacia de Polícia Civil de Porto Alegre. Aos xingamentos e protestos, bem ao feitio do que ocorre desde que foi flagrada pela ESPN proferindo “MA-CA-CO” em direção ao goleiro Aranha, do Santos. O jogo era do Grêmio, seu time do coração, que pelas demonstrações de racismo da torcida acabou excluído da Copa do Brasil. Como se não bastasse tanta polêmica, desde a noite de quarta circulam imagens que atribuem ao auditor Ricardo Graiche, do STJD, postagens em redes sociais de cunho supostamente racista.

Diante de tudo, vamos aos fatos. E apelemos ao bom senso:

1)      É preciso separar o joio do trigo quando nos referimos a injúrias proferidas nas arquibancadas de futebol. A torcida do Grêmio apelidou pejorativamente os colorados de “macacos” – e isto nem deveria ser demonizado como vem acontecendo entre os próprios gremistas. Os “macacos” do Internacional equivalem aos “urubus” do Flamengo ou aos “porcos” palmeirenses. Começou como injúria, depreciação, como forma de se diminuir o rival – e que torcida não o faz? Nos casos citados, os símbolos foram inteligentemente encampados pelas torcidas, dando um tapa de luva na provocação. Ocorre também de torcidas não admitirem o “apelido” dado pelos rivais: “Bambis”, “gambás”, “Marias”…  E quem há de abolir a provocação saudável em meio a rivalidades tão acirradas? Pedir “silêncio na favela”, ofender o “filho da puta” do juiz ou gritar a plenos pulmões que um jogador é “viado” se tornará o quê? Crime de difamação, discriminação econômica, social ou sexual? E o que dizer da “Macaca”, simpaticíssimo mascote da Ponte Preta? Tornou-se politicamente incorreta?

2)      Sim, racismo ou injúria racial constituem crimes. E o que aconteceu durante Grêmio x Santos  precisa de punição, foram ofensas voltadas a um jogador em específico. O “macaco”, no caso, não era uma abstração, uma depreciação coletiva. Era o goleiro Aranha, que reagiu por se sentir diminuído. Ele tem este direito. Mas por todo o exposto no parágrafo anterior – e por bom senso – o que acontece nos estádios deveria ser contemporizado enquanto não ultrapassar a linha vermelha. Descriminalizar idiotices não é sinônimo de tolerá-las ou aceitá-las. Tanto por parte da Justiça Desportiva quanto no âmbito do clube, medidas na esfera administrativa deveriam ser tomadas. Como um jogo com portões fechados, por exemplo. Quase R$ 1 milhão de prejuízo não soaria punitivo o suficiente? A exclusão dos identificados do quadro social do Grêmio não aparentaria educativo perante quem cogitasse cometer a mesma injúria?

3)      A garota errou, pisou na bola, é fato. E deu o tremendo azar de ser focalizada em rede nacional. Mas a verdade é que a alvura de sua pele trouxe à tona as tensões raciais de um país intolerante. Patrícia não foi a única a xingar. Mais: gremistas negros também ofenderam o goleiro do Santos. Só que temos a necessidade de encontrar bodes expiatórios. Alguém que, sozinho, verdadeiramente pague pelas chagas e mazelas de uma sociedade que se expõe doente. Pior: diante do erro alheio – pois quem erra é sempre o vizinho – o brasileiro se acha no direito de julgar e condenar. Como um deus, acima do bem e do mal, que tenha a prerrogativa de fazer justiça com as próprias mãos. Desde as primeiras horas após a polêmica, Patrícia teve telefones e endereços divulgados na internet. Sua célula familiar foi destruída, tendo inclusive a própria casa apedrejada. Com que direito?

4)      As imagens do bebê negro se passando por “embalagem de Pepsi” circularam o mundo antes de chegar ao Facebook do auditor, que tão somente fez… rir. Eu mesmo já havia visto a foto na rede social, postada por alguém que também… riu. A propósito, é extremamente improvável que a menininha tenha sido sequestrada por racistas obscuros responsáveis pela elaboração da foto. Os pais da menina – ou tios, primos, amigos – foram os responsáveis. Sem imaginar que gerariam tamanha cruzada, fizeram troça de sua fofura. Certamente o objetivo era compartilhar leveza através de uma brincadeira que só agora se tornou incompreendida.

Não estou aqui para defender quem quer que seja – seja auditor ou ofensora. Nem tenho razões para isto. Mas é impossível não deixar a pergunta: quem apedreja – real ou virtualmente – tem teto de vidro? Quem sonega imposto, passa a perna nos outros ou prejudica a coletividade mesmo nas pequenas coisas… tem envergadura moral para pagar de justiceiro?

Deveríamos ser menos hipócritas e concentrar tamanha fúria incontida contra os verdadeiros desmandos da nossa sociedade. Seríamos melhores se não negligenciássemos os verdadeiros doentes, dando a eles a dose certa de remédio. Deixando de matar alguns pacientes por excesso de medicação.

VINICIUS PAIVA

Diego Souza e a luta do Sport contra a incipiência do marketing

Ibson Diego

Há uma semana verificou-se algo pouco usual no noticiário esportivo. O Sport Club do Recife anunciava, de uma só vez, a contratação de dois jogadores relativamente jovens, demandados e com apelo de mídia: os meias Diego Souza e Ibson. É verdade que o último acumula decepções após um começo de carreira fulgurante. Mas Diego Souza – no auge dos 29 anos e cobiçado por gigantes do futebol nacional – aparenta muita lenha pra queimar. Foi parar na Ilha do Retiro.

Estava formatada a maior ação de marketing da história do futebol nordestino. Os jogadores não seriam trazidos por um grupo de empresários, nem teriam patrocinadores custeando seus salários. Os mais de R$ 300 mil mensais pagos a Diego Souza – segundo apuração do jornalista Cássio Zírpoli – seriam pagos pela torcida, convocada a aderir em massa ao projeto sócio-torcedor.  Com aproximadamente 16 mil associados, o Leão estabeleceu meta de 10 mil novos adeptos no mês de agosto, algo que tornaria a empreitada sustentável.

Até então o maior ordenado já pago no clube havia sido de R$ 200 mil – vencimento padrão em qualquer clube do Sul ou Sudeste. Economias pouco desenvolvidas explicariam este abismo, com claros reflexos nas finanças dos clubes de futebol. Raras foram as vezes em que equipes da região se sagraram campeãs nacionais em divisões de elite. Todos os clubes do Nordeste se encontram abaixo do 10º lugar na escala de sócios-torcedores, do 13º no ranking nacional de torcidas e do 15º entre as maiores receitas.

Se as dificuldades são inúmeras, o potencial de crescimento dos clubes nordestinos acompanha o desenvolvimento recentemente verificado. Em alguns anos a região cresceu o triplo das taxas nacionais. Salvador e Recife se encontram no top-10 dos maiores PIBs entre as metrópoles. Cada vez mais turistas escolhem suas praias, tendo eventos como o carnaval considerados referência mundial. Tudo amparado por bem elaborados projetos de… marketing! Exatamente aquilo que se esboça no futebol.

Algumas coisas também vão bem para o Sport. Pesquisas já o colocaram à frente do Bahia no posto de maior torcida do Nordeste. Entre jovens, chega a suplantar equipes tradicionais do Sudeste. Sua marca, bem avaliada, atraiu a Adidas em um contrato de quatro anos e boas vendas no período da Copa.

Se nada é fácil para o Sport, também não é impossível que sua iniciativa sirva de espelho e referência às demais agremiações. Digladiando em terra de gigantes, o Leão busca consolidar sua posição de vanguarda e ultrapassar as divisas do estado de Pernambuco. O tempo nos dirá se a empreitada foi um sucesso. Ou se jogadores de quilate passarão apenas de passagem rumo a clubes do eixo Sul-Sudeste.

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Entrevista de Vinicius Paiva à Rádio Nacional AM (Rio de Janeiro)

Clique na imagem abaixo e ouça a entrevista de Vinicius Paiva à Rádio Nacional, 1130 kHz AM do Rio de Janeiro. Em debate, tudo sobre a pesquisa Datafolha/2014, bem como opiniões do blogueiro quanto à configuração nacional de torcidas. Por se tratar de uma rádio carioca (de enorme importância histórica), o foco foram os clubes do Rio de Janeiro.

EBC

 

A explicação para os erros das pesquisas (e por que o Datafolha erra mais)

Trazemos agora a terceira e última coluna na carona da pesquisa de torcidas Datafolha/2014. Inicialmente, abordamos a estranha ocultação do estudo por parte do instituto. Em seguida, mediante a publicação, analisamos seus resultados. Agora vamos mais a fundo: por que estudos do gênero apresentam falhas – e por que o Datafolha prima por potencializá-los?

1)      O limite matemático (e a tal “margem de erro”)

Esqueçam a bobagem do “desconheço alguém que já tenha sido pesquisado”. É possível que você morra sem conhecer respondentes simplesmente porque é impossível entrevistar 200 milhões de brasileiros (a não ser através de um recenseamento demográfico). Para superar adversidades, a ciência estatística elaborou métodos confiáveis com base em espaços amostrais e margens de erro. Não cabe aqui explanar sobre o tema, mas acreditem: há confiabilidade desde que se delimitem amostras relativamente próximas ao universo a ser pesquisado. Três mil entrevistas podem mapear todo o país com erro aproximado de 3 pontos percentuais. Os 4.340 questionários da pesquisa Datafolha (margem de erro: 2 p.p) configuram quantitativo interessante e superior à média verificada. De qualquer maneira, seremos sempre reféns dos limites impostos pela própria matemática.

2)      O limite amostral (por economia ou conveniência)

Conforme dito acima, para que uma pesquisa seja confiável, a amostra precisa ser fiel ao universo pesquisado. Um dos grandes obstáculos é orçamentário, pois não é fácil enviar pesquisadores aos quatro cantos de um país continental e com configuração de torcidas tão plural. Por isto, pesquisas nacionais são coisa “pra gente grande” – como o Datafolha. Mas aí o instituto pisa na bola.

Em consulta ao Sistema de Registro das Pesquisas Eleitorais do TSE*, encontramos exatamente a pesquisa Datafolha a que nos referimos, bem como a listagem de cada município pesquisado.

*Pesquisas que mensuram intenção de voto (como foi o caso) necessitam de registro e publicação no site do Tribunal Superior Eleitoral. Um prato cheio para as análises presentes nesta coluna.

Dinheiro não é problema para o conglomerado. Remunerado em R$ 266.200,00 pela Empresa Folha da Manhã S.A (Folha de São Paulo), o Datafolha visitou 207 cidades em 26 unidades federativas (menos Roraima).  Embora tenha contemplado quase todo o país, nada menos que 2.030 questionários (46,7% do total) foram aplicados no estado de São Paulo! E mais: das 207 cidades, 60 ficavam no estado – o que representa 29% do total. Lembrando que São Paulo concentra apenas 21% da população brasileira e 11% do total de municípios.

Para piorar, capitais de estado sequer foram visitadas, como Palmas ou Aracaju. Outras cidades importantes como Blumenau, Chapecó, Londrina, Campos dos Goytacazes e Juiz de Fora também não foram contempladas.

3)      O limite humano – parte 1 (falhas e manipulações durante o processo)

Aqui, as limitações são impostas pela própria falibilidade humana. Isto porque questionários são passíveis de manipulação e de erros de transcrição por parte dos pesquisadores, sem que os institutos tenham influência direta no fato. Vejam como foi descrito o “sistema interno de controle, verificação, conferência e fiscalização de coleta de dados” da pesquisa:

 “Os pesquisadores envolvidos na realização desta pesquisa são treinados pelo Instituto e recebem instruções específicas para cada projeto realizado. A maior parte da coleta será feita com a utilização de tablet e questionário eletrônico. São checados, no mínimo, 30% dos questionários de cada pesquisador, seja in loco por supervisores de campo ou, posteriormente, por telefone. Internamente, todo o material é verificado e codificado. Antes do processamento final e emissão dos resultados, realiza-se processo de consistência dos dados.”

Ou seja, garante-se a checagem de um número pequeno de questionários. Se uma quantidade superior a esta for alterada, restará um material inócuo para publicação. Reside aí a necessidade de capacitação e de um rigoroso controle da mão-de-obra por parte das empresas do ramo.

4)      O limite humano – parte 2 (o intelecto do brasileiro médio)

A averiguação do questionário completo aplicado pelo Datafolha traz à tona a limitação nas opções de times de futebol a serem votados:

Fig 01

Parece coincidência que os 18 “votáveis” sejam basicamente os que aparecem nos resultados finais da pesquisa?

Fig 02

Soa inacreditável. Por questões que envolvem o fracasso do sistema educacional brasileiro, uma parcela dos respondentes é incapaz de atribuir torcida a clubes não listados no questionário – ainda que exista a opção “Outros”.  O analfabetismo funcional, que gera severas dificuldades na interpretação do que se lê, é uma realidade no país. O problema seria superado caso se possibilitasse votação em uma gama maior de clubes de futebol, o que não acontece.

Diante do exposto, podemos chegar às seguintes CONCLUSÕES com relação à pesquisa Datafolha/2014 (e muitas outras do mesmo instituto):

-A concentração de questionários no estado de São Paulo infla, irremediavelmente, os números das equipes do estado. Este benefício é verificado em maior escala para torcidas da capital (Corinthians, São Paulo, Palmeiras e Portuguesa) do que para as do interior (Ex: Santos, Ponte Preta, Guarani, Botafogo/SP, etc).

-A exclusão de importantes cidades brasileiras prejudica o resultado de torcidas (Ex: Londrina, Chapecoense, etc). Em alguns casos, a ausência de toda uma região (como a zona da Mata Mineira ou certas capitais do Norte e Nordeste) subestimam o tamanho das torcidas do Rio de Janeiro (Flamengo, Vasco, Botafogo e Fluminense).

-A exclusão de clubes do Norte/Nordeste da lista de votação (Ex: Sport, Santa Cruz, Náutico, Ceará, Fortaleza, Remo, Paysandu, etc) oculta o significativo tamanho de suas torcidas. Todas, absolutamente todas, bem maiores do que a torcida da Portuguesa de Desportos.

Um grande abraço e saudações!

Post scriptum (05/08/2014):

1)      Em declaração ao Blog de Mauro Cezar Pereira, o diretor de opinião do Datafolha afirmou que, apesar do excesso de questionários em São Paulo, os dados seriam ponderados de acordo com a composição populacional de cada estado. É certo que haja tal aplicação em algum nível, mas fica a pergunta: se as entrevistas poderiam ser feitas na proporção exata (já que o instituto viajou às localidades), qual a garantia de que a normatização se deu na escala correta?

2)      Alguns leitores chamam atenção para o fato de o questionário clubístico ser executado de maneira “espontânea”, ou seja, dando liberdade para que o entrevistado escolha seu time de sua preferência. Mesmo que a ideia fosse esta, o fato de os 18 clubes citados serem quase que exatamente os únicos listados (com honrosas exceções da Seleção e do Sport) leva a questionamentos quanto à real aplicação do método.

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Novamente, esta coluna não seria possível sem a providencial ajuda do amigo Clayton Silvestre