Arquivos da categoria: Pesquisas de torcida

A Pesquisa da Vez: Datafolha 2018

Detalhamento da pesquisa:

Localidade: Todo o território nacional

Instituto: Datafolha

Amostra: 2.826 entrevistas, em 174 municípios, entre 29 e 30 de janeiro de 2018

Margem de erro: 2 p.p

Tão fresquinha que nem a Folha de São Paulo – porta voz do instituto Datafolha – divulgou os números completos ainda. Mas como era de se esperar, o Blog Teoria dos Jogos preenche esta lacuna, trazendo a público todas as informações sobre a mais recente pesquisa de torcidas no Brasil. Após um período de quase-banalização, eis que as pesquisas rarearam – o último estudo nacional do Datafolha datava de 2014, também às vésperas da Copa. Vamos, portanto, aos resultados, com importantes considerações em seguida.

Iniciemos com o velho (e de certa forma cansativo) debate: a quem pertence a maior torcida do Brasil? Olhando para os números acima, não restam dúvidas: Flamengo 18% contra Corinthians 14%. Mas quem leu a primeira matéria da Folha de S.Paulo a respeito coçou a cabeça: no cabeçalho, é dito que ambos estariam empatados no limite da margem de erro, pois uma variação negativa do Flamengo contra uma positiva do Corinthians equipararia as coisas em 16%. Trata-se, no mínimo, de uma desonestidade intelectual, típica dos que precisam afagar a maioria no estado-sede. Isto porque a chance desta variação ocorrer é a mesma de o Flamengo verificar majoração positiva em dois pontos, com o Corinthians decaindo os mesmos dois. Nesta hipótese, pertenceria ao Flamengo a surra de 20% a 12%, configuração tão irreal quanto. Mas isto a Folha não diz.

Tem mais. Margens de erro não funcionam na base do “dois pontos percentuais pra todo mundo”. Fosse assim, clubes com 1% das preferências (como o Bahia) variariam entre 3% e… -1%! Ou mesmo zero, levando proeminentes torcidas regionais à condição de inexistência. Parece óbvio que estas não são opções válidas. A questão é que margens de erro são proporcionais ao “tamanho do número”, sendo assim, quanto menor o percentual, menor a margem. Só isto já é suficiente para dizer que mesmo a variação benéfica aos paulistas (eles pra cima e cariocas para baixo) não seria suficiente para atingir a condição de empate técnico. Sendo assim, é correto afirmar: Não existe qualquer dúvida sobre a inexistência de um empate na primeira posição. Para alguns, uma verdade inconveniente.

Finda esta questão, é bom recordar que foi o Datafolha quem ocultou, por semanas a fio, a pesquisa elaborada por eles mesmos em 2014. Ocultação denunciada pelo Blog Teoria dos Jogos em uma das colunas de maior repercussão na sua história. Curiosamente, apenas um dia depois, o instituto revelou a pesquisa que havia retido.

Além do entrevero envolvendo margens de erro, existe outro bem problemático em tudo o que o Datafolha faz: o arredondamento. Foi ele que, seis anos atrás, colocou torcidas em convulsão por conta da equiparação do Fluminense à Portuguesa, atribuindo a ambos 1% das preferências nacionais. Pressionado pela opinião pública, o instituto se viu obrigado a divulgar os números exatos, que revelaram um Fluminense com 1,46%, contra 0,51% da Lusa. Se é quase irresponsável divulgar que uma torcida três vezes maior seja igual à outra, beira a inconsciência acreditar que a torcida tricolor possa mesmo ser três vezes superior à da Lusinha – e não dez, quinze ou até vinte vezes. Esta sempre foi uma das grandes críticas ao instituto: o enfoque excessivo de sua amostragem no estado de São Paulo.

Pois bem, se agora a Lusa nem aparece, outro empate pode ser atribuído à questão do arredondamento: aquele entre Bahia e Vitória, no mesmo 1% das preferências. Inúmeras pesquisas atribuem à massa tricolor algo entre 50% a mais e o dobro dos rubro-negros da Boa Terra. É quase certo que numa nova divulgação de números exatos, o mesmo fosse identificado. Fica a questão: se todos os institutos divulgam pesquisas com uma casa decimal, por que o Datafolha insiste em não fazê-lo? Não custaria absolutamente nada além de duas digitações, a da vírgula e a do décimo.

Mas ainda existe um último questionamento. Na pesquisa divulgada hoje, o Sport sequer aparece na lista dos votados – ou seja, o Leão pernambucano foi acomodado dentro de nada desprezíveis 8% de “outros”. Só que numa pesquisa fidedigna, seria imperativo que os pernambucanos aparecessem (bem) à frente do Vitória, pois algumas outras já o colocaram mesmo adiante do Bahia. Se torcidas tão importantes estão dentro do “outros”, e se este agregado atingiu índice tão proeminente (equiparado ao tamanho do São Paulo, terceira maior torcida do país), por que não abri-lo? Novamente: o que custa revelar os percentuais de todos os que bateram 1% – mesmo os que o fazem com base no famigerado arredondamento? A mesma reivindicação se aplica aos importantes Atlético-PR e Coritiba, agregados dentro de um catadão que não lhes é de direito.

Debatidas as derrapagens, vamos aos números dos que ainda não citamos. O São Paulo surge com 8%, o Palmeiras com 6%, Vasco e Cruzeiro, 4%, Grêmio, Santos e Internacional, 3%, Atlético-MG com 2%, Botafogo e Fluminense, 1%. De todos, apenas o Cruzeiro variou positivamente, um ponto percentual acima da pesquisa de 2014. Vasco, Botafogo e Fluminense variaram um para baixo.

Em tese, estaríamos diante de acomodações naturais e dentro da margem de erro, pouco ou nada sugerindo crescimento ou diminuição de torcidas. Somado ao controverso arredondamento, pode-se muito bem explicar o surpreendente empate envolvendo cruzmaltinos e celestes (exemplo: 4,4% para o Vasco e 3,6% para o Cruzeiro se tornaria um 4% a 4%).O fato de o ordenamento colocar o Gigante da Colina à frente da Raposa comprova seu patamar superior. Mas é sempre bom ficar atento ao decréscimo há muito identificado no seio da torcida vascaína. Analogamente, o Bahia aparece à frente de Bota e Flu, comprovante de que os baianos há algum tempo acionaram a seta e ultrapassaram dois dos quatro cariocas.

Vamos às tabulações por sexo, idade, escolaridade e renda:

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A sensação de grandes torcidas às ruas tem relação inequívoca com o tamanho das mesmas entre homens. Não, não de trata-se de sexismo, mas de engajamento comprovado em números. Tanto que apenas 12% dos brasileiros afirmam não torcer por nenhum time, contra relevantes 32% delas. Esta e outras razões (como a violência) constituem o porquê de estádios serem ambientes tão majoritariamente masculinos. Sob esta ótica, a maioria rubro-negra é ainda mais proeminente: 19%, contra 15% do Corinthians e 10% do São Paulo. E o Vasco descola do Cruzeiro, marcando 6% contra 4%.

Em direção oposta, a melhor configuração de torcidas possível é aquela em que a diferença entre homens e mulheres não é tão grande, afinal, elas também fazem número. E muito mais, compõem uma enorme massa potencial de consumo em franco crescimento. Neste sentido, ponto negativo para São Paulo e Vasco, que possuem torcida feminina equivalente à metade da masculina. Uma louvável exceção: apenas o Galo mineiro surgiu com atleticanas em quantidade superior à de atleticanos. Caso raro.

A análise por faixa etária empata com a das rendas como recortes mais importantes nas pesquisas. Isto porque uma aponta o tamanho futuro das massas, enquanto outro indica quem consome ou tem potencial de consumir – mesmo em torcidas menores do que outras. Vamos à avaliação do primeiro grupo.

Por idade, não é de hoje, o Flamengo encerra toda e qualquer controvérsia quanto à sua liderança. Na faixa mais jovem, entre 16 e 24 anos, o Mengão explode a incríveis 24%, contra 17% do Timão. Isto, ao menos por ora, é indicativo de que nossa geração não verá qualquer mudança no topo do ordenamento. O aumento entre a garotada rubro-negra é tão impactante que supera em muito faixas reconhecidamente pertencentes à “era Zico”: 20% entre 35 e 44 anos, e 18% entre 45 e 59 anos.

Mas percebam outra estatística interessante: entre os mais velhos (acima de 60), a torcida do Corinthians surge maior que a do Fla (11% a 9%). Em tese, indicativo de que um dia corintianos foram maioria, correto? Errado. Ao menos em se tratando das pesquisas do passado e de antigos relatos em jornais e revistas, que desde sempre atribuíram aos cariocas a condição de Mais Querido. Uma explicação recai sobre o “desalento” que acomete às faixas etárias mais avançadas. Notem que, entre jovens, quem não tem time soma apenas 13%, catapultados a 31% entre os mais velhos. É como se mais flamenguistas do que corintianos tivessem “desistido” em meio à longa jornada. Se olharmos para os últimos 20 anos, notaremos claramente que vem sendo mais fácil e prazeroso (em termos de títulos) integrar os quadros da Fiel…

Mais um que cresce entre os jovens é o São Paulo: marca 8% no geral e 11% em meio àqueles entre 16 e 24. Isto nos leva à impressionante tendência de que, no futuro, Flamengo, Corinthians e São Paulo somem 52% da torcida brasileira – numero hoje estacionado nos 40%. Os demais clubes se encontram em tendência de estabilidade, mas outros como Palmeiras e Vasco sugerem propensão à queda (decerto, os três últimos anos do Palmeiras ainda não foram captados). Importante também mirar os números do Santos, que marca 4% entre os mais velhos (“era Pelé”) e despenca para 1% entre a segunda faixa mais avançada, que já pouco assistiu aos desfiles do Rei. Após isso, santistas voltam a subir lenta porém consistentemente, até atingir 3% entre os jovens. Santas gerações de Robinho, Diego, Neymar e Ganso. Olhem para o Botafogo e percebam que uma única geração mágica no passado remoto deixou de fazer verão: 3% entre os mais velhos, 1% nas demais faixas etárias.

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Já que falamos da sua importância, abordemos os parâmetros de renda antes da escolaridade. O mais questionável, sem sombra de dúvidas, é o Flamengo tão superior ao Corinthians entre os mais ricos – aqueles com renda média superior aos 10 salários mínimos (R$ 10 mil). Os 19% a 11% a favor do Rubro-Negro não estão em linha com outras pesquisas que já demonstraram equilíbrio ou mesmo o Corinthians à frente. A explicação recai sobre a margem de erro do recorte (apenas 97 entrevistados), já que, em proporção, são poucos os brasileiros com renda mais alta. Portanto, a amostragem relativamente pequena, com menos de 3 mil entrevistas, acaba se saindo a vilã.

Mas se é isto que os números apontam, é o que temos: um enorme potencial de renda, ainda que adormecido, em meio aos rubro-negros. Faz sentido que haja cada vez mais flamenguistas endinheirados: em 2017, o Sudeste foi a única região do país que verificou queda na renda média da população. O Brasil que mais cresce, há anos, é o Brasil que enverga preto e vermelho, pois 80% da Nação se encontra espalhada entre as regiões Norte, Nordeste e Centro Oeste (alguma coisa no Sul, veremos adiante). E por que tanto potencial estaria adormecido? Bom… desde o início do ano, o Nação Rubro Negra, projeto de sócio-torcedor do clube, já perdeu inimagináveis 44 mil associados (em defesa da torcida, existem explicações racionais). Fora relatos variados sobre a dificuldade de se fomentar propensão ao consumo entre os verdadeiramente ricos na torcida.

Em termos proporcionais, o crescimento mais acentuado entre ricos pertence ao São Paulo. O Tricolor do Morumbi sobe de 7% em meio aos mais pobres para incríveis 13% acima de 10 salários, expressivo aumento de 86%. Suficiente, inclusive, para colocá-los à frente dos arquirrivais corintianos sob esta ótica. O Palmeiras vem a reboque, saindo de 5% para 9% entre os abastados (80% de aumento). Mais que eles, só o Grêmio, que vai de 2% até 5% (150% a mais), embora números pequenos tenham maior tendência de apresentarem variações fora da curva. O Cruzeiro é outro que sobe (de maneira menos acentuada) e atinge 5%. O que faz com que tanto a maior torcida mineira quanto a gaúcha superem um Vasco estacionado nos 4%. Inter e Botafogo vão bem neste quesito, enquanto o Fluminense se mantém estável – não condizendo com o enorme potencial de renda dos tricolores no Rio. Neste último caso, o impacto negativo viria dos torcedores do Fluzão país afora.

No que tange aos mais pobres, destaque para o Bahia, que parte de 2% na faixa mais humilde até o completo desaparecimento acima dos cinco salários. O Flamengo torna latente sua vocação popular, acachapando 20% contra 13% do Corinthians. Eis um recorte com confiabilidade bastante alta: entrevistaram nada menos que 1.333 pessoas, 47% da amostra.

Por escolaridade, quem mais cresce à medida com que aumentam os anos de estudo é novamente o São Paulo, saindo de 7% entre os menos letrados para 11% mediante os mais. Na média, a variação de todos os clubes é menos expressiva do que nas análises de idade e renda. Os 18% fixos apresentados pelo Flamengo entre pessoas com ensino fundamental, médio e superior indicam que o contínuo aumento do número de estudantes nas faculdades vem tornando mais equânime esta estatística. De todo modo, outras torcidas crescem com os anos de estudo, como a do Grêmio.

O estudo apresenta ainda a configuração de torcidas divididas entre populações economicamente ativas ou não, o que julgamos se tratar de um dado menos relevante.

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Aqui, relevância absoluta: torcidas dissecadas de acordo com as regiões do país. Apesar do oba-oba como se fora novidade (sempre eles…), Corinthians maior do que Flamengo no Sudeste é mais velho do que andar para frente – basta olhar para a populações de seus estados de origem. Na região mais rica do país, corintianos marcam 19%, flamenguistas 14%, são paulinos 10%, palmeirenses e cruzeirenses, 8%. Depois temos Atlético-MG (5%), Vasco e Santos (4%, ambos), Botafogo e Fluminense (2% cada). Nos dedicamos de maneira abrangente ao Sudeste por se tratar da única região em que aglutinação dos “outros” faz pouquíssima diferença, insignificantes 2%. Nas demais, conforme veremos, o vergonhoso “catadão dos excluídos” impacta sobre os números finais, o que decerto modificaria o ordenamento.

No Sul, os adeptos que realmente se fazem notar são do Grêmio (20%), Internacional (18%), Corinthians (12%) e Flamengo (8%). Atlético-PR, Coritiba, Paraná, Figueirense, Avaí, Chapecoense, Criciúma e Joinville se aglutinam na infâmia dos 10%.

No Nordeste, o Fla inicia seu processo de extrapolação de limites, marcando 23% contra 9% do Corinthians. O Vasco vai bem, ultrapassa São Paulo e Palmeiras e atinge 6% das preferências, mesmo índice do Bahia. Enquanto o Vitória sua para atingir 3%, fazendo recordar o absurdo relatado no sexto parágrafo. Aqui, o baixo clero mais parece alto, pois atinge 14% dos habitantes. Certamente um Sport gigantesco, mas não somente ele: Santa Cruz, Ceará, Fortaleza, Náutico e tantos outros que fica difícil citar a todos.

No Centro Oeste, o Flamengo é tão soberano quanto no Nordeste, inclusive mantendo o índice. Mas o Corinthians cresce bastante, a ponto de atingir 15% da amostragem. Isto porque o Mato Grosso do Sul é um estado de maioria corintiana, ao passo que Mato Grosso se divide entre Flamengo e Corinthians. Goiás e Distrito Federal se incumbem de fazer a balança pender para lados cariocas. Pela mesma razão, São Paulo (9%), Palmeiras (6%) e Santos (4%) são tão maiores que o Vasco (2%). Dada a fraqueza dos clubes locais, o catadão soma 7%, decerto composto por clubes de fora da região.

Já o Norte ultrapassa a barreira do inimaginável, com o Flamengo abarcando 37% de toda a região. Trata-se de um número superior ao que demonstra a maioria, senão todas as pesquisas já publicadas. Por conta dos também absurdos 19% de “outros”, sobra pouco para Corinthians (8%), Vasco (7%) e São Paulo (6%) dividirem. Mas… 19% de outros? Sim, amigo. Deixaram de fora nada menos que dois fenômenos paraenses: Remo e Paysandu, cada um com torcida superior a um milhão de pessoas. Numa região com cerca de 16 milhões de habitantes, escorrem pelo ralo cerca de 13% só com a dupla Re-Pa.

Dois comparativos interessantes: com o Mapa das Torcidas do Facebook, detalhado até o mínimo denominador pelo Blog Teoria dos Jogos, e com os dados por região da pesquisa Datafolha 2014. No primeiro caso, diferenças por vezes substanciais de acordo com a região. Outras vezes, semelhanças um tanto surpreendentes. O que não muda é o ordenamento das torcidas, basicamente igual.

Já o segundo comparativo nos apresenta um Corinthians com importante variação positiva no Sul (de 6% em 2014 para incríveis 12% agora) e caindo no Norte (de 11% até 8%). O Flamengo sobe forte no Norte (de 32% para 37%) e mais delicadamente no Sul (de 6% para 8%), com queda equivalente no Centro Oeste (de 25% até 23%). O Palmeiras sobe dois pontos percentuais no Sul e cai três no Norte. O Santos cai três no Sul e sobe dois no Centro Oeste. O Vasco cai dois no Centro Oeste, o Grêmio cai dois no Sul e o Bahia sobe dois no Nordeste. Todas as demais variações são unitárias, por isso menos representativas.

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Nossa última estatística recai sobre o perfil das torcidas segundo a natureza e o porte dos municípios. Contraditórias entre si, bagunçam o imaginário rubro-negro, povoado pela “maioria à medida com que se interioriza”. Segundo o Datafolha, a diferença entre Flamengo e Corinthians se reduz no interior, e não o contrário. Seriam 18% a 15% a favor do Rubro-Negro país adentro, em face de imponentes 20% a 13% nas capitais (com boa diminuição da margem ao contemplarem demais cidades das regiões metropolitanas). Lembrando que os interiores compuseram ampla maioria da amostra, conforme demonstra a tabela. Mas quando nos debruçamos sobre o porte do município, o vetor é oposto: 19% a 13% pró-Fla nas menores cidades (até 50 mil habitantes), 17% a 16% nas maiores (acima de 500 mil). Fica o dito pelo não-dito.

Para terminarmos, tabelas de lambuja quem fomentam saudáveis discussões clubísticas, sem maiores divagações. Trata-se do interesse de cada torcida por futebol e pela Copa do Mundo, fonte de interessantes apontamentos.

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Um grande abraço e saudações!

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A Pesquisa da Vez – Manaus 2017

Detalhamento da pesquisa;

Localidade: Manaus/AM, entre 20 e 22 de janeiro de 2017

Instituto: Pesquisa 365

Amostra:  1.050 entrevistados

Margem de erro: 3 p.p

Está aberta a temporada 2017 de pesquisas de torcida! E a primeira do ano se deu numa localidade tão importante quanto, até bem pouco, negligenciada: Manaus, capital do Amazonas. Após anos sem pesquisas na região norte, o produtivo ano de 2012 trouxe luz a duas pesquisas elaboradas em terras manauaras e divulgadas pelo Blog Teoria dos Jogos. Desde então, nada mais foi dito. Até que o Instituto Pesquisa 365 se juntou ao “clube” frequentado por IPEN e ao GPP – elaboradores das pesquisas cinco anos atrás – e nos trouxe números aparentemente confiáveis, com grande semelhança aos verificados anteriormente. Vamos a eles:

Conforme amplamente sabido, o Flamengo detém a maior torcida de Manaus por larga margem: 39% da população. Mas o Vasco possui uma massa também representativa, atingindo 17,7% do total. A partir de então, torcidas paulistas ditam o jogo em detrimento dos demais cariocas. O São Paulo aparece com 5,1%, seguido do Corinthians (4,4%) e do Palmeiras (3,7%). Só então aparecem Botafogo (2,1%) e Fluminense (1,6%). O Santos fecha o top-8 com 1% das preferências. Números incrivelmente parecidos com os do estudo GPP/2012.

Quanto às tabulações específicas:

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Todas as agremiações crescem em seu universo masculino, onde apenas 9% não possuem time de futebol (contra 31% das mulheres). Diante dos 43% de homens flamenguistas, 20% de vascaínos e 7% são paulinos, há apenas uma reversão de ordenamento: mais palmeirenses (6%) do que corintianos (5%) no coração da Amazônia – talvez por influência do recente título brasileiro conquistado.

Olhando para as faixas etárias, extraem-se análises interessantes. Em termos absolutos, é a torcida do Flamengo a que mais cresce entre jovens: sobe de 34% entre aqueles com mais de 45 anos para 47% em meio aos jovens de 16 a 24 anos – ascensão de 13 pontos percentuais. Mas relativamente, os times que mais crescem são São Paulo e Corinthians, que saem de 1% e 2% para, respectivamente, 5% e 6%. Mais incrível é verificar o boom são paulino na faixa de 25 a 34 anos, quando atingiram robustos 9% – processo em menor escala também verificado com o Palmeiras. Subida que não se mostrou sustentável, dada a redução na base de ambos entre os mais jovens. O Vasco aparenta estabilidade, estacionado entre 17% e 18% em todas as faixas. Botafogo e Fluminense praticamente desaparecem entre jovens (1% cada), mesmo com o alvinegro detendo a terceira maior torcida daqueles acima de 45 anos (5%). Nesta faixa, o Flu possuía 4%, significando que, no passado, de fato as quatro maiores torcidas pertenciam aos quatro grandes do Rio.

Por escolaridade, a torcida do Flamengo diminui à medida com que avançam os anos de estudo: sai de 41% daqueles com ensino fundamental para 36% dos que concluíram o ensino superior. Processo oposto acontece com o Vasco, que cresce de 15% para 22% e equilibra a balança em ambientes universitários. Mas São Paulo e Corinthians também sobem, com ambos saindo de 3% para 7% nesta comparação.

Infelizmente, além de não contemplar recortes superiores nas faixas etárias (que vão apenas até os 45 anos), a pesquisa pisa na bola ao não contemplar a imprescindível análise sob a ótica da renda, substituída por uma descartável análise das torcidas segundo suas religiões.

Um grande abraço e saudações!

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A Pesquisa da Vez: Campinas 2016 – Tira teima EXCLUSIVO

Detalhamento da pesquisa;

Localidade: Campinas/SP, em 20 de setembro de 2016

Instituto: GPP (www.gpp.com.br)

Amostra:  601 entrevistados

Margem de erro: 4 p.p

Nós avisamos que costumava dar problema. Em coluna postada no dia 29/09/2016, trouxemos as tabulações exclusivas de uma pesquisa do Instituto Pró Pesquisa contendo a configuração de torcidas da cidade de Campinas. No texto, advertíamos para o fato de profissionais da área evitarem a cidade, dadas as enormes polêmicas que por lá se alavancavam. Foi exatamente o que aconteceu. A ponto de a diretoria do Guarani, indignada com a enorme disparidade com relação à Ponte Preta, se insurgir contra a pesquisa e sua contratante – a Brasil Kirin, patrocinadora da rival. A polêmica chegou ao ponto de incitarem a torcida a não consumir produtos da empresa, detentora da marca Schincariol no Brasil. As coisas em Campinas não são fáceis.

fig-01

A razão da controvérsia foram os números que atribuíram ao Bugre apenas 3,4% da torcida na cidade. Menos do que Santos (4,2%), Palmeiras (7,9%), São Paulo (9,7%), Corinthians (21,7%)… e o pior, menos do que a Macaca e seus 19,8%. Eis o drama: uma Campinas com quase seis vezes mais torcida da Ponte diante do Guarani.

Como dizia o poeta – e exacerbando sua conotação automobilística – carreras son carreras. Um sem número de razões pode justificar os números de uma pesquisa, desde elementos metodológicos e amostrais, até a margem de erro ou outros fatores. Fato é que, diante do ocorrido, o Blog Teoria dos Jogos solicitou ao seu principal parceiro histórico – o Instituto GPP, com escritório em Campinas – um tira-teima das torcidas na cidade. Fomos atendidos. E anunciamos os tão aguardados resultados:

fig-02

Por ora, ignoremos os resultados globais, pois fica difícil não direcionar o foco à dicotomia Ponte-Guarani. Diferente dos números a pesquisa anterior, o GPP aponta uma Ponte Preta menos de duas vezes maior do que o Guarani: 12,1% para a Macaca, 6,3% para o Bugre. Números que, ainda assim, deixam evidente a preponderância do clube em décadas recentes. Ao mesmo tempo, o Guarani teria números nada desprezíveis na comparação com as demais torcidas da cidade. De fato, pela ótica do GPP, elem seriam seria a quarta maior torcida, à frente de Flamengo (3,1%), Palmeiras (5,6%) e Santos (6,1%). Ainda assim, atrás do São Paulo (11,6%) e do Corinthians (20,7%).

Além de sacramentar a hegemonia do alvinegro do Parque São Jorge, os números trariam apenas uma reversão significativa: o Santos à frente do Palmeiras. Nunca devemos, no entanto, esquecer da margem de erro que coloca os rivais em situação de empate técnico. Fora isto, podemos destacar: 1) a semelhança dos números da Pró Pesquisa na comparação com o GPP para todos os times que não Ponte e Guarani – com variações sempre inferiores a dois pontos percentuais; 2) a razoável posição ocupada pelo Flamengo na pesquisa GPP, em percentual atribuído pela Pró Pesquisa ao próprio Guarani.

Feitas estas análises, vamos aos resultados por gênero, faixa etária, escolaridade e renda:

fig-03

Observando a distribuição por sexo, vemos que apenas São Paulo e Flamengo possuem mais mulheres do que homens em seus quadros. Dentro do universo masculino, o Corinthians amplia a vantagem perante a Ponte, indo a 24,3% contra 15,4% da Macaca. Ainda em meio a eles, o Tricolor do Morumbi atinge 10,2% e o Santos surpreende ao ultrapassar o Guarani (8,8% a 8,6%).

Por idade:

fig-04

Aqui, não restam dúvidas: a juventude campineira é corintiana e são paulina. Dentre aqueles de 16 a 24 anos, a dupla marca expressivos (e respectivos) 30,2% e 18%. Tanto Ponte quanto Guarani atingem seu auge na faixa de 35 a 44 anos (17,6% e 9,1%). Daí até os mais jovens, o enfraquecimento é flagrante – especificamente para o Guarani (3,5%), superado pelo Santos (4,8%) e até pelo Flamengo (3,8%). Ao lado do Bugre e do Peixe, o Palmeiras perde força à medida com as torcidas se renovam.

Por instrução:

fig-05

O maior crescimento entre torcedores com nível superior pertence ao Guarani. O Bugre, que nos números globais marca 6,3%, sobe a 12,1% entre os mais escolarizados. As únicas massas a também crescerem neste recorte são as de Ponte (14,7%) e São Paulo (12,3%).

Por poder aquisitivo:

fig-06

Aqui, um fenômeno semelhante ao da análise anterior: crescimento de Ponte e Guarani entre os mais ricos. De 9,1% entre aqueles que recebem menos e um salário-mínimo, a Ponte salta para 21,2% entre os que percebem mais de cinco salários. Constitui-se, assim, como torcida de maior capacidade financeira em Campinas. O Guarani vai de 2,3% a 7,2%. Em direção oposta, Corinthians (26,7%) e São Paulo (14,7%) tem amplo predomínio em meio aos mais pobres.

Um grande abraço e saudações!

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A Pesquisa da Vez: Belo Horizonte 2016 (Instituto Giga vs Datafolha)

Como costuma acontecer a cada dois anos, o período eleitoral deixou algumas preciosidades como externalidades positivas, de carona nas inúmeras pesquisas eleitorais contratadas e divulgadas ao longo dos últimos meses. Talvez pelo perfil de sua disputa – envolvendo um ex-goleiro e um ex-presidente do Clube Atlético Mineiro – Belo Horizonte acabou agraciada com pesquisas que elaboravam o cruzamento da preferência clubística com as intenções de voto. Após ter acesso às pesquisas de dois diferentes institutos, o Giga e o Datafolha, o Blog Teoria dos Jogos vem a público promover uma comparação entre seus números, a fim de melhor compreender a paixão dos belorizontinos por seus clubes.

Primeiramente, vamos ao serviço da pesquisa do Instituto Giga, realizada antes do primeiro turno do pleito na capital. Lembrando que suas tabulações foram feitas de maneira exclusiva e a pedido do Blog.

Localidade: Belo Horizonte/MG, entre 23 e 25 de setembro de 2016

Instituto: Giga

Amostra:  600 entrevistados

Margem de erro: 4 p.p

Já a pesquisa Datafolha foi a campo há algumas semanas, no contexto do segundo turno das eleições:

Localidade: Belo Horizonte/MG, em 25 de outubro de 2016

Instituto: Datafolha

Amostra: 1.119 entrevistados

Margem de erro: 3 p.p

NÚMEROS GERAIS

Instituto Giga

fig-01

Datafolha

fig-02

Percebam que a ordem de grandeza dos números apresentados pelos institutos varia, mas não o ordenamento entre as torcidas. Isto significa que, para ambos, o Cruzeiro detém a maioria na capital (36% segundo o Giga, 40% de acordo com o Datafolha), seguido do Atlético (33% e 38%, respectivamente). Nos dois casos, Raposa e Galo se encontram em empate técnico, justificando pesquisas anteriores que deram maioria apertada ao Atlético. Para ambos, a terceira torcida é a do América, que converge a 2% das preferências. Segundo o Giga, “Outros clubes” somam 5%, superiores aos 3% do Datafolha (onde o Flamengo é tido como detentor de 1%). Contudo, quando separa as preferências segundo os distritos do município, os números do Instituto Giga passam a se assemelhar aos da concorrente:

fig-03

Barreiro e Venda Nova não são exatamente bairros, mas sim distritos de Belo Horizonte. Outrora afastados, hoje se encontram conurbados à metrópole, sem maiores diferenciações com relação aos bairros da capital. Não se sabe exatamente quantas entrevistas foram feitas em cada um (suas populações são bastante inferiores), mas o fato é que os 10% de “Outros” em Venda Nova acabaram enviesando a amostra. Isolando-se apenas as entrevistas em Belo Horizonte, o ranking fica: Cruzeiro (35%), Atlético (34%), América (2%) e Outros (3%). Aí, a diferença fundamental acaba recaindo sobre o percentual de pessoas sem clube. No Datafolha elas são apenas 16%, mas no Instituto Giga batem 24% – algo que certamente tem relação com diferenças metodológicas adotadas pelas empresas.

Em resumo: Cruzeiro e Atlético possuem torcidas em escala quase idêntica na capital, com leve tendência a favor do clube celeste. Ainda em se tratando de Belo Horizonte, o América supera Flamengo e Corinthians, que só vem a fazer real diferença por conta do tamanho de suas torcidas no interior do estado.

POR SEXO

fig-04

fig-05

Temos aqui um descolamento com relação ao que dizem as duas pesquisas. Segundo o Instituto Giga, o número de homens cruzeirenses seria muito maior do que o de atleticanos, sendo o fiel da balança após o equilíbrio nas preferências femininas. Já de acordo com o Datafolha, o equilíbrio é permanente, com o Cruzeiro superando o Atlético por dois pontos percentuais em ambos os gêneros. Mas há um ponto em comum: a existência de um número muito maior de torcedores de outros clubes no universo masculino. Segundo o Giga, eles somariam 7%, enquanto o Datafolha indica 6% (sendo 1% de Flamengo e 1% de Corinthians).

Em resumo: os homens de BH, ainda que majoritariamente torcedores de Galo e Raposa, tem maior tendência a optarem por clubes de fora do que as mulheres da cidade.

POR IDADE

fig-06

fig-07

De um modo geral, as duas pesquisas mostram o Cruzeiro maior entre jovens e o Atlético superior entre pessoas com mais idade. Mas isto só acontece de maneira geral, pois existem pontualidades em direções contrárias. Por exemplo, segundo o Instituto Giga, o Galo supera a Raposa entre os mais jovens (42% a 35%), num movimento mais do que compensado pela esmagadora maioria cruzeirense na segunda faixa etária (52% a 26%). Já o Atlético teria mais torcida em duas das três faixas acima dos 35 anos. Enquanto isto, as estatísticas do Datafolha são mais cristalinas, apontando o Cruzeiro sempre maior nas faixas de 16/24 e 25/34 anos. No entanto, nas três faixas com mais idade, o Galo é maior em uma (35 a 44) e a Raposa em outra (mais de 60), havendo empate no recorte de 45 a 59 anos (40% a 40%). América e Flamengo são maiores entre os mais velhos, ao passo que o Corinthians “surge” entre a garotada.

Em resumo: A torcida do Cruzeiro é maior entre os mais jovens.

POR RENDA

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Aqui, a estatística onde menos recaem dúvidas. Tanto Giga quanto Datafolha concordam que, até cinco salários-mínimos, a torcida do Cruzeiro é sempre maior do que a do Atlético. De 5 a 10 salários, o Giga aponta empate (41% a 41%), enquanto o Datafolha já identifica ultrapassagem alvinegra (44% a 41%). Acima de 10 salários, o Galo dispara: 38% a 33% no Giga, 47% a 38% no Datafolha.

Em resumo: A torcida do Atlético possui, sem sombra de dúvidas, maior potencial de renda do que a do Cruzeiro.

Um grande abraço e saudações!

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Pesquisas antigas e a importância de se fazer as perguntas corretas

Tudo começou com o jornalista Cássio Zírpoli, autor de um blog no Diário de Pernambuco cuja pegada é parecida à do Blog Teoria dos Jogos no que se refere às pesquisas de torcida. O enfoque: pesquisas realizadas pelo Ibope em Pernambuco e em regiões metropolitanas, entre os anos de 1969 e 1971. A descoberta do material é atribuída ao colaborador do Blog Teoria dos Jogos e pesquisador Clayton Silvestre – que já nos havia o disponibilizado há alguns anos. À época e por questões de pauta, não a publicamos, mas agora a repercussão veio com força pelo fato de o Redação Sportv tê-la explorado em sua edição desta manhã. E pelos resultados da pesquisa terem supostamente colocado o Santos na condição de maior torcida do Brasil no passado.

Você está certo disto?

Pra início de conversa, é importante contextualizar o que representava o Santos Futebol Clube em 1969. Supercampeão em tempos de grandes esquadrões, o Peixe era de longe o maior clube do Brasil. Tudo graças aos inúmeros títulos enfileirados por aquele time dos sonhos capitaneado por Pelé, que incluíam duas Copas Libertadores, dois Mundiais Interclubes, seis títulos nacionais, quatro Rio-São Paulo e uma sequência infindável de títulos paulistas. Os muitos anos de preponderância tornavam natural a relevância, inclusive em termos de tamanho de torcida. Por muito tempo o Santos foi, sim, o queridinho no coração de muitos brasileiros.

Daí a ter detido a maior torcida do país, vai uma distância. Fruto de distorções bastante comuns em se tratando de vieses em pesquisas do gênero. A questão aqui é: numa pesquisa de opinião, quando não se fazem as perguntas corretas, os resultados saem inequivocamente defeituosos. Vejamos se não:

fig-01

O grande pecado da pesquisa de 1969 foi não ter perguntado: “qual é o seu time?”, como convencionalmente se faz. Ao perguntar “no seu entender, qual o clube de futebol mais querido em todo o Brasil?” o que o Ibope fez foi, indiretamente, arguir: “Para qual time você acha que as outras pessoas torcem”? E aí, os números saíram totalmente desalinhados da realidade. Alinharam-se com o que se verificava no país em termos de conquistas e idolatria.

Tanto é que a ordem das coisas se restabeleceu quando a pergunta passou a ser “no seu entender, qual o clube de futebol mais querido do seu estado?”. Aí sim as pessoas deixaram de responder pelos outros, passando a expor sua verdadeira preferência particular. Com isto, o Santos retornou a um padrão intermediário, ainda que muito superior ao que se verifica hoje:

fig-02

Em tempos atuais, soa impensável o Peixe deter a segunda maior torcida do estado de São Paulo – atrás apenas do Corinthians. Tão impensável quanto imaginar que, mesmo com apenas 21% de seu estado de origem, pudesse fazer frente ao Corinthians e seus 50% no mesmo estado. Que dirá ao Flamengo, desde sempre hegemônico no Rio e em tantas outras regiões não contempladas porque a pergunta se restringia aos times do próprio estado.

A conclusão a que chegamos é que perguntas mal formuladas levarão a resultados descolados da realidade.

Sendo assim, como analisar em retrospecto a questão das maiores torcidas do passado? Isto, logicamente, o Blog Teoria dos Jogos já fez, em postagem datada de 26 de agosto de 2014. E lá, concluímos ser possível fazê-lo ao: 1) analisarmos as tabulações por faixas etárias de pesquisas atuais; 2) Nos basearmos em pesquisas antigas (desde que fizessem as perguntas corretas); 3) Verificarmos o que diziam publicações de época. Este último elemento, de fato, aponta para um Santos mais preponderante. Algo que não resiste à análise dos dois primeiros elementos, desde muito apontados para a supremacia de Flamengo e Corinthians em termos nacionais.

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A Pesquisa da Vez: capitais brasileiras (SPC/CNDL) – EXCLUSIVO

No início da tarde de hoje, o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) divulgaram uma estudo sobre os hábitos de consumo dos torcedores no Brasil. Por se tratarem de instituições relacionadas ao crédito e adimplemento, o foco da pesquisa recaiu sobre questões orçamentárias, como capacidade de pagamento e gastos excessivos com produtos e serviços relacionados ao futebol. Maiores detalhes sobre a pesquisa podem ser vistos no site da SPC Brasil (clique aqui).

Sendo um questionário aplicado nas 27 capitais brasileiras, o estudo veio naturalmente acompanhado de uma pesquisa de torcidas. Assim, o Blog Teoria dos Jogos entrou em contato com o SPC Brasil e teve acesso aos números de maneira exclusiva. No entanto, muitos esclarecimentos se fazem necessários.

Em primeiro lugar, não se trata de uma pesquisa nacional, já que as entrevistas se concentraram tão somente nas 27 capitais brasileiras, e com amostra bastante limitada: 620 torcedores. Além disso, por ter focado o universo de torcedores (e não o universo populacional), o “Nenhum” (pessoas sem time) foi descartado, fazendo com que o percentual de cada torcida subisse. Só que o mais importante é que a pesquisa não seguiu proporcionalidades primordiais. Isto que significa que 63% dos respondentes foram homens, mesmo numa sociedade de maioria feminina. Em termos geográficos, entrevistou-se um número muito maior de cariocas (16,6%) do que paulistanos (20,1%) proporcionalmente, levando a uma superestimação dos números atrelados aos times do Rio. Depois das duas maiores metrópoles vieram Salvador (8,3%), Porto Alegre (6,8%), Curitiba (6,1%), Fortaleza (5,6%), Recife (5,4%), Belo Horizonte (4,2%) e Manaus (4%).

Todas as limitações abordadas acima não inviabilizam este estudo de abordagem criativa e diferenciada. A questão é que, mais do que nunca, a pesquisa SPC/CNDL reflete tão somente o perfil de sua amostra. Por conta disto, o Blog Teoria dos Jogos optou por expor seus resultados sem proceder maiores análises sobre os recortes de gênero, idade, renda e fanatismo. Convidamos, portanto, nossos leitores a fazê-lo.

Seguem os números:

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A Pesquisa da Vez: Campinas – tabulações EXCLUSIVAS

Detalhamento da pesquisa;

Localidade: Campinas/SP, entre 15 e 18 de julho de 2016

Instituto: PróPesquisa (http://propesquisa.com.br/index.html)

Amostra:  800 entrevistados

Margem de erro: 3 p.p

Os primeiros resultados saíram na semana passada: segundo o Lancenet, em pesquisa encomendada pela Brasil Kirin (patrocinadora da Ponte Preta), a cidade de Campinas teria sido mapeada no tocante às suas torcidas. Informações tão importantes não haveriam de ser divulgadas de maneira superficial e cheia de arredondamentos. Sendo assim, o Blog Teoria dos Jogos procurou o Instituto PróPesquisa, vindo a público brindar sua audiência com os resultados completos do trabalho, em tabulações exclusivas.

Antes, uma observação: com expertise na divulgação e análise de pesquisas de torcidas, tínhamos Campinas como um eldorado passível de mapeamento. Não apenas por se tratar da terceira maior cidade do estado de São Paulo, núcleo de uma região metropolitana de 3 milhões de habitantes com o 11º maior PIB do Brasil. Interessava também por Campinas ser um dos principais focos de excelência no futebol do interior, berço de dois clubes de enorme relevância e acirradas rivalidades históricas. Tanto que, certa vez, um profissional da área nos confessou que evitava pesquisar Campinas por conta das polêmicas que viriam a ser despertadas pelos números da cidade.

Pois a espera acabou. Vamos a eles:

Fig 01

Sim, amigos, a maior torcida de Campinas é a do Corinthians – nenhuma novidade para quem trabalha na área. Apesar da força de sua massa, os 19,8% da Ponte Preta não alcançam os 21,7% do bando de loucos em solo campineiro, ainda que ambos se encontrem em situação de empate técnico. Em seguida, alinhados com o perfil das torcidas no estado, temos São Paulo (9,7%), Palmeiras (7,9%) e Santos (4,2%). Pausa para a polêmica: só então surge o Guarani, arquirrival da Macaca, com meros 3,4%. O Flamengo, com 2,1%, encerra o clube dos que superam a marca unitária.

O que justifica tamanha discrepância entre o quantitativo de bugrinos e pontepretanos? Ainda que nem todos concordem, a explicação recai sobre o perfil das torcidas de interior, onde inúmeros se dividem entre um “clube do coração” (geralmente um dos quatro grandes de SP) e um local. No entanto, quanto mais tempo as paixões locais se “solidificarem” na elite, maior o processo de “purificação” de uma torcida que antes se dividia. Em direção oposta, quanto maior o sofrimento por maus resultados, divisões subalternas e falta de preponderância, menos gente disposta a apontar um clube local como o detentor de sua preferência. O primeiro exemplo se aplica à Ponte Preta – ainda que se possam fazer paralelos com outras forças do interior, como a Chapecoese. O segundo, classicamente, se encaixa sobre o Guarani.

Ainda quanto à primeira tabela: em termos geográficos, o maior número de corintianos, ponte pretanos, são paulinos e santistas se dá na região sudoeste da cidade. Nela, os quatro marcam, respectivamente, 28,9%, 30,5%, 12,3% e 9,1%. Na região noroeste, enfraquecem-se os times de Campinas, elevando-se o Palmeiras à condição de segunda maior torcida (10,7%). Importante reiterar que, numa pesquisa com apenas 800 entrevistados, a margem de erro dentro de um recorte com cinco tabulações diferentes é representativa.

Em seguida, a análise por gênero:

Fig 02

No Brasil, é sabido que os homens são os principais componentes do núcleo de heavy users do futebol. Sendo assim, a torcida mais preponderante de fato em Campinas seria a da Ponte Preta, com expressivos 28,9% dos adeptos do sexo masculino. Apenas o Corinthians, com 23,4% dos homens, é capaz de fazer alguma frente à torcida da Macaca. A terceira torcida masculina pertence ao Verdão, com longínquos 9,3% das preferências. Entre os maiores, o São Paulo é o único que aparece com mais mulheres do que homens em seus quadros (10,8% a 8,6%). Pessoas sem clube marcam 15,7% entre eles e 41,6% entre elas.

Um dos recortes mais importantes, por faixa etária:

Fig 03

Ainda que o trabalho peque ao não pesquisar mais a fundo o universo infanto-juvenil, são apresentados resultados bastante sintomáticos. A Ponte detém a torcida que mais rejuvenesce, saindo de 19,5% acima de 45 anos para 27,1% entre pessoas de 18 a 24 anos. Mas o Corinthians acompanha praticamente no mesmo ritmo: de 19,7% para 26,4% nos mesmíssimos recortes. Outro que apresenta crescimento entre jovens é o São Paulo, com 15,3% da torcida na primeira faixa etária. Diferente de Palmeiras, Santos e Guarani, times que possuem sua maioria entre indivíduos acima de 45 anos. Mas a surpresa aqui é o Flamengo. Com 4,9% entre 18 e 24, os rubro-negros ultrapassam Peixe e Bugre e se solidificam como a quinta maior torcida entre jovens de Campinas.

Por escolaridade:

Fig 04

Novamente o destaque vai para os ponte pretanos, maiores entre os mais escolarizados: 20,2% dos que possuem diploma de nível superior. A primazia do Corinthians ocorre no nível médio, onde detém 23,9% das preferências. Surpreendentemente, são paulinos se concentram entre pessoas com nível fundamental (10,5%). Há bem mais torcedores do Guarani com nível superior (4,8%) do que fundamental (2,8%).

Finalmente, por renda:

Fig 05
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Importante esclarecer que, numa pesquisa com 800 pessoas, são poucos os entrevistados a se enquadrarem nas duas faixas de renda mais alta (entre R$ 6.781 e R$ 13.560 e acima disto). Percebam que o último recorte teve apenas 12 respondentes: quatro corintianos, três ponte pretanos, um são paulino, um vascaíno e três “nenhum”. Trata-se de um quantitativo sobre o qual, estatisticamente, nada se pode auferir. Enquanto isto, as três primeiras faixas aparentam abranger um número mais seguro de entrevistados. Sendo assim, corintianos, são paulinos e bugrinos se concentrariam em meio a pessoas com menor poder aquisitivo (até R$ 1.356), direção oposta à da Ponte Preta e seus 26,2% de torcedores de renda média-alta.

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A Pesquisa da Vez: Manaus (comparativo 2012)

Foto: Chico Batata (reprodução Globoesporte.com)
Foto: Chico Batata (reprodução Globoesporte.com)

É enorme a expectativa no entorno da semifinal do Carioca, entre Vasco e Flamengo, a ser jogada na Arena Amazônia, em Manaus. Informações dão conta de que toda a carga já foi comercializada, sendo aguardados mais de 44 mil torcedores nas arquibancadas e camarotes do palco manauara. Visando estimar o perfil do público presente, muitas pessoas – desde blogueiros até jornalistas e seguidores – contactam o Blog Teoria dos Jogos em busca de uma simples resposta: quais seriam, de fato, as maiores torcidas de Manaus. Nós respondemos.

Não parece difícil compreender as dificuldades inerentes a se pesquisar opinião na capital da selva amazônica. Embora grande, rica e importante, Manaus fica longe de tudo – e neste caso a assertiva ocorre sem um pingo de discriminação. Trata-se de uma cidade isolada do resto do país por vias terrestres, somente acessível por via aérea ou fluvial. Não por acaso, percebe-se por lá uma carestia atípica, mesmo em se tratando de produtos básicos no ponto de vista do resto do Brasil. Tais dificuldades, naturalmente, também se impõem quando o intuito é pesquisá-la.

Por conta disto, os últimos estudos na cidade se deram na última onda de pesquisas eleitorais, dadas as eleições municipais de 2012. Se isto significa que possivelmente  2016 nos reservará uma atualização dos dados, o lado negativo é que estatísticas de quatro anos atrás podem se mostrar relativamente datadas. De todo modo, e como costuma dizer este blogueiro, “é melhor alguma pesquisa do que nenhuma”. Sendo assim, traremos de volta os números – alguns deles já explorados à época em que ocupávamos os quadros do Globoesporte.com.

Foram dois os institutos a mapearem a capital do Amazonas. O primeiro estudo teve como elaborador o Instituto de Pesquisa do Norte – IPEN. Foram 542 entrevistas entre 06 e 12 de setembro de 2012, o que representa margem de erro de 4,2%. Seguem os resultados gerais, por sexo, faixa etária, nível de instrução e renda:

Fig 01 Fig 02 Fig 03 Fig 04 Posteriormente, veio aquele que se tornaria um grande parceiro do Blog Teoria dos Jogos, o Instituto GPP. Neste caso, foram 1.007 entrevistas elaboradas entre 11 e 13 de outubro, com resultados sendo expostos no mesmo ordenamento: Fig 05 Fig 06 Fig 07

Mesmo diante das diferenças entre os dois institutos, fica clara a vultosa supremacia da torcida do Flamengo na Metrópole da Amazônia. A massa cruzmaltina – ainda que enorme, importante e engajada – é entre 2,2 vezes e 2,6 menor do que a Nação Rubro-Negra, presumindo maior comparecimento vermelho e preto em meio a belíssimas arquibancadas alaranjadas. A própria decisão da Taça Guanabara foi sintomática, com Vasco e Fluminense preenchendo apenas 32 mil dos 44 mil lugares do estádio. De qualquer maneira, o ótimo histórico recente pode servir como motivador aos vascaínos, levando ao equilíbrio de forças no Clássico dos Milhões a ser jogado no coração da floresta.

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O índice de rejeição das maiores torcidas do Brasil

Ao final da manhã de hoje, o Globoesporte.com trouxe a público nova pesquisa de torcidas de abrangência nacional. O estudo, elaborado pelo instituto Paraná Pesquisas, ouviu 4.066 entrevistados em 214 municípios e 24 estados entre os meses de março e abril de 2016. Trata-se de uma boa amostra, embora a intitulação “pesquisa nacional” só se aplique às que se dispõem a adentrar rincões de todas das 27 unidades federativas. De qualquer maneira, os resultados são praticamente os mesmos. O único fato inédito reside na torcida do Bahia, apontada como 11ª maior com 1,8%, à frente de Botafogo (também 1,8%) e Fluminense (1,6%). Um verdadeiro estranho no ninho das tão consolidadas “doze maiores torcidas”.

Embora a matéria apresente como novidade a mensuração do índice de rejeição das torcidas – através da pergunta “qual time de futebol você mais odeia?” – a verdade é que muitos estudos do gênero já o apresentaram. De qualquer maneira, não deixam de ser informações saborosas e passíveis de um olhar analítico. Se o Flamengo segue como time mais amado do Brasil (16,5%), pertence ao Corinthians o posto de mais odiado (14,6%). Ficam as perguntas: por que isto acontece? O que isto representa?

Para início de conversa, como já dizia o poeta, amor e ódio são duas faces da mesma moeda. Se interpretarmos ao pé da letra, deturparemos o significado destes sentimentos em meio às pesquisas de torcida. Aqui, “odiar” não é um elemento de beligerância e violência entre as torcidas – tanto que vultosos 46,9% dos entrevistados disseram gostar de todas elas. Na verdade este índice traz à tona tão somente a rivalidade que existe entre arquirrivais. Neste sentido, pode-se dizer que ser odiado impacta positivamente, especialmente no tocante às audiências – sejam televisivas ou em quaisquer outras mídias. Portanto, é possível até mesmo capitalizar com a rejeição, fazendo com que o Corinthians leve grande vantagem sobre os demais times do Brasil.

De qualquer maneira, a questão pode ser vista sob outras óticas. Apesar de haver muitas regiões de torcidas misturadas – especialmente envolvendo times paulistas e cariocas – o grosso da rejeição advém daqueles que torcem pelos rivais regionais de um clube. Neste sentido, o “rancor” sobre o Flamengo tem origem nas torcidas de Vasco, Botafogo e Fluminense. A antipatia sobre o Corinthians tem suas raízes nos adeptos de São Paulo, Palmeiras e Santos. De maneira mais simplificada, cruzeirenses e atleticanos se odeiam mutuamente, situação replicada entre gremistas e colorados.

Isto explica o porquê da rejeição tão maior ao Corinthians: a soma de suas torcidas rivais é bem maior do que às do Flamengo, por exemplo. Bom para o Timão, ruim para o Mengão, pois quanto maiores seus adversários locais, mais fortes eles serão – e mais forte você será. Ou os resultados expressivos do futebol paulista nos últimos anos, com títulos da Libertadores e do Mundial, não falam por si? Tudo em detrimento de um futebol carioca que até ganha títulos nacionais, mas não passa disso. Muito de sua sobrevivência se resume à inglória batalha contra o descenso à Série B, tantas vezes perdida.

E se fizéssemos um saldo entre os sentimentos mais nobres e os mais sórdidos? E uma comparação envolvendo a rejeição e a soma dos rivais regionais de cada torcida? Foi o que preparou o Blog Teoria dos Jogos, com resultados interessantes:

Fig 01

A quarta coluna nos mostra que apenas Corinthians e Vasco possuem um saldo líquido negativo entre os que os amam e os odeiam. Significa que, sobre estes dois times, existe mais gente torcendo contra (no popular, “secando”) do que o contrário. Neste caso, bom mesmo é estar no vermelho. Diferente da quinta coluna, que vai na direção oposta. Ela revela que o Flamengo, e só o Flamengo, é odiado por mais gente do que a simples soma de vascaínos, tricolores e botafoguenses. Nas muitas regiões de torcida híbrida, como Minas Gerais, Paraná ou Santa Catarina (entre outras), flamenguistas convivem com parentes cruzeirenses e atleticanos. Dividem bares com corintianos e são paulinos. Estudam com gremistas e colorados. Nestas localidades, o Rubro-Negro é quem mais atrai as atenções das demais torcidas.

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A Pesquisa da Vez: Volta Redonda (RJ) – EXCLUSIVO

Localidade: Volta Redonda (RJ)

Instituto: GPP (http://www.gpp.com.br/)

Amostra: 400 entrevistas em 19 de dezembro de 2015

Margem de erro: 4,9 p.p

Os dias dezenove e vinte e nove de dezembro de 2015 são históricos para o Blog Teoria dos Jogos. Tratam-se das datas em que mapeamos e divulgamos os resultados de um dos maiores sonhos deste blogueiro. Nascido há 33 anos na cidade de Volta Redonda, a 120 km da capital fluminense, são desnecessárias explicações sobre o porquê do desejo de pesquisar torcidas na “Cidade do Aço”. Local de onde, orgulhosamente, redijo estas palavras.

Indo além da importância econômica neste que é o berço da siderurgia nacional, Volta Redonda se mostra ainda a segunda cidade mais importante do estado do Rio numa abordagem futebolística. Tudo por conta do estádio Raulino de Oliveira. Durante o Campeonato Carioca, ele hospeda não apenas o Voltaço, time da casa, como um sem número de agremiações do interior, alijadas de mandarem partidas de maior porte em suas canchas. Mas não são apenas os pequenos. Basta acontecer algo com os grandes palcos da capital – como ocorrerá em 2016, com Maracanã e Engenhão entregues aos Jogos Olímpicos – e dá-lhe Estádio da Cidadania como válvula de escape. Não por acaso, trata-se do único estádio do interior a abrigar uma final do Estadual, em 2014, quando o Botafogo superou o Fluminense em solo voltarredondense.

Num resgate da parceria de maior sucesso da história do Blog, o Instituto GPP vem nos brindar com números exclusivos acerca da maior cidade da região Sul Fluminense:

Fig 01

 

De cara, já se pode taxá-los como surpreendentes. Não pela esmagadora maioria rubro-negra (42,9%), algo sabido e esperado, mas pelo absoluto equilíbrio entre Vasco (10,8%), Botafogo (10,6%) e Fluminense (8,6%). Quem é de Volta Redonda sabe que por aqui, a torcida cruzmaltina sempre se fez ouvida, especialmente em bares e conglomerados do bairro Aterrado, um dos centros da cidade. Mas desta vez, os números revelaram um interessante alinhamento com o quantitativo de botafoguenses. Nem mesmo os alvinegros esperariam este terceiro posto, dada a relevância da torcida tricolor na cidade.

Diante do exposto, dois pontos precisam ficar claros: 1) a margem de erro da pesquisa, de 4,9 pontos percentuais; 2) a fragilidade do “olhômetro” como método de pesquisa. Tendo isto claro, uma explicação para o ordenamento passaria pelo desalento dos vascaínos num estudo elaborado cerca de duas semanas após o terceiro rebaixamento em sete anos. O mesmo efeito, só que contrário, poderia ser atribuído à ascensão botafoguense, já que seus próprios adeptos se consideram os únicos a terminarem a temporada 2015 “em alta”. Outra estatística importante é a de 7,8% dos entrevistados que não responderam ao questionário. O material continha indagações de diversas outras naturezas, e o desalento pode ter impactado de maneira sintomática sobre a decisão voluntária dos vascaínos.

Uma segunda questão seria a não confirmação do crescimento paulista na cidade. Distante apenas 50 km do estado de São Paulo, Volta Redonda há algum anos se tornou um polo educacional que atrai muitos estudantes. Ainda que novamente o visual revele camisas forasteiras, o fato é que apenas Corinthians e Palmeiras foram citados, ambos abaixo de 0,5% das preferências.

Uma terceira e última abordagem se refere ao Volta Redonda, citado por míseros 0,4% dos habitantes. Em toda a região, o Tricolor de Aço nutre simpatias de “segundo time” que se “purificam” à medida com que bons resultados são colhidos – algo inexistente desde a era de ouro 2004-2006. De qualquer maneira, causa preocupação um número tão baixo de torcedores do Voltaço.

Por gênero e faixa etária:

Fig 02

A consolidação da Estrela Solitária na cidade se dá entre homens, faixa em que ultrapassam o Vasco (16,5% a 13%). Nesta, flamenguistas são 47,6% e tricolores, 10,1%. Se o Voltaço (0,9%) ainda assim não atinge a marca unitária, ele ao menos ultrapassa o número de corintianos no local. Apenas 7,6% dos homens não tem time, contra 26,9% de mulheres.

Já no recorte etário, o crescimento do Flamengo entre jovens de 16 a 24 anos – faixa onde sobe a 57,3% – não é tão expressivo quanto o verificado em outras cidades ou no próprio estado do Rio.  Ainda assim, o Rubro Negro é o único a ampliar sua base com a renovação das gerações, já que marca apenas 27,9% acima de 60 anos. Entre os idosos, a segunda torcida é a do Botafogo (14,8%) e a terceira é a do Fluminense (13,9%), tendo o Vasco apenas 6,4%. Todos os torcedores do Volta Redonda se encontram acima dos 45 anos. Os de times de fora, sempre abaixo dos 34.

Por escolaridade:

Fig 03

 

Embora sejam historicamente clubes de massa, tanto Flamengo quanto Vasco encontram seu maior quantitativo em meio a pessoas com 2º grau completo e superior incompleto (46,6% e 13,1%, respectivamente). Já Botafogo (16,6%) e Fluminense (12,2%) são maiores entre graduados em uma faculdade. Surpreende o percentual de botafoguenses entre aqueles com menos ensino formal: 15,3% dos que não possuem primeiros grau completo. Como sempre, quanto mais se estuda, mais se gosta de futebol: a evasão cai de 28,3% para 12,1%.

Por fim, o recorte de renda:

Fig 04

 

Embora reine absoluto em meio aos mais ricos (42,5%), é entre pobres que o Flamengo encontra maioria absoluta: 50,5% daqueles que ganham até um salário mínimo. A torcida vascaína é a que mais aumenta à medida com que se enriquece, saindo de 5% para 14% acima dos cinco salários mínimos. Curiosamente, tanto Botafogo quanto Fluminense encontram seu pico em escalas intermediárias de renda. Indo contra os prognósticos, apenas 6,5% dos tricolores desfrutam de maior poder aquisitivo em Volta Redonda.

FELIZ 2016!

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