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A mais ridícula das perseguições

Temos uma Geni. Ela responde por Volta Redonda, no interior do estado do Rio – a mais nova inimiga do futebol brasileiro. Ao menos é a sensação de quem lê jornalistas taxando-a taxando-a de “cidade que não gosta de futebol” ou aquela “que cansou do Flamengo”. Inúmeras outras matérias, da mais ampla e democrática gama de veículos, acompanham a relatoria. Assoberbados no mais absoluto desleixo intelectual, trazem como consequência a completa desinformação.

O assunto não é novo por aqui, pelo contrário, já foi tratado inúmeras vezes. E será outras tantas quanto forem necessárias, até que se opte por refletir com o mínimo de embasamento. E sim, este blogueiro é voltarredondense. “Advoga em causa própria”, dirão alguns. Outros compreenderão o mero conhecimento de causa para combater o sem número de falácias proferidas por quem não o possui.

Em primeiro lugar, é mais do que óbvio que os públicos em Volta Redonda são péssimos – não é contra isto que me insurjo. Contra fatos não há argumentos: as últimas três passagens do Flamengo pela cidade reuniram, respectivamente, 1.301, 1.237 e 1.539 pagantes. Sua média de público como mandante no Raulino, o que exclui alguns destes públicos, é de 4.227 pagantes. Ou 3.461, considerando passagens como visitante.

O grande motivo da insurgência, portanto, é outro: não haver problema algum na demanda por futebol na cidade. Sendo assim, inexistiriam rótulos como cidade que desgosta ou que se cansou. Seja do futebol ou de times específicos.

Como diria o poeta – e com base em frases proferidas por mim no Twitter – “parafraseia-te a ti mesmo”:

Brasília possui quase três milhões de habitantes. Natal é cerne de uma região metropolitana de 1,5 milhão. Cariacica pertence a outra, a RM de Vitória e seus 1,9 milhão de almas. Volta Redonda possui 260 mil. Com boa vontade, integrados a uma mancha urbana de 450 mil.

Não é verdade que “quanto maior a cidade, maiores os públicos nos estádios”, senão São Paulo sempre teria as maiores médias – o que não necessariamente ocorre. O gigantismo de um núcleo urbano impacta limitadamente sobre a presença no estádio, pois quanto mais distantes as periferias, mais equivalem a outras cidades. Só que o oposto é verdadeiro, por óbvio: quanto menor uma cidade, menor o potencial de público. Menos demanda, menos gente para consumir, ora.

Mas o que dizer de Chapecó, seus 210 mil habitantes e médias de público muito superiores? As diferenças são tão crassas que se tornam evidentes. Nem é preciso abordar a comoção e a diferença de apelo quando o produto galga à primeira divisão do Campeonato Brasileiro de futebol. Pondo de lado este “pequeno” detalhe: ao contrário da cidade catarinense, Volta Redonda não é 100% flamenguista, apenas 43%.

Adicionalmente, faz toda a diferença ser a sede da agremiação, representando o núcleo duro no entorno do qual se desenvolvem as instituições que a orbitam. O grosso dos associados, sócios-torcedores, diretoria, torcidas organizadas, veículos de mídia que realizam coberturas, tudo acontece na cidade-sede. No caso do Flamengo (e seus rivais), estamos falando do Rio de Janeiro, não de Volta Redonda. O mesmo Rio vinte vezes maior que a Cidade do Aço…

Temos um link com a argumentação do parágrafo anterior. Meçam e descubram: é característica da demanda por futebol no Brasil ser consistente apenas nos grandes centros  – não por acaso, sedes das principais equipes. São Paulo tem demanda para receber uma partida por semana de seus clubes. Rio, BH, Porto Alegre também. Já os distanciados interiores, não. Para eles, receber time grande é como um show, uma exibição para a qual se faz necessária uma palavrinha-chave: demanda reprimida. Ou as primeiras partidas em Volta Redonda não costumam encher? Este ano, quase 10 mil se deslocaram para acompanhar Flamengo 3 x 0 Macaé. Ou Brasília e Juiz de Fora já não cansaram de ver seus públicos minguarem à medida com que se reduziu a escassez de aparições?

Sim, quatro das últimas cinco apresentações rubro-negras em VR foram com reservas. Nenhuma, com time completo. Algumas, com intervalo de três dias. Outras, encaixadas entre dois compromissos da Libertadores – onde verdadeiramente recaem prioridades. Tudo porque o futebol brasileiro apresenta um crônico problema de produto. A Libertadores vale, o “Carioqueta” não. Quem há de dizer que estão errados os que assim pensam? Os habitantes de Natal concordam. Com demanda reprimida e tudo, apenas 9.211 testemunhas se dignaram comparecer àquele Flamengo 4 x 1 Boavista…

Somam-se a estes argumentos alguns outros anteriormente explorados, tais como o comparecimento per capita em Volta Redonda não ser inferior ao da capital.

Diante da falta de profundidade e da patológica necessidade de se encontrarem culpados, julgando-os e condenando-os, conclui-se que:

Parem de jogar pedra na Geni.

Um grande abraço e saudações!

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Comparação nacional de audiências 2016/17: Flamengo x Corinthians

INTRODUÇÃO

Desde que a questão das audiências televisivas ganhou destaque, questiona-se a respeito de quem teria os melhores números nacionalmente. Até bem pouco, correr atrás deste tipo de informação era impossível: antes de 2013, praticamente só se divulgavam as audiências da cidade de São Paulo. De quatro anos pra cá – período em que o Blog Teoria dos Jogos passou a monitorar tais estatísticas – o Rio ganhou igual destaque. O problema era saber o que se passava país adentro.  Mas desde julho passado, a Kantar Ibope Media – empresa responsável pela mensuração das audiências televisivas – começou a publicar seu top-10 semanal. E assim, tornou-se possível ter ao menos uma ideia das audiências não apenas nas duas principais metrópoles.

Por se tratar de um trabalho de tabulação exaustivo, esta coluna focará na comparação exclusiva dos números relacionados a Flamengo e Corinthians. Não sem antes deixar bem claras as limitações do modelo. Em primeiro lugar, não estão contemplados todos os jogos destas equipes, apenas aqueles que deram audiência suficiente para integrarem o top-10 semanal da TV Globo. Por isto a quantidade muito maior de partidas às quartas, dados seus números tradicionalmente superiores. Isto faz também com que alguns clubes estejam presentes no levantamento de carona em audiências proporcionadas por “puxadores de audiência” nacionais.

Especificamente no tocante a Mengão e Timão, é impossível não considerar a questão da fase dos times, principalmente pelo recorte (iniciado em 04/07/2016) não ser benéfico aos paulistas. Ele exclui, por exemplo, toda a participação alvinegra na Libertadores 2016. A partir desta data, o Flamengo lutou pelo título brasileiro e disputa a competição continental em 2017, enquanto o Corinthians vem tendo papel secundário em torneios de caráter nacional.

Ainda assim, a análise dos números é válida. Ela torna possível avaliar o impacto da veiculação de clássicos como o Fla x Flu ou Corinthians x Santos fora de suas praças de origem. Descobrir a afeição em capitais de maioria rubro-negra – casos de Manaus, Brasília e Vitória – ou corintiana (Campinas). E avaliar a relação distanciada de metrópoles como Goiânia, Recife, Curitiba ou Salvador. Boas ou más fases tendem a ter maior efeito nas cidades-sede, se dissipando e fazendo menos diferença em outras capitais do país.

CARACTERÍSTICAS REGIONAIS E ESPECIFICIDADES

Antes, uma breve pincelada nas características deste levantamento, bem como da demanda por jogos de futebol na TV Globo. O monitoramento Kantar/Ibope contempla quinze regiões metropolitanas, sendo elas São Paulo, Rio de Janeiro, Belém, Belo Horizonte, Campinas, Curitiba, Brasília (DF), Florianópolis, Fortaleza, Goiânia, Manaus, Porto Alegre (POA), Recife, Salvador e Vitória. A amostra iniciada em julho não contempla os números do último final de semana.

Enquanto em algumas regiões a Globo tem enorme facilidade em angariar boas audiências com futebol (ex: Belém, Florianópolis, Manaus e Porto Alegre), em outras, números satisfatórios são uma verdadeira prova de fogo – casos de Curitiba, Goiânia e Salvador.

Uma separação importante é expor as audiências por dia de semana – quais sejam, às quartas e domingos. Isto porque os números variam de maneira representativa, sendo muito maiores em jogos durante a semana. Prova disto são as poucas partidas dominicais que compuseram o top-10 de audiências.

AS AUDIÊNCIAS DO FLAMENGO

Sem maiores divagações, vamos ao levantamento das audiências relativas ao Flamengo no período entre julho/2016 e março 2017:

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Até pela já citada boa fase que vem atravessando, o Rubro-Negro foi o clube que mais emplacou partidas no top-10 de audiências semanais da Globo: doze. Foram dez às quartas feiras (contra Santos, Palmeiras, Ponte e América/MG pelo Brasileirão; Figueirense (2) e Palestino (2), pela Copa Sul Americana; San Lorenzo e Universidad, pela Libertadores) e duas aos domingos (Internacional, pelo Brasileirão, e Fluminense, pelo Carioca 2017).

Duas praças não tinham partidas do Flamengo compondo seu top-10: São Paulo e Campinas – esta última, praticamente um espelho da capital. Outras cidades com pouca penetração rubro-negra foram Porto Alegre (2 jogos), Belo Horizonte (3), Curitiba e Recife (4). Em direção oposta, Brasília e Manaus assistiram às mesmas doze partidas veiculadas no Rio. Vitória, tradicional espelho carioca, estranhamente optou por Palmeiras x São Paulo na noite em que o Fla media forças com a Ponte Preta. Entre as praças que mais o acompanharam, Belém (11), Salvador (10), Florianópolis e Goiânia (9).

AS AUDIÊNCIAS DOS CORINTHIANS

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O Corinthians compôs as dez maiores audiências globais em nove oportunidades, sendo oito quartas-feiras. Os embates foram contra Atlético/PR, Coritiba e Figueirense (Brasileirão), Fluminense (2), Cruzeiro (2) e Brusque (Copa do Brasil, a última já pela edição 2017). Já o único domingo trouxe à tela o clássico diante do Santos, válido pelo Brasileirão passado.

Antes de se ater à comparação das audiências em si, o Corinthians ficou bem atrás do Flamengo no número de jogos veiculados na maioria das praças. Fora Campinas, quem mais o acompanhou foram Curitiba (seis), Porto Alegre e Belo Horizonte (cinco oportunidades). As demais metrópoles ficam entre três e nenhum televisionamento corintiano – casos de Rio de Janeiro, Manaus e Vitória.

AUDIÊNCIAS COMPARATIVAS – FLA X COR

As maiores médias do Flamengo ocorreram em praças que em nenhum momento optaram pelo Corinthians. E elas foram robustas: 31,5 pontos (às quartas) e 30,3 pontos (domingos) em Manaus – cidade onde o Flamengo se sai melhor. 30,2 pontos (Q) e 28,8 (D) no Rio. E 28 pontos (Q) + 29,8 (D) em Vitória. Em suas praças exclusivas, o Corinthians marcou 24,2 (Q) e 24,1 (D) em Sampa, enquanto Campinas apresentou 23,4 pontos às quartas e 26,7 aos domingos, num caso pouco comum de melhoria aos finais de semana.

Em Brasília e Belém, o Flamengo se saiu muito melhor. Na capital federal, a bem da verdade, a vitória foi de goleada: médias de 27,1 (Q) e 25,1 pontos (D), contra apenas 18,2 (Q) e 17,9 (D) dos paulistas em seus dois únicos jogos televisionados por lá. Já em Belém, o Fla venceu marcando 27,3 (Q) e 26,5 (Q) contra 24,9 (Q) e 21 (D) dos rivais interestaduais.

Em Belo Horizonte, vitória rubro-negra com menos folga: 22,1 (Q) com 19,2 (D) contra 21,6 (Q) e 16,5 (D). Mas pesa a favor do Corinthians o fato de ter encarado um time local por duas ocasiões: o Cruzeiro, pelas quartas-de-final da Copa do Brasil. Ou seja, o grosso das audiências que inflaram seus números em BH se deu por conta da preferência do telespectador pela Raposa.

Em Fortaleza, outra superioridade carioca com margem mediana: 21,4 pontos (Q) e 19,9 (D) contra 20,1 (Q) e 16,6 (D) do Corinthians. O mesmo aconteceu em Goiânia, a quinta capital de supremacia flamenguista: 18,3 (Q) + 20 (D) contra 17,2 (Q) + 16,8 do time paulista. O Recife foi a sexta: 19,2 pontos do Fla contra 18 do único jogo do Corinthians às quartas. Domingo houve apenas um jogo rubro negro, nenhum alvinegro.

Em Curitiba e Salvador, o melhor desempenho se mostrou indefinido. Na capital paranaense, o Flamengo foi melhor às quartas (20,6 a 18,6 pontos), dia que concentra o grosso das partidas presentes no ranking. Mas no único embate dominical de ambos, deu Corinthians: 16,7 pontos num Santos x Corinthians, contra 14 pontos daquele Internacional x Flamengo. O mesmo acontece em terras soteropolitanas, com cariocas levemente superiores às quartas (21,2 a 21) e paulistas se saindo melhor no mesmo clássico (19,2 a 15,6), em detrimento do Inter x Fla.

Outra capital de supremacia indefinida é Porto Alegre – apesar de os números novamente apontarem para um desempenho superior do Flamengo. De novo melhor às quartas, o Fla teve em seu benefício a escassez de ser veiculado apenas na chamativa partida diante do Palmeiras. O Corinthians teve quatro jogos em POA, sendo alguns de bem pouco apelo. Mais: o jogo dominical do Rubro Negro foi contra o Internacional, enquanto o do Corinthians foi contra o Santos. E o clássico paulista nem ficou tão abaixo.

Por fim, a cidade em que o Corinthians se saiu melhor foi Florianópolis. Às quartas, venceu por 29,4 pontos contra 28,2 dos oito jogos do Flamengo na cidade. Só que a única partida do Corinthians foi contra o catarinense Brusque, o que presumiria um benefício. Isto se o Flamengo não tivesse, por duas oportunidade, encarado o localíssimo Figueirense pela Copa Sul Americana. Aos domingos, um jogo pra cada lado e nova vitória corintiana por 16,2 a 15,6.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Apesar das limitações do modelo – tanto melhor se contemplasse a totalidade das partidas, e não apenas as de melhor audiência – as tabelas não deixam de ser esclarecedoras. Principalmente em tempos em que reformula-se o rateio do dinheiro da TV aberta: a partir de 2019, se dará uma partilha 40% igualitária e 60% por performance (metade televisiva, metade por desempenho esportivo).

Seja por conta das fases distintas ou não, resta claro que, nos últimos meses, o Flamengo vem se saindo bem melhor do que o Corinthians em termos nacionais. Algo que, em breve, se refletirá no montante a adentrar os cofres de cada clube. Historicamente, Fla e Corinthians vieram equiparados pela Rede Globo na condição de detentores da maior fatia, em igualdade de condições. Muito por conta dos números nacionais de audiência do Flamengo,  aqui verificados. E também pela hegemonia corintiana nos mercados mais valorizados pela publicidade nacional: a cidade e o estado de São Paulo.

PS: Em breve apresentaremos as audiências locais das regiões metropolitanas de Belo Horizonte, Porto Alegre e Recife – as que melhor permitem comparações entre os clubes das respectivas cidades.

Um grande abraço e saudações!

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A hora e a vez de um estádio para o Flamengo


Encerra-se hoje a semana  que talvez tenha reunido o maior número de acontecimentos importantes no que concerne à sucessão do Maracanã e ao futuro do futebol do Rio de Janeiro como o conhecemos.

Inseguros com relação a inúmeras questões jurídicas, o conglomerado que reunia CSM e GL Events (numa parceria com o Flamengo) abriu mão da compra da concessão do estádio, agora livre para ser vendida ao grupo concorrente, capitaneado pela Lagardère. Em nota oficial, o Flamengo ratificou sua posição contrária ao uso do estádio nestas condições, embora os franceses acreditem se tratar de um blefe, reversível em momentos futuros. Em meio a tantas turbulências, certezas se ratificam e novas oportunidades se configuram.

Para compreendê-las, entretanto, é necessário fazer uma retrospectiva que explique uma questão-chave, dessas verificadas na boca de qualquer torcedor comum. Por que diabos, afinal, uma instituição mais-que-centenária como o Flamengo ainda não possui estádio próprio?

A resposta ao questionamento remete à antológica frase cunhada pelo ex-presidente Márcio Braga, à época em que Ronaldo Fenômeno, então treinando em plena Gávea, surpreendeu a todos e assinou contrato com o Corinthians. Duramente questionado sobre o porquê de “o Flamengo não ter procurado Ronaldo”, Braga respondeu: “Porque ele não precisava ser procurado. Ronaldo já estava achado!”

A inexistência de uma arena rubro-negra vai ao encontro do que proferiu o ex-presidente. O Flamengo nunca construiu um estádio porque ele sempre teve um – o nome dele era Maracanã! Imagine-se sediado numa capital global como o Rio de Janeiro, há 60 anos coexistindo com aquele que, desde seu advento, se sacramentou como maior templo do futebol mundial? Mais: um estádio que por todo este tempo foi público, barato e disponível. Administrado por uma autarquia estadual (a Suderj), sempre cedido a preço de custo, sem maiores ônus, burocracias ou entroncamentos com calendário de shows. Era só pegar a chave e usar.

Por tudo isto, o Maracanã foi a casa não só do Flamengo como do Fluminense e do Botafogo – Vasco em menor escala.  Em tempos de hiperinflação, crédito restrito e enormes instabilidades políticas e econômicas, não fazia o menor sentido imaginar a hipótese de se construiu um estádio de ponta no Rio até bem pouco tempo. É verdade que a partir da década de 90 o Flamengo se notabilizou por um sem número de péssimas administrações, mas se existe um fardo que aquelas diretorias não podem carregar é este.

Situação bem diferente do que se verificava em São Paulo, por exemplo. Nunca houve, na maior metrópole brasileira, um grande estádio público de direito – apenas de fato. Talvez por analogia com o Rio, os paulistas tomaram para si o Morumbi, particular e pertencente ao São Paulo Futebol. Os tempos de convivência pacífica se foram, fazendo com que Corinthians e Palmeiras (também em menor escala) percebessem a burrada de depender do salão de festas alheio para o aniversário das crianças. Só pelos idos de 2010, e utilizando-se de instrumentos diametralmente opostos, movimentou-se no sentido da construção da Arena Corinthians e do Allianz Parque.

Importante compreender este contexto para que possamos novamente aterrissar em 2017, ano em que o Flamengo se aproxima dos últimos dias naquele que foi seu grande companheiro de glórias e derrocadas. Vivendo o ocaso da administração Odebrecht, o Maracanã ainda receberá ao menos um jogo do Flamengo pela Copa Libertadores – mês que vem, contra o Atlético-PR. A partir de então, foi dado o xeque-mate. E ele veio na forma de um edital publicado ontem no site oficial rubro-negro. Utilizando-se de um instrumento denominado “permuta com torna”, o Fla se prepara para ceder seu maior patrimônio – edifício do Morro da Viúva – em troca de algo. Pode perfeitamente ser um terreno. Para bom entendedor, meia palavra basta.

Prejudicado pela histórica existência de um bendito e predatório Maracanã, o Flamengo finalmente parece concluir que a construção do estádio próprio se faz mais do que necessária: vital. Para tanto, foi preparada a casa provisória na Arena da Ilha, evitando ao time a chaga das cansativas viagens ao longo da temporada. Enquanto isto, tenta superar o que é visto como maior entrave à construção do estádio: o custo de aquisição do terreno. Especialistas atestam que para o custeio das obras em si, existe caixa.

Diante do exposto, é recomendável que a torcida rubro-negra curta, aproveite, desfrute ao máximo sua experiência no antigo “Maior do Mundo” – tão próxima de um divórcio definitivo e litigioso. Aos que se acham espertos, um toque: Eduardo Bandeira de Mello não será presidente para sempre, é verdade. Mas o Flamengo passa longe de ser o clube das épocas em que negociatas eram vistas como prato de comida.

Um grande abraço e saudações!

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Se você fosse César Martins…

Cesar Martins

… se jogaria naquela bola de Gabriel Jesus, de maneira tão intempestiva quanto estilosa, estando o goleiro Muralha já batido e o gol palmeirense se configurado como fato?

É alto, bastante alto o percentual de torcedores cuja resposta à pergunta seria “não” – crucificando o zagueiro do Flamengo pela bobagem na derrota diante do Palmeiras, domingo passado, em Brasília. O que pouca gente sabe é que, tecnicamente, a questão é discutível. Legitimando debate aparentemente alheio ao escopo deste espaço, uma vez que remete a um importante ramo da teoria econômica: a teoria dos jogos, homônima ao Blog.

A teoria dos jogos é a ciência que analisa a interação estratégica entre dois players, de modo que um tente prever a iniciativa do outro e com isto, tomar sua decisão com base nesta presunção de antecipação. Trata-se, portanto, de um jogo de cooperação – que tem no “dilema dos prisioneiros” sua interatividade mais conhecida.

Entretanto, um modelo mais simples serve como um dos pilares da teoria, sem avançar à matriz de resultados do “dilema”, um pouco mais complexa. Ela diz respeito aos “jogos de soma zero”. Também pertencentes à teoria dos jogos, tratam-se de jogos em que o ganho de um jogador representa necessariamente a perda do outro. É aqui que chegamos ao cerne do debate. Isto porque o gol, numa ótica mais estrita – ou seja, desatrelada à soma de tentos que nos leva ao resultado final de uma partida – pode ser enxergado como um jogo de soma zero. Se a bola cruza a linha, um dos times foi o vencedor daquele evento específico. O outro perdeu. Uma defesa do goleiro, automaticamente, inverte a lógica de vencedores e vencidos.

Agora tudo começa a clarear, já que a aplicação deste conceito tem completa relação com uma atitude inicialmente mal vista no mundo da bola – ainda que válida e devidamente penalizada por sua antidesportividade: quando colocar a mão na bola, cometendo um pênalti que tente evitar a fatalidade da derrota?

Certamente não foi com a teoria econômica em mente, mas por completo instinto, que o craque Luisito Suarez – não exatamente conhecido por ser um jogador limpo – enfiou a mão numa bola que daria a Gana o gol da classificação, em pleno último minuto da prorrogação, nas quartas-de-final da Copa de 2010. Após o tiro livre perdido pelo africano, não restaram dúvidas da pertinência (e até da inteligência) de alguém que trocou sua presença nesta e na partida seguinte pela expulsão e a incerteza de uma penalidade.

Independente da discussão que evoca moralidade e correção política, a verdade é que a iniciativa é válida, sua punição é dura e prevista de antemão. Entre mortos e feridos, a defesaça do uruguaio foi louvada por uma nação tradicional, mas que vinha carente de preponderância futebolística até aquele momento. Quem não celebraria caso o contemplado fosse seu país nas mesmas condições, que atire a primeira pedra.

Sob esta ótica, Suarez teria feito a coisa certa.

Em direção oposta, lembram-se do gol de cabeça do goleiro Lauro, da Portuguesa, diante do Flamengo, no mesmo Estádio Nacional de Brasília? Decerto muitos se lembram do fato, mas não de seus pormenores. Por isso, ajudamos a recordar. Também era o último minuto da partida. A questão é que o tirambaço do arqueiro – que dez anos antes havia feito seu único gol na carreira justamente sobre o Flamengo – poderia ter sido evitado pelo lateral Leonardo Moura, posicionado sobre a linha do gol. A bola bateu em sua barriga antes de entrar. E os dois pontos que o Flamengo perdeu naquele jogo de soma zero (já que o time vencia) quase fizeram falta ao final do campeonato, quando os dois clubes perderam pontos por irregularidades que culminaram no rebaixamento paulista.

Sob esta ótica, Leonardo Moura teria feito a coisa errada.

Eis que, três anos depois, o mesmo Flamengo se vê diante de situação parecida. César Martins, irregularmente e com boa dose de ironia, realizou defesa que foi eleita a melhor da rodada pelos telespectadores do programa É Gol, do Sportv. “Tratam-se de casos completamente diferentes”, alega a maioria. Eram 25 do segundo tempo e a expulsão não se fez benéfica pelo fato de Jean ter convertido a cobrança. Com no mínimo 20 minutos pela frente, o Flamengo se viu diante do prejuízo de ter um jogador a menos na tentativa de correr atrás do empate.

Pode até ser verdade. Mas por outra ótica, 25 minutos do segundo tempo representam 70 minutos do tempo agregado – portanto, 77% da peleja transcorrida. Segurar o resultado com um jogador a menos era algo que o mesmo Fla havia feito dois jogos antes (diante da Ponte) e em situação muito mais adversa (fora de casa e por quase todo o segundo tempo). Por fim, caso o pênalti tivesse sido desperdiçado, 100% dos que se insurgiram contra elegeriam o zagueiro como salvador. Ou, no mínimo, o crucificariam menos, caso o Palmeiras viesse a desempatar beneficiado pela vantagem numérica.

Saindo do campo técnico e entrando no da opinião: pode ser que o prejuízo pela ausência do zagueiro – péssimo, outrora afastado do elenco e que entregou também o primeiro gol ao Palmeiras – nem fosse tão problemática assim.

Portanto, e tendo em vista todas estas considerações, é possível que Cesar Martins tenha feito a coisa certa. Instintivamente e no afã de ajudar, talvez você que critica fizesse o mesmo no lugar dele.

Por fim, nem mesmo a patética possibilidade de condenação do atleta pelo STJD mudaria a conclusão desta coluna. Na improvável hipótese de pena máxima, Martins só perderia seis dos nove jogos de gancho, uma vez que só tem mais 21 dias de contrato com o Flamengo. De qualquer maneira, é de se lamentar o nível atingido pelo patrulhamento de procuradores e aspones do futebol em geral. Luis Suarez, no episódio citado, sequer foi a julgamento. Valeu a punição esportiva, que com sua ausência ajudou a acarretar a derrota uruguaia na partida seguinte.

Um grande abraço e saudações!

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Todos saíram ganhando (Análises variadas sobre o Fla x Flu)

Fig 01

Talvez o torcedor surja como parte mais frustrada pelo decepcionante 0 x 0 entre Flamengo e Fluminense, jogado em plena cidade de São Paulo na tarde de ontem. Mas até estes foram vistos orgulhosos, ostentando suas cores em ambientação tão peculiar. A torcida do Flamengo, especialmente (e como se fosse necessário), provou mais uma vez seu potencial de encher qualquer estádio do Brasil. Este não foi, entretanto, o único sentido no qual o Fla x Flu do Pacaembu foi um sucesso.

Fig 02

Para o estádio, foi uma oportunidade de ouro. Relegado após a construção de duas arenas de ponta na cidade (Allianz Parque e Arena Corinthians), o Paulo Machado de Carvalho vinha recebendo pouquíssimas partidas. No ano passado, a falta de eventos foi tamanha que chegou-se a cogitar sua utilização em partidas de futebol de várzea. Com o Fla x Flu, o estádio não só ganhou vida como importantes recursos para sua manutenção. Tanto o público pagante de 28.727 quanto a renda de R$ 1.374.375,00 ocupariam a quarta posição no ranking do Campeonato Paulista 2016. A primeira, caso fossem desconsiderados três jogos na Arena Corinthians.

Fig 03

Já a poderosa mídia paulistana nunca havia dedicado tanto espaço para times do Rio. Além da cobertura da partida em si, o Fla x Flu rendeu um sem número de crônicas e análises que denotam o olhar curioso dos paulistanos (Leia algumas clicando aqui, aqui e aqui). Quase 24 horas após o fim do embate, matérias seguiam no top-5 das mais lidas e comentadas da Folha de S.Paulo. Reflexo do orgulho paulistano de se provarem cosmopolitas, com potencial para receber eventos de qualquer natureza.

Vote no Blog Teoria dos Jogos no prêmio Top Blog 2016!

Desde o estádio revigorado, até os clubes superexpostos na sede do mercado publicitário, passando por curiosos pela configuração impensavelmente mista, sorriram todos naquela belíssima e azulada tarde de domingo.

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O Blog Teoria dos Jogos, presente ontem ao Fla x Flu, não tem por hábito realizar análises de match day que não envolvam arenas. Ainda assim, houve exceções – como a final da Copa América entre Chile e Argentina, no Estádio Nacional de Santiago. Segue então um breve resumo analítico e fotográfico do evento, para os muitos que ainda não conhecem o charmoso estádio.

Fig 04

Absurdamente bem localizado, o Paulo Machado de Carvalho é um estádio encrustado em área nobre entre a região central e a zona oeste da capital paulista. Relativamente próximo ao metrô, sua acessibilidade se torna plena também pela presença de importantes avenidas no seu entorno, como a Dr. Arnaldo, a Av. Pacaembu ou mesmo a Rua da Consolação e a Av. Paulista. Estacionar, entretanto, não é tão fácil nas ruas estreitas de seu entorno imediato.

Fig 05

Fig 06

Em meio às mansões do bairro, o estádio é praticamente encaixado em um vale, sendo acessado pelo alto em diversos pontos (como no Tobogã ou nas cadeiras de cor laranja). Tombado pelo patrimônio histórico, quase nenhuma modificação substancial é permitida, o que fará do Pacaembu um eterno representante da old school e dos tempos pré-Maracanã, quando se impôs como maior estádio do Brasil.

Fig 07

Se tudo isto contribui com charme, por outro lado o Pacaembu se encontra bastante deteriorado, com cadeiras em mau estado, banheiros insuficientes e cabines químicas em alguns setores. As filas do lado de fora eram enormes (embora tenham fluído rápido), reflexo das poucas roletas. Em diversos lugares, torcedores se sentam diretamente no concreto, como se estivessem em um estádio 20 ou 30 anos atrás.

Fig 08

Em termos de visibilidade e conservação do gramado, absolutamente nada a reclamar. Na contramão do resto do país, a cerveja segue proibida no estado de São Paulo. Como compensação, em dias sem jogo o estádio possui um bar em funcionamento, anexo ao maior de todos atrativos: o Museu do Futebol. Outro resquício de modernidade é o pequeno placar eletrônico que expunha o nonsense do “Carioca 2016” a lado do símbolo da Prefeitura de São Paulo.

Fig 09

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Algumas curiosidades sobre o boletim financeiro do Fla x Flu, divulgado ao final da tarde de hoje:

Da renda total de R$ 1.374.375,00, os clubes levaram pra casa, juntos, R$ 692,951,42 (50%);

Este valor não foi maior porque conta da necessidade de 15% de repasses às Federações: 10% à FERJ (R$ 135 mil) e 5% à FPF (68 mil).  O total de despesas, aliás, foi alto: R$ 681.423,53;

Fla e Flu ficaram, cada um, com R$ 346.475,73. Mas sobre o valor rubro-negro incidiram R$ 51.971,36 de penhoras;

Foram devolvidos (não utilizados) 464 “ingressos promocionais” (cortesias), o que talvez explique algumas cadeiras vazias no setor manga, um dos muitos que tiveram seus ingressos esgotados;

De um total de pouco mais de 10 mil ingressos disponibilizados para a torcida do Fluminense no Tobogã, apenas 2.828 foram adquiridos. Por exclusão, cerca de 25 mil pagantes eram flamenguistas, além de alguns “neutros”.

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EXCLUSIVO: a operação do Fla x Flu no Pacaembu

Fig 01
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Tida e havida como habitué na arte de recepcionar grandes eventos, São Paulo vai vivenciar, no próximo domingo, um episódio raro. Pela segunda vez em 114 anos de futebol na capital* (desde o início do Paulista) – a cidade receberá o Fla x Flu, um dos maiores clássicos do Brasil e do mundo, além de orgulho do vizinho e “concorrente” Rio de Janeiro.

*A primeira foi em 1942, terminando em 0 a 0, em jogo válido pelo torneio Quinela de Ouro

A notícia foi confirmada na última sexta-feira, desde que arrefeceram as tensões envolvendo a dupla e a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro. Assim, a capital paulista entrou para o rol de cidades que vem recepcionando clássicos cariocas – ao lado de Volta Redonda, Cariacica e Brasília – já que tanto Maracanã quanto Engenhão se encontram entregues ao Comitê Olímpico Internacional.

Muito se falou a respeito da operação deste clássico, com especulações acerca da venda do mando de campo e do pagamento de cotas fixas para os envolvidos. Não será assim. Flamengo e Fluminense vão operar a partida normalmente, compartilhando lucros na exata medida da venda de ingressos. Por parte das diretorias, a expectativa é a melhor possível: algo em torno de 35 mil pagantes, conforme nos confidenciou Bruno Spindel, diretor de marketing do Flamengo. A carga máxima será pouco superior a 37 mil ingressos.

Se depender dos preços, as torcidas não serão afugentadas. Sem intermediários, não houve necessidade de majorações irrealistas, como no último jogo do rubro-negro em Brasília. Assim, os valores estarão alinhados aos que ocorriam nas operações mais recentes do Pacaembu. Preços até um pouco inferiores aos verificados em muitas arenas:

Tobogã (Fluminense): R$ 50 (meia entrada a R$ 25)

Setores verde e amarelo (Flamengo): R$ 50 (meia entrada a R$ 25) – Se esgotados, abrem os portões 21 e 22;

Setor laranja (misto): R$ 60 (meia entrada a R$ 30)

Setor manga (misto): R$ 80 (meia entrada a R$ 40)

Setor azul numerado (misto): R$ 100 (meia entrada a R$ 50)

Eis aí principal novidade: um Pacaembu majoritariamente misto, tendo apenas os setores atrás dos gols como específicos a rubro-negros e tricolores. Trata-se de uma enorme transgressão à cultura de se espremer visitantes em “chiqueirinhos” nos clássicos. Diferente do Rio, em que um Maracanã misto (ainda que dominado por esta ou aquela torcida) já faz parte das tradições da cidade.

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A este “toque carioca” em pleno solo paulistano, outras questões interessantes serão avaliadas – como o percentual de meias entradas que será vendido. No Rio, estes ingressos constituem ampla maioria das vendas, numa processo de conivência quanto ao usufruto de direitos previstos em lei. Em São Paulo, as coisas costumam ser diferentes.

Cabe, portanto, aguardar pela confirmação ou frustração de expectativas. Na opinião do Blog Teoria dos Jogos, um Pacaembu à meia capacidade já seria uma surpresa positiva, dados os 2,5% de flamenguistas e menos de 0,5% de tricolores residentes em São Paulo. Mas o efeito-novidade jogaria a favor, atraindo muitos curiosos. Aliado a isto, a vinda de torcedores de todo o estado de São Paulo poderia até mesmo duplicar a demanda potencial. Por fim, teremos uma movimentada ponte aérea e inúmeros torcedores vindos do Rio e outros estados por vias rodoviárias.

Tende a ser um domingo animadíssimo.

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O Mapa do Televisionamento dos Estaduais 2016

Alguns anos após introduzir este conceito no cenário econômico e futebolístico, o Blog Teoria dos Jogos retoma seu mapa do televisionamento do estaduais, versão 2016. Trata-se de um levantamento acerca dos estaduais que são veiculados, detalhando para onde e qual percentual do PIB e da população cada um está exposto. Os números se referem apenas à TV aberta e à divisão de praças da Globo, detentora dos direitos de transmissão. A Bandeirantes, emissora licenciada, obedece às regras impostas por aquela, gerando um alinhamento na maioria dos estados.

Antes de trazermos os números, alguns esclarecimentos se fazem necessários. Estamos diante de um levantamento que foi “facilitado” ao longo dos anos, dada a simplificação na distribuição dos estaduais. Anteriormente, praças que não possuíam certames próprios se dividiam entre os do Rio e de São Paulo – com larga vantagem para os primeiros. Nos últimos anos, o Paulistão deixou de ser veiculado para lugares como Tocantins (que se voltou ao Rio), Mato Grosso e Mato Grosso do Sul (estaduais próprios).

Mas as baixas não são exclusividade do Campeonato Paulista. A última “dissidência” verificada se deu em Alagoas, há dois anos, quando o Campeonato Alagoano passou a ser assistido em detrimento do Carioca. Também ocorrem exceções, como no fim de semana em que a Globo Brasília optou por receber o sinal de São Paulo. Ainda assim, a hegemonia do Rio é incomparável: enquanto quinze unidades federativas alinham consigo, o Paulista hoje é visto apenas em seu estado de origem. Equiparando-o a outros onze torneios: Mineiro, Baiano, Gaúcho, Paranaense, Pernambucano, Cearense, Catarinense, Goiano, Alagoano, Mato-Grossense e Sul Mato-Grossense.

Feitas as ressalvas, vamos aos números:

Fig 01

 

Fig 02

Tamanha difusão torna natural a preponderância do Campeonato Carioca Brasil adentro. Somados, os quinze estados que o assistem representam 29,61% da população nacional. Exposto para 44 milhões de pessoas, o Paulistão possui abrangência de 21,72%. Mas o poderio econômico faz com que a balança se reverta a favor de São Paulo sob a ótica do PIB. Semanalmente, as marcas de Corinthians, São Paulo, Palmeiras e Santos são divulgadas para o equivalente a 32,13% do Produto Interno Bruto. Os 60 milhões de brasileiros voltados aos times do Rio representam 27,14% da economia brasileira.

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Numa comparação entre os dois principais estaduais, percebemos o Paulista com potencial de renda 18% superior ao Carioca. No entanto, há uma semana expusemos que a diferença que a Globo paga por ambos é muito superior. Estima-se que nas negociações pelo Carioca-2017, Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo possam auferir entre R$ 11 milhões e R$ 12 milhões cada um. O que faria o quarteto carioca assistir aos paulistas embolsarem no mínimo 40% a mais.

Ainda em termos comparativos, viajemos à era pré-Teoria dos Jogos.  Em 2011, descobrimos que este blogueiro já compilara um mapa do televisionamento, publicando-o no blog Olhar Crônico Esportivo, do amigo Emerson Gonçalves. Naquele tempo, o Carioca era veiculado para 30,6% da população (0,99 ponto percentual a mais do que hoje) e 26,97% do PIB. Ou seja, ainda que marginalmente, pode-se dizer que o Estadual do Rio cresceu 0,17 p.p em valor – o que não corre com o Paulista. Nestes cinco anos, os clubes de São Paulo verificaram queda de 3,51 p.p na população e 4,23 p.p no PIB para o qual se expõem. Tratam-se de reduções acentuadas.

Após São Paulo e Rio, a ordem dos estaduais sob a ótica do PIB nos brinda com os Campeonatos Mineiro (9,16%), Paranaense (6,26%), Gaúcho (6,23%), Catarinense (4,03%) e Baiano (3,84%).

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Como foi o último jogo da “farra”

Fig 001
Equipe da ESPN acompanha reclamações e entrevista Marcelo Frazão, diretor do Maracanã

Depois que Flamengo e Maracanã anunciaram o endurecimento da fiscalização sobre as meias entradas, presumiu-se um cenário desagradável uma vez que milhares de ingressos haviam sido vendidos sob o regime “convencional”. Ainda que tenha havido reclamações, o receio da barração em massa que caotizasse bilheterias e gerasse transtornos acabou não se configurando. Prevaleceu o bom senso. Já para a próxima rodada, a promessa é de que apenas estudantes se utilizem dos benefícios aos quais estejam habilitados.

Durante o jogo Flamengo x Cruzeiro, todos os setores foram verificados, mas somente no “Maracanã Mais” a nova política foi de fato implementada: não-estudantes tiveram que se dirigir às bilheterias para troca de meias por inteiras. Segundo Marcelo Frazão, diretor de marketing do estádio, mais funcionários serão colocados para ajudar na fiscalização, além do apoio da polícia e da devida preparação por parte do Juizado. Tudo em meio a uma comunicação intensiva, ressaltando o caráter educativo do novo procedimento.

O drama maior reside no expediente criado pelo projeto Nação Rubro Negra, que sempre permitiu a seus adeptos indiscriminadamente pagarem “meia da meia”. Entre sócios-torcedores do Flamengo, a evasão é altíssima – muito acima do verificado entre os “comuns”. É o que demonstra o borderô da partida de ontem:

Flamengo x Cruzeiro – 10/09/2015

Total de ingressos vendidos: 36.844 (desconsideradas 1.695 cortesias)
Inteiras: 15.480 (42%)
Meias: 21.364 (58%)

Total de ingressos comuns: 25.189
Inteiras: 12.421 (49%)
Meias: 12.768 (51%)

Total de ingressos sócios: 11.655
Inteiras: 3.059 (26%)
Meias: 8.596 (74%)

Detalhamento por setor:

Setor Norte: 16.891

Inteiras: 5.373 (32%)
Meias: 11.518 (68%)

torcedor comum: 9.024
Inteiras: 3.877 (43%)
Meias: 5.147 (57%)

sócio torcedor: 7.867
Inteiras: 1.496 (19%)
Meias: 6.371 (81%)

Setor Sul Flamengo: 7.041

Inteiras: 3.590 (51%)
Meias: 3.451 (49%)

torcedor comum: 6.626
Inteiras: 3.382 (51%)
Meias: 3.244 (49%)

sócio torcedor: 415
Inteiras: 208 (50%)
Meias: 207 (50%)

Setor Sul Visitante: 881

Inteiras: 551 (63%)
Meias: 330 (37%)

Setor Leste Inferior: 6.654

Inteiras: 2.999 (45%)
Meias: 3.655 (55%)

torcedor comum: 4.782
Inteiras: 2.278 (48%)
Meias: 2.504 (52%)

sócio torcedor: 1.872
Inteiras: 721 (39%)
Meias: 1.151 (61%)

Setor Oeste Inferior: 3.658

Inteiras: 2.014 (55%)
Meias: 1.644 (45%)

torcedor comum: 3.062
Inteiras: 1.772 (58%)
Meias: 1.290 (42%)

sócio torcedor: 596
Inteiras: 242 (41%)
Meias: 354 (59%)

Setor Maracanã Mais: 1.719

Inteiras: 953 (55%)
Meias: 766 (45%)

torcedor comum: 814
Inteiras: 561 (69%)
Meias: 253 (31%)

sócio torcedor: 905
Inteiras: 392 (43%)
Meias: 513 (57%)

Até por ser mais fácil, em meio aos sócios-torcedores a fiscalização será rigorosa. Como os próprios leitores dos cartões apontam se o ingresso comprado foi de meia entrada, ou o estudante apresentará suas credenciais ou ficará de fora.

Além do Maracanã, o maior interessado no recrudescimento da ação fiscalizatória é o próprio Flamengo. Novamente recorrendo ao borderô, vemos que os 36.844 pagantes de ontem proporcionaram bilheteria de R$ 1.124.447,50, num ticket médio de apenas R$ 30. A título de comparação, no Fla x Flu de domingo passado e sem “meia da meia” (mando do Fluminense), a renda passou de R$ 2,5 milhões, com ticket de R$ 49. Com mando rubro-negro, no primeiro turno o ticket foi de R$ 41.

O fato é: a partir deste final de semana, Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo cruzarão uma nova fronteira. O potencial de maximização de receitas num período de dificuldades econômicas se une ao cumprimento da lei, mera obrigação num país acostumado a internalizar o que não lhe é de direito. A tão apregoada honestidade se faz através de pequenos gestos, como no uso de benefícios estudantis apenas por parte de quem realmente estuda. Que o carioca abrace este processo de evolução moral.

Um grande abraço e saudações!

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“Elitização do futebol”: um contraponto

Na última sexta-feira, a coluna “Época Esporte Clube”, de autoria do jornalista Rodrigo Capelo – trouxe à tona um velho debate sob nova roupagem. Trata-se da polêmica acerca dos preços cobrados pelo futebol no Brasil, em comparação aos principais mercados futebolísticos concorrentes. Partindo do salário mínimo e do menor preço dos ingressos, o autor conclui que o trabalhador brasileiro é quem precisa trabalhar mais tempo para garantir um lugar no estádio. Com base na torcida cruzeirense, seriam pouco mais de dez horas trabalhadas, contra menos de sete horas em países como Espanha, Inglaterra, Portugal, Itália e Argentina.

Ao expor os números, o autor conclui que os preços no Brasil deveriam ser menores – mesmo que não no estádio inteiro – já que uma “arena se lotaria de baixo para cima”. A afirmação, aparentemente um axioma, se mostra um tanto simplista ao analisar premissas e números com suficiência apenas parcial para a conclusão. Por conta disto, o Blog Teoria dos Jogos elaborou um contraponto na forma deste texto.

Primeiramente, o valor do ingresso mínimo utilizado foi de R$ 50 em partidas do Cruzeiro. Para outros, como o Atlético-PR, o valor chegava a R$ 100. Mas se estes são os respectivos valores mínimos, por que seus tickets médios são tão mais baixos? (clique em “Ingressos”) A resposta reside em expedientes brasileiríssimos como meias-entradas e gratuidades, além dos benefícios proporcionados pelos projetos de sócio-torcedor.

Mesmo que estes elementos tenham sido citados por Capelo no texto (ou seja, não foram de todo ignorados), eles acabaram subestimados. O efeito da lei das meias-entradas, por exemplo, é muito relevante. Na 21ª rodada da Série A, tais ingressos representaram nada menos que 19% das vendas totais – chegando a 56% no Rio de Janeiro, segundo levantamento do Blog:

Fig 01

 

Se o benefício é impertinente ou mal utilizado, é outro debate. Mas só com base nas meias, o preço mínimo a ser considerado já cairia muito. E o que dizer das tantas leis de gratuidades, cortesias e outros benefícios? E os projetos de sócio-torcedor, com mais de um milhão de adeptos entre os heavy users das 20 maiores torcidas? Mesmo não sendo uma exclusividade brasileira, não são todos os países que se valem dos descontos para sócios – na Inglaterra só se vendem carnês. Assim, em detrimento de ingressos e rendas mínimas, seria mais pertinente utilizar o ticket médio dos campeonatos (inferior a R$ 30 no Brasileirão) junto à renda médias dos países.

Em segundo lugar, embora realmente exista uma elasticidade que faça as torcidas responderem positivamente a descontos (algo já muito trabalhado neste espaço), outra característica brasileira é a de responder apenas de imediato ou enquanto existe demanda reprimida. Quando esta é saciada, os adeptos tendem a tomar os preços como dados, ignorando-os. E deixando estádios vazios mesmo a R$ 20 ou R$ 10. Por quê? Porque o problema do futebol brasileiro não reside numa questão de preço, mas de produto. As excelentes médias das novas arenas não nos deixam mentir: nelas o produto melhorou, ainda que tenha ficado mais caro. O que nos afasta da falácia de que os expropriados de baixa renda “compareciam toda quarta e domingo para apoiar o time”.

Um terceiro e último ponto de discordância seria a necessidade de o PROFUT especificar quantos devem ser os ingressos populares e a que preço. Questão de ideologia ou não, parecem sábias as palavras do blogueiro Emerson Gonçalves, do Blog Olhar Crônico Esportivo a este respeito. Segundo ele, “é razoável e até necessário que o Estado legisle. Mas também necessário que clubes de futebol, assim como pessoas, não sejam seus reféns”, pois “mercados livres são sempre mais eficientes” e “a entrada do Estado representa, mais dia, menos dia, a entrada de interesses que manipulam a realidade de acordo com os desejos dos que fazem a política”. É bem por aí.

Equivocam-se os que consideram a queda de preços como solução mágica para retornarmos ao que nunca fomos. De fato parece haver precificações equivocadas em setores da Arena da Baixada, do Grêmio ou do Mineirão. Assim como, para o Palmeiras ou o Maracanã Mais – primeiro setor a esgotar em clássicos no Rio – a medida certa foi subi-los. E nem todo problema é solucionável: se o Corinthians eliminou capacidade ociosa baixando preços na Arena, não há desconto que faça o Fluminense, com 12% da torcida em sua sede, encher uma arena para 78 mil.

Como tudo na vida, preços também se estabelecem na base da tentativa e erro. Poderiam se valer de técnicas mais refinadas, é verdade, mas questões do dia-a-dia também levam à expertise. Em vista das dificuldades, o preço dos ingressos no Brasil das novas arenas parece aos poucos caminhar na direção de um bom termo.

Um grande abraço e saudações!

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Match Day – Chile x Argentina (Final da Copa América)

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Foi um final de semana pra lá de especial. Enviado pelo Yahoo Esportes para Santiago, o Blog Teoria dos Jogos teve a honra de estar presente ao Estádio Nacional de Chile, vivenciando uma histórica conquista dos donos da casa sobre a forte seleção argentina. Com isto, pudemos preparar a tradicional análise do match day, nossa segunda em solo internacional (após cobertura da Euro 2012) e primeira na era independente do Blog.

Avaliações desta natureza devem obrigatoriamente começar nos dias que antecedem o evento. É importante que se respire o clima, auferindo expectativas e o envolvimento das pessoas – um grande exemplo foi o engajamento brasileiro durante a Copa 2014. Por chegarmos na noite anterior à finalíssima, alguns pontos se perderam, embora muito ainda se percebesse. Para onde olhávamos, Santiago aparecia “vestida” de Copa América:

Fig 01

Fig 02

Em contrapartida, nenhuma movimentação se verificou em torno da decisão do 3º lugar, entre Peru e Paraguai – a maioria dos bares sequer transmitiu a peleja. Atmosfera transformada por completo com a chegada do sábado:

Fig 03

O frisson entre os chilenos foi tanto que ingressos originalmente vendidos por R$ 200 tinham preço de revenda estimado em inacreditáveis US$ 1 mil. O metrô da cidade, de boa extensão e estrutura física apenas razoável, levava até pouco mais de 1 km do estádio, quando se iniciavam as interdições do entorno. A sensação de chegarmos a uma “cancha” antiga (construída em 1938) e de médio porte (55 mil lugares) aumentava à medida com que nos aproximávamos:

Fig 04

Fig 05

Fig 06

Sem nenhuma reforma aparente, o Estádio Nacional do Chile entrega apenas aquilo a que se propõe: a ambientação para uma partida de futebol. Corredores e banheiros rudimentares remetem ao que se via no Maracanã antes da reforma – não a da Copa, mas a de 1999, quando foram colocadas as primeiras cadeiras.

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Fig 08

Por dentro, torcedores proporcionaram um belo colorido vermelho permeado por manchas azuis e brancas. A visibilidade era boa, apesar das arquibancadas se distanciarem pela existência de uma pista de atletismo em volta do gramado. Cadeiras frágeis e desgastadas faziam do espaço para passagem inexistente. Por fim, algo impactante: diversos profissionais (?) assistindo à decisão do alto do telão e da pequena cobertura:

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Mesmo havendo quem fomentasse brincadeiras e cânticos de enorme animosidade, a convivência entre chilenos e argentinos se mostrou pacífica – o que não poderia ser garantido em caso de derrota local. Belas demonstrações de respeito deram a tônica em dois momentos: durante o sepulcral “minuto de silêncio” e na hora dos hinos, pois foram distribuídos panfletos que refutavam vaias e fomentavam bons modos.

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Veio o jogo. Vieram os pênaltis. Chegou o título!

Fig 013

Em meio à festa dos marmanjos, a imagem que mais tocou ao blogueiro: o choro compulsivo de um pequeno chileno, emocionado, como se na tenra idade já compreendesse a agonia por décadas de desejo e frustrações.

A partir de então, houve de tudo pelas ruas: loucura, carreatas, cânticos, confusão. Eventos reservados a uma cidade que traz em si imensa latinidade – característica à primeira vista menos aparente. O ecoar do “Chi-chi-chi-le-le-le, Viva Chile” só arrefeceu às primeiras horas da manhã.

O Blog Teoria dos Jogos agradece e saúda o portal Yahoo Esportes, fonte de pesquisas e informações, difusor de conhecimentos e amenidades. Entre elas a Copa América, entre elas o futebol. A mais importante entre as coisas menos importantes da vida. Ou o contrário.

Um grande abraço e saudações!

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