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O Mapa do Televisionamento dos Estaduais 2016

Alguns anos após introduzir este conceito no cenário econômico e futebolístico, o Blog Teoria dos Jogos retoma seu mapa do televisionamento do estaduais, versão 2016. Trata-se de um levantamento acerca dos estaduais que são veiculados, detalhando para onde e qual percentual do PIB e da população cada um está exposto. Os números se referem apenas à TV aberta e à divisão de praças da Globo, detentora dos direitos de transmissão. A Bandeirantes, emissora licenciada, obedece às regras impostas por aquela, gerando um alinhamento na maioria dos estados.

Antes de trazermos os números, alguns esclarecimentos se fazem necessários. Estamos diante de um levantamento que foi “facilitado” ao longo dos anos, dada a simplificação na distribuição dos estaduais. Anteriormente, praças que não possuíam certames próprios se dividiam entre os do Rio e de São Paulo – com larga vantagem para os primeiros. Nos últimos anos, o Paulistão deixou de ser veiculado para lugares como Tocantins (que se voltou ao Rio), Mato Grosso e Mato Grosso do Sul (estaduais próprios).

Mas as baixas não são exclusividade do Campeonato Paulista. A última “dissidência” verificada se deu em Alagoas, há dois anos, quando o Campeonato Alagoano passou a ser assistido em detrimento do Carioca. Também ocorrem exceções, como no fim de semana em que a Globo Brasília optou por receber o sinal de São Paulo. Ainda assim, a hegemonia do Rio é incomparável: enquanto quinze unidades federativas alinham consigo, o Paulista hoje é visto apenas em seu estado de origem. Equiparando-o a outros onze torneios: Mineiro, Baiano, Gaúcho, Paranaense, Pernambucano, Cearense, Catarinense, Goiano, Alagoano, Mato-Grossense e Sul Mato-Grossense.

Feitas as ressalvas, vamos aos números:

Fig 01

 

Fig 02

Tamanha difusão torna natural a preponderância do Campeonato Carioca Brasil adentro. Somados, os quinze estados que o assistem representam 29,61% da população nacional. Exposto para 44 milhões de pessoas, o Paulistão possui abrangência de 21,72%. Mas o poderio econômico faz com que a balança se reverta a favor de São Paulo sob a ótica do PIB. Semanalmente, as marcas de Corinthians, São Paulo, Palmeiras e Santos são divulgadas para o equivalente a 32,13% do Produto Interno Bruto. Os 60 milhões de brasileiros voltados aos times do Rio representam 27,14% da economia brasileira.

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Numa comparação entre os dois principais estaduais, percebemos o Paulista com potencial de renda 18% superior ao Carioca. No entanto, há uma semana expusemos que a diferença que a Globo paga por ambos é muito superior. Estima-se que nas negociações pelo Carioca-2017, Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo possam auferir entre R$ 11 milhões e R$ 12 milhões cada um. O que faria o quarteto carioca assistir aos paulistas embolsarem no mínimo 40% a mais.

Ainda em termos comparativos, viajemos à era pré-Teoria dos Jogos.  Em 2011, descobrimos que este blogueiro já compilara um mapa do televisionamento, publicando-o no blog Olhar Crônico Esportivo, do amigo Emerson Gonçalves. Naquele tempo, o Carioca era veiculado para 30,6% da população (0,99 ponto percentual a mais do que hoje) e 26,97% do PIB. Ou seja, ainda que marginalmente, pode-se dizer que o Estadual do Rio cresceu 0,17 p.p em valor – o que não corre com o Paulista. Nestes cinco anos, os clubes de São Paulo verificaram queda de 3,51 p.p na população e 4,23 p.p no PIB para o qual se expõem. Tratam-se de reduções acentuadas.

Após São Paulo e Rio, a ordem dos estaduais sob a ótica do PIB nos brinda com os Campeonatos Mineiro (9,16%), Paranaense (6,26%), Gaúcho (6,23%), Catarinense (4,03%) e Baiano (3,84%).

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Análise : O Mapa das Curtidas – SC e PR

Prosseguindo a série de análises com relação ao “Mapa das Curtidas do Facebook” – uma parceria da rede social com o Globoesporte.com – é a vez de subirmos um pouco. Após detalhar o nada diversificado perfil das preferências no Rio Grande do Sul, é a vez de nos atermos aos estados de torcida mais plural do Brasil: Santa Catarina e Paraná.

Em nosso país, uma das principais características das preferências clubísticas é a dicotomia entre capital e interior. Com exceção de Rio, São Paulo e Rio Grande do Sul – além de estados do Norte e Nordeste dominados por forasteiros – são muitos os exemplos de rivalidades entre torcidas que perdem força à medida com que se afastam de suas zonas de influência. Neste sentido, três lugares chamam atenção: Por ordem de “pluralidade”, Santa Catarina, Paraná e Minas Gerais. Os dois primeiros podem ser vistos na imagem abaixo:

Fig 01

Uma característica comum entre ambos é o predomínio de times da capital num limitado perímetro que vai pouco além da região metropolitana. A região central é dominada por paulistas no Paraná (Flamengo depois) e Flamengo em Santa Catarina (paulistas e Vasco em seguida). Já o oeste catarinense e paranaense são de predomínio gaúcho, com supremacia de Grêmio e Internacional.

Mas o perfil de Santa Catarina vai além, muito pela quantidade e força dos times locais. Começando pelos do interior:

Fig 02

Para surpresa geral, a Chapecoense é, de longe, o clube com difusão mais avançada de Santa Catarina. Mesmo que o “Mapa” seja focado em redes sociais e potencialize simpatias, a verdade é que a zona de influência do Verdão do Oeste se espalha por uma área pouco comum em se tratando daquele estado. O clube está entre os quatro mais curtidos em nada menos que 246 localidades. Consegue ainda uma proeza quase inimaginável: influenciar pequenos municípios gaúchos limítrofes a Chapecó.

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Já a difusão dos outros rivais do interior é mais restrita a municípios-sede e entorno, sem se espalharem tanto pela região em si. Ainda que nas cidades-natal, Joinville e Criciúma, superem a Chapecoense em percentual de curtidas (38,6%, 46,6% e 37,3%, respectivamente). O JEC angaria uma das quatro primeiras posições em apenas 12 municípios, enquanto o Tigre o faz em 48.

Fig 03

As coisas não são muito melhores para os times da capital. Inseridos numa grande região de influência flamenguista, Figueirense e Avaí só conseguem leve supremacia na zona de menos de um milhão de habitantes que circunda Florianópolis. Neste raio, a supremacia do Figueira é evidente – confirmando a histórica evidência do “time do continente” que relega a identificação avaiana à pouco populosa ilha. O Figueirense detém preferência em 15 municípios, trazendo o Avaí na segunda posição em 14 deles.

Quanto aos times de fora, eis o mapa de calor:

Fig 04

Fig 05

Trata-se de um perfil bastante semelhante ao da pesquisa científica publicada pelo Blog Teoria dos Jogos ainda em seus tempos de Globoesporte.com. O Flamengo domina a maioria do estado, sendo segundo em cidades corintianas ou gremistas. Fica em terceiro no entorno de Florianópolis, em quarto no extremo sul e em sexto na região oeste, onde o predomínio é do Grêmio e depois do Internacional.

Parte da divisa entre SC e RS verifica notável crescimento do Corinthians – terceiro por ali e segundo nas regiões centrais. O Vasco cresce nas cercanias de Tubarão e Rio do Sul, ficando entre o segundo e o terceiro posto. Já o São Paulo fica em terceiro ou quarto nas regiões norte e central. Palmeiras e Santos surgem com representação residual nos limites com o Paraná.

Fig 06

Perto do estado vizinho, a atmosfera paranaense soa menos difusa, ainda que se trate de um dos representantes da pluralidade anteriormente debatida. Pelo Facebook, o Paraná é uma mancha corintiana, com contornos atleticanos na capital e gremistas no oeste. Esporádicas maiorias flamenguistas finalizam uma pintura que, comparada aos resultados científicos, traria dificuldades na distinção entre original e cópia.

A superioridade do Atlético-PR se dá ao longo do um perímetro maior do que o Coritiba: o Furacão é um dos quatro mais curtidos em 43 municípios, frente aos 28 do Coxa. Sendo que o alviverde não lidera em nenhum, derrotado pelo Corinthians em plena cidade de Curitiba – possível distorção da apuração via rede social. Se é assim com o Coxa, sabido detentor de boa torcida, imaginem com o Paraná Clube? Sua melhor posição é um irrisório 4º lugar em Bocaiúva do Sul.

Fig 07

Fig 08

As verdadeiras donas do Paraná são as torcidas de São Paulo. Como já foi dito, o Corinthians é líder absoluto em todas as regiões onde Atlético-PR ou Grêmio não aprontam. Com vantagem tricolor, São Paulo e Palmeiras vem a reboque – ainda que a quantidade de lugares onde o Palmeiras é vice não seja desprezível, incluindo cidades como Umuarama e Apucarana. Há espaço até para o Santos: segundo em duas cidades (Jardim Alegre e Nova Aurora) e terceiro em outras tantas. Oeste e Sudoeste são divididos por Grêmio e Internacional, finalizando uma zona de influência que só volta a ter relevância em rincões agrários do Centro Oeste. De qualquer maneira, pode-se dizer que em termos de torcidas, o Paraná seria quase um quintal do estado de São Paulo.

Sim, “quase”. Em meio a paulistas, gaúchos e paranaenses, surge a exceção de sempre: o Flamengo. Por lá, o se faz presente como segundo mais curtido em muitos municípios próximos à divisa com Santa Catarina (destaque para Guarapuava e Ponta Grossa). Tem mais: em Rio Negro, Campo do Tenente e Paranaguá (litoral), é o rubro-negro quem dá as cartas, liderando em curtidas. Nada disso em companhia do Vasco: ao contrário do que ocorre em Santa Catarina, cruzmaltinos praticamente inexistem no Paraná.

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Análise: o Mapa das Curtidas – RS e times gaúchos

Conforme prometido, o Blog Teoria dos Jogos inicia agora sua análise com relação aos números do “Mapa das Curtidas do Facebook”, iniciativa bem sucedida do Globoesporte.com em parceria com a rede social de maior sucesso no mundo. Com robusta amostragem, o Mapa faz justiça ao verificado em diversas regiões do país. Assim, começaremos pela configuração de torcidas no Rio Grande do Sul e dos times gaúchos – Grêmio e Internacional.

Novamente, é preciso deixar claro que o mapeamento não é uma pesquisa. O enfoque em jovens e pessoas conectadas gera vieses consideráveis – apenas 25% dos usuários do Facebook tem mais de 35 anos, faixa de abrange 41% da população brasileira. No mais, distorções se fazem presentes pelo fato de alguns clubes trabalharem melhor suas mídias sócias, estando “alguns passos” à frente da concorrência.

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Dito isto, vamos lá:

Fig 01

O aparente massacre gremista foi motivo de festa no lado azul do Rio Grande. Por lá, deu Grêmio em nada menos de 481 dos 497 municípios – meros 16 tiveram maioria colorada. Mas se muitas cidades “vermelhas” são de pequeno porte, o Inter teve consigo o trunfo da maioria em plena Porto Alegre (13% da população gaúcha). Mais: segundo levantamento feito por Alexandre Perin, do site Almanaque Esportivo, o equilíbrio nos 20 municípios mais populosos do estado (48% da população) foi tão grande que fica difícil acreditar como o Grêmio conseguiu primazia em 18 deles. Em muitos casos – como os de Canoas e Alvorada – as diferenças não passavam de um ou dois décimos. No total, gremistas (40,7% das curtidas) e colorados (39,4%) terminam em flagrante equilíbrio.

Fig 02

A conhecida intransponibilidade do Rio Grande do Sul com relação a torcidas forasteiras se faz presente: praticamente nenhum outro clube cria “manchas” no mapa de calor do estado. O que não significa que inexistam. Além do Corinthians – maior torcida estrangeira entre os gaúchos do Facebook – Flamengo e Santos se fazem representados em cidades ou regiões. Corintianos estão presentes na fronteira com Santa Catarina e em Vera Cruz, região central, onde marcam nada menos que 7,2%. Existem flamenguistas no entorno de Bento Gonçalves e Caxias do Sul, além da cidade de Rio Grande, onde são 4,6%. E há um curioso bunker santista na região fronteiriça de Santana do Livramento, onde o Peixe é terceiro colocado com 5,1% dos cliques. Três e meio por cento da torcida de Vera Cruz se disse adepta do Bahia, enquanto 3,1% alinham com o Criciúma no balneário de Torres.

Fig 03

Fig 04

Fig 05

Tanto Grêmio quanto Internacional receberam curtidas em 99,8% dos municípios brasileiros. Tricolores estão entre as quatro maiores torcidas em 14,1% dos municípios, contra 12,4% dos colorados. Das cinquenta cidades que mais os curtem, todas se encontram no Rio Grande do Sul.

Fig 06

Ao contrário de rivalidades que veremos mais adiante, o mapa de calor da dupla GreNal denota que suas torcidas se encontram rigorosamente nos mesmos lugares. Além do estado de origem, gremistas e colorados dominam todas as divisas com Santa Catarina, bem como o oeste paranaense. Em terras catarinenses, a luta é contra a Chapecoense (no oeste) e o Criciúma (no Sul), sempre com forte presença de Corinthians e Flamengo. Já no Paraná, a rivalidade é contra as duas maiores torcidas do Brasil e o São Paulo.

Fora do Sul, Inter e Grêmio surgem fortes em colônias agrícolas espalhadas pelo Centro Oeste. Por serem quase todas pequenas, acabam influindo pouco na configuração de estados como Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Além destes, existe uma improvável colônia na cidade de “Chapada Gaúcha”, em pleno norte de Minas Gerais. Por lá, tricolores angariam 5,7% das curtidas contra 5,3% de colorados.

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E se o Brasil adotasse o modelo inglês?

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Talvez seja questão de tempo, não se sabe ao certo. Mas a sensação que fica é: enquanto não houver mudanças no modelo que distribui os recursos do televisionamento, a demagogia no futebol brasileiro não cessará.

O “bastião da moralidade” é o deputado Mendonça Filho, do DEM/PE, que apresentou emenda à Medida Provisória do Profut visando aplicar por aqui o modelo de repartição do futebol inglês: 50% da verba dividida entre todos os clubes, 25% conforme a classificação do torneio anterior e 25% proporcionais à audiência média de cada um.

Se isto acontecesse, como as coisas ficariam? A resposta vem de um elucidante trabalho de Christiano Candian, autor do blog Constelações e leitor do Blog Teoria dos Jogos. Ele preparou uma planilha que projeta diferentes cenários segundo mudam os percentuais atribuídos a cada critério.

Na hipótese da divisão à inglesa: 50% igualitária, 25% esportiva, 25% audiências:

Fig 01

PS: Valores em milhões de reais, com base na distribuição de recursos vigente do triênio 2013-2015 (diferente das demonstrações financeiras). O percentual de audiência foi dado como proporcional às cotas atualmente percebidas. Foram incluídos apenas os participantes da Série A em 2014 – por isso a ausência do Vasco.

A diferença entre quem ganha mais e menos (Corinthians e Criciúma) ficaria inacreditavelmente pequena: R$ 68,9 milhões a R$ 28,5 milhões. Isto significa que o Corinthians, uma das locomotivas do futebol nacional, levaria apenas 2,4 vezes mais que um clube de torcida quase municipal. Nem assim agradando aos puristas, já que na Inglaterra a diferença fica na ordem de 1,5 vez

O mais impactante pode ser visto na coluna “Diferença”, que denota o quanto ganham ou perdem os clubes sob este novo ordenamento. Gigantes como Flamengo e Corinthians experimentariam sangria superior a R$ 40 milhões. Mas não só eles: São Paulo, Palmeiras, Santos e Botafogo teriam prejuízos de R$ 8 milhões a R$ 24 milhões. Em suma: clubes que representam metade da população nacional chafurdariam para encher os bolsos de Figueirense (R$ 18,1 milhões), Atlético-PR (R$ 16,8 milhões), Chapecoense (R$ 15,9 milhões) e – é lógico – o Sport (R$ 13,5 milhões), do estado do digníssimo parlamentar.

Mas a tabela permite simulações com base em outras divisões. Se ela fosse 50% esportiva, 25% igualitária e 25% audiências:

Fig 02

Neste caso, o “clube dos infelizes” teria a deficitária companhia da dupla Ba-Vi, rebaixada em 2014. O benefício viria ao campeão, com nada menos que R$ 21,3 milhões adicionais nos cofres do Cruzeiro. O Flamengo desabaria no mesmo montante da simulação anterior (R$ 47 milhões), recebendo menos que Corinthians, São Paulo e Cruzeiro. Mas a concentração aumentaria, com o líder faturando 4,2 vezes mais do que o último colocado.

Já no caso de 50% audiências, 25% esportiva e 25% igualitária:

Fig 03

Teríamos um cenário mais racional: os mesmos prejudicados do primeiro cenário com quedas menos acentuadas – a do Flamengo, de R$ 31,5 milhões. Por analogia, o maior beneficiado teria ganhos menos expressivos (R$ 12,1 milhões ao Atlético-PR). Nos três cenários – dado o peso dos resultados esportivos – o Corinthians seria líder, aqui angariando 4 vezes mais do que o Tigre de Santa Catarina.

E a opinião do Blog…

Já expusemos nossa opinião sobre a adoção do modelo inglês num texto denominado “Não existe “espanholização” no Brasil… no máximo uma “italianização”, quiçá “enfrancesamento”. Lá foi dito que em países cuja configuração de torcidas é bem conhecida – casos de Espanha, Itália ou do próprio Brasil – recursos são direcionados de maneira concentrada nos chamados “trens pagadores”.

Se não somos tão concentrados quanto os países citados, a configuração de torcidas no Brasil também não difere tanto. Por aqui, flamenguistas atingem cerca de 24% do universo de torcedores, ao cabo que a Juventus possui 29% e o Real Madrid, 37%. Quando Corinthians, São Paulo, Palmeiras e Vasco entram em cena, passam a representar 66% da torcida e inacreditáveis 80% entre jovens.

Soa razoável este complexo de Robin Hood, refutando ditames de mercado em meio a relações puramente comerciais entre entes privados?

Não, não soa.

E o Blog Teoria dos Jogos não está sozinho em sua posição. Segundo Emerson Gonçalves, autor do blog Olhar Crônico Esportivo, haveria muitas diferenças entre Brasil e Inglaterra – explicando a pouca similaridade entre os modelos adotados aqui e lá. Ele diz:

-No Brasil a TV já nasceu privada, tendo desde o início dependido do mercado publicitário para sobreviver e crescer. Muito porque se baseou no sistema de transmissão em canal aberto, gratuito e financiado por anunciantes que pagam em troca de visibilidade. Isto não aconteceu na Inglaterra, onde a TV nasceu pública e a publicidade veio bem depois.

Por isto, Emerson diz que “quando se negociam as transmissões do futebol no Brasil, é mais do que evidente que se busca a audiência”, presumindo não haver mal e refutando a adoção de modelos moldados por diferentes realidades.

Agradecemos a Christiano Candian e Emerson Gonçalves, convidando os leitores para mais esta reflexão acerca de um tema que nunca sai de pauta.

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Distorções na Tabela do Brasileirão – versão 2014/2015

Há dois anos o Blog Teoria dos Jogos lançou o alerta: alguns integrantes da Série A podiam ser prejudicados ao verem suas partidas como mandantes muito concentradas nos piores dias, contrastando com a realidade dos rivais. A análise de 2013 – cujo título era o mesmo desta coluna – repercutiu bastante. Fontes próximas ao Blog atestaram a atuação de grandes clubes nos bastidores (junto à CBF), visando influir nas tabelas dos torneios subsequentes.

De lá pra cá muita coisa mudou? É o que analisaremos.

Inicialmente, faz-se necessário esclarecer uma interessante característica da audiência esportiva no Brasil: enquanto o futebol tem mais público pela TV nos dias úteis, aumenta o público nos estádios em fins de semana. Trata-se de algo facilmente verificável com base nas audiências divulgadas semanalmente pelo Blog Teoria dos Jogos no Twitter, bem como estabelecendo um recorte das médias de público do Campeonato Brasileiro.

Média geral de público – Brasileirão-2014:

Fig 01

Média de público – fins de semana (BR-2014):

Fig 02

Média de público – dias de semana (dias úteis – BR-2014):

Fig 03

O Blog Teoria dos Jogos agradece e credita o levantamento das informações (assim como a elaboração das tabelas) a Minwer Daqawiya, publicitário e colaborador do site Grêmio Libertador.

Parece óbvio o benefício financeiro (em termos de maiores bilheterias) dado aos que jogaram mais em casa nos fins de semana. Considerando que 27 das 38 rodadas se deram aos sábados e domingos, temos como padrão o percentual de 71%. Equipes que tiverem atuado menos do que isto aos fins de semana aparecem marcadas em tons de vermelho e amarelo –  eis os prejudicados. Em direção oposta, marcamos os beneficiados em tons de verde. Segue a distribuição:

Fig 04

Na comparação com o ano retrasado, percebe-se que o Corinthians, maior beneficiado à época (84%) teve seus jogos realocados, passando à condição de prejudicado. Em 2014 os paulistas apresentaram percentual de 63%, melhor apenas que os 58% do Coritiba. No outro extremo, Atlético-PR (89%), Atlético-MG e Internacional (84%) gozaram do benefício das bilheterias em níveis superiores aos demais.

A análise também pode se estender ao Brasileirão 2015, com a limitação de que a tabela só foi totalmente aberta até a 10ª rodada:

Fig 05

A parcialidade enviesa a análise. Até a 10ª rodada, alguns terão feitos apenas quatro jogos em casa, frente a outros com até seis. De qualquer maneira, Coritiba, Flamengo, Goiás, Internacional, Ponte Preta e Santos largam na frente, com todos os seus jogos em casa nos fins de semana. Já o Fluminense fará apenas metade deles no Maracanã.

Mediante as vinte diferentes realidades da Série A, soa impossível administrar tabelas de modo a igualar o percentual de todos. Mas ao trazer a público comparações intertemporais, o Blog Teoria dos Jogos monitora a existência ou não de benefícios/prejuízos sistemáticos para este ou aquele. Por ora, as distorções não parecem tão relevantes.

Um grande abraço e saudações!

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A situação das CND’s dos clubes

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“Muito se tem comentado ultimamente sobre a regularidade fiscal dos clubes de futebol. O texto da Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte (LRFE) prevê o rebaixamento de divisão caso o clube não apresente as certidões antes do início dos campeonatos. Além disso, para poder receber recursos públicos em forma de patrocínio ou incentivos fiscais, as certidões negativas (ou positivas com efeito de negativa) são pontos de partida.

Em geral, a regularidade comprovada em 6 certidões são o mínimo necessário, tanto para a LFRE quanto para patrocínios públicos: Certidão Conjunta de Tributos Federais, Certidão de Débitos Trabalhistas, Previdenciária, de regularidade com o FGTS, regularidade com os tributos estaduais e com os tributos municipais.

Resumidamente, são três as situações básicas em que os clubes podem estar enquadrados:

Certidão negativa, quando não há pendências cadastrais ou débitos em nome da instituição;

Certidão positiva com efeito de negativa, quando o clube possui parcelamento ativo sem parcelas em atraso, participantes de Refis ou tendo débitos com exigibilidade suspensa, e;

Certidão positiva, quando há débitos perante o órgão público que emitirá o documento.

A certidão conjunta de Tributos Federais e Trabalhista estão disponíveis na internet e podem ser consultadas por qualquer cidadão. Em razão disso, o Balanço da Bola decidiu pesquisar a situação dos 20 clubes da série A do Campeonato Brasileiro além do Vasco da Gama no dia 13/8/2014, conforme demonstrado no quadro abaixo:

Clube Consulta em 13/8/2014
Conjunta Trib. Fed. (validade) Débitos Trabalhistas
Corinthians 04/02/2014 Positiva
São Paulo 19/08/2014 Positiva com efeito de negativa
Santos *1 Positiva com efeito de negativa
Palmeiras *1 Positiva com efeito de negativa
Flamengo 11/11/2014 Positiva com efeito de negativa
Vasco *1 Positiva
Fluminense *1 Positiva
Botafogo *1 Positiva
Atlético Mineiro *1 Positiva
Atlético Paranaense 16/08/2014 Positiva com efeito de negativa
Bahia *1 Positiva
Coritiba *1 Positiva com efeito de negativa
Cruzeiro *1 Positiva com efeito de negativa
Goiás *1 Positiva com efeito de negativa
Grêmio 25/08/2014 Positiva
Internacional *1 Negativa
Vitória *1 Positiva
Figueirense 04/01/2015 Negativa
Sport Recife 26/11/2014 Positiva com efeito de negativa
Criciuma 05/01/2015 Negativa
Chapecoense 04/02/2015 Negativa
*1 – Informações insuficientes para emissão da certidão

Pelo quadro acima pode-se constatar que:

1 – Se a Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte estivesse em vigor, apenas sete clubes estariam aptos a disputar o Brasileirão: São Paulo, Flamengo, Atlético-PR, Sport, Figueirense, Criciúma e Chapecoense, sendo que apenas os três últimos possuem certidões negativas propriamente ditas;

2 – Santos, Palmeiras, Coritiba, Cruzeiro, Goiás e Internacional estariam impedidos por não apresentar a certidão da Receita Federal. Corinthians e Grêmio, por não apresentar a trabalhista. Vasco, Fluminense, Botafogo, Atlético-MG, Bahia e Vitória não estão regulares em nenhuma das duas;

3 – Dos clubes patrocinados pela Caixa Econômica Federal, Vitória e Coritiba na série A e Vasco na série B não conseguiriam receber os recursos de patrocínio na data pesquisada. Além deles, Internacional e Grêmio também possuem contratos com um banco público e estariam irregulares.

Por uma análise preliminar, tendo em vista que foram consultadas apenas duas das seis certidões necessárias, pode-se constatar que a contrapartida exigida pela LFRE aos clubes ainda está longe de ser atingida. No calor da necessidade de obtenção do refinanciamento ou talvez entendendo que essa obrigação não será exigida pela CBF, clubes estão assumindo uma obrigação que muito provavelmente não conseguirão cumprir. Fica, portanto, a impressão de que a exigência será apenas mais uma letra morta entre nossas diversas leis e regulamentos.”

Um grande abraço e saudações!

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O porquê do caos botafoguense

As tabelas desta coluna se baseiam no paper “7º VALOR DAS MARCAS DOS CLUBES BRASILEIROS”, elaborado pela BDO Brazil e publicado pouco antes da Copa. Tanto o ranking de “Endividamento” quanto o de ”Valor das marcas” tem a consultoria como fonte. As correlações são de autoria do Blog Teoria dos Jogos.

Três meses de salários atrasados, cinco de direitos de imagem. Cem por cento das receitas bloqueadas e uma possibilidade real de debandada. Eis o panorama catastrófico que ronda um dos clubes mais tradicionais do Brasil: o Botafogo de Futebol e Regatas. Tecnicamente, pode parecer similar ao verificado nos demais clubes do Rio de Janeiro. Mas a verdade é que a crise alvinegra se aproxima, sim, do pior que já pode ser visto. Quem diz isto é a capacidade financeira do Botafogo, medida de maneira preocupante pela frieza dos números.

INTRODUÇÃO

De uma maneira geral, pessoas, clubes de futebol ou países podem dever mais do que arrecadam. Pense em alguém que financia um apartamento: É certo que o valor do imóvel representa inúmeras vezes seu ordenado. Isto faz com que o importante sejam as condições com que o empréstimo será tomado (baixa taxa de juros e longo horizonte temporal). O mesmo se aplica a países, onde há casos de dívidas superiores ao próprio PIB.  Em suma: dever é possível, desde que não haja credores batendo à porta.

Este é o problema dos clubes de futebol: boa parte de seus débitos são de médio e curto prazo. Dívidas trabalhistas, por exemplo, fazem com que se recorra à Justiça com vitória relativamente rápida e correções sufocantes. Sendo um péssimo negócio, os clubes historicamente recorreram ao governo – cujos impostos podiam sonegar. Assim surgiram volumosas dívidas de diversas naturezas. Décadas de vistas grossas deseducaram cartolas, até que o montante se tornou tão massivo que algo precisou ser feito.

Onde entra o Botafogo nesta história? Além de ser onde as condições se deterioraram mais rápido – como no caso da exclusão do Ato Trabalhista – o Glorioso é, de longe, o clube com pior capacidade de arcar com seus débitos.

ENDIVIDAMENTO/RECEITA

Uma as formas de se medir a saúde financeira dos clubes é a proporção entre sua dívida (o que tem a pagar) e seu faturamento (arrecadação em uma temporada). No caso brasileiro, o ordenamento é o seguinte:

Fig 01

Detentor da segunda maior dívida, o Botafogo surge apenas como 11ª maior receita. Isto fez com que ele devesse 4,52 vezes o que arrecada num ano, a maior (e pior) proporção do Brasil. A única a chegar perto é a Portuguesa (deve 4,25 o que arrecada), mas o montante alvinegro se encontra em outro patamar. Entre os grandes, Fluminense (3,39) e Vasco (3,25) são os que se aproximam desta caótica situação, escancarando a histórica irresponsabilidade gerencial no Rio. Também prejudicado pelo enorme volume, o Flamengo (2,78) surpreende pela melhor capacidade de arcar com sua dívida – a maior do Brasil em termos absolutos. No extremo oposto, São Paulo (0,69) e Internacional (0,88) navegam em águas tranquilas: devem menos do que arrecadam em uma única temporada.

VALOR DAS MARCAS/ENDIVIDAMENTO

Onde residem as esperanças? Geralmente em refinanciamentos a perder de vista, mas não deveria ser assim. Em tempos de responsabilidade gerencial, a esperança reside na capacidade de alavancar receitas. Com base no valor atribuído a cada marca, calculamos qual seria o potencial gerador de novos negócios por parte dos clubes. Nesta área, a situação do Botafogo não é menos delicada:

Fig 02

Ao contrário da tabela anterior, aqui o “endividamento” se encontra no denominador. Em outras palavras: quanto menor, pior. Adivinhem onde se encontra o Botafogo? Justamente na última posição! Os dados acima significam que a marca alvinegra vale apenas 18% do total devido. Fluminense, Vasco e Atlético-MG também devem mais do que valem suas marcas – e mesmo nesse grupo a situação botafoguense é alarmante. Novamente o Tricolor Paulista surge como um dos mais saudáveis (3,38 vezes mais valioso que sua dívida), agora atrás do Corinthians (5,72), clube em melhor situação do país.

O CAMINHO

Se o endividamento como percentual da receita é alto; se a capacidade de alavancar é baixa, não há escolha além de cortar na carne. O Botafogo precisará, assim, se desfazer de seu patrimônio (inicialmente, jogadores). Mas um elenco avaliado em R$ 90 milhões não seria solução nem com o completo desmanche. Assim, o único caminho passa pela contribuição da torcida.

Sempre fui contra o crowdfunding por considerá-lo prova cabal da incapacidade em gerar receitas oficiais. Mas minha relutância tem limite, e ele é atingido quando o caos beira a falência – ou o abandono do campeonato. Diante do exposto, a torcida do Botafogo tem em mãos uma campanha organizada por um grupo de torcedores bem intencionados, a Botafogo Sem Dívidas (http://www.botafogosemdividas.com.br/). Campanhas geradoras de DARF’s são recomendáveis pela segurança quanto à destinação dos recursos. No caso do Botafogo, a recomendação torna-se vital.

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