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Opinião: por que os jogos Rio-2016 são necessários

Fig 01

De novo aquela mesma história: o país em profunda crise investindo uma fábula em estruturas esportivas de legado questionável. Nenhuma externalidade positiva no tocante ao meio ambiente, dados os fracassos da despoluição da Baía da Guanabara e das lagoas da cidade. Laboratório anti dopagem descredenciado após vultosos investimentos em sua implementação. Completo mau humor político em meio a um processo de impeachment presidencial. Críticas internacionais só menos ferinas do que aquelas feitas pela nossa própria população – há muito contrária à realização de grandes eventos. Obras atrasadas, inaugurações pouquíssimo tempo antes do acendimento da tocha e sem o devido período de testes. Violência. Desemprego. Caos. O cenário brasileiro a pouco mais de um mês dos Jogos Rio-2016 parece, como sempre, vocacionado ao desastre.

Diante deste panorama, soa um despautério se manifestar a favor da realização das Olimpíadas em solo brasileiro. Afinal, “não tem saúde, não tem educação”. Não tem nem salário do funcionalismo público estadual em plena sede do torneio. Mas o Blog Teoria dos Jogos é a favor da realização dos Jogos Rio-2016. E desde que você já não esteja armado até os dentes, nos prontificamos a explicar o porquê.

Em primeiríssimo lugar, não seríamos insensíveis ou alienados a ponto de nos posicionarmos desta maneira sob qualquer circunstância. Se naquele longínquo 2009 – quando houve a eleição do Rio em detrimento de gigantes como Chicago, Tóquio e Madri – o Brasil apresentasse qualquer sintoma da doença terminal que o acometeria anos depois, os Jogos Olímpicos deveriam ser mandados às favas. É fato, afinal, que existem outras prioridades. Mas infelizmente não foi o que aconteceu, e poucos imaginavam que o governo petista pós-2010 – através da eleição de Dilma Rousseff – destruiria o país como de fato o fez. Portanto, o primeiro argumento é: não há o que fazer contra as Olimpíadas. Eles são uma realidade com a qual cada um dos 200 milhões de brasileiros precisam conviver. Com maturidade.

Em segundo, inexistem paralelos a serem feito entre o maior evento esportivo do planeta, que se iniciará em breve, e seu maior campeonato de futebol – a Copa do Mundo, também jogada por aqui recentemente. A justiça norte americana explicitou ao mundo o quão bandidos são os dirigentes da FIFA, de confederações continentais e nacionais (entre elas a CBF), encalacrando um sem número de cartolas por crimes de corrupção. Até onde se sabe, e apesar de existirem caixas pretas a serem descobertas, o mesmo não se passa no Comitê Olímpico Internacional. Ou seus dirigentes teriam o mesmo destino.

Nunca houve por parte da FIFA qualquer preocupação com a permanência de um legado, tanto que as obras demandadas eram somente as caríssimas e superfaturadas arenas de futebol. Apenas por isto as cidades-sede eram cobradas. Algo diferente se passa com os Jogos Olímpicos. Até por concentrar um número inacreditável de atletas, jornalistas e turistas numa única cidade (segundo estimativas, mais de 500 mil este ano), existem profundas preocupações com relação a logísticas de natureza hoteleira, de transportes e segurança. Gerando fortes cobranças quanto à implementação destes planos de ação.

Neste sentido, Jogos Olímpicos e Mundial da FIFA diferem como água e óleo. Enquanto o torneio de 2014 teve dispêndios 100% públicos, o desse ano apresenta mais da metade dos investimentos de natureza privada. Ao cabo que a Copa só se preocupou em erguer estádios, as Olimpíadas promovem uma verdadeira revolução no tocante à mobilidade urbana e paisagística da cidade. Elefantes brancos da Copa foram trocados por estruturas desmontáveis no evento do COI. Mesmo com atrasos e alguns projetos finalizados após os Jogos, o fato é: com as Olimpíadas, e apenas por causa delas, tais projetos saíram do papel. Ou há alguns anos era possível imaginar um Rio de Janeiro com:

-Metrô até a Barra da Tijuca;

-Uma nova via expressa (Transolímpica), duas décadas após a construção da última (Linha Amarela);

-A Perimetral no chão e uma nova via composta pelo maior túnel subterrâneo do Brasil;

-A revitalização da região portuária, com um passeio público se estendendo por quilômetros e levando a uma das atrações turísticas mais impressionantes da cidade, o Museu do Amanhã, de Santiago Calatrava. Além de futuros bares e restaurantes;

-A modernização do Centro, recortado por modernos VLTs e desafogado do tráfego de ônibus e carros;

-A implementação de quatro corredores de BRTs, totalizando 150 kms, 165 estações e interligando aeroportos, metrô, trens e VLT;

-A duplicação do Elevado do Joá?

É óbvio que não deveria haver necessidade de uma localidade receber evento internacional para presentear seus cidadãos com direitos tão básicos quanto estruturas de transportes e lazer. Também não parece razoável que todo um país financie obras focadas numa única cidade, como vem acontecendo por conta dos repasses do governo federal ao Rio. Mas a verdade é que infelizmente é assim que as coisas acontecem no Brasil. Se a seletividade dos investimentos o direcionam à mais conhecida referência internacional do país, devemos exigir que estes valham a pena, pois o fomento ao turismo na porta de entrada presume importante capacidade multiplicadora país afora.

Por fim, temos ainda o lado esportivo. E a antologia de, pela primeira vez, a América do Sul receber a maior festa do esporte mundial. As Olimpíadas são único evento a fazerem com que todo o planeta, sem exceções, direcione olhares para uma única cidade ao longo de quinze dias. Em face das dificuldades enfrentadas pelo país e pelo povo brasileiro em geral, parece besteira. Mas não foram poucos aqueles que, após bradarem e se insurgirem contra a realização da Copa, se arrependeram amargamente por não terem adquirido ingressos. No fim das contas, esqueceu-se que haveria, sim, Copa do Mundo – e que ela é um acontecimento de proporções magnânimas. Seria lamentável que arrependimento similar acometesse nossa população pela segunda vez.

Nada, nem uma linha sequer de todo o exposto, pode nos fazer esquecer das mazelas que envolveram e envolvem a realização dos Jogos Olímpicos. Assim, que tal pensarmos em trancafiar sem piedade os irresponsáveis que permitiram a queda de uma ciclovia recém construída, ceifando duas vidas? O que acham de investigar, identificar e punir àqueles que desviarem cada centavo do dinheiro público empregado nas obras – já que muitas empreiteiras estão envolvidas com a Lava Jato? Se a Operação abriu o maravilhoso precedente da punição aos ricos e poderosos, não há razões para ser diferente. Mais: por que não enterrarmos a carreira política daqueles que vivem de fazer promessas não cumpridas que só nos fazem humilhar perante a opinião pública global? O caso da despoluição da Baía da Guanabara serve como ótima referência.

Apoiar as Olimpíadas no Brasil não significa, em absoluto, agir com conivência quanto a suas mazelas. Ou com falta de sensibilidade perante a tudo que lhe é inerente. Quando a verdadeira redoma de excelência deixar o Rio, ao final dos Jogos, restará a velha e desprivilegiada população carioca a lutar contra a violência que marca seu dia-a-dia. Condição que faz dela a heroína da resistência nesta história.

Apoiar as Olimpíadas no Brasil é apenas compreender que a análise racional reduz os paralelos com relação ao pior que já tivemos. Que o brasileiro tem muito a aprender, mas que também pode ensinar, em meio à saudável e pacífica convivência entre povos, há mais de um século fomentada pelo espírito olímpico. E é também vislumbrar que, apesar dos muitos pesares, sairemos desta com um Rio de Janeiro muito melhor do que entrou, servindo de espelho do que se deve – e principalmente não se deve – projetar para o resto do país.

Um grande abraço e saudações!

E-mail da coluna: teoriadosjogos@globo.com

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