OPINIÃO: Da devastação ao auge em dois atos

 

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Os últimos dias reservaram para nós, brasileiros, uma sequência de tragédias e superações que nem de longe imaginaríamos enfrentar. Na madrugada de terça-feira, o impacto de um avião lotado de sonhos e esperanças ceifou a vida de um time de futebol inteiro, numa colina próxima a Medellín. Levando junto seu corpo técnico e diretivo, além de mais de 20 jornalistas, renomados e anônimos, experientes e iniciantes. No total, incluídos os tripulantes bolivianos (país de origem da aeronave), foram ceifadas 71 vidas.

Dos destroços, se fizeram o primeiro gigante: a Associação Chapecoense de Futebol. Agremiação de existência recente, não tanto quanto a guinada que levou à sua ascensão meteórica. A caminho da Colômbia, jogaria a primeira final continental de sua história. Mais: da história de Santa Catarina – denotando importância não apenas para uma cidade, hoje em destroços, como para toda a região. Ou mesmo para o país, simpáticos que sempre fomos ao “Verdão do Oeste”.

O desaparecimento da Chape, agora sem elenco para jogar, ironicamente fez dela o maior clube do planeta. Vide as homenagens mundo afora, vindas dos maiores ídolos, das principais equipes e suas ligas. A imprensa estrangeira, em linha com a nacional, passou a só falar da Chapecoense, vítima da pior tragédia da história de uma equipe esportiva.

Das lágrimas, um oceano de afeto. E desta solidariedade – que gerará ajuda financeira e imunidade competitiva aos guerreiros Condá – surgiram os maiorais. Únicos conseguirem a façanha de unir este universo de rancores e intolerâncias chamado futebol.

Pois não é que apenas dois dias depois, a devastação deu lugar ao auge? Sim, o auge. O auge da humanidade neste ano nefasto, marcado por tragédias, conflitos e maracutaias. Marcado por tanto deboche. O apogeu se deu pelas mãos colombianas, um país que se viu envolvido numa tragédia sem perder nenhum sequer dos seus. Mas que se dedicou sobremaneira ao resgate e tratamento das vítimas. O auge se deu também através das mãos da torcida do Atlético Nacional de Medellín – representando e representado por todo o povo colombiano. Responsáveis que foram pelo mais emocionante tributo já prestado ao Brasil em 516 anos de existência.

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A homenagem aconteceu no estádio Atanasio Girardot, no exato momento em que aconteceria a primeira partida da final da Copa Sulamericana entre Atlético e Chapecoense. Uma quantidade fenomenal de pessoas lotou não somente as arquibancadas como as avenidas no seu entorno. Todas de branco, orando e cantando a Chapecoense. Prestando louvor aos que se foram. E exaltando o Brasil – sim, o Brasil. Tido por eles como espelho e referência em muitos dos inúmeros discursos emocionados.

Deste espetáculo de amor e compaixão, fez-se o segundo maior time do mundo: o Atlético Nacional de Medellín, coincidentemente verde como os nossos. E desde então, ocupante de um espacinho no coração de milhões de brasileiros que jamais imaginariam ser confortados assim, de maneira tão genuína e espontânea.

A partir de agora, os dois gigantes seguem caminhos opostos: o Atlético, rumo ao topo, ao Mundial de Clubes – campeão da Libertadores que é. Já a Chape, a caminho de uma reconstrução que pode e deve ser assumida por cada um de nós. Em comum a ambos, uma ligação, agora visceral, umbilical. E eterna.

Se formos inteligentes, extrairemos destes episódios lições das mais valiosas. A cumplicidade, o amparo e o respeito, renegando rixas, rancores e toda sorte de violências. Ainda que haja uma Floresta Amazônica separando a si dos coirmãos. Nobres ensinamentos dos nossos inesquecíveis amigos colombianos.

E-mail da coluna: teoriadosjogos@globo.com

Ajustando expectativas contra o maior jejum em 20 anos

Muito já se falou a respeito do processo de resgate da credibilidade do Clube de Regatas do Flamengo, assim como o que vem a reboque: fortalecimento das finanças, modernização da estrutura física, implantação de preceitos de governança, etc. No fim das contas, os objetivos daqueles que defendem a austeridade convergem até com o intuito dos mais irresponsáveis: vencer. Conquistar títulos. E recolocar o Flamengo na trilha dos mais vitoriosos do Brasil e da América do Sul.

Completadas quatro temporadas da administração Eduardo Bandeira de Mello, já se pode fazer um balanço acerca das metas atingidas. Sem sombra de dúvidas, positivo: o Flamengo não apenas equacionou seu passivo como elevou sobremaneira o faturamento, fazendo com que, pela primeira vez, a relação receita/dívida se tornasse unitária. O que, pouco a pouco, liberou recursos para investimentos no futebol, culminando na montagem de um elenco competitivo e na terceira/segunda colocação ao final do Brasileiro 2016. Nada mal.

O problema é a outra face da moeda. Ouve-se desde 2013 que “ano que vem tem tudo para ser o ano do Flamengo”. Nesta toada, o clube vem se aproximando perigosamente de uma estatística pra lá de negativa. Após dois títulos nos dois primeiros anos deste mandato (2013 e 2014), o Rubro Negro fecha o biênio 2015-2016 sem levantar nenhuma taça. Caso as boas expectativas para 2017 não se confirmem, o clube igualará uma sequência sem títulos que só teve paralelo há 20 anos, quando o Estadual-1996 interrompeu seca que durava desde 1993. Vejamos:

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OBS: Apenas títulos de torneios oficiais e relevantes foram considerados

A questão é que o Flamengo é um clube diferente, desacostumado a passar sem títulos mesmo nos piores momentos institucionais ou financeiros. Corinthians, Botafogo, Palmeiras e Grêmio, por exemplo, viveram extraordinárias secas que variaram (ou ainda variam) entre uma e duas décadas. Já o Fla não costuma passar de dois anos. O ritmo se manteve até na década mais vitoriosa: aprofundando a retrospectiva, veremos outras duas estiagens: 1984-85 e 1988-89. Um 2017 sem títulos, portanto, remeteria o Flamengo aos tempos de vacas magras das décadas de 60 e 70, quando passava longe de fazer frente aos principais adversários.

Preocupa o fato de a maior parte do investimento planejado para 2017 ter sido adiantado, muito para contratar atletas que não se firmaram como Donatti, Cuellar ou Mancuello. Por outro lado, boas aquisições como Alex Muralha e Diego podem se somar a outras, cirúrgicas, que devem ser feitas visando compor os 11 principais. Além do mais, desde a assunção de Bandeira & Cia, era exatamente 2017 o ano mirado como ponto de inflexão nas potencialidades do clube.

De renomada competência financeira e jurídica, mas tida como frágil no gerenciamento do futebol, esta diretoria terá, a partir de 2017, a chance de reescrever sua história dentro dos gramados. Tendo a Libertadores como meta – após dois anos consecutivos fora, algo que não aconteceu após a conquista da Copa do Brasil em 2006. Sendo assim, pela primeira vez o Flamengo disputará a principal competição do continente com elenco digno de sua robustez financeira. Desculpas, definitivamente, não serão mais aceitas.

Um grande abraço e saudações!

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A Pesquisa da Vez: Campinas 2016 – Tira teima EXCLUSIVO

Detalhamento da pesquisa;

Localidade: Campinas/SP, em 20 de setembro de 2016

Instituto: GPP (www.gpp.com.br)

Amostra:  601 entrevistados

Margem de erro: 4 p.p

Nós avisamos que costumava dar problema. Em coluna postada no dia 29/09/2016, trouxemos as tabulações exclusivas de uma pesquisa do Instituto Pró Pesquisa contendo a configuração de torcidas da cidade de Campinas. No texto, advertíamos para o fato de profissionais da área evitarem a cidade, dadas as enormes polêmicas que por lá se alavancavam. Foi exatamente o que aconteceu. A ponto de a diretoria do Guarani, indignada com a enorme disparidade com relação à Ponte Preta, se insurgir contra a pesquisa e sua contratante – a Brasil Kirin, patrocinadora da rival. A polêmica chegou ao ponto de incitarem a torcida a não consumir produtos da empresa, detentora da marca Schincariol no Brasil. As coisas em Campinas não são fáceis.

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A razão da controvérsia foram os números que atribuíram ao Bugre apenas 3,4% da torcida na cidade. Menos do que Santos (4,2%), Palmeiras (7,9%), São Paulo (9,7%), Corinthians (21,7%)… e o pior, menos do que a Macaca e seus 19,8%. Eis o drama: uma Campinas com quase seis vezes mais torcida da Ponte diante do Guarani.

Como dizia o poeta – e exacerbando sua conotação automobilística – carreras son carreras. Um sem número de razões pode justificar os números de uma pesquisa, desde elementos metodológicos e amostrais, até a margem de erro ou outros fatores. Fato é que, diante do ocorrido, o Blog Teoria dos Jogos solicitou ao seu principal parceiro histórico – o Instituto GPP, com escritório em Campinas – um tira-teima das torcidas na cidade. Fomos atendidos. E anunciamos os tão aguardados resultados:

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Por ora, ignoremos os resultados globais, pois fica difícil não direcionar o foco à dicotomia Ponte-Guarani. Diferente dos números a pesquisa anterior, o GPP aponta uma Ponte Preta menos de duas vezes maior do que o Guarani: 12,1% para a Macaca, 6,3% para o Bugre. Números que, ainda assim, deixam evidente a preponderância do clube em décadas recentes. Ao mesmo tempo, o Guarani teria números nada desprezíveis na comparação com as demais torcidas da cidade. De fato, pela ótica do GPP, elem seriam seria a quarta maior torcida, à frente de Flamengo (3,1%), Palmeiras (5,6%) e Santos (6,1%). Ainda assim, atrás do São Paulo (11,6%) e do Corinthians (20,7%).

Além de sacramentar a hegemonia do alvinegro do Parque São Jorge, os números trariam apenas uma reversão significativa: o Santos à frente do Palmeiras. Nunca devemos, no entanto, esquecer da margem de erro que coloca os rivais em situação de empate técnico. Fora isto, podemos destacar: 1) a semelhança dos números da Pró Pesquisa na comparação com o GPP para todos os times que não Ponte e Guarani – com variações sempre inferiores a dois pontos percentuais; 2) a razoável posição ocupada pelo Flamengo na pesquisa GPP, em percentual atribuído pela Pró Pesquisa ao próprio Guarani.

Feitas estas análises, vamos aos resultados por gênero, faixa etária, escolaridade e renda:

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Observando a distribuição por sexo, vemos que apenas São Paulo e Flamengo possuem mais mulheres do que homens em seus quadros. Dentro do universo masculino, o Corinthians amplia a vantagem perante a Ponte, indo a 24,3% contra 15,4% da Macaca. Ainda em meio a eles, o Tricolor do Morumbi atinge 10,2% e o Santos surpreende ao ultrapassar o Guarani (8,8% a 8,6%).

Por idade:

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Aqui, não restam dúvidas: a juventude campineira é corintiana e são paulina. Dentre aqueles de 16 a 24 anos, a dupla marca expressivos (e respectivos) 30,2% e 18%. Tanto Ponte quanto Guarani atingem seu auge na faixa de 35 a 44 anos (17,6% e 9,1%). Daí até os mais jovens, o enfraquecimento é flagrante – especificamente para o Guarani (3,5%), superado pelo Santos (4,8%) e até pelo Flamengo (3,8%). Ao lado do Bugre e do Peixe, o Palmeiras perde força à medida com as torcidas se renovam.

Por instrução:

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O maior crescimento entre torcedores com nível superior pertence ao Guarani. O Bugre, que nos números globais marca 6,3%, sobe a 12,1% entre os mais escolarizados. As únicas massas a também crescerem neste recorte são as de Ponte (14,7%) e São Paulo (12,3%).

Por poder aquisitivo:

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Aqui, um fenômeno semelhante ao da análise anterior: crescimento de Ponte e Guarani entre os mais ricos. De 9,1% entre aqueles que recebem menos e um salário-mínimo, a Ponte salta para 21,2% entre os que percebem mais de cinco salários. Constitui-se, assim, como torcida de maior capacidade financeira em Campinas. O Guarani vai de 2,3% a 7,2%. Em direção oposta, Corinthians (26,7%) e São Paulo (14,7%) tem amplo predomínio em meio aos mais pobres.

Um grande abraço e saudações!

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A Pesquisa da Vez: Belo Horizonte 2016 (Instituto Giga vs Datafolha)

Como costuma acontecer a cada dois anos, o período eleitoral deixou algumas preciosidades como externalidades positivas, de carona nas inúmeras pesquisas eleitorais contratadas e divulgadas ao longo dos últimos meses. Talvez pelo perfil de sua disputa – envolvendo um ex-goleiro e um ex-presidente do Clube Atlético Mineiro – Belo Horizonte acabou agraciada com pesquisas que elaboravam o cruzamento da preferência clubística com as intenções de voto. Após ter acesso às pesquisas de dois diferentes institutos, o Giga e o Datafolha, o Blog Teoria dos Jogos vem a público promover uma comparação entre seus números, a fim de melhor compreender a paixão dos belorizontinos por seus clubes.

Primeiramente, vamos ao serviço da pesquisa do Instituto Giga, realizada antes do primeiro turno do pleito na capital. Lembrando que suas tabulações foram feitas de maneira exclusiva e a pedido do Blog.

Localidade: Belo Horizonte/MG, entre 23 e 25 de setembro de 2016

Instituto: Giga

Amostra:  600 entrevistados

Margem de erro: 4 p.p

Já a pesquisa Datafolha foi a campo há algumas semanas, no contexto do segundo turno das eleições:

Localidade: Belo Horizonte/MG, em 25 de outubro de 2016

Instituto: Datafolha

Amostra: 1.119 entrevistados

Margem de erro: 3 p.p

NÚMEROS GERAIS

Instituto Giga

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Datafolha

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Percebam que a ordem de grandeza dos números apresentados pelos institutos varia, mas não o ordenamento entre as torcidas. Isto significa que, para ambos, o Cruzeiro detém a maioria na capital (36% segundo o Giga, 40% de acordo com o Datafolha), seguido do Atlético (33% e 38%, respectivamente). Nos dois casos, Raposa e Galo se encontram em empate técnico, justificando pesquisas anteriores que deram maioria apertada ao Atlético. Para ambos, a terceira torcida é a do América, que converge a 2% das preferências. Segundo o Giga, “Outros clubes” somam 5%, superiores aos 3% do Datafolha (onde o Flamengo é tido como detentor de 1%). Contudo, quando separa as preferências segundo os distritos do município, os números do Instituto Giga passam a se assemelhar aos da concorrente:

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Barreiro e Venda Nova não são exatamente bairros, mas sim distritos de Belo Horizonte. Outrora afastados, hoje se encontram conurbados à metrópole, sem maiores diferenciações com relação aos bairros da capital. Não se sabe exatamente quantas entrevistas foram feitas em cada um (suas populações são bastante inferiores), mas o fato é que os 10% de “Outros” em Venda Nova acabaram enviesando a amostra. Isolando-se apenas as entrevistas em Belo Horizonte, o ranking fica: Cruzeiro (35%), Atlético (34%), América (2%) e Outros (3%). Aí, a diferença fundamental acaba recaindo sobre o percentual de pessoas sem clube. No Datafolha elas são apenas 16%, mas no Instituto Giga batem 24% – algo que certamente tem relação com diferenças metodológicas adotadas pelas empresas.

Em resumo: Cruzeiro e Atlético possuem torcidas em escala quase idêntica na capital, com leve tendência a favor do clube celeste. Ainda em se tratando de Belo Horizonte, o América supera Flamengo e Corinthians, que só vem a fazer real diferença por conta do tamanho de suas torcidas no interior do estado.

POR SEXO

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Temos aqui um descolamento com relação ao que dizem as duas pesquisas. Segundo o Instituto Giga, o número de homens cruzeirenses seria muito maior do que o de atleticanos, sendo o fiel da balança após o equilíbrio nas preferências femininas. Já de acordo com o Datafolha, o equilíbrio é permanente, com o Cruzeiro superando o Atlético por dois pontos percentuais em ambos os gêneros. Mas há um ponto em comum: a existência de um número muito maior de torcedores de outros clubes no universo masculino. Segundo o Giga, eles somariam 7%, enquanto o Datafolha indica 6% (sendo 1% de Flamengo e 1% de Corinthians).

Em resumo: os homens de BH, ainda que majoritariamente torcedores de Galo e Raposa, tem maior tendência a optarem por clubes de fora do que as mulheres da cidade.

POR IDADE

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De um modo geral, as duas pesquisas mostram o Cruzeiro maior entre jovens e o Atlético superior entre pessoas com mais idade. Mas isto só acontece de maneira geral, pois existem pontualidades em direções contrárias. Por exemplo, segundo o Instituto Giga, o Galo supera a Raposa entre os mais jovens (42% a 35%), num movimento mais do que compensado pela esmagadora maioria cruzeirense na segunda faixa etária (52% a 26%). Já o Atlético teria mais torcida em duas das três faixas acima dos 35 anos. Enquanto isto, as estatísticas do Datafolha são mais cristalinas, apontando o Cruzeiro sempre maior nas faixas de 16/24 e 25/34 anos. No entanto, nas três faixas com mais idade, o Galo é maior em uma (35 a 44) e a Raposa em outra (mais de 60), havendo empate no recorte de 45 a 59 anos (40% a 40%). América e Flamengo são maiores entre os mais velhos, ao passo que o Corinthians “surge” entre a garotada.

Em resumo: A torcida do Cruzeiro é maior entre os mais jovens.

POR RENDA

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Aqui, a estatística onde menos recaem dúvidas. Tanto Giga quanto Datafolha concordam que, até cinco salários-mínimos, a torcida do Cruzeiro é sempre maior do que a do Atlético. De 5 a 10 salários, o Giga aponta empate (41% a 41%), enquanto o Datafolha já identifica ultrapassagem alvinegra (44% a 41%). Acima de 10 salários, o Galo dispara: 38% a 33% no Giga, 47% a 38% no Datafolha.

Em resumo: A torcida do Atlético possui, sem sombra de dúvidas, maior potencial de renda do que a do Cruzeiro.

Um grande abraço e saudações!

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Pesquisas antigas e a importância de se fazer as perguntas corretas

Tudo começou com o jornalista Cássio Zírpoli, autor de um blog no Diário de Pernambuco cuja pegada é parecida à do Blog Teoria dos Jogos no que se refere às pesquisas de torcida. O enfoque: pesquisas realizadas pelo Ibope em Pernambuco e em regiões metropolitanas, entre os anos de 1969 e 1971. A descoberta do material é atribuída ao colaborador do Blog Teoria dos Jogos e pesquisador Clayton Silvestre – que já nos havia o disponibilizado há alguns anos. À época e por questões de pauta, não a publicamos, mas agora a repercussão veio com força pelo fato de o Redação Sportv tê-la explorado em sua edição desta manhã. E pelos resultados da pesquisa terem supostamente colocado o Santos na condição de maior torcida do Brasil no passado.

Você está certo disto?

Pra início de conversa, é importante contextualizar o que representava o Santos Futebol Clube em 1969. Supercampeão em tempos de grandes esquadrões, o Peixe era de longe o maior clube do Brasil. Tudo graças aos inúmeros títulos enfileirados por aquele time dos sonhos capitaneado por Pelé, que incluíam duas Copas Libertadores, dois Mundiais Interclubes, seis títulos nacionais, quatro Rio-São Paulo e uma sequência infindável de títulos paulistas. Os muitos anos de preponderância tornavam natural a relevância, inclusive em termos de tamanho de torcida. Por muito tempo o Santos foi, sim, o queridinho no coração de muitos brasileiros.

Daí a ter detido a maior torcida do país, vai uma distância. Fruto de distorções bastante comuns em se tratando de vieses em pesquisas do gênero. A questão aqui é: numa pesquisa de opinião, quando não se fazem as perguntas corretas, os resultados saem inequivocamente defeituosos. Vejamos se não:

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O grande pecado da pesquisa de 1969 foi não ter perguntado: “qual é o seu time?”, como convencionalmente se faz. Ao perguntar “no seu entender, qual o clube de futebol mais querido em todo o Brasil?” o que o Ibope fez foi, indiretamente, arguir: “Para qual time você acha que as outras pessoas torcem”? E aí, os números saíram totalmente desalinhados da realidade. Alinharam-se com o que se verificava no país em termos de conquistas e idolatria.

Tanto é que a ordem das coisas se restabeleceu quando a pergunta passou a ser “no seu entender, qual o clube de futebol mais querido do seu estado?”. Aí sim as pessoas deixaram de responder pelos outros, passando a expor sua verdadeira preferência particular. Com isto, o Santos retornou a um padrão intermediário, ainda que muito superior ao que se verifica hoje:

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Em tempos atuais, soa impensável o Peixe deter a segunda maior torcida do estado de São Paulo – atrás apenas do Corinthians. Tão impensável quanto imaginar que, mesmo com apenas 21% de seu estado de origem, pudesse fazer frente ao Corinthians e seus 50% no mesmo estado. Que dirá ao Flamengo, desde sempre hegemônico no Rio e em tantas outras regiões não contempladas porque a pergunta se restringia aos times do próprio estado.

A conclusão a que chegamos é que perguntas mal formuladas levarão a resultados descolados da realidade.

Sendo assim, como analisar em retrospecto a questão das maiores torcidas do passado? Isto, logicamente, o Blog Teoria dos Jogos já fez, em postagem datada de 26 de agosto de 2014. E lá, concluímos ser possível fazê-lo ao: 1) analisarmos as tabulações por faixas etárias de pesquisas atuais; 2) Nos basearmos em pesquisas antigas (desde que fizessem as perguntas corretas); 3) Verificarmos o que diziam publicações de época. Este último elemento, de fato, aponta para um Santos mais preponderante. Algo que não resiste à análise dos dois primeiros elementos, desde muito apontados para a supremacia de Flamengo e Corinthians em termos nacionais.

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Tudo sobre audiências – parte 4: as maiores audiências RJ e SP 2016

Há alguns meses o Blog Teoria dos Jogos iniciou uma série de análises relacionadas às audiências televisivas do futebol brasileiro, assim dividida:

Parte 1: O catapultar dos números em clássicos

Parte 2: Os campeões de audiência 2015

Parte 3: As audiências da Band

Parte 4: As maiores audiências RJ e SP 2016

Parte 5: Audiências em queda: verdade ou mentira?

Após um breve intervalo, que incluiu uma pausa para os Jogos Olímpicos – período profissionalmente muito atribulado – decidimos retomar às análises desde seu tópico 4, dada a saída da TV Bandeirantes das transmissões futebolísticas em torneios nacionais. Devidamente incentivado e “provocado”, importante dizer, pelo amigo Fábio Sormani, da Fox Sports, a quem estas tabelas são dedicadas.

As audiências do futebol em 2016 dividem-se entre as praças do Rio de Janeiro e de São Paulo – únicas divulgadas pela TV Globo semanalmente. Dividem-se ainda entre os principais torneios do ano: Campeonatos Estaduais, Copas (Libertadores, do Brasil e Sul Americana) e Brasileirão. Por fim, os números são separados por dia da semana e pela natureza dos jogos (clássicos ou não), dada a primazia de audiências verificadas às quartas feiras ou em confrontos entre times grandes.

Lembrando que: 1) Cada ponto de audiência equivale a 69 mil domicílios em São Paulo e 43 mil no Rio, enquanto o share significa o percentual de televisores ligados naquele canal; 2) Todos os números se referem apenas à audiência em TV aberta da Globo, menos para os Estaduais, que representam a soma Globo + Band, pois neles ainda havia o compartilhamento dos direitos televisivos; 3) As estatísticas contidas nesta coluna não contemplam a rodada do último fim de semana (24 e 25/9) no Brasileirão.

CAMPEONATOS ESTADUAIS

Pode-se dizer que os campeonatos estaduais são aqueles em que as audiências mais estão expostas a “causas perturbadoras” a lhes enviesarem. Isto porque se tratam de torneios de tiro curto com alto índice de clássicos transmitidos. Assim, clubes com menos torcida tendem a aparecer em poucos jogos, primariamente em clássicos – onde as audiências são naturalmente mais altas. Assim, muitas estatísticas acabam por se insuflar de maneira irreal. Outro benefício que precisa ser relativizado acomete àqueles que chegam à final do campeonato, geralmente um oásis de bons números em meio a um marasmo de audiências regulares.

Dito isto, vamos às análises:

RIO DE JANEIRO

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Embora o clube mais televisionado durante o Campeonato Carioca tenha sido o Vasco (nove jogos), foram os sete do Flamengo que apresentaram os melhores números do torneio. Na média final, o Rubro Negro teve um audiência de 27,1 pontos com 49%, contra 25,1 (48%) dos cruzmaltinos, 24,2 (47%) do Botafogo e 22,2 (42%) do Fluminense. Percebam a discrepância entre Flu e Bota pelo fato do alvinegro ter ido à final, catapultando seus números. No campeonato como um todo, ambos tiveram cinco jogos transmitidos.

Quando separamos a análise por dia de semana (DDS) e fim de semana (FDS), chegamos a algumas outras conclusões. Apesar do Vasco ter tido nove jogos na telinha, apenas um se deu nos dias de audiência mais alta, a quarta-feira. E não foi um jogo qualquer, mas um Flamengo x Vasco pela fase de grupos da Taça Guanabara, que explodiu como poucas vezes: 37 pontos de audiência com 57% de participação. De qualquer maneira, o time da Colina passou nada menos que oito vezes aos domingos, desproporção não atingida por nenhum de seus rivais.

Sob outro ponto de vista, separamos clássicos de jogos contra times pequenos – o que também faz uma diferença brutal. Aí os beneficiados são outros:

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Dos nove jogos vascaínos na TV, nada menos que seis foram clássicos – sendo dois pelas finais, diante do Botafogo. Até por ser um dos finalistas, o clube da Estrela Solitária se viu bastante inflado, já que quatro de suas cinco transmissões se deram em clássicos. Por outro lado, o Flamengo e principalmente o Fluminense tiveram maior número de jogos contra times pequenos, elemento de evidente impacto negativo. De qualquer maneira, as audiências do Flamengo superaram as dos rivais sob todos os aspectos: 30 pontos (55%) em clássicos e 23,3 (42%) contra pequenos. Neste último caso, os números do Mengão foram 19% superiores aos do Tricolor, segundo colocado – uma enormidade em se tratando destas informações.

SÃO PAULO

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Se no Rio o mais transmitido foi o campeão estadual, São Paulo viveu situação antagônica. O Santos, campeão paulista, tive míseros três jogos na TV – sendo dois na final, contra o Audax. O outro, como veremos adiante, foi um clássico. O resultado foram números artificialmente superiores aos de todos os demais: 25,6 pontos e 47% de share. No outro extremo está o Corinthians, com seus oito jogos na TV. Com eles, marcou 24,5 pontos médios e 45%. O São Paulo teve cinco jogos, 22,2 pontos e 42% em média. O Palmeiras, quatro jogos, 24,5 pontos e 46%.

A análise por dia da semana em Sampa diz menos do que no Rio, já que muitos paulistas jogavam a Libertadores enquanto a Globo Rio veiculava seus times no Carioca. Sendo assim, apenas Corinthians (duas vezes) e São Paulo (uma) apareceram na telinha às quartas. Já a análise que separa clássicos de jogos contra pequenos é bem mais reveladora:

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Antes, é importante dizer que o Paulistão deste ano teve, excepcionalmente, um número de clássicos transmitidos menor do que no Rio. Seu campeão de exposição foi o Corinthians, com três jogos, 28,3 pontos e 51%. Os números dos outros podem parecer iguais (São Paulo, 28 pontos) ou maiores (Palmeiras, 29 pontos), mas existe um porém: 75% dos clássicos transmitidos (três de quatro) foram contra o time de Itaquera, ou seja, é exatamente o Corinthians quem ajuda a inflar os rivais. Já o Santos, tendo confrontado duas vezes um pequeno em plena final, nadou de braçada neste recorte.

COPAS

Eis uma estatística muito mais simples de ser analisada: copas só são jogadas às quartas, tornando desnecessária a separação por dia. Também são raros os clássicos nestas circunstâncias – este ano, por exemplo, não aconteceu nenhum. Ou seja, a única coisa a ser considerada aqui é o peso do torneio.

RIO DE JANEIRO

Nenhum time da Cidade Maravilhosa jogou a Libertadores 2016. Sendo assim, a maioria das análises se refere à Copa do Brasil, com exceção dos três últimos jogos do Flamengo, válidos pelas fases intermediárias da Sul Americana:

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Isso mesmo: foram sete jogos rubro-negros, com audiências 22% superiores às do Vasco (26,3 a 21,6 pontos). Cinco jogos vascaínos e três tricolores (20,3 pontos, em média). E nenhum. Nenhum joguinho do Botafogo para contar história…

SÃO PAULO

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Na Terra da Garoa houve maior equilíbrio entre o líder Corinthians (nove jogos, 26,1 pontos com 40%) e o segundo colocado, São Paulo (oito jogos, 25,5 pontos com 39%). Parte da explicação recai sobre o fato de o Tricolor ter chegado às semifinais da Libertadores, enquanto o Corinthians parou nas oitavas. Assim como o Botafogo, o Palmeiras simplesmente não apareceu na TV nestes torneios. Já o Santos, uma única vez: contra o Gama, pela Copa do Brasil (18 pontos).

BRASILEIRÃO

RIO DE JANEIRO

As transmissões do Brasileirão retomam a necessidade de separação segundo o dia da semana. Contudo, no Rio não se faz necessário repartir clássicos e jogos regulares, uma vez que apenas um foi veiculado na cidade: Fluminense x Botafogo, num domingo de inexpressivos 20 pontos com 38%.

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Na ausência do Vasco (que joga a Série B), o grande beneficiado foi o Fluminense que, este ano, apareceu tantas vezes quanto o Flamengo (11 cada). Os dois tiveram igualdade também no perfil das transmissões: quatro em dias de semana, sete em fins de semana. Assim, a comparação entre ambos pode se dar sob bases equânimes.

Em boa dose por conta da fantástica audiência do jogo contra o Palmeiras, o Rubro Negro atropela o Tricolor sob a ótica das quartas feiras: 30,5 com 47% a 23 com 36% – resultado 33% superior. Nos fins de semana, a superioridade flamenguista cai para a casa dos 19% (23 pontos contra 19,3). Já o Botafogo teve cinco jogos, todos aos finais de semana – esvaziando seus números. No geral, portanto, o Fla marca em média 25,7 pontos com 44%. O Flu, 20,6 com 37%. O Bota, 18 com 35%.

Importante: um jogo do Alvinegro aconteceu sábado, dia de audiências tradicionalmente inferiores.

SÃO PAULO

Diferente do Rio, em São Paulo retomam-se análises não só por dia de semana mas também por clássicos. Isto porque, por lá, já foram veiculados cinco dérbis neste Brasileirão. A começar pela primeira ótica:

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Em Sampa também há empate envolvendo Corinthians e São Paulo, ambos com 11 partidas televisionadas. E o perfil é quase o mesmo: Timão quatro vezes às quartas, sete aos fins de semana. Soberano, três às quartas, oito aos domingos. Em compensação, o Corinthians se apresentou num sábado. Sendo assim, em analogia à dupla Fla-Flu no Brasileirão, pode-se considerar justa a comparação direta entre Corinthians e São Paulo.

Às quartas, o Corinthians vence o São Paulo por apertados 25,5 a 24,3 (mesmo share: 40%). Aos fins de semana, um pouco mais de folga: 22,6 (com 43%) para um, 20,1 (com 37%) para outro. Só que em termos gerais, Corinthians (23,6 com 42%), São Paulo (21,3 com 38%) e Santos (23 com 44% em dois jogos) perdem para o Palmeiras (24,1 com 41%). Por quê?

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A explicação reside aqui. Entre as agremiações com mais televisionamentos, o maior percentual de clássicos pertence ao Palmeiras (três de sete). O São Paulo fez três clássicos diluídos num universo de 11 transmissões. O Corinthians, apenas dois em 11. Nas partidas regulares, onde as audiências vem sem tanta facilidade, os 22,9 pontos do Corinthians em nove jogos superam os 22 pontos em 4 jogos do Verdão. Aqui, o Santos é novamente um ponto fora da curva: dois jogos, dois clássicos.

COMPARAÇÕES INTERNAS

No Rio, resta claro que, sob qualquer aspecto, o Flamengo apresenta audiências muito superiores às de seus rivais. Inclusive, pode-se dizer que em condições normais de temperatura e pressão, Vasco, Fluminense e Botafogo se equivalem – com certa vantagem cruzmaltina.

Já em São Paulo, há maior equilíbrio entre o líder Corinthians e o São Paulo – ainda que não se discuta a supremacia do primeiro. Palmeiras e Santos, alguns passos abaixo, se veem tão relegados que geralmente aparecem apenas em clássicos ou jogos decisivos. Seria importante vê-los em mais partidas regulares, proporcionando uma melhor base de comparação. De qualquer maneira, em anos anteriores a dupla já apresentou alguns índices bem fracos.

Aqui, uma questão particular que explica meu grande ponto de discordância com relação ao Sormani. Eu considero que diferenças de alguns pontos de audiência (e share) justificam as diferenças nas cotas de televisionamento, tendo em vista que um mercado tão competitivo quanto o da TV aberta precifica cada ponto marginal em muitos milhões. Sormani tem outro ponto de vista, entendendo injustificáveis as diferenças, por pequenas que seriam.

Não há certo ou errado neste debate, apenas interpretações.

COMPARAÇÃO RIO X SÃO PAULO

Nem todo ano é assim, mas em 2016, o rei das audiências no Rio (Flamengo) supera o preferido de São Paulo (Corinthians) sob todos os recortes – incluindo Copas em que os Paulistas disputaram a Libertadores. O que faz retornarmos ao que é sempre dito: o Rubro Negro se beneficia de audiências maiores e nacionalmente mais dispersas. O Alvinegro, da supremacia nos principais mercados – que não se resumem ao seu berço, já que Paraná ou Rio Grande do Sul muitas vezes alinham com a Globo São Paulo. Por isso, é importante analisar o quantitativo médio de praças alinhando com a transmissão de cada um deles. Assunto para outra coluna…

Um grande abraço e saudações!

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A fábula de um rubro-negro paulistano

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Novamente na manhã de ontem, a torcida do Flamengo deu enorme demonstração de força em praças externas – desta vez, uma nem sequer inédita. Pela segunda vez em 2016, os flamenguistas encheram o Pacaembu, em São Paulo, vencendo o Figueirense por 2 x 0 e mantendo a perseguição ao líder Palmeiras. Ainda que o sucesso comercial das incursões à cidade justifiquem-nas plenamente, a verdade é que ainda há quem desconheça e estranhe as verdadeiras intenções do Rubro Negro em terras bandeirantes. Para compreendê-las, um breve retrospecto histórico se faz necessário.

Ao contrário do senso comum, não foi a Rede Globo na década de 80, nem as ondas do rádio em meados de 1960. Naturalmente, estes meios ajudaram muito a propagá-lo, tornando-o ainda maior. Mas a fama de “maior torcida do Brasil” atribuída ao Fla vem desde algumas décadas antes. Decerto iniciada pela importantíssima condição de capital federal, ocupada pelo Rio até abril de 1960. Isto fazia da cidade um polo exportador de tendências, influenciando culturalmente todo o resto do país. Fazia também despejar sobre as demais seu poderio econômico, já que até a década de 50 era o Rio – e não São Paulo – a maior e mais rica cidade do Brasil.

A perda deste status trouxe ao Rio uma lenta e gradual desimportância. Mas se culturalmente a Cidade Maravilhosa segue como referência, em termos econômicos ela definitivamente se viu destronada pelo colosso paulistano. Hoje 85% maior (população) e 101% mais rico (PIB), é o município de São Paulo quem dita as regras em áreas-chave como mercado financeiro, publicidade e mídia. Bem aí, nossa reconstituição volta a se cruzar com escopo inicial do texto.

Iniciadas as primeiras conversas que levaram à criação da “Só Fla” – e consequentemente à eleição dos executivos capitaneados por Eduardo Bandeira de Mello – uma parcela delas se deu em São Paulo. Trata-se de um testemunho ocular deste blogueiro, paulistano de residência e integrante original da associação. Como é sabido, alguns dos componentes da antiga “Chapa Azul” eram altos executivos de empresas sediadas em São Paulo – desde operadoras de TV por assinatura a meios de pagamento. Outros, ainda que situados no Rio de Janeiro, eram banqueiros e operadores do mercado financeiro.

O ingrediente que deu liga à mistura foi a compreensão, por parte destes profissionais, da desimportância acometida sobre o Flamengo ao longo de quase 20 anos de vexames esportivos e administrativos. Outrora referência, o clube se tornou motivo de chacota. Sinônimo de tudo de pior que um profissional – fosse ele dirigente ou atleta – poderia almejar. Em direção oposta, catapultados pelo potencial de rendas e por uma mídia cada vez mais influente e (questionavelmente) combativa, os clubes de São Paulo trilharam outro caminho. O Flamengo ficou para trás.

Mas como toda fábula tende para um final feliz, ao longo dos últimos quatro anos este processo não só estancou, como iniciou reversão. Ainda assim, num contexto em que nem tudo é reversível: o Flamengo só pode modificar o inerente a si: gestão e resultados. Não mudará o fato de o dinheiro circular muito mais em São Paulo do que no Rio. Nem o maior interesse de Band, Record, RedeTV ou UOL sobre os clubes do mercado que lhes paga as contas. Por isto, o reconhecimento: se não pode vencê-los, o Flamengo deve juntar-se a eles.

Maioral em torcida, o Rubro Negro é relevante em todo Brasil, menos no estado do Rio Grande do Sul – palavra do Blog Teoria dos Jogos, especializado no tema. Só que em São Paulo, o Fla se beneficia mais de um vultoso quantitativo absoluto do que percentual, respondendo por 2,5% dos torcedores da cidade. Por que não cativá-los, portanto? Atrair a juventude, tentar fidelizá-la? Junte-se a isso a promessa de retomada da antiga preponderância, brigando por títulos e vencendo de maneira incontestável. Como ontem, em pleno solo paulistano. Eis a receita do banquete vislumbrado.

Nada disto tem relação com “querer ser paulista” ou dar as costas à sua verdadeira identidade – mais nacional do que carioca. Tem tudo a ver com negócios e estratégia. Com a busca por novos mercados e maior exposição. Desde que sem megalomanias, com pragmatismo e os dois pés no chão, faz o Flamengo muito bem. Ele não se tornará nativo: sob a ótica dos que aqui residem, há quatro times mais importantes. Mas num trabalho de longo prazo, pode, sim, flertar com a cidade e o estado. Visitá-los mais vezes. Cortejá-los, atraindo toda a sua simpatia – o que para alguns é quase amor.

Os holofotes virão natural e consequentemente.

PS: Como torcedor não vive de razão, mas de paixão, parece uma boa ideia incentivar – desde que de comum acordo entre as diretorias – uma “invasão” bem maior do que a de 2008 ao Morumbi, daqui a duas rodadas. O anfitrião, em má fase e com poucas pretensões, certamente não se oporia à possibilidade explorar a capacidade ociosa de seu imenso estádio. Para o Fla, o ganho intangível de perpetuar no imaginário coletivo algo que pode perdurar por décadas. Que o digam os corintianos.

Um grande abraço e saudações!

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Palmeiras x Fla tem audiência de decisão e quebra recordes

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Na noite de ontem, Palmeiras e Flamengo se enfrentaram no que vem sendo considerada uma decisão antecipada do Campeonato Brasileiro de 2016. Embora seja cedo para afirmações nesta direção, dadas as treze rodadas ainda pendentes, a verdade é que as audiências televisivas refletiram uma expectativa de final de campeonato. Para o Rio de Janeiro, o empate de 1 x 1 entre alviverdes e rubro-negros rendeu espetaculares 37 pontos de audiência com 55% de share. Parece muito, e é mesmo. Principalmente se fizermos uma retrospectiva das grandes audiências do futebol nos últimos anos.

Os índices constituíram a maior audiência da Globo no Campeonato Brasileiro desde a última rodada do Brasileirão 2009 – exatamente quando o Flamengo se sagrou campeão. Naquela ocasião, a vitória de 2 x 1 sobre o Grêmio rendeu à emissora 42 pontos com 72% de share, também considerando apenas a praça do Rio de Janeiro. Desde então, apenas a decisão da Copa do Brasil de 2013 alcançou resultado melhor. Na noite de 27/11/2013, o Flamengo (sempre ele) venceu o Atlético-PR por 2 x 0 e rendeu à TV dos Marinho 38 pontos com 61% de share. Como a Band também transmitiu aquela partida (o que não acontece mais), a audiência total daquela ocasião ficou em 41 pontos com 66%.

Se considerarmos a audiência somada Globo + Band, além das finais de 2009 e 2013, apenas outros dois jogos superaram a partida de ontem no Rio. Foram eles: a segunda partida das oitavas de final da Copa do Brasil 2015, entre Flamengo x Vasco (41 pontos com 64% totais) e o antológico Santos 4 x 5 Flamengo de 2011 (39 com 60%). Uma surpreendente partida entre Fla e Vasco válida pela fase de grupos da Taça Guanabara deste ano marcou os mesmos 37 pontos, mas com share superior (57%). Lembrando que em todos estes casos, a audiência da Globo sozinha foi menor do que a emissora marcou ontem.

Mas os números de ontem não foram impressionantes apenas sob a ótica carioca. Mesmo em São Paulo, recentemente a Globo jamais atingiu 37 pontos com uma partida do Brasileirão. É verdade que por seis vezes a Globo marcou entre 39 e 46 (!) pontos, todas envolvendo jogos do Corinthians. No entanto, em cinco oportunidades o torneio era a Libertadores em estágios avançados. Na outra, tratava-se da final da Copa do Brasil de 2009. Isolando apenas o Campeonato Brasileiro, Corinthians x Palmeiras (última rodada de 2011) e São Paulo x Corinthians (25ª rodada do mesmo ano) marcaram, respectivamente, 41 e 38 pontos, mas no agregado com a Band. Sozinha, a Vênus Platinada não ultrapassa os 30 pontos em São Paulo há anos.

A Globo do Rio também igualou sua melhor audiência absoluta no futebol 2016. Ela pertence à final Olímpica, entre Brasil x Alemanha, momento em que atingiu os mesmos 37 pontos, mas com incríveis 60% de share em plena tarde de sábado. No absoluto, a conquista  do ouro segue como a maior audiência do futebol no ano, com 45 pontos totais (73%) – graças aos 5 pontos atingidos pela Record (8%) e 3 da Band (5%). Em São Paulo também foi assim: 46 pontos totais (70%), sendo 35 com 53% na Globo, 6  com 9% na Band e 5 com 8% na Record.

Para terminar, ontem a Globo São Paulo optou por veicular Coritiba x Corinthians em detrimento do clássico do Allianz Parque – que demandaria a exceção de exibir a partida para a mesma praça. Assim, o resultado foram protocolares 26 pontos com 40% de participação.

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A Pesquisa da Vez: capitais brasileiras (SPC/CNDL) – EXCLUSIVO

No início da tarde de hoje, o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) divulgaram uma estudo sobre os hábitos de consumo dos torcedores no Brasil. Por se tratarem de instituições relacionadas ao crédito e adimplemento, o foco da pesquisa recaiu sobre questões orçamentárias, como capacidade de pagamento e gastos excessivos com produtos e serviços relacionados ao futebol. Maiores detalhes sobre a pesquisa podem ser vistos no site da SPC Brasil (clique aqui).

Sendo um questionário aplicado nas 27 capitais brasileiras, o estudo veio naturalmente acompanhado de uma pesquisa de torcidas. Assim, o Blog Teoria dos Jogos entrou em contato com o SPC Brasil e teve acesso aos números de maneira exclusiva. No entanto, muitos esclarecimentos se fazem necessários.

Em primeiro lugar, não se trata de uma pesquisa nacional, já que as entrevistas se concentraram tão somente nas 27 capitais brasileiras, e com amostra bastante limitada: 620 torcedores. Além disso, por ter focado o universo de torcedores (e não o universo populacional), o “Nenhum” (pessoas sem time) foi descartado, fazendo com que o percentual de cada torcida subisse. Só que o mais importante é que a pesquisa não seguiu proporcionalidades primordiais. Isto que significa que 63% dos respondentes foram homens, mesmo numa sociedade de maioria feminina. Em termos geográficos, entrevistou-se um número muito maior de cariocas (16,6%) do que paulistanos (20,1%) proporcionalmente, levando a uma superestimação dos números atrelados aos times do Rio. Depois das duas maiores metrópoles vieram Salvador (8,3%), Porto Alegre (6,8%), Curitiba (6,1%), Fortaleza (5,6%), Recife (5,4%), Belo Horizonte (4,2%) e Manaus (4%).

Todas as limitações abordadas acima não inviabilizam este estudo de abordagem criativa e diferenciada. A questão é que, mais do que nunca, a pesquisa SPC/CNDL reflete tão somente o perfil de sua amostra. Por conta disto, o Blog Teoria dos Jogos optou por expor seus resultados sem proceder maiores análises sobre os recortes de gênero, idade, renda e fanatismo. Convidamos, portanto, nossos leitores a fazê-lo.

Seguem os números:

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A Pesquisa da Vez: Campinas – tabulações EXCLUSIVAS

Detalhamento da pesquisa;

Localidade: Campinas/SP, entre 15 e 18 de julho de 2016

Instituto: PróPesquisa (http://propesquisa.com.br/index.html)

Amostra:  800 entrevistados

Margem de erro: 3 p.p

Os primeiros resultados saíram na semana passada: segundo o Lancenet, em pesquisa encomendada pela Brasil Kirin (patrocinadora da Ponte Preta), a cidade de Campinas teria sido mapeada no tocante às suas torcidas. Informações tão importantes não haveriam de ser divulgadas de maneira superficial e cheia de arredondamentos. Sendo assim, o Blog Teoria dos Jogos procurou o Instituto PróPesquisa, vindo a público brindar sua audiência com os resultados completos do trabalho, em tabulações exclusivas.

Antes, uma observação: com expertise na divulgação e análise de pesquisas de torcidas, tínhamos Campinas como um eldorado passível de mapeamento. Não apenas por se tratar da terceira maior cidade do estado de São Paulo, núcleo de uma região metropolitana de 3 milhões de habitantes com o 11º maior PIB do Brasil. Interessava também por Campinas ser um dos principais focos de excelência no futebol do interior, berço de dois clubes de enorme relevância e acirradas rivalidades históricas. Tanto que, certa vez, um profissional da área nos confessou que evitava pesquisar Campinas por conta das polêmicas que viriam a ser despertadas pelos números da cidade.

Pois a espera acabou. Vamos a eles:

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Sim, amigos, a maior torcida de Campinas é a do Corinthians – nenhuma novidade para quem trabalha na área. Apesar da força de sua massa, os 19,8% da Ponte Preta não alcançam os 21,7% do bando de loucos em solo campineiro, ainda que ambos se encontrem em situação de empate técnico. Em seguida, alinhados com o perfil das torcidas no estado, temos São Paulo (9,7%), Palmeiras (7,9%) e Santos (4,2%). Pausa para a polêmica: só então surge o Guarani, arquirrival da Macaca, com meros 3,4%. O Flamengo, com 2,1%, encerra o clube dos que superam a marca unitária.

O que justifica tamanha discrepância entre o quantitativo de bugrinos e pontepretanos? Ainda que nem todos concordem, a explicação recai sobre o perfil das torcidas de interior, onde inúmeros se dividem entre um “clube do coração” (geralmente um dos quatro grandes de SP) e um local. No entanto, quanto mais tempo as paixões locais se “solidificarem” na elite, maior o processo de “purificação” de uma torcida que antes se dividia. Em direção oposta, quanto maior o sofrimento por maus resultados, divisões subalternas e falta de preponderância, menos gente disposta a apontar um clube local como o detentor de sua preferência. O primeiro exemplo se aplica à Ponte Preta – ainda que se possam fazer paralelos com outras forças do interior, como a Chapecoese. O segundo, classicamente, se encaixa sobre o Guarani.

Ainda quanto à primeira tabela: em termos geográficos, o maior número de corintianos, ponte pretanos, são paulinos e santistas se dá na região sudoeste da cidade. Nela, os quatro marcam, respectivamente, 28,9%, 30,5%, 12,3% e 9,1%. Na região noroeste, enfraquecem-se os times de Campinas, elevando-se o Palmeiras à condição de segunda maior torcida (10,7%). Importante reiterar que, numa pesquisa com apenas 800 entrevistados, a margem de erro dentro de um recorte com cinco tabulações diferentes é representativa.

Em seguida, a análise por gênero:

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No Brasil, é sabido que os homens são os principais componentes do núcleo de heavy users do futebol. Sendo assim, a torcida mais preponderante de fato em Campinas seria a da Ponte Preta, com expressivos 28,9% dos adeptos do sexo masculino. Apenas o Corinthians, com 23,4% dos homens, é capaz de fazer alguma frente à torcida da Macaca. A terceira torcida masculina pertence ao Verdão, com longínquos 9,3% das preferências. Entre os maiores, o São Paulo é o único que aparece com mais mulheres do que homens em seus quadros (10,8% a 8,6%). Pessoas sem clube marcam 15,7% entre eles e 41,6% entre elas.

Um dos recortes mais importantes, por faixa etária:

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Ainda que o trabalho peque ao não pesquisar mais a fundo o universo infanto-juvenil, são apresentados resultados bastante sintomáticos. A Ponte detém a torcida que mais rejuvenesce, saindo de 19,5% acima de 45 anos para 27,1% entre pessoas de 18 a 24 anos. Mas o Corinthians acompanha praticamente no mesmo ritmo: de 19,7% para 26,4% nos mesmíssimos recortes. Outro que apresenta crescimento entre jovens é o São Paulo, com 15,3% da torcida na primeira faixa etária. Diferente de Palmeiras, Santos e Guarani, times que possuem sua maioria entre indivíduos acima de 45 anos. Mas a surpresa aqui é o Flamengo. Com 4,9% entre 18 e 24, os rubro-negros ultrapassam Peixe e Bugre e se solidificam como a quinta maior torcida entre jovens de Campinas.

Por escolaridade:

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Novamente o destaque vai para os ponte pretanos, maiores entre os mais escolarizados: 20,2% dos que possuem diploma de nível superior. A primazia do Corinthians ocorre no nível médio, onde detém 23,9% das preferências. Surpreendentemente, são paulinos se concentram entre pessoas com nível fundamental (10,5%). Há bem mais torcedores do Guarani com nível superior (4,8%) do que fundamental (2,8%).

Finalmente, por renda:

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Importante esclarecer que, numa pesquisa com 800 pessoas, são poucos os entrevistados a se enquadrarem nas duas faixas de renda mais alta (entre R$ 6.781 e R$ 13.560 e acima disto). Percebam que o último recorte teve apenas 12 respondentes: quatro corintianos, três ponte pretanos, um são paulino, um vascaíno e três “nenhum”. Trata-se de um quantitativo sobre o qual, estatisticamente, nada se pode auferir. Enquanto isto, as três primeiras faixas aparentam abranger um número mais seguro de entrevistados. Sendo assim, corintianos, são paulinos e bugrinos se concentrariam em meio a pessoas com menor poder aquisitivo (até R$ 1.356), direção oposta à da Ponte Preta e seus 26,2% de torcedores de renda média-alta.

Um grande abraço e saudações!

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