Pesquisa Lance/Ibope 2014: considerações finais

Após repercutirmos a 5ª Pesquisa Lance-Ibope, cujos números começaram a ser divulgados na quarta-feira, trazemos à tona uma última análise a respeito de seus resultados. Isto porque, aos poucos e durante a fim de semana, o Lance publicou percentuais por estados e regiões, confirmando algumas das sensações aqui expostas.

No texto de quinta-feira, opinei que os ordenamentos excessivamente modificados presumiam viés amostral, prejudicando a confiabilidade da pesquisa. Como o Ibope habitualmente não divulga a metodologia de suas pesquisas, tal opinião se baseou em puro feeling, algo desenvolvido quando se estuda e analisa determinada área por muitos anos. Assim, sentenciei:

A impressão que fica é de um viés em direção a Belo Horizonte – onde o Atlético-MG de fato supera o Cruzeiro – e Salvador. Aparenta também uma Curitiba superdimensionada”.

Então vieram os percentuais de Minas Gerais, Paraná e Bahia:

Fig 01

Fig 02

Ficou explícito que a grande maioria das entrevistas aconteceu nas capitais, daí o predomínio dos Atléticos Mineiro e Paranense. E nem é preciso ir longe para comprovar. Em primeiro lugar, analisemos a configuração de torcidas do estado de Minas com base em diversas publicações do antigo Blog Teoria dos Jogos do Globoesporte.com (Clique aqui).

Das 14 localidades pesquisadas, em metade a torcida do Flamengo leva vantagem sobre a do Corinthians. O Fla é líder em duas das quatro maiores cidades mineiras (Uberlândia e Juiz de Fora), além de superar o Corinthians em seis das dez maiores (inclui-se BH, Contagem, Ipatinga e Governador Valadares). No Triângulo Mineiro, possui hegemonia em Uberlândia e Araguari, perdendo para os paulistas em Uberaba. Por fim, detém ampla maioria em regiões pouco ou nada pesquisadas, como a Zona da Mata (2 milhões de habitantes) e partes do sul e do nordeste. Pesquisas anteriores atribuíam aos cariocas de 8% a 10% da torcida mineira, em algum equilíbrio com o Atlético-MG e larga dianteira sobre o Corinthians. Com isto em vista, os números do Ibope aparentam distorções até certo ponto risíveis.

Já no Paraná, o prejudicado muda de lado: o próprio Corinthians! De longe a maior torcida do estado, os paulistas tem a favor de si pesquisas anteriores bem mais completas, como a do Paraná Pesquisas. Embora algumas falhas metodológicas também sejam verificadas, a verdade é que os inacreditáveis 113 mil entrevistados pelo instituto deixam pouca margem para qualquer discussão.  O Corinthians possui ampla maioria paranaense, atingindo o dobro das preferências do Atlético-PR, clube a quem o Ibope atribuiu liderança em 2014.

Infelizmente nada pode ser dito quanto ao estado da Bahia, já que o Blog Teoria dos Jogos não publicou pesquisas nesta região. Mas a lógica enviesada certamente se faz presente com base nas razões justificadas abaixo.

O grande erro da pesquisa foi projetar para estados a configuração de capitais, como se as proporções fossem relativamente equânimes. No Brasil, existem três perfis de estados no tocante à configuração de torcidas:

1)      Estados homogêneos: torcidas da capital e do interior praticamente idênticas. Exemplos são justamente os três estados mais poderosos futebolisticamente: São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Há também exemplos opostos: regiões de total ausência de forças futebolísticas, com domínio de torcidas do eixo Rio-São Paulo (Exemplos: Amazonas, Espírito Santo, Piauí, etc.)

2)      Estados parcialmente heterogêneos: região metropolitana dominada por forças locais, interior não blindado à presença das torcidas de fora (Exemplos: Pará, Ceará, Bahia, Pernambuco – parcialmente)

3)      Estados completamente heterogêneos: região metropolitana dominada por forças locais, cada mesorregião do interior dominada por diferentes correntes. (Exemplos: Minas Gerais – influência mineira, paulista ou carioca dependendo da região; Paraná – influência paranaense, paulista, carioca ou gaúcha; e Santa Catarina – influência catarinense, paulista, carioca ou gaúcha).

Resumindo: a projeção dos índices da capital para o interior só é aceitável no tocante ao primeiro perfil, distorcendo completamente os resultados quando aplicada ao segundo e terceiro casos. Não se pode admitir um erro tão crasso vindo de empresa com tamanha expertise no mercado de pesquisas, esportivas ou não, como é o caso do Ibope.

Um grande abraço e saudações!

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6 comentários sobre “Pesquisa Lance/Ibope 2014: considerações finais

  1. Olá vinicios, algumas pesquisa locais de 2011 provam os dados de santa catarina que maioria é ligada aos time de fora do que catarinenses… maioria é flamenguista.

    Essa pesquisa abaixo também prova sobre os estados do sul.

    Unica forma de saber a verdade mesmo seria por pesquisas regionais ou pelo proprio CENSO pra comprovar que flamengo é maior.

    Abraços e saudações rubro-negras.

    Att,
    Eduardo.

  2. Vinicius,teve tbm a pesquisa DataScript (mesmo período) parceria com o OGLOBO e que tbm contraria o Ibope. Segundo a matéria: “LANCE!-Ibope: Pesquisa revela que Minas abriga torcidas de todo o país”(3O O8 2O14) a amostra p Minas foi de 73O indivíduos (margem de erro 1prct), sem divulgação do intervalo de confiança, dos quantitativos do recorte etário e cidades pesquisadas. E p a pop. de Minas (2O,59 milhões), ao nível de confiança usual 95prct, distr.da resposta 5prct e margem de erro 1prct, a amostra mínima seria 1.825. Sem o Ibope divulgar os parâmetros, essa pesquisa tornou-se uma caixa-preta!!!

  3. Concordo com o amigo Eduardo, acho que deveriam ser feitas mais pesquisas abrangentes como esta do Paraná em todos os outros estados, depois compilariam os resultados, assim teríamos uma situação bem mais próxima da realidade da torcidas. O que parece certo são as colocações dos clubes, ou seja, o Flamengo é o primeiro, o Corinthians é segundo, e assim sucessivamente, porém, acho muito difícil o Bahia, time de um estado onde a torcida predominante é a do Flamengo, ter os mesmos números do Botafogo e um pouco menos do que o Fluminense. Onde então estão os seus torcedores?
    Saudações Tricolores Carioca!

  4. É indubitável que a pesquisa na Bahia se limitou à Região Metropolitana de Salvador (Recôncavo), razão de a torcida do Flamengo no estado estar bem aquém das torcidas do Baêa e do Vitória. Basta vir ao interior para notar a existência massiva da torcida do Flamengo e em segundo da do Vasco (pra variar, vice…) , com alguns gatos pingados de torcedores de Bahia e Vitória.

  5. Os erros de metodologia e amostragem são tão evidentes que chegamos a pensar em má-fé pura e simples de uma pesquisa como essa.
    Se os números nacionais já ficam totalmente deturpados se pegarmos amostragens erradas em MG, PR, PE, CE e BA (entre 55 e 60 milhões de habitantes, quase 30% do Brasil portanto), os números regionais então…chegam ao ridículo.

    O Lance e o IBOPE realmente não se preocupam muito com credibilidade ou seriedade na divulgação dessa pesquisa fracionada. Não há, tecnicamente, como considerar os números apurados. Falha básica, primária até, do instituto.

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