Sobre audiências, shares e veranicos

Os números do futebol no domingo que passou trouxeram uma situação educativa aos que se interessem pela temática “audiência televisiva”. Segundo informe do Departamento de Comunicação da Rede Globo, seguem os dados relativos a São Paulo:

Internacional x Corinthians

Globo – 18 pontos com 35%. Band – 5 pontos com 10%. Total: 23 pontos com 45%

Já no Rio de Janeiro:

Atlético-PR x Flamengo

Globo – 18 pontos com 44%. Band – 1 ponto com 3%. Total: 19 pontos com 46%

Antes, um adendo: Cada ponto de audiência equivale a 1% do universo pesquisado, o que em São Paulo significam 65.201 domicílios ou quase 200 mil indivíduos, enquanto no Rio, 39.660 domicílios ou aproximadamente 120 mil pessoas. Já o share (“participação”) traduz o percentual de televisores ligados em um determinado canal.

Conforme demonstrado em análises anteriores, a grande diferença de São Paulo pro Rio é a fatia destinada à Globo (maior na Cidade Maravilhosa) e à Band (mais forte em Sampa), No mais, o futebol em TV aberta se mostra relativamente padronizado – desde que se comparem torcidas de tamanho semelhante. Neste sentido, o fato de jogarem Flamengo e Corinthians, justo as duas maiores de cada praça, alinharia audiências.

Mas não foi o que aconteceu. A vitória corintiana no Beira Rio, com seus 23 pontos totais, proporcionou 21% mais do que a derrota flamenguista na Arena da Baixada. A discrepância, como veremos, não se relaciona com os resultados em campo.

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Tecnicamente é preferível maior audiência – como se viu no jogo em São Paulo – uma vez que patrocinadores vivem de exposição para massas. Mas sob outro ponto de vista, foi o futebol no Rio de Janeiro quem apresentou melhores números. Os 46% de participação no jogo do Flamengo (43% na Globo e 3% na Band) superaram os 45% da partida do Corinthians (35% na Globo e 10% na Band). Nunca esteve tão clara a distinção entre maior audiência (SP) e melhor audiência (RJ). Havia menos televisores ligados no Rio, mas a partida foi acompanhada em número proporcionalmente superior.

E por que tão poucos cariocas assistiram futebol, em claro contraste à realidade paulistana? Eis um exemplo esclarecedor do quanto datas, eventos ou circunstâncias influenciam na audiência da TV. No último domingo, foram medidas as maiores temperaturas do ano em grande parte do Brasil. Embora São Paulo não tenha passado incólume, a cidade não possui um chamariz como são as praias para a população do Rio. Na primeira tarde ensolarada do horário de verão, fervilhantes areias geraram enorme cooptação de consumidores, numa clara situação de concorrência de eventos.

Em outras ocasiões, a audiência do futebol – e da televisão como um todo – já se viu esvaziada por feriados prolongados ou festas de caráter popular. Razão pela qual calendários precisam ser planejados minuciosamente. Embora nenhum cuidado resista à chegada de um veranico…

Um grande abraço e saudações!

E-mail da coluna: teoriadosjogos@globo.com

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Um comentário sobre “Sobre audiências, shares e veranicos

  1. Prezado Vinicius,

    No início do seu belo trabalho sobre o mapeamento das torcidas escrevi uma mensagem elogiando-o, principalmente porque você parecia possuir uma rara característica: a isenção, a imparcialidade e o desapego ao bairrismo.
    Infelizmente foi uma falsa impressão minha. Os meses se passaram, novas pesquisas, novos tópicos e eis que um flamenguista fanático surge do interior do outrora jornalista imparcial. Talvez sem que você tenha percebido ou muito pelo contrário, o blog aos poucos foi se transformando tão somente numa ferramenta de propaganda rubro-negra.
    Não vou entrar em detalhes para não me estender. Mas como grande interessado no assunto, só gostaria de ressaltar duas coisas, para você e para todos que ainda o acompanham. A primeira é que me sempre me divirto quando leio que o Corinthians só tem torcida em São Paulo. Não só pelo ridículo da afirmação, mas por expressar a grande ignorância dos que assim apelam. Com todo o respeito, mas dizer que algo só é forte no Acre é uma coisa, mas esquecer-se que São Paulo por si só é um país, não se pode admitir. Que o Corinthians não tivesse um único torcedor fora de São Paulo e isso não diminuiria um vírgula seu gigantismo. Não vou falar do que representa o Estado de São Paulo pois teria que escrever um livro aqui, quizá, uma enciclopédia.
    A outra coisa é que se há um único torcedor de qualquer time fora dos seus estados é um verdadeiro milagre, pois nesse quesito, com a distribuição de imagens dos jogos COMPLETAMENTE desvinculada dos méritos esportivos, um único palmeirense no estado do Maranhão já seria algo para ser estudado cientificamente. E o fato é que você há mais de ano tratando do assunto silencia-se completamente sobre este fato, querendo apresentar o Brasil como se uma Argentina fosse. Vivemos há décadas um processo de Coreiaização do Norte em termos futebolísticos. Assim como na terra de Kim il Sung onde os habitantes se acreditam invejados pelos americanos e ingleses, a maioria dos pobres torcedores do Amazonas também acreditam que os Botafogos e Flamengos da vida são melhores para torcer do que os Cruzeiros, São Paulos e Corinthians da vida real.
    É uma pena.

    Carlos, gostaria de respondê-lo, mas por aqui vai ficar ruim. Se quiser me escreva, teoriadosjogos@globo.com. Abraços

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