Tudo questão de elasticidade – uma análise da 1ª rodada do Carioca

Após intenso bate-boca por meio de notas oficiais entre dissidentes e a FFERJ, eis que se iniciou o Campeonato Carioca 2015. Eclipsado por uma discussão que chegou às raias da loucura – com direito a agressão verbal pelo presidente da Federação ao mandatário rubro-negro – o torneio servirá como laboratório a confirmar a correção de teses. De um lado, preços baixos propostos pela FFERJ (e o Vasco como mentor), sem direito a meia-entrada  e esvaziando projetos de sócio-torcedor. Do outro, o modelo proposto por Flamengo e Fluminense: liberdade precificatória (a fim de evitar prejuízos) e valorização dos associados com base no direito à meia entrada.

A opinião deste blogueiro foi exposta através da coluna “O risco do populismo no Carioca 2015”, podendo ser resumida em uma frase: o esvaziamento recente do campeonato não é (apenas) uma questão de preço, mas de produto. Os times são ruins, os estádios ruins, o espetáculo ruim – o que se reflete na baixa presença de público. Mas a FFERJ visa provar que este pensamento está errado. Para tanto, depende inequivocamente das respostas dadas pelo publico à redução do preço médio dos ingressos. Novamente, será tudo questão de elasticidade.

Há alguns anos o conceito de elasticidade-preço da demanda vem tendo utilização futebolística difundida pelo Blog Teoria dos Jogos. Agora não será diferente. Caso as respostas sejam exatamente proporcionais – ou seja, aumento do público nos estádios no mesmo nível da queda do preço (situação de elasticidade unitária) – viveremos uma situação em que ambos terão dificuldades em se provarem corretos. Se o aumento do público for mais do que proporcional aos descontos (demanda elástica), a Federação o usará como trunfo a confirmar seus ideais. Por outro lado, um aumento inelástico da presença de público (menos que proporcional à queda do preço) comprovará o produto defeituoso, fortalecendo Flamengo e Fluminense.

Decorrida a primeira rodada, de antemão se pode dizer – com toda dose de ironia – que os “economistas da Federação” tendem a dar com os burros n’água:

Fig 01

Após os oito primeiros jogos de 2014, a média de público ficara em 2.888 pagantes, com ticket médio de R$ 35,46. Já em 2015, se o ticket desabou para R$ 17,83 (queda de 49,72%), o mesmo não se pode dizer do público, cujo aumento foi de apenas 37,8% (média de 3.980). Isto num ano de maior demanda reprimida, com o estadual começando em fevereiro e com os grandes jogando pouquíssimos amistosos de pré-temporada no Rio. Mais: a segunda maior média de público foi de um confronto entre pequenos (Barra Mansa x Volta Redonda), partida que levou excepcionais 6.096 pagantes ao Estádio Raulino da Oliveira, na Cidade do Aço. Sem este jogo – um verdadeiro ponto fora da curva na comparação com 2014 – o aumento da média de público seria de apenas 27%.

Em termos absolutos, a coisa é ainda pior. A primeira rodada do Carioca 2014 apresentou faturamento médio de R$ 102.426,25. Neste ano, mesmo com o aumento do público pagante, a bilheteria desabou para R$ 70.961,25. Considerando a existência de despesas fixas e taxas à própria Federação (que, curiosamente, não foram reduzidas), soa quase impossível que as operações se custeiem a este nível de receitas. Tudo com o Maracanã – o mais caro dos estádios – tendo ficado de fora da rodada inicial.

Consensos são possíveis, conforme acordo entre Flamengo e FFERJ para que a próxima partida do Rubro-Negro seja jogada no Maracanã. Mas uma coisa é certa: se é cedo para que cheguemos a conclusões de toda natureza, nunca será tarde para revisitar equívocos, voltando atrás em decisões que lesam os cofres daqueles que realmente sustentam a Federação.

Um grande abraço e saudações!

E-mail da coluna: teoriadosjogos@globo.com

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