TVs e mercado na Inglaterra: mais diferenças para o Brasil

Ardorosamente defendido por torcedores e até parlamentares, o televisionamento do futebol na Inglaterra ocorre de modo muito distante ao verificada no Brasil. A consequência é a divisão dos recursos de maneira também antagônica. Sem maiores juízos de valor, veremos aqui algumas das marcantes diferenças entre os dois mercados.

Um dos melhores textos a este respeito foi disponibilizado pelo site Trivela há pouco mais de um ano. Nele, o jornalista Felipe Lobo vai além do lugar-comum dos “50% divididos igualmente, 25% por colocação e 25% por audiência”. É mostrado quanto cada agremiação recebe por posição na tabela e por jogo transmitido. Recomenda-se clicar no link acima.

Ao contrário do Brasil, onde apenas uma emissora detém o pacote inteiro – TV aberta, fechada e pay per view – na Inglaterra três grandes conglomerados compartilham os direitos de televisionamento. São eles Sky Sports (canal por assinatura), BT Sports (assinatura) e BBC (TV aberta):

Fig 01

Os direitos de cada um diferem: enquanto Sky e BT podem veicular partidas ao vivo e em alta definição, apenas a primeira possui direitos para transmissão em 3D (o que possivelmente agregue pouco). Já a BBC só pode difundir os chamados highlights, melhores momentos das partidas. Diferenças que possivelmente levem a aportes discrepantes até atingirem os € 3,79 bilhões arrecadados (mais € 2,88 bilhões com as vendas para o exterior). No Brasil, todas as emissoras que transmitem o Campeonato Brasileiro pertencem ao Grupo Globo (TV Globo, Sportv e Premiere Futebol Clube), sendo a Band meramente sublicenciada.

Quanto ao número de partidas, a temporada 2013/2014 teve o Liverpool como campeão de exposição: 28 no agregado. No extremo oposto estavam Cardiff e Fulham, com oito jogos cada. Para a temporada 2015-2016, baseado no calendário da Sky Sports, o Blog Teoria dos Jogos levantou o número de partidas de cada clube da 6ª à 14ª rodada, num total de 28 jogos:

Fig 02

Por conta do perfil das torcidas e pela menor dimensão do Reino Unido, não existe “divisão por praças”: todas as partidas veiculadas se dão em nível “nacional”. Alcance que no Brasil é muito diferente, já que a Globo veicula apenas partidas de paulistas e cariocas, com uma terceira regional a cada rodada do torneio. Para estaduais e Copa do Brasil, um número maior de praças acompanha seus times locais.

Seria saudável que o mercado brasileiro tivesse mais de uma detentora dos direitos de transmissão, tanto pela variedade quanto pelo potencial de maior arrecadação – algo repassado aos clubes. Para isto, ajudaria que os diferentes meios (incluindo internet e celular) fossem comercializados separadamente – questão diversas vezes abordada pela Secretaria de Direito Econômico mas nunca foi modificada. Ela tem poder para mudar o estado das coisas: ainda no início do século, obrigou a Globosat a comercializar tanto os canais Sportv quanto o Premiere Futebol Clube a todas as operadoras que se interessassem em oferecê-los.

Em contrapartida, a realidade daqui não demonstra similaridades com a da Inglaterra. No Brasil, basicamente um conglomerado apresenta a real combinação de expertise e poderio econômico: a Globo. Nas poucas vezes em que concorrentes se insurgiram (caso da Rede Record), os próprios clubes optaram pela manutenção da parceria com os Marinho. Neste exemplo específico, pesam dúvidas quanto à origem dos recursos que financiam o negócio e o real interesse dos bispos em apostar no esporte – que o digam os fiascos das Olimpíadas e Panamericanos.

Como tudo acabou ficando como está (e os méritos da Globo são indiscutíveis), torna-se um direito alocar suas transmissões de acordo com a demanda dos telespectadores, algo que acontece de maneira específica e respaldada por pesquisas. É sempre bom lembrar que vivemos numa federação com 27 entes, sendo que apenas cinco possuem times locais hegemônicos. Todo o resto se divide na paixão entre times do Rio e de São Paulo.

Um grande abraço e saudações!

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2 comentários sobre “TVs e mercado na Inglaterra: mais diferenças para o Brasil

  1. Penso, também, que uma maior variedade da transmissão dos jogos poderia contribuir com os campeonatos locais. Por exemplo, permitiria estaduais do Rio e São Paulo fossem jogados só pelos “pequenos”. Já que a Globo não ia se interessar por passar esses jogos com menos apelo, poderiam ser abraçados por outras emissoras. Por sua vez, os campeonatos seriam mais competitivos e poderiam trazer de volta as torcidas dos bairros e pequenas cidades. Teria mais oportunidade para aparecerem jovens jogadores e é mais interessante para os clubes que não teriam que arcar com as despesas de deslocamentos nesse país continental. Também poderiam ocorrer durante a realização das séries A, B e C, como já acontece em alguns estados. Infelizmente, a maioria dos clubes pequenos estão mais interessados em sobreviver às custas dos de maior torcida. O que acham?

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