Vila: alçapão que enobrece a alma e apequena os cofres

Há exatos 33 anos (mais precisamente na edição da revista Placar de 22 de outubro de 1982), o jornalista Alberto Helena Jr. publicava uma crônica a respeito da ascensão, apogeu e queda do Santos Futebol Clube – à época vivendo ressaca posterior à sua maior geração. Por abordar elementos até hoje atuais e demonstrar como algumas reclamações nunca deixaram de existir, o Blog Teoria dos Jogos a reproduz na íntegra. Em seguida, explanaremos um pouco sobre questões ali abordadas.

Fig 01

Fig 02

Após exaltar as glórias do passado, Helena pincelou inúmeras razões para a derrocada santista. Elas iam desde a “tragédia administrativa que se abateu pela compra do Parque Balneário”, passando pela saída de antigos e dedicados dirigentes (substituídos, segundo ele, por pares impacientes e incompetentes) até chegar ao processo de apequenamento daquele que “lotava o Parc de Princes, em Paris, o Maracanã ou o Morumbi sem fretar um mísero ônibus para sua torcida”.

Transcrevendo palavras do jornalista, o Santos “passou a mandar a maioria de seus jogos na Vila e respirar cada vez mais fortemente o ar contaminado das intrigas de uma legião de cartolas, torcedores e ex-jogadores”. Mais adiante, em suas conclusões, propunha que o clube deixasse de trocar de treinador com tamanha frequência, estabelecendo rígidos critérios de contratação e se afastando das “intrigas da Vila”. Fazê-lo jogar mais vezes no Pacaembu era a proposta.

Vote no Blog Teoria dos Jogos no Prêmio Top Blog 2015

Trinta e três anos se passaram e o alvinegro praiano, após enorme período de vacas magras (especificamente nas décadas de 80 e 90), retomou sua trajetória de glórias, títulos e formação de ídolos. E se à época havia espaço para inúmeros gigantes coexistirem de maneira relativamente equilibrada, o advento da “era do marketing esportivo” passou a sinalizar grandeza ou pequenez futura em função da capacidade financeira.

De olho no potencial de geração de receitas, o “trio de ferro” da capital – rivais históricos do clube do balneário – parece ter enxergado a visceral necessidade de se reinventar. Assim, modernizou estruturas visando um novo perfil de torcedor, ávido pelo que proporciona a experiência atrelada ao espetáculo. Justamente o departamento em que o Santos parece ter parado no tempo. Algo já identificado num texto de quando máquinas de escrever denotavam o estado da arte…

Naturalmente, nos referimos à baixíssima capacidade de geração de receitas do Santos na Vila Belmiro.

Em tempos de crise, quando receitas de curto prazo tendem a cair (marketing) ou se manterem estáveis (televisionamento), é justamente nos estádios onde melhor se pode insuflá-las. Até porque a injeção destes recursos (bilheterias e demais receitas de match day) tem total relação com o boom dos projetos de sócio-torcedor – dada a característica comum da maioria dos associados se encontrarem no entorno das cidades de origem.

É aí que o Santos vai mal, muito mal. O clube detém apenas a 11ª posição no ranking de bilheterias na temporada 2015. Segundo ferramenta do Globoesporte.com, foram apenas R$ 11.530.565,00 ao longo de todo o ano. No Campeonato Brasileiro, mesmo integrando o G4, o clube amealhou meros R$ 4 milhões, o que lhe concede a 14ª posição entre 20 agremiações. Tudo, naturalmente, fruto do baixíssimo índice de comparecimento ao estádio: 9.755 ao longo da temporada, abaixo até de clubes da série C.

E a coisa é ainda pior sob a ótica das rendas líquidas. No ranking do Brasileirão, o Peixe é penúltimo, tendo lucrado meros R$ 1.523.377,66 em 16 jogos. Sua média por partida, de R$ 95.211,10, representa 25% da renda líquida média do campeonato (R$ 379.505,38). É o que aponta levantamento do Blog Teoria dos Jogos contendo as apresentações do Santos:

Fig 03

De um modo geral, verificam-se na Vila entre 5 mil e 12 mil torcedores – raramente mais do que isso. O ticket médio de R$ 31 é aceitável se considerarmos o mercado local, mas a limitação física do Urbano Caldeira compromete superar os R$ 452.145,00 da partida Santos 3 x 1 Internacional. Dinheiro de verdade, o Santos só viu uma vez nesta temporada: na final do Paulistão, contra o Palmeiras. Naquela ocasião, 14.662 torcedores (o limite do estádio) injetaram R$ 1.555.280,00, com o Santos levando R$ 970.629,78. Em apenas um jogo, 65% do lucro líquido de todo o Brasileirão.

E por que as coisas são assim? Porque a Vila histórica, ainda que mereça reverências, é antiga, ultrapassada e desconfortável. Não condiz com o que se espera de um estádio na era das espetaculares arenas de Copa do Mundo. Localiza-se em meio ao aperto de uma área residencial e é insegura – vide os baixos públicos em clássicos, quando a lógica presume o contrário. E faz com que a torcida responda mal à majoração de preços (como no confronto diante do São Paulo), a não ser que algo muito importante seja decidido. Para piorar, é minúscula – e quanto menor um estádio, menos proporcionalmente se responde em termos de comparecimento. Razão pela qual a torcida do Atlético-MG vive colocando 50 mil no Mineirão mas raramente esgota os 20 mil assentos do Independência.

A solução, então, seria a proposta de Alberto Helena Jr? Nossa resposta é não. É certo que os resultados financeiros no Pacaembu são bem melhores do que na Vila – vide as quartas de final da Copa do Brasil deste ano (25 mil pagantes , R$ 1,2 milhão diante do Figueirense). Mas a verdade é que a suposta “sinergia” santista em terras paulistanas representa nada mais do que o drama da escassez e da demanda reprimida. Aumentando a frequência na capital, os bons públicos entrariam em queda à medida com que tais necessidades se vissem aplacadas. Com menos 10% da torcida em São Paulo, o Santos se equipararia a clubes como o Botafogo, quarta torcida carioca e com números semelhantes aos do Santos na temporada.

Diante disto, o melhor seria construir uma arena moderna e funcional na própria Baixada Santista – única região de predomínio nacional da torcida do Peixe. Nada megalomaníaco, naturalmente. Algo em torno de 35 mil lugares já seriam capazes de dobrar a média de público, trazendo consigo algum aumento do ticket médio. Só com isso, as receitas de bilheteria dariam um salto para quase R$ 30 milhões anuais, sem contar outras oportunidades que uma arena traz: naming rights, restaurantes, mega lojas, visitações, etc.

Para terminar, uma reflexão. Não seria temerário abrir mão do histórico do Santos no alçapão, em pleno momento de celebração das onze vitórias consecutivas?

Foi por pensar assim ao longo de tantos anos que o Santos se acomodou mediante “místicas” e “escritas”. Durante o Campeonato Brasileiro de 2009, o Grêmio teve aproveitamento bastante semelhante aos 85% atualmente desfrutados pelo Santos. Nada disso o impediu de aposentar o obsoleto Estádio Olímpico, celebrando ótimo histórico também na nova casa, a Arena do Grêmio. Sempre exaltando seu passado, o tricolor gaúcho aumentou suas receitas e iniciou uma nova trajetória. Hoje, é terceiro colocado, uma posição acima do próprio Santos no Brasileirão.

Um grande abraço e saudações!

E-mail da coluna: teoriadosjogos@globo.com

Siga @vpaiva_btj

Curtam o Blog Teoria dos Jogos no Facebook!

9 comentários sobre “Vila: alçapão que enobrece a alma e apequena os cofres

  1. Análise muito simplista. O Santos FC apresenta algumas peculiaridades, a mais importante é ter +/- 10% da torcida da grande SP, uma região com 20 milhões de pessoas, n° maior que a população da baixada santista. O Pacaembú reformado seria a opção correta na minha opinião. A torcida de SP não vai ao estádio porque não está acostumada a frequentar estádio, e quando tem jogo na capital é clássico como visitante com ingressos somente para torcida organizada, ou em jogos sem apelo como mandante contra Marilia, Goiás, Figueirense,. Sabe quando jogamos como mandante em SP algum jogo contra equipes da elite? Não me lembro… A tentativa de apequenamento é promovida à decadas, com o distanciamento do Santos FC da grande torcida de SP.

    1. Verdade, o Botafogo tem entre 10 a 12% da pop. do Rio de Janeiro e o Santos entre 6 a 7% da Grande SP. Agora a Grande RIO tem 12.200.000 hab (ibge 2014) enquanto que a Grande SP possui 21000000. E o peixe conta com uma torcida gigante no interior próximo e baixada santista que o eleva em ter um potencial muito maior que o Botafogo em levar torcida para o Estádio.

  2. Torcida do Santos é igual a do São Paulo,vão de ocasião, se está bem lota vila,agora o time está bem e mesmo assim sofre com público,estão fugindo do padrão, do São Paulo é conhecida por frequentar apenas jogos de libertadores, mas esse ano contra o Corinthians na Libertadores a diretoria do São Paulo precisou dar ingresso de graça, comprava um e ganhava outro de graça pro acompanhante, uma coisa absurda e vergonhosa,então se nem Santos e nem São Paulo estão atraindo torcida, o que acontece de fato, acho que é o padrão das torcidas mesmo.

  3. Agradável surpresa ver um texto do meu peixe aqui no seu blog Vinicíus, que acompanho há tempos . Dando um pitaco sobre a questão creio que é momento de usar a sabedoria. Depois do “boom” de novas arenas para copa e a consequente festa das empreiteiras, temos uma fauna de modelos e novas arenas, assim entre os 12 grandes, somente o Santos não possui um estádio confortável à disposição e que tenha força de atrair público, sobretudo em nossa época de tantas opções de entretenimento. O resultado é visível nos vergonhosos números acima.O último lugar em arrecadação mostra que a Vila, não obstante ser tão sagrada como Meca e Jerusalém juntas, está de fato, irremediavelmente defasada. O ponto creio é usar as experiências de todos os outros clubes e adotar o melhor modelo que se encaixe nas peculiaridades do peixe (que é de fato, mui “sui generis” em relação a todos os outros), o fato de ser o último a ter um estádio moderno não precisa ser necessariamente uma desvantagem, principalmente quando você tem atrás de si uma longa lista de modelos que funcionaram ou não, tudo é uma questão de visão e oportunidade. O dilema é o seguinte: Como aproveitar o gigantesco mercado da capital, o maior do hemisfério e ao mesmo tempo nunca deixar suas raízes, que é o que faz e sempre fez o Santos único, e estas raízes qualquer santista sabe, estão na Vila Belmiro. Como equalizar isso com uma “arena moderna” que agora se mostra fundamental? Isto sem dúvida vai depender de uma diretoria competente que se mostre inovadora mas que nunca deve esquecer que estamos tratando de um time que carrega uma mística que é quase palpável e muito peculiar. Forte abraço!

    1. Texto maravilhoso! Herbert! Existe preconceito absurdo por parte de grande parte da midia com nosso Santos! Clube que transcendeu o óbvio e conquistou o mundo com feitos inigualáveis e portanto luta contra um recalque absurdo do sistema. Só que precisamos nos reinventar! Somos 8 milhões de torcedores e não podemos deixar os provincianos nos esconder na belissima Santos. E para os desavisados nosso clube liderou muitas médias de publico no pacaembú e Morumbi durante os anos 70 e 80! São Paulo é o maior Mercado da América Latina e o Santos já criou raiz aqui e então devemos olhar direitinho o que é mais fáctivel ( Arena em Santos ou Pacaembú). Eu mesmo estou em dúvida!

      1. Obrigado pelo elogio Clayton…Acho que o dilema do peixe é o próprio dilema do futebol brasileiro, o conflito entre tradição e modernidade (“europeizar”), mas que no Santos é ainda mais agudo, pois nenhum grande clube no país valoriza e NECESSITA da própria historia como o nosso. Apesar de que acho que o peixe deve cada vez mais aumentar sua influência na capital, usando o Pacaembu, que talvez seja o estádio mais bem localizado do país, eu tendo a concordar com o autor do blog, de que o Santos deve se firmar na “única região com predomínio nacional” de nossa torcida. Nossa vantagem é que sofremos de um excesso de opções, o que porém pode se tornar uma desvantagem no longo prazo quando a buraco abrir demais. A diretoria deve se apressar, não aguardar crises (como é comum aqui) e ao menos começar a discutir o assunto: Onde é a casa do Santos? Como trazer um número substancial de torcedores SEMPRE? Pois de acordo com os números e diferenças de renda acima mostrados, em alguns anos nem mesmo este patrimônio imaterial e intangível representado pela camisa branca poderá fazer frente aos time da Capital e do Capital…..Abraço Alvi-negro!

        1. Esse debate que foi proposto pelo amigo Vinicius deveria ter a maior participação de torcedores santistas como você, meu caro Herbert, que se preocupam com um futuro dourado para o maior time da História!
          E olha que repliquei esse post em várias comunidades santistas nas redes sociais, mas percebo que ainda existe um certo preconceito com a identificação rubro negra do autor do blog! Que pena! Discutiram o tema no Blog do Odir Cunha e teve mais de 600 comentários, mas não vieram aqui!
          Acredito que o maior problema na Baixada Santista é que nunca a mídia ventila nos holofotes o fato de desconhecer os problemas estruturais da Baixada. O problema da logistica na Região. Não existe um transporte público eficiente de trilhos que permite a ligação entre cidades da Baixada e muito menos com o Vale do Ribeira. Regiões que tem supremacia da torcida do Santos e que possui mais de 2 milhões de habitantes. Ontem por exemplo meu pai que é cidadão de Itanhaém queria ir ao Estádio, mas só o fato de pegar seu carro e levar 2 horas para chegar em Santos, desistiu da idéia, já que também o tamanho do Estádio acaba refreando a intenção de torcedores de ultima hora chegarem ao acanhado templo santista. A própria logistica urbana que liga as grandes cidades da Região (Santos, São Vicente, Guarujá e Praia Grande) é péssima, pois o VLT em Santos só inaugura em 2016 e ainda a balsa liga Santos ao Guarujá. Certa vez levei 1 hora e meia para chegar a Vila Belmiro da Praia Grande de carro. Vejo muitos reclamarem da falta de público na Vila Belmiro e enumeram vários problemas como a assiduidade á bares para assistir os jogos, mas esquecem as dificuldades do transporte público. O clube possui pelo menos 40 % da pop. de 1 milhão e meio de habitantes das 5 maiores cidades da Baixada Santista e essa massa tem uma dificuldade enorme para se movimentar nessa região. Um Estádio para 35 mil pessoas na Região passaria por um melhor investimento na logistica da Baixada para obter resultados factíveis em termos de bilheteria para o time de branco e preto.

  4. Estava indo bem até comparar a torcida do SANTOS com a do Botafogo , aliás , comparação sem base já que NUNCA , jamais , qualquer pesquisa colocou Botafogo ou fluminense próximos do SANTOS , o Santos , segundo pesquisas , tem a mesma quantidade de torcedores de Botafogo e fluminense SOMADAS e empata tecnicamente com o vasco ( tem mais torcida no sudeste inclusive ) , uma coisa é ter 10% de 40 milhões outra é ter 12% de 12 milhões … Outros indicativos , como timemania e redes sociais colocam o Santos entre as cinco maiores , não deixe a vila Belmiro distorcer a realidade sobre a torcida do SANTOS meu caro.

Deixe uma resposta