Pelo fim da figuração

Imagem: www.colunadoflamengo.com
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Não se trata mais da construção de “um novo Flamengo” – mote de onze entre dez campanhas eleitorais na história do clube. Durante o pleito que transcorre neste instante nas dependências da Gávea, o contingente eleitoral escolherá pela manutenção de um irreversível caminho iniciado em 3 de dezembro de 2012. Processo este que, há três anos, não tinha prazo para terminar, mas que agora já tem.

Como todos sabem, concorrem a Chapa Azul, de Eduardo Bandeira de Mello, a Verde, de Wallim Vasconcellos, e a Branca de Cacau Cotta. Este último, retrógrado representante da velha política, nunca teve remota possibilidade. A decisão ficará, portanto, entre Bandeira e Wallim, com grande vantagem para o atual mandatário. Conforme já indicam pesquisas de boca de urna, a revalidação de seu mandato parece questão de horas.

Não se tratam de promessas, do excesso ou da falta de agressividade da chapa concorrente. O fato é: salvo exceções, a maioria dos que introduziram a bem sucedida austeridade rubro negra compõe a atual Chapa Verde. Mas quem garantiu sua execução despersonalizada – após a diáspora dos originais – foi a diretoria que hoje integra a Azul. Assim, quem quer que vença terá como desafio algo além de um processo que parece caminhar com as próprias pernas. Estamos diante de uma mudança muito mais difícil: a de valores. E o implementar de uma real cultura vencedora.

Já abordamos o tema por aqui recentemente, na coluna “Por que o Flamengo não é um Corinthians?”. Por lá, foi dito que o Flamengo só não é maior (em termos de resultados, daí a comparação com o alvinegro paulista) por conta do tamanho de sua dívida e da falta de cultura vencedora. Mas o primeiro problema parece ter um deadline: já em 2016, a dívida rubro-negra equivalerá à sua receita, numa relação de 1:1 que há apenas três anos era de 1:3. Depois, a tendência é que o jogo vire, com a administração da dívida equivalendo à questão da dívida externa federal*.

*Antiga chaga das finanças nacionais, hoje o Brasil possui reservas em moeda estrangeira suficientes para quitar sua dívida externa, não o fazendo por ser melhor remunerado aplicando estes dólares. Trata-se de um caso clássico de administração sustentável da dívida.

Assim, temos que o principal problema do Flamengo deixou de ser financeiro, mas esportivo, pelo papel de figurante que protagoniza na maioria das competições. Isto, por surpreendente que pareça, tem menos relação com a qualidade das contratações do que com valores morais reinantes no Ninho do Urubu. O que não significa que a solução advenha de cláusulas contratuais por bom comportamento ou palestras motivacionais reiterando “o tamanho da instituição”. Há, sim, que se investir, mas não no time.

Dado o baixo nível intelectual do jogador brasileiro médio, o respeito se dá pelo usufruto. Quando adentra um centro de treinamento alagado, tomado pelo barro, matagal e contêineres improvisados, algo lhes diz que as coisas por ali são “menos sérias” do que em outras agremiações pelas quais passou. Neste sentido, um histórico que inclui até despejos (lembram do Fla-Barra?) depõe contra. Nem sempre a memória é tão curta quanto se diz.

O mesmo se aplica quando inexiste real identidade do clube com aquilo que deveria ser sua casa – na ausência de uma para chamar de sua. Ainda que a torcida se sinta totalmente à vontade, estádio que é de todos, não é de ninguém. Diante disto, adversários agradecem, mandam lembranças e anseiam pelo retorno ao salão de festas.

Tem mais. Quando o jovem da base é criado entre campos esburacados; ensinado a vencer e não a se desenvolver; e ainda assim endeusado sem a devida orientação e blindagem, a tendência é que só desabroche a centenas de quilômetros do Rio. Saindo como refugo de onde se revelou, enterra consigo todo um investimento sobre ele dispensado.

Estes e outros exemplos ajudam a narrar o quanto há que se modificar no estado de coisas do Flamengo. Tão certo quanto o fato de, hoje, o clube estar muito melhor do que há três anos, temos a insuficiência da mudança verificada. Pois não existe torcedor rubro-negro que não concorde que do jeito que está, não dá pra continuar.

Um grande abraço e saudações!

E-mail da coluna: teoriadosjogos@globo.com

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