O que representa a venda de Jorge

Numa manhã turbulenta, que começou com a prisão do vice-presidente de futebol do Flamengo, Flávio Godinho, uma segunda bomba eclodiu pelos corredores do Ninho do Urubu – esta, com menor potencial destrutivo. Foi anunciada, de maneira extra oficial, a venda do lateral-esquerdo Jorge – justamente no dia seguinte à sua estreia pela Seleção Brasileira, na vitória do Brasil sobre a Colômbia. Após um período de esquizofrenia midiática, quando o jornal Extra chegou a divulgar a venda por R$ 68 milhões, os valores posteriormente convergiram para uma faixa bastante inferior: segundo o Globoesporte.com, €8,5 milhões (R$ 28,9 milhões). De acordo com o UOL, €8,8 milhões (R$ 29,9 milhões). Certo mesmo é que o Flamengo ficará com 70% da venda, o que equivale a algo entre R$ 20,2 milhões e R$ 20,9 milhões, seguindo as fontes.

Verdade que os valores não deixam de significar uma entrada de recursos em período de montagem de elenco e disputa de Libertadores. Mais do que isto, o retorno do Flamengo às transações de altas somas, pois há anos o clube não movimenta dezenas de milhões numa negociação. É amplamente sabido que, entre os grandes brasileiros, o Flamengo era o que menos arrecadava com a venda de direitos econômicos – uma verdadeira barreira à sua recente entrada no “clube dos endinheirados”. O Palmeiras, por exemplo – possivelmente o primeiro a ultrapassar a barreira dos R$ 500 milhões em receitas em 2016 – só conseguiu a façanha por conta da venda de Gabriel Jesus, um negócio de R$ 121 milhões. De volta à realidade, o orçamento alviverde para 2017 recuou à casa dos R$ 389 milhões.

De qualquer maneira, a venda do lateral por valores muito inferiores ao que se imaginava, além de recheada de lamentações, vem circundada por informações questionáveis e por um retrato do tamanho da histórica incapacidade flamenguista nesta seara.

Pra início de conversa, não se trata da “maior venda da história do Flamengo”, ao menos não sob o ponto de vista europeu – para quem um euro quase sempre valeu um euro. Em julho de 2008, o Fla vendeu o meia Renato Augusto por €10 milhões, o que hoje equivaleria a R$ 34 milhões, mas à época representavam R$ 25 milhões. Os tais R$ 15 milhões propalados pela mídia representam os 60% a que o clube tinha direito na transação, pouco abaixo do verificado agora com Jorge. Sendo assim, sob a ótica do mercado do futebol, Renato Augusto valia €10 milhões em 2008, Jorge vale €8,8 milhões em 2017. Não é preciso dizer que a “melhor venda” de agora se trata de mera questão de taxa de câmbio, sem a devida correção inflacionária.

Mas e pela ótica interna? Expostos a uma inflação galopante, por aqui definitivamente não podemos dizer que um real vale sempre um real. Decidimos, então, comparar o Flamengo a alguns dos melhores vendedores de atletas do futebol brasileiro, Grêmio e Internacional, corrigindo valores históricos pelo IGP-M. O autor do levantamento foi Alexandre Perin, do Blog Almanaque Esportivo, a quem agradecemos a gentileza pela disponibilização:

INTERNACIONAL:

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GRÊMIO:

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PS: Para a venda de Jorge, foi considerado o valor de €8,8 milhões e a taxa de câmbio de €1 = R$ 3,405036. Caso outros valores divulgados na mídia sejam considerados, a posição no ranking muda.

Temos que a venda de Jorge figuraria apenas na 15ª posição do ranking de melhores negócios da história do Internacional, 12º na comparação com o Grêmio. Há que se considerar, naturalmente, que a posição de lateral não é das mais usuais nesta lista – apenas Mário Fernandes, do Grêmio, aparece à frente da cria da Gávea. De qualquer maneira, dada a idade e a técnica do rubro-negro, era de se esperar algo que envolvesse montantes superiores. Para o bem das próprias finanças do Flamengo, em seu resgate da credibilidade frente ao mercado internacional.

Um grande abraço e saudações!

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3 comentários sobre “O que representa a venda de Jorge

  1. Há de se considerar também a situação financeira do vendedor. Flamengo é um clube estabilizado financeiramente. É claro que entrada de uma nova receita é boa pra qualquer clube, até os mais ricos, mas o fator “precisa vender” costuma fazer diferença no preço final. um clube desesperado por dinheiro acaba soltando seu jogador pela primeira boa proposta, pq pode ser uma oportunidade única pra cobrir um rombo.

    No caso do Flamengo, o clube NÃO PRECISA vender um jogador, e como é um clube de futebol e não um banco, às vésperas da Libertadores (que deveria ser a grande ambição do clube e não o lucro), o preço de venda de um lateral titular de 20 anos de idade deveria ser impactada substancialmente para, no mínimo, acima do preço de mercado. O que não ocorreu. Péssima venda!

    Flamengo se mostrou péssimo no mercado, antes como comprador, agora como vendedor também. Deveria ter aulas com o Petraglia, que vendeu um volante que nunca vestiu a camisa amarela, não foi destaque de Mundial sub-20, tampouco disputou um título da principal liga nacional e nunca chegou perto de ganhar uma Bola de Prata, pelo mesmo preço.

  2. Vinícius, que tal se você fizesse um outro blog em que pudesse falar exclusivamente do Flamengo e, paralelamente, fizesse um esforço para manter este, com a proposta que em princípio me parece, seria analítica com a isenção que lhe coubesse. Agora, entenda isso apenas como uma sugestão, já que, sendo um espaço seu, você faz dele o que bem entender.

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