A hora e a vez de um estádio para o Flamengo


Encerra-se hoje a semana  que talvez tenha reunido o maior número de acontecimentos importantes no que concerne à sucessão do Maracanã e ao futuro do futebol do Rio de Janeiro como o conhecemos.

Inseguros com relação a inúmeras questões jurídicas, o conglomerado que reunia CSM e GL Events (numa parceria com o Flamengo) abriu mão da compra da concessão do estádio, agora livre para ser vendida ao grupo concorrente, capitaneado pela Lagardère. Em nota oficial, o Flamengo ratificou sua posição contrária ao uso do estádio nestas condições, embora os franceses acreditem se tratar de um blefe, reversível em momentos futuros. Em meio a tantas turbulências, certezas se ratificam e novas oportunidades se configuram.

Para compreendê-las, entretanto, é necessário fazer uma retrospectiva que explique uma questão-chave, dessas verificadas na boca de qualquer torcedor comum. Por que diabos, afinal, uma instituição mais-que-centenária como o Flamengo ainda não possui estádio próprio?

A resposta ao questionamento remete à antológica frase cunhada pelo ex-presidente Márcio Braga, à época em que Ronaldo Fenômeno, então treinando em plena Gávea, surpreendeu a todos e assinou contrato com o Corinthians. Duramente questionado sobre o porquê de “o Flamengo não ter procurado Ronaldo”, Braga respondeu: “Porque ele não precisava ser procurado. Ronaldo já estava achado!”

A inexistência de uma arena rubro-negra vai ao encontro do que proferiu o ex-presidente. O Flamengo nunca construiu um estádio porque ele sempre teve um – o nome dele era Maracanã! Imagine-se sediado numa capital global como o Rio de Janeiro, há 60 anos coexistindo com aquele que, desde seu advento, se sacramentou como maior templo do futebol mundial? Mais: um estádio que por todo este tempo foi público, barato e disponível. Administrado por uma autarquia estadual (a Suderj), sempre cedido a preço de custo, sem maiores ônus, burocracias ou entroncamentos com calendário de shows. Era só pegar a chave e usar.

Por tudo isto, o Maracanã foi a casa não só do Flamengo como do Fluminense e do Botafogo – Vasco em menor escala.  Em tempos de hiperinflação, crédito restrito e enormes instabilidades políticas e econômicas, não fazia o menor sentido imaginar a hipótese de se construiu um estádio de ponta no Rio até bem pouco tempo. É verdade que a partir da década de 90 o Flamengo se notabilizou por um sem número de péssimas administrações, mas se existe um fardo que aquelas diretorias não podem carregar é este.

Situação bem diferente do que se verificava em São Paulo, por exemplo. Nunca houve, na maior metrópole brasileira, um grande estádio público de direito – apenas de fato. Talvez por analogia com o Rio, os paulistas tomaram para si o Morumbi, particular e pertencente ao São Paulo Futebol. Os tempos de convivência pacífica se foram, fazendo com que Corinthians e Palmeiras (também em menor escala) percebessem a burrada de depender do salão de festas alheio para o aniversário das crianças. Só pelos idos de 2010, e utilizando-se de instrumentos diametralmente opostos, movimentou-se no sentido da construção da Arena Corinthians e do Allianz Parque.

Importante compreender este contexto para que possamos novamente aterrissar em 2017, ano em que o Flamengo se aproxima dos últimos dias naquele que foi seu grande companheiro de glórias e derrocadas. Vivendo o ocaso da administração Odebrecht, o Maracanã ainda receberá ao menos um jogo do Flamengo pela Copa Libertadores – mês que vem, contra o Atlético-PR. A partir de então, foi dado o xeque-mate. E ele veio na forma de um edital publicado ontem no site oficial rubro-negro. Utilizando-se de um instrumento denominado “permuta com torna”, o Fla se prepara para ceder seu maior patrimônio – edifício do Morro da Viúva – em troca de algo. Pode perfeitamente ser um terreno. Para bom entendedor, meia palavra basta.

Prejudicado pela histórica existência de um bendito e predatório Maracanã, o Flamengo finalmente parece concluir que a construção do estádio próprio se faz mais do que necessária: vital. Para tanto, foi preparada a casa provisória na Arena da Ilha, evitando ao time a chaga das cansativas viagens ao longo da temporada. Enquanto isto, tenta superar o que é visto como maior entrave à construção do estádio: o custo de aquisição do terreno. Especialistas atestam que para o custeio das obras em si, existe caixa.

Diante do exposto, é recomendável que a torcida rubro-negra curta, aproveite, desfrute ao máximo sua experiência no antigo “Maior do Mundo” – tão próxima de um divórcio definitivo e litigioso. Aos que se acham espertos, um toque: Eduardo Bandeira de Mello não será presidente para sempre, é verdade. Mas o Flamengo passa longe de ser o clube das épocas em que negociatas eram vistas como prato de comida.

Um grande abraço e saudações!

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8 comentários sobre “A hora e a vez de um estádio para o Flamengo

  1. É mais que necessário o Flamengo conseguir um terreno o quanto antes. Talvez até meados do ano que vem para não sofrer por tanto tempo assim. Por ser carioca, apreciador de futebol e apaixonado pelo Flamengo fico triste por toda esta situação do Maracanã que infelizmente foi mais uma vítima das roubalheiras e corrupções do governo do Estado. Espero que o Fla mantenha está visão e continue firme porque será uma verdadeira luta, uma das mais sofridas acredito eu na história do clube, mas quando se trata de Flamengo tudo tem que ser na base do drama, da dificuldade e de muita luta tenho fé que o clube no final vai sair vitorioso desde que mantenha esse linha de pensamento e atitude.

  2. Concessão não se vende. Se a concessionária não cumpre sua obrigação convoca-se a segunda colocada ou uma nova licitação. É nais um enrolo para quem decidir diferente. É caso pata o TCE e MPRJ.

    1. TCE e MPRJ já entraram com ações contra a venda da concessão. O problema é o imbróglio jurídico que pode durar vários anos. Flamengo não pode esperar esse tempo. Não mais.

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