A mais ridícula das perseguições

Temos uma Geni. Ela responde por Volta Redonda, no interior do estado do Rio – a mais nova inimiga do futebol brasileiro. Ao menos é a sensação de quem lê jornalistas taxando-a taxando-a de “cidade que não gosta de futebol” ou aquela “que cansou do Flamengo”. Inúmeras outras matérias, da mais ampla e democrática gama de veículos, acompanham a relatoria. Assoberbados no mais absoluto desleixo intelectual, trazem como consequência a completa desinformação.

O assunto não é novo por aqui, pelo contrário, já foi tratado inúmeras vezes. E será outras tantas quanto forem necessárias, até que se opte por refletir com o mínimo de embasamento. E sim, este blogueiro é voltarredondense. “Advoga em causa própria”, dirão alguns. Outros compreenderão o mero conhecimento de causa para combater o sem número de falácias proferidas por quem não o possui.

Em primeiro lugar, é mais do que óbvio que os públicos em Volta Redonda são péssimos – não é contra isto que me insurjo. Contra fatos não há argumentos: as últimas três passagens do Flamengo pela cidade reuniram, respectivamente, 1.301, 1.237 e 1.539 pagantes. Sua média de público como mandante no Raulino, o que exclui alguns destes públicos, é de 4.227 pagantes. Ou 3.461, considerando passagens como visitante.

O grande motivo da insurgência, portanto, é outro: não haver problema algum na demanda por futebol na cidade. Sendo assim, inexistiriam rótulos como cidade que desgosta ou que se cansou. Seja do futebol ou de times específicos.

Como diria o poeta – e com base em frases proferidas por mim no Twitter – “parafraseia-te a ti mesmo”:

Brasília possui quase três milhões de habitantes. Natal é cerne de uma região metropolitana de 1,5 milhão. Cariacica pertence a outra, a RM de Vitória e seus 1,9 milhão de almas. Volta Redonda possui 260 mil. Com boa vontade, integrados a uma mancha urbana de 450 mil.

Não é verdade que “quanto maior a cidade, maiores os públicos nos estádios”, senão São Paulo sempre teria as maiores médias – o que não necessariamente ocorre. O gigantismo de um núcleo urbano impacta limitadamente sobre a presença no estádio, pois quanto mais distantes as periferias, mais equivalem a outras cidades. Só que o oposto é verdadeiro, por óbvio: quanto menor uma cidade, menor o potencial de público. Menos demanda, menos gente para consumir, ora.

Mas o que dizer de Chapecó, seus 210 mil habitantes e médias de público muito superiores? As diferenças são tão crassas que se tornam evidentes. Nem é preciso abordar a comoção e a diferença de apelo quando o produto galga à primeira divisão do Campeonato Brasileiro de futebol. Pondo de lado este “pequeno” detalhe: ao contrário da cidade catarinense, Volta Redonda não é 100% flamenguista, apenas 43%.

Adicionalmente, faz toda a diferença ser a sede da agremiação, representando o núcleo duro no entorno do qual se desenvolvem as instituições que a orbitam. O grosso dos associados, sócios-torcedores, diretoria, torcidas organizadas, veículos de mídia que realizam coberturas, tudo acontece na cidade-sede. No caso do Flamengo (e seus rivais), estamos falando do Rio de Janeiro, não de Volta Redonda. O mesmo Rio vinte vezes maior que a Cidade do Aço…

Temos um link com a argumentação do parágrafo anterior. Meçam e descubram: é característica da demanda por futebol no Brasil ser consistente apenas nos grandes centros  – não por acaso, sedes das principais equipes. São Paulo tem demanda para receber uma partida por semana de seus clubes. Rio, BH, Porto Alegre também. Já os distanciados interiores, não. Para eles, receber time grande é como um show, uma exibição para a qual se faz necessária uma palavrinha-chave: demanda reprimida. Ou as primeiras partidas em Volta Redonda não costumam encher? Este ano, quase 10 mil se deslocaram para acompanhar Flamengo 3 x 0 Macaé. Ou Brasília e Juiz de Fora já não cansaram de ver seus públicos minguarem à medida com que se reduziu a escassez de aparições?

Sim, quatro das últimas cinco apresentações rubro-negras em VR foram com reservas. Nenhuma, com time completo. Algumas, com intervalo de três dias. Outras, encaixadas entre dois compromissos da Libertadores – onde verdadeiramente recaem prioridades. Tudo porque o futebol brasileiro apresenta um crônico problema de produto. A Libertadores vale, o “Carioqueta” não. Quem há de dizer que estão errados os que assim pensam? Os habitantes de Natal concordam. Com demanda reprimida e tudo, apenas 9.211 testemunhas se dignaram comparecer àquele Flamengo 4 x 1 Boavista…

Somam-se a estes argumentos alguns outros anteriormente explorados, tais como o comparecimento per capita em Volta Redonda não ser inferior ao da capital.

Diante da falta de profundidade e da patológica necessidade de se encontrarem culpados, julgando-os e condenando-os, conclui-se que:

Parem de jogar pedra na Geni.

Um grande abraço e saudações!

E-mail da coluna: teoriadosjogos@globo.com

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2 comentários sobre “A mais ridícula das perseguições

  1. E’ bem possivel q a demanda por futebol em VR seja menor q em outros lugares. Ela apresenta publicos ridiculos com tickets medios de R$ 20-25. Na arena das Dunas o ticket foi de R$ 70. Obviamente, o numero de jogos, indefinicoes e nivel tecnico dos jogos podem responder por parte da queda na demanda por jogos do Flamengo, mas nao da pra dizer se VR gosta ou nao de futebol sem um estudo mais profundo, estimando a curva de demanda, o que nao e’ nada facil.

    Mas qual e’ o problema de uma cidade ter torcedores pouco engajados? Na ultima pesquisa (so’ da cidade de SP) mais de 50% dos torcedores nao sabiam dizer o nome de um jogador do time, e esses numeros tinham variancia grande por time. Pq nao por cidade? E’ bem possivel q VR sejas uma cidade q mais pessoas nao ligam pra futebol. Nao tem nada de errado nisso, mas nao e’ nenhuma heresia falar q tais pessoas nao gostam de futebol.

    A verdade e’ que sabe-se muito pouco sobre o perfil dos torcedores no Brasil. O Flamengo tem 30 milhoes de torcedores (pessoas q quando perguntadas “qual e’ o seu time” respondem Flamengo). Desse total, quantas sabem 3 jogadores do time? Assistem a 3 jogos por mes? Vao ao estadio quando possivel? Compram produtos? E o mais importante, qual e’ a distribuicao desses torcedores engajados? Estao concentrados em poucas cidades ou distribuidos quase uniformemente? Pode ser q VR tenha engajamento muito baixo mesmo. Aparentemente, vai sair uma pesquisa mais abrangente sobre engajamento da torcida. Nao me surpreenderia com resultados ainda piores do q em SP no resto do Brasil.

  2. o problema é que os clubes não são sediados lá, só vão lá e tiram dinheiro da cidade, o que deve prejudicar muito o comercio, por isso acho que se criou rejeição aos jogos. os clubes sediados na cidade do rio de janeiro acaba por gastar o dinheiro arrecadado na própria cidade o que ajuda a economia do município.

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