As audiências dos estaduais 2018 – Rio e São Paulo

Por algum tempo, audiências em queda do futebol na TV aberta preocuparam executivos da Globo. Tratava-se, entretanto, de um processo natural, em face do crescimento da TV fechada e do pay per view – produtos majoritariamente controlados pelo próprio grupo Globo. De qualquer maneira, se a tendência se mantivesse, era de se questionar a pertinência da manutenção dos jogos de quarta e domingo, em detrimento de transmissões mais exclusivas ou requintadas, como a Champions League e a Seleção Brasileira.

Mas a enorme crise que assola o país desde 2014, bem como o processo de redução da TV paga pelo crescimento do streaming, fizeram com que o processo se revertesse de maneira robusta. Se por um lado existem prejuízos pela diminuição da venda de pacotes de TV fechada e pay per view, por outro a Globo voltou a navegar com imensa supremacia sobre a concorrência, ao menos no tocante aos campeonatos do Rio e de São Paulo. Os números a seguir se referem às recém-finalizadas edições de 2018 para os dois principais estaduais do Brasil.

Para compreendê-los, importante ter em mente as diferenças de audiências entre jogos televisionados às quartas (maiores) e domingos/fins de semana (bem menores, mais ainda nas excepcionalidades dos sábados), junto ao óbvio apelo dos clássicos na comparação com confrontos de grandes contra pequenos. Além disso, o tamanho das torcidas faz toda diferença neste universo, bem como a participação em jogos decisivos ou nas finais dos torneios. Por fim, cada ponto de audiência representa 70,5 mil domicílios ou 199,3 mil indivíduos em São Paulo. No Rio, 44,05 mil lares e 116,9 mil pessoas.

RIO DE JANEIRO

Mais inesperado do que o título do Botafogo foi o fato de o Alvinegro ter sido o clube mais televisionado do Cariocão 2018. Foram nada menos do que oito transmissões, contra sete do costumeiro líder Flamengo. Tudo se deveu à reta final do campeonato, pois as cinco últimas transmissões do estadual* foram clássicos envolvendo o Botafogo – apenas uma contemplou o Flamengo. Antes desta sequência, ou seja, no campeonato “regular”, eram seis jogos do Fla contra três do Bota. Ao final, o Vasco atingiu cinco jogos na TV e o Fluminense três.

*Foram eles: Vasco x Botafogo (semifinal Taça Rio), Fluminense x Botafogo (final Taça Rio), Flamengo x Botafogo (semifinal estadual), Botafogo x Vasco e Vasco x Botafogo (finalíssimas).

De qualquer maneira, e como veremos adiante, nem o excesso de clássicos envolvendo a Estrela Solitária foram capazes de fazê-lo suplantar o clube de maior torcida no agregado final. O Mengão terminou o Carioca com a excelente média de 28,4 pontos de audiência por jogo, número 10% superior aos 25,7 do Fogão (o share foi mais equilibrado: 50% a 48%). O Vasco fez 24,6 pontos médios e o Fluminense, 20,6, sendo único com share abaixo dos 40%. Importante relembrar que, diferente do que ocorre no Brasileirão, no estadual os quatro grandes recebem a mesma cota de televisionamento por parte da Globo.

Sob o espectro dos clássicos e não-clássicos (grandes x pequenos), o Botafogo tinha tudo para fazer valer a vantagem ter tido tantas transmissões em jogos com apelo. Das oito partidas do Glorioso na TV, seis foram clássicos – número que nenhum outro chega perto (o Vasco teve três, o Fla dois e o Flu apenas um). Mas índices apenas razoáveis, como o Flamengo x Botafogo do sábado de Carnaval (naturais 23 com 51%, por se tratar de um feriado com baixo número de televisores ligados) ou o Flu x Bota da decisão da Taça Rio (23 com 45%) jogaram seus números para baixo.

Até mesmo as audiências das decisões frente ao Vasco (26 e 29 pontos, respectivamente) podem ser consideradas decepcionantes, já que os Fla x Flus do ano anterior marcaram nada menos que 35 e 40 pontos. Sendo assim, o Bota marcou 28,3 pontos nos grandes embates, à frente apenas do Flu (23) e superado por Vasco (28,6) e Flamengo (30,5). Detalhe: os únicos clássicos rubro-negros foram contra o próprio Botafogo – aquele do sábado de Carnaval e outro de audiência absurda (38 pontos com 58%), na semifinal geral.

É sob a ótica dos jogos menores que a supremacia do Flamengo fica cristalina. Por saber que a vantagem do Rubro-Negro para os demais é enorme, a Globo marca muitos mais jogos dele – foram cinco, contra dois dos outros grandes. E a diferença do Fla (27,6 pontos) para o Flu (19,5), segundo colocado, foi voraz: 42% a mais. Neste recorte, o Botafogo foi o pior do Rio, embora leve vantagem sobre o Vasco no quesito participação (38% a 37%).

A última análise recai sobre jogos de meio e fim de semana. Às quartas, o pior da estatística anterior dá uma remontada e assume a liderança: o Botafogo. Muito porque seus dois únicos jogos nestas condições foram clássicos na reta final do Carioca, contra Vasco e Flamengo. O clube da Gávea, em segundo, teve três confrontos nas noites nobres do futebol, sendo dois contra nanicos. Vasco e Fluminense tiveram um joguinho cada, mas o do cruzmaltino foi um clássico contra o Botafogo, enquanto o Tricolor encarava a modesta Portuguesa – daí seu desempenho tão abaixo dos demais.

Por fim, os finais de semana – seriam “domingos”, mas o sábado de Carnaval nos obrigou a mudar a nomenclatura. Neles, nada de novo: Flamengo na cabeça (25,5 com 49%). E novamente de forma inconteste, pois apenas um de seus quatro dominicais foi clássico – o tal desfile de Carnaval. Aqui, chamou atenção mesmo a final da Taça Guanabara, entre o Mais Querido e o Boavista, com impactantes 34 pontos com 55%. Participantes da final, Vasco (23) e Botafogo (22,8) vem em seguida, sendo que o clube de General Severiano foi quem mais teve jogos. O Tricolor das Laranjeiras teve média de 20,5, desta vez não tão afastado quanto nos recortes anteriores.

SÃO PAULO

COMPARATIVO COM O RIO

Na comparação com os números expostos do Rio, pode-se dizer que São Paulo levou vantagem em 2018, com seu estadual terminando numa média de 25,7 pontos de audiência, contra 24,7 do Carioca. Além do maior número de datas (20 a 17), pesaram as audiências explosivas da final entre Corinthians e Palmeiras, junto aos números decepcionantes da Cidade Maravilhosa. Excluindo as finalíssimas, o Rio vinha com 24,3 de média, contra 24,2 do Paulistão. Virtudes da presença da maior torcida na final, em face da ausência em terras cariocas. No ano passado, os Fla x Flus decisivos tiveram 37,5 pontos de média, contra 27,5 dos recentes Vasco x Botafogo. Em compensação, a final paulista de 2018 superou a todo e qualquer confronto recente: inacreditáveis 39,5 pontos médios antenados à consagração corintiana.

Em Sampa, deu a lógica, com o Timão mais televisionado (nove oportunidades) e com maior média de audiência (31,2 e 52%). Mesmo fora das finais, o São Paulo teve oito jogos na TV, dois a mais do que o Palmeiras. O Tricolor ficou atrás do Verdão nas médias (26 com 44% contra 27,3 com 48% dos vice-campeões), mas se considerarmos sua ausência nas finais (além de elementos que veremos adiante), podemos considerar os números são paulinos satisfatórios. O mesmo não se pode dizer quanto ao Santos, como também veremos a seguir.

Dos quatro jogos do Peixe no Paulistão – clube menos exibido – três foram clássicos. Trata-se de um expediente recorrente da Globo, que na verdade até abriu uma exceção este ano. A veiculação de Ferroviária x Santos foi considerada uma enorme excepcionalidade por parte da emissora, uma vez que há sete anos não se transmitia o Peixe em qualquer jogo que não clássicos. O resultado? Um verdadeiro fiasco: 13 pontos com 28% de participação, a menor entre os dois principais mercados desde os 12 pontos de um jogo do Botafogo pelo Brasileirão 2014. OK, o clube da Vila jogou no famigerado sábado de Carnaval, mas o share de meros 28% deixa claro que a audiência foi ruim mesmo. Não é à toa, portanto, tamanho sumiço…

Na análise dos clássicos, o trio de ferro da capital foi muitíssimo bem, deixando claro que o apelo das rivalidades paulistanas anda em alta. Foram 35,8 pontos do Corinthians, 34,3 do Palmeiras e 32,3 do São Paulo – os três, por exemplo, acima do Flamengo neste quesito. O ponto fora da curva novamente foi o Santos (25,6), mesmo com seus três clássicos na fase de grupos indo parar na TV. Em sua defesa, o fato de nenhum destes jogos ser decisivo. Já em jogos contra pequenos, a grande notícia foi o destaque dado ao São Paulo, com cinco apresentações contra quatro do Corinthians. Conforme demonstra o exemplo carioca, a emissora não costuma deixar tais embates nas mãos de quem sabe que não dará retorno. De fato, o clube do Morumbi teve desempenho razoável (22,2 e 38%), numa consolidada segunda colocação.

Por dia da semana, mais do mesmo. Outro empate entre corintianos e são paulinos em veiculações às quartas, com o Corinthians na frente em pontuação por dois pontos e três no share. O Palmeiras teve apenas um joguinho e o Santos, pasmem, zerou neste quesito. A mesma concentração não foi vista nos fins de semana, quando Corinthians e Palmeiras jogaram cinco e São Paulo e Santos, quatro vezes cada. Catapultados pelas finais, alvinegros e alviverdes marcaram média de 32,5 (com 56%) e 28 pontos (com 50%), deixando para trás aqueles que ficaram pelo caminho.

Um grande abraço e saudações!

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Um comentário sobre “As audiências dos estaduais 2018 – Rio e São Paulo

  1. Ficou bem claro que no eixo Rio-SP, o Santos é, de longe, o que dá menor audiência, e os clássicos envolvendo o Peixe chamam menos atenção. Os dirigentes bairristas do Santos —
    que por muito tempo fizeram o Santos só jogar na Vila — conseguiram: o Santos é de Santos…

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