Minha verdade sobre os preços (e o porquê da decepção em Fla x Emelec)

É possível que nem aqueles que mais me acompanham tenham percebido, mas eu detesto escrever em primeira pessoa no Blog Teoria dos Jogos. Entendo que se passa uma informalidade mais apropriada a redes sociais – como em meu Twitter particular, onde aí sim o faço. Entretanto, hoje a tônica será diferente. Aqui é o Vinicius Paiva, falando diretamente com sua audiência. Num texto inicialmente de desabafo, mas que utilizará destes preceitos como ganchos para uma análise a respeito da precificação da partida entre Flamengo e Emelec. Jogo este que, como todos sabem, em nada correspondeu à expectativa de vendas, havendo pouco mais de 36 mil ingressos comercializados até a última parcial divulgada ontem.

Semana passada, fui vítima de um desgastante e covarde processo de linchamento virtual insuflado e alimentado por um irresponsável que, pasmem, vem a ser também importante e renomado jornalista de TV. As razões (que na verdade não eram bem essas…) foram opiniões emitidas por mim a respeito de preços que considerei equivocados na partida entre Flamengo e Internacional, domingo retrasado no Maracanã. Ali, defendi a ideia de que os tickets eram muito baixos em face da grande demanda – o que sempre acontecerá quando o Flamengo lidera um Brasileiro, seja na segunda ou na 38ª rodada. E isto gerava um efeito colateral perverso: a internalização, por parte de contraventores (cambistas), de lucros que deveriam ser do Flamengo. Após o jogo, minha opinião foi confirmada por inúmeros relatos de gente que pagou até R$ 80 nas mãos de terceiros. Isto em se tratando de ingressos que partiram de vinte ou mesmo dez reais. Conheço quem passou por isto. Você, por mais que não admita, possivelmente também conheça.

Sendo assim, reitero a ideia. É meu livre pensamento e um direito a respeito do qual supostos democratas deveriam defender até a morte, não fossem hipócritas. Mas só mesmo muita estupidez leva alguém a me atacar com base na falácia de que eu defenderia “preços abusivos” – ideia amplamente difundida em rudes variações do adjetivo “elistista”. O que defendo, defendi e defenderei, como cientista econômico que sou, é que preços devem seguir a lógica de mercado, isto é, variar em função da oferta e da demanda. Com especial enfoque à procura de ingressos, uma vez que a oferta de assentos é fixa (ainda que não muito escassa, em se tratando do maior estádio do Brasil). Em resumo, penso que jogos com baixíssimo apelo devem ter preço tendendo a zero (o que na verdade significa tender aos custos fixos). Jogos com médio apelo seguem a proporção. Grandes partidas devem, sim, ser caras. Sinto muito, desconheço a escola que ensinou futebol como item de cesta básica e ferramenta de distribuição. Nenhum outro integrante da economia do entretenimento é tratado assim, e não é porque o esporte seja mais importante culturalmente. Ou a música não traz consigo elementos fundamentais neste sentido?

Mas nem tudo são preços, amigos. Ou vocês acham que ingressos a dez reais levariam 50 mil torcedores a um Flamengo x Quissamã válidos pela fase de grupos do Estadual – aquela porcaria que tornou obsoletas as Taças Guanabara ou Rio para se sagrar campeão carioca? Não. Fundamentalmente, o problema do futebol brasileiro é mais relacionado ao produto: insegurança, desconforto, logística de transportes, gramados lastimáveis e times que apresentam qualidade de jogo deprimente. Somam-se a isto outras questões, também econômicas, como a renda média do trabalhador num país que se esforça para não parecer pobre como é. Temos aí a receita do bolo mais indigesto que se tem notícia.

Ainda que eu acredite em tudo que elenquei acima, reitero: falta inteligência aos que não creditam à ferramenta de preços sua enorme relevância – especialmente quando se erra para cima na dosagem. Nenhuma partida, por exemplo, vale mais de mil reais. Talvez uma final de Copa do Mundo. Nem mesmo uma final de Champions League vale tanto – ou melhor, até vale, apenas por questões cambiais: o ingresso mais caro para a edição 2018 sai por 450 euros, o que num câmbio de mais de 4:1 representa 2 mil reais. Mas em se tratando de países com renda per capita quatro vezes superior à do Brasil, tais ingressos são percebidos como se custassem, por aqui, R$ 450.

Ou seja, alegar que aumentos nos preços não devam acontecer de maneira bissexta passa longe de significar a defesa de precificações extorsivas. Quando elas acontecem, ao invés de 60 mil, tem-se 35 mil, como provavelmente será na noite de hoje. Metade do potencial de público a apoiar na partida mais importante do ano, metade do potencial de consumo dentro do estádio. Ainda que muitos forcem a barra para colar a pecha, numa desesperada tentativa de aparecer, a exagerada na dose nunca foi uma ideia que eu defendesse.

Diante de todo o exposto, sim: vivenciamos um erro fundamental na precificação do jogo do Flamengo. Veremos por quê.

Para melhor análise do panorama rubro-negro em jogos em casa pela Libertadores, fizemos um levantamento contemplando todas as partidas a partir da edição de 2010 – antes disto, se tratava de um Brasil já muito diferente em sua relação com o futebol e a sociedade. Optamos também por corrigir o importantíssimo conceito do ticket médio pelo IGP-M, através da calculadora do Banco Central, proporcionando melhor visualização dos perfis de consumo intertemporais.

Vamos aos números:

LIBERTADORES 2010 – Todos os jogos no Maracanã

Flamengo 2 x 0 Universidad Católica (24/02/2010) – Fase de grupos

Público: 24.301 pagantes. Renda: R$ 728.373,00. Ticket médio: R$ 29,97 (corrigido: R$ 49,44)

 

Flamengo 2 x 2 Universidad do Chile (08/04/2010), com 16.784 pagantes, não será incluído pois foi um jogo remarcado para a tarde de um dia útil, após um dilúvio bíblico inviabilizar a ocorrência da partida na noite original.

 

Flamengo 3 x 2 Caracas (21/04/2010) – Fase de grupos

Público: 27.513 pagantes. Renda: R$ 807.204,00. Ticket médio: R$ 29,33 (corrigido: R$ 47,37)

 

Flamengo 1 x 0 Corinthians (28/04/2010) – OITAVAS DE FINAL

Público: 62.247 pagantes. Renda: R$ 2.240.800,00. Ticket médio: R$ 35,99 (corrigido: R$ 58,13)

 

Flamengo 2 x 3 Universidad do Chile (12/05/2010) – QUARTAS DE FINAL

Público: 61.643 pagantes. Renda: R$ 2.195,370,00. Ticket médio: R$ 35,61 (corrigido: R$ 57,07)

 

LIBERTADORES 2012 – Todos os jogos no Engenhão

Flamengo 2 x 0 Real Potosí (01/02/2012) – Pré-Libertadores

Público: 32.004 pagantes. Renda: R$ 963.580,00. Ticket médio: R$ 30,10 (corrigido: R$ 42,60)

 

Flamengo 1 x 0 Emelec (08/03/2012) – Fase de grupos

Público: 27.826 pagantes. Renda: R$ 741.859,00. Ticket médio: R$ 26,66 (corrigido: R$ 37,75)

 

Flamengo 3 x 3 Olímpia (15/03/2012) – Fase de grupos

Público: 26.830 pagantes. Renda: R$ 695.114,00. Ticket médio: R$ 25,90 (corrigido: R$ 36,68)

 

Flamengo 3 x 0 Lanús (12/04/2012) – Fase de grupos

Público: 12.626 pagantes. Renda: R$ 286.429,00. Ticket médio: R$ 22,68 (corrigido: R$ 31,98)

 

LIBERTADORES 2014 – Todos os jogos no Maracanã (pós-reforma)

Flamengo 3 x 1 Emelec (26/02/2014) – Fase de grupos

Público: 34.726 Pagantes. Renda: R$ 1.801.152,50. Ticket médio: R$ 51,86 (corrigido: R$ 64,36)

 

Flamengo 2 x 2 Bolívar (12/03/2014) – Fase de grupos

Público: 37.809 pagantes. Renda: R$ 2.007.147,50. Ticket médio: R$ 53,08 (corrigido: R$ 65,63)

 

Flamengo 2 x 3 León (09/04/2014) – Fase de grupos

Público: 53.230 pagantes. Renda: R$ 3.091.047,50. Ticket médio: R$ 58,06 (corrigido: R$70,61)

 

LIBERTADORES 2017 – Todos os jogos no Maracanã

Flamengo 4 x 0 San Lorenzo (08/03/2017) – Fase de grupos

Público: 54.052 pagantes. Renda: R$ 3.688.482,50. Ticket médio: R$ 68,23 (corrigido: R$ 68,77)

 

Flamengo 2 x 1 Atlético-PR (12/04/2017) – Fase de grupos

Público: 53.389 pagantes. Renda: R$ 3.336.297,50. Ticket médio: R$ 62,49 (corrigido: R$ 62,97)

 

Flamengo 3 x 1 Universidad Católica (03/05/2017) – Fase de grupos

Público: 54.555 pagantes. Renda: R$ 3.314.405,00. Ticket médio: R$ 60,75 (corrigido: R$ 61,90)

 

Para começar, 36 mil ingressos vendidos não estão muito fora da média do clube em Libertadores neste século: em 14 partidas, ela foi de 40.197 pagantes. A questão é que a média de quatro jogos no Engenhão em 2012 foi baixa, apenas 24.822. Sem ela, ou seja, contemplando apenas o Maracanã, o número sobe para imponentes 46.347 torcedores. Mais: excluindo a edição de 2010, jogada no velho estádio, as edições 2014 e 2017 incrementatram ainda mais a média: 47.960. Como se nada que esteja ruim não pudesse piorar, olhar para ontem preocupa: a participação na Libertadores 2017 teve a incrível média de 53.999 pagantes por jogo.

Excluindo-se, então, a datada realidade de 2010 e 2012, a correção do ticket médio pela inflação mostra que o Flamengo sempre cobrou entre R$ 60 e R$ 70 no novo Maracanã em jogos válidos pela Libertadores. Nem sempre deu certo, é bom que se diga: os dois primeiros embates de 2014 apresentaram menos de 38 mil pagantes, o que à época repercutiu bem menos do que vem acontecendo agora.

Mas o fato é que a diretoria, iludida por uma suposta demanda reprimida pelos dois jogos com portões fechados, pegou pesado nos preços. O que pode ser claramente percebido na comparação dos preços cheios do ano passado com os deste ano. Do que partia de R$ 120 e R$ 140 (Sul e Norte) – atingindo R$ 160 e R$ 200 nos setores Leste e Oeste – chegou-se à atual situação de R$ 180 e R$ 200 nos setores Norte e Sul, R$ 240, R$ 270 e R$ 300 nos demais. Ainda que os preços para sócios tenham se mantido em patamar semelhante.

O problema é que um número menor de STs se dispôs a comprar ingressos. Segundo apurou o Blog Teoria dos Jogos, estarão presentes cerca de 34 mil associados – 95% do total de compradores prévios. Um número pequeno em face à média de comparecimento em grandes jogos. Nas partidas que apresentam sold out (todos os ingressos vendidos), sócios-torcedores costumam ser em torno de 45 mil presentes. Em finais, sobem para 55 mil – inviabilizando a presença de qualquer pessoa que não fosse associada. Pode-se dizer, portanto, que na partida contra o Emelec houve um encalhe de pelo menos 10 mil ingressos, justamente de sócios que pagam barato. Direcionando-os ao público geral – que paga caro – a má vontade se tornou generalizada. São estes que, habitualmente, elevam o ticket médio das partidas. Só que desta vez, os compradores se viram diante de um padrão de preços considerado pouco racional. Caso todos os ingressos tivessem sido vendidos, o ticket médio seria próximo de R$ 100, um aumento brutal, superior a 60% na comparação com a Libertadores passada. Para que se tenha ideia, na final da Sulamericana 2017, o ticket foi apenas um pouco superior a isto (à ocasião, R$ 121).

Mas a coisa também não funcionou por falta de sensibilidade da diretoria. Na Libertadores 2017, torcida e clube vinham numa espécie de lua-de-mel desde a campanha no Brasileirão 2016, quando o Fla lutou pelo título. Tudo caiu por terra com a eliminação na fase de grupos, os vice-campeonatos da Copa do Brasil e da Sulamericana. Fora a pá de cal representada pela eliminação no Carioca 2018 diante de um Botafogo imensamente inferior em elenco e recursos. O somatório destes eventos instaurou um estado de revolta que culminou na calamidade dos protestos com agressões a jogadores em aeroportos. Diante de tamanhas consequências, causas cristalinas: a indignação com o fato de o Flamengo não ter se tornado vencedor, mesmo com balanços patrimoniais soberbos e toda estrutura para que seus atletas correspondam. Além da percepção de indiferença e certa prepotência daqueles que tomam as decisões.

Em resumo, pode-se dizer que Eduardo Bandeira de Mello e seus congêneres fizeram más avaliações dentro e fora do ramo da economia. Acharam que um evento único em fase de grupos poderia equivaler a uma verdadeira decisão de campeonato. Ignoraram a crise num estado completamente descolado de um país em recuperação. E deram de ombros ao litígio que levou a torcida a refutar um nível de preços que ela não está disposta a arcar – acima, portanto, do equilíbrio de mercado que sempre apregoei.

Deu no que deu.

Um grande abraço e saudações!

E-mail da coluna: teoriadosjogos@globo.com

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