Uma experiência na Copa do Mundo da FIFA – Rússia 2018

 

Países gigantescos, longas distâncias, novos e reluzentes estádios, festas pelas ruas. Num primeiro momento, as semelhanças entre aqueles que sediaram as duas últimas Copas do Mundo (Rússia e Brasil) aparentam ser diversas. E embora realmente existam – a começar pela enorme pluralidade de povos e costumes presentes em ambos – um olhar mais atento traz à tona interessantes diferenças entre o evento transcorrido em solo tupiniquim e o recém finalizado torneio na terra das matrioskas.

A primeira e enorme diferença reside na relação do povo russo quanto aos investimentos realizados e o impacto sobre suas percepções de prioridades. Num comparativo com as violentas reações brasileiras (iniciadas um ano antes da Copa de 2014), pode-se dizer que nada nem próximo foi experimentado na Rússia. Pelo contrário: o imaginário controverso do presidente Vladimir Putin parece muito mais encravado nas mentes ocidentais do que na de seus comandados. Vide a efusiva exaltação recebida pelo chefe de estado em suas falas nas cerimônias oficiais. De fato, foi possível encontrar o rosto do líder russo estampado até mesmo em souvenirs, algo tão distante da realidade brasileira quanto os 10 mil km que separam os dois países.

Todo o apoio da população se deu a despeito de gastos na construção de estádios que chegaram à bagatela de R$ 4,5 bilhões apenas na arena de São Petersburgo. Nenhuma das doze venues construídas ou reformadas custou menos de R$ 1 bilhão, soma esta que fez a rubrica totalizar mais que o dobro do que o Brasil dispendeu. Nada tão assustador, se considerarmos que apenas as Olimpíadas de Inverno Socchi 2014 ultrapassaram a barreira dos US$ 50 bilhões.

Ainda no tocante à infraestrutura, assim como aconteceu por aqui, a Copa do Mundo veio para modernizar os aeroportos das cidades-sede. Esta talvez seja a maior externalidade positiva, uma vez que a malha metroviária do país ou já representava o que havia de mais abrangente, ou em nada se modificou. Um exemplo recai sobre Moscou e seus inacreditáveis 350 km de linhas. Por lá, a última inauguração remonta ao já longínquo ano de 2003, o que comprova que nem tudo precisou ser feito às pressas e sob supervisão global. Mas obviamente, nem tudo são flores, pois basicamente as duas maiores cidades do país possuem rede de transportes para além do convencional. Em Rostov, onde o Brasil estreou contra a Suíça, toda a locomoção se deu através de ônibus gratuitos disponibilizados aos detentores de Fan Ids. Funcionou sem impressionar.

Quanto às arenas, não restam dúvidas: foi oferecido aquilo que melhor representa o estado da arte. Aqui no Brasil, chamou atenção um vídeo que circulou pelo Whatsapp em que um torcedor mostrava as embasbacantes acomodações do setor de hospitality, onde luxuosos salões de jantar disponibilizavam buffets e disputavam lugar com as arquibancadas a que davam acesso. Não era necessário pagar tão caro para vivenciar boas experiências, entretanto, posto que os detentores de ingressos regulares não tinham do que reclamar. Ponto negativo para a variedade de produtos nos bares, algo compartilhado com o que se viu dentro das FIFA Fan Fests. Nos primeiros dias de jogos, tanto Fan Fests quanto estádios apresentaram padrão de atendimento um tanto sofrível, com filas e muita demora, o que tendeu a se diluir com o tempo e a aquisição de expertise.

O engajamento do povo russo – festejado em verso e prosa por reportagens que muitas vezes visam apenas valorizar o produto – verificou uma crescente apenas ao longo da competição. E atingiu o ápice por conta da digna campanha da seleção local, eliminada nos pênaltis apenas nas quartas-de-final. Nada mau para um escrete que, um ano antes, havia feito feio numa esvaziadíssima Copa das Confederações. Se no Brasil a Copa veio para apaziguar ânimos exaltados um tanto além da conta, na Rússia aproveitou-se para fazer dela uma injeção de patriotismo e orgulho próprio, nos moldes do que viveram os alemães durante a edição de 2006.

Por fim, a festa nas ruas foi digna deste que é o maior entre todos os eventos do calendário esportivo mundial. Foram superadas até as dificuldades impostas por uma barreira de linguagem aparentemente intransponível, já que o alfabeto russo (cirílico) tem origem totalmente distinta e pouquíssimas pessoas falam inglês. Nada que freasse o ímpeto dos milhares de latinos que os invadiram, fazendo da terra de Lênin um pedacinho de América tropical. Foi realmente bonito acompanhar a euforia de brasileiros, argentinos, mexicanos, colombianos e peruanos – nem de longe acompanhada por seus pares europeus. A não ser no finalzinho, quando dentro de campo, passou a só dar Europa. Pano de fundo para outra história…

Um grande abraço e saudações!

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