Canto do Cisne: o adeus do Blog Teoria dos Jogos e a pesquisa Datafolha-2019 (Flamengo 20%)

Trata-se de uma lenda surgida na Grécia Antiga, hoje mais metafórica do que alinhada à realidade biológica. Ela reza que o gracioso cisne branco, habitual ocupante do ideário cultural e popular (vide histórias como a do “Patinho Feio”), seria mudo ao longo de toda sua vida. Mas que ao pressentir a chegada da morte, exprimiria uma belíssima canção de despedida.

Tudo na vida é assim: tem começo, meio e fim. Como vocês perceberam, o Blog Teoria dos Jogos não vem sendo atualizado há mais de um ano. Desde seu surgimento, em parceria com o portal Globoesporte.com, nos idos de 2011, ocupou um vácuo no jornalismo esportivo ao divulgar, popularizar e fomentar as pesquisas de torcidas no Brasil. A grande mídia sempre abordou a temática, mas nunca com tamanho aprofundamento e tenacidade, trazendo à tona desde a configuração nacional até a realidade dos mais afastados rincões do país.

Por tudo isto, o Canto do Cisne do Blog Teoria dos Jogos não poderia acontecer de outra maneira que não analisando uma nova pesquisa. Desde que não uma qualquer, ordinária. Mas sim uma pesquisa que rompesse paradigmas. Eis que na manhã de hoje, o Instituto Datafolha divulgou um novo levantamento com números inéditos. Em benefício de apenas um clube, é verdade: o Flamengo, que pela primeira vez na história recente do futebol brasileiro aparece com 20% das preferências nacionais. Todos os demais mantiveram-se estáveis, o que pode ter dois significados distintos, a partir de agora explorados.

Detalhamento da pesquisa:

Localidade: Todo o território nacional

Instituto: Datafolha

Amostra: 2.878 entrevistas, em 175 municípios, entre 29 e 30 de agosto de 2019

Margem de erro: 2 p.p

Segundo o Datafolha, nada menos que um quinto da população brasileira – o equivalente a quarenta e dois milhões de brasileiros – são flamenguistas, percentual nunca antes registrado pela maior torcida do Brasil. Pode-se alegar com alguma segurança que existe um boost por conta do bom momento vivido pelo Rubro-Negro, algo já verificado anteriormente. Após o hexacampeonato brasileiro de 2009, o mesmo instituto apontara o Fla com 19% das preferências. Após aquela euforia, o clube retornou para a faixa que sempre circundou, entre 17% e 18%. A grande questão reside na interpretação do que seria este “bom momento”, já que apesar de liderar o Brasileiro e estar classificado para as semifinais da Libertadores, o único título de expressão do clube nos últimos nove anos foi a remota Copa do Brasil de 2013. Fato é que a montagem de um esquadrão, o futebol de encantamento praticado e o fato de o clube lutar, há anos, pelas primeiras posições após a remontada financeira parece ter tido um impacto tão grande quanto o da conquista de grandes títulos.

Mas atribuir o ótimo índice do Flamengo a uma boa fase parece ser tão pouco justo quanto honesto, ao menos quando se olha para tendências que já vinham sendo verificadas. A própria pesquisa anterior do Datafolha, no ano passado (e também analisada pelo Blog Teoria dos Jogos) indicava que, na faixa entre 16 e 24 anos, o Flamengo detinha 24% das preferências nacionais. E não é de hoje que é assim. Deste modo, e a despeito da variação do clube alinhar com a margem de erro da pesquisa (2 pontos percentuais), pode-se concluir também que estes números solidificam tendências há muito verificadas.

Em se tratando dos demais, há relativamente pouca novidade. Na comparação com a última pesquisa Datafolha, apenas o Grêmio variou positivamente de 3% para 4%, colando-se a Vasco e Cruzeiro, que registram o mesmo percentual. Apesar do múltiplo empate entre agremiações que marcam 1%, sabemos que o mesmo ocorre por questões de arredondamento, mas que o ordenamento entre eles responde aos quantitativos de cada um. Sendo assim o Botafogo volta a aparecer à frente do Bahia, diferente do que vimos em 2018. Ainda assim, o Tricolor Baiano surge sólido diante do Fluminense, 13º na contagem agregada. Os times de Pernambuco voltaram a ser contabilizados, com o Sport pedindo passagem na 14ª colocação. Infelizmente os paranaenses seguem aglutinados na infame conta “Outros”, fazendo com que não saibamos o real tamanho de um clube (cada vez mais) importante como o Athletico.

Com relação ao predomínio dos sem-clube (22%), deixemos de oba-oba: sempre foi assim. A tendência é exatamente que deixe de ser, conforme veremos adiante nas análises por faixa etária.

Antes, os recortes por sexo, onde o Flamengo aparece maior entre homens (21% a 19%), algo que costuma ser valorizado em face da propensão ao consumo masculina – mas que vem apresentando graduais mudanças recentes. O Corinthians, unissex, surge estável em 14%. São Paulo, Vasco, Santos, Botafogo, Bahia e Fluminense também marcam mais entre eles do que em meio a elas.

Finalmente por idade, verifica-se tendência de crescimento explosiva do Flamengo em meio aos mais jovens, subindo dos 24% citados anteriormente para 25%. Se a tendência se mantiver, é possível que gerações futuras acompanhem o Flamengo ultrapassando a barreira dos 50 milhões de torcedores – algo completamente inimaginável na historicamente pulverizada realidade brasileira. Trata-se de um processo, por ora, irrefreável, e que já vem trazendo frutos ao clube da Gávea em termos de receitas de televisionamento, bilheterias, marketing e sócios-torcedores.

Entre os demais, Corinthians e São Paulo também apresentam tendência solidificada de crescimento jovem – indo a 16% e 11%, respectivamente. O processo faz das três maiores torcidas donas de 52% das preferências abaixo de 24 anos, o que tende a colocar o Brasil na rota dos países com poucos clubes realmente poderosos, nos moldes do que se verifica na Europa. Em direção oposta, a queda do Vasco (3%) faz com que ele seja ultrapassado pelo Cruzeiro (4%) e alcançado por Grêmio e Santos, o que aponta para modificações no top-5 nacional em médio prazo.

Ainda entre jovens, uma tendência preocupante foi verificada pela primeira vez: o crescimento do “Nenhum”. Historicamente, quanto menor a faixa etária, menor a predominância de pessoas sem clube. Entretanto, desta vez a faixa de 25 a 34 surge como aquela de menor quantitativo de “Nenhum” (16%). Isto pode ser interpretado como desinteresse pelo esporte, por conta das inúmeras opções de lazer e entretenimento que impactam sobre aqueles com menos idade (e-sports, streaming, internet, etc).

Por escolaridade, o destaque vai para a queda do Palmeiras (4%) na comparação com Vasco e Cruzeiro (5% cada) em meio aos mais instruídos, algo pouco visto em pesquisas anteriores e que pode ser atribuído à maior margem de erro em recortes muito específicos. O mesmo pode-se dizer da absurda diferença do Flamengo (24%) em face do Corinthians (10%) entre os mais ricos (acima de 10 salários-mínimos). Se estes números corresponderem à realidade (e este Blog é bastante cético a respeito), existiria uma tendência de esmagamento do Flamengo com relação à concorrência em termos mercadológicos. Recomenda-se cautela, entretanto. Percebam que o Grêmio marca 7% entre os mais ricos, com o Internacional aparecendo sete vezes menor, o que definitivamente não é verdade. Já o Fluminense, tanto maior quanto mais ricos os torcedores, sempre encontrou respaldo neste perfil de público.

Por regiões, a surpresa recai sobre o equilíbrio entre Corinthians (18%) e Flamengo (17%) na região-natal de ambos, o Sudeste. Historicamente houve desequilíbrio por conta da população muito maior do estado de São Paulo (45 milhões de habitantes) frente ao Rio de Janeiro (16 milhões). Por conta disto, o próprio Datafolha um ano atrás mostrou o clube do Parque São Jorge na dianteira por 19% a 14%. Como a pesquisa não abre os números estaduais, resta saber se a escalada se deu por conta do crescimento do Flamengo em seu próprio quintal ou se o mesmo ocorreu para além de suas fronteiras, galgando em lugares como Minas Gerais ou o próprio estado paulista.

Numa pesquisa em que o Flamengo foi tão bem, gera estranhamento o desmoronar de suas preferências na região Sul, onde há um ano, 8% se declaravam flamenguistas – agora, 4% o fizeram. Os maiores beneficiados são as potências locais, Grêmio (23%) e Internacional (17%). Em compensação, o descolamento rubro-negro nas regiões Nordeste (27%), Centro Oeste (28%) e Norte (39%) mais do que compensou a movimentação atípica para os lados meridionais.

Ao contrário do que apregoa o imaginário popular, a torcida do Corinthians é maior do que a do Vasco em todas as regiões, consolidando-se como segunda força e afastando de si a pecha de “regional”. O que inclui um verdadeiro atropelo no Nordeste (9% a 5%) – única região em que os alvinegros não ultrapassam a barreira dos dois dígitos. O máximo que o Cruzmaltino atinge, por exemplo, são 8% na região Norte, ainda assim 2 pontos percentuais abaixo do que marcam os concorrentes paulistas.

Outros recortes interessantes, aqui agregados em apenas um, são os de natureza e porte dos municípios. Eles comprovam uma velha ideia de que o Flamengo seria uma potência maior à medida com que se interioriza. Num primeiro momento, o Corinthians parece acompanhá-lo: ambos crescem igualmente ao saírem das capitais. Ocorre que nas menores cidades, com população de até 50 mil habitantes, o Mengão dá um salto a 25%, enquanto o Timão estaciona nos 14% de sua configuração nacional. Trata-se de uma estatística que afaga os egos daqueles que enxergam o Flamengo como elemento de congregação e integração nacional, ainda que os lugares onde o dinheiro circula de verdade sejam as regiões metropolitanas.

Por fim, e só porque é a última vez, misturaremos esporte com política – algo que parece ter se tornado uma obsessão editorial do grupo Folha. Pela primeira vez foi mapeado o perfil completo de eleitores nas eleições 2018, de avaliação do governo Jair Bolsonaro e intenções futuras de voto. Este blogueiro é de direita, mas o Blog Teoria dos Jogos nunca teve partido. Sendo assim, apenas faremos expôr os números, deixando para os leitores possíveis conclusões:

Nunca gostei de escrever em primeira pessoa, mas agora ela se torna imperativa. Foi maravilhoso enquanto durou, mas o ciclo do Blog Teoria dos Jogos se encerra aqui. Considero muito bem sucedida minha empreitada, mas toda temática apresenta seus esgotamentos. Outras especialidades da casa, como as audiências televisivas, parecem ocupar um lugar cada vez mais importante no cerne dos debates sobre marketing esportivo. Ainda assim, as pesquisas sempre serão uma paixão deste que vos fala. Tudo o que se relacionar a elas e a outros assuntos continuará sendo abordado no meu perfil de Twitter: @vpaiva_btj. Mesmo espaço onde, muito em breve, vocês, fiéis leitores, saberão das minhas futuras empreitadas.

Todo o material do Blog Teoria dos Jogos em sua fase independente (2015-2019) seguirá no ar, a título de consulta, por tempo indeterminado.

Um grande abraço e muito, muito obrigado a todos vocês, queridos amigos.

VINICIUS PAIVA.

5 comentários sobre “Canto do Cisne: o adeus do Blog Teoria dos Jogos e a pesquisa Datafolha-2019 (Flamengo 20%)

  1. Não poderia deixar de dar o meu depoimento sobre o blog. O maior da história sobre torcidas. E de História posso falar, pois sou Historiador. Eu tive a honra de colaborar com o blog. Descobrimos a pesquisa sobre os times mais populares de1969 pelo Ibope/Jornal “O Globo” nos arquivos da Unicamp, demos o furo da pesquisa secreta do datafolha de 2014 e outras pérolas. O meu agradecimento ao amigo Vinicius Paiva, pois o blog teve participação indireta na minha vida profissional. Não digo fim, mas um até logo…

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