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Distorções na Tabela do Brasileirão – versão 2014/2015

Há dois anos o Blog Teoria dos Jogos lançou o alerta: alguns integrantes da Série A podiam ser prejudicados ao verem suas partidas como mandantes muito concentradas nos piores dias, contrastando com a realidade dos rivais. A análise de 2013 – cujo título era o mesmo desta coluna – repercutiu bastante. Fontes próximas ao Blog atestaram a atuação de grandes clubes nos bastidores (junto à CBF), visando influir nas tabelas dos torneios subsequentes.

De lá pra cá muita coisa mudou? É o que analisaremos.

Inicialmente, faz-se necessário esclarecer uma interessante característica da audiência esportiva no Brasil: enquanto o futebol tem mais público pela TV nos dias úteis, aumenta o público nos estádios em fins de semana. Trata-se de algo facilmente verificável com base nas audiências divulgadas semanalmente pelo Blog Teoria dos Jogos no Twitter, bem como estabelecendo um recorte das médias de público do Campeonato Brasileiro.

Média geral de público – Brasileirão-2014:

Fig 01

Média de público – fins de semana (BR-2014):

Fig 02

Média de público – dias de semana (dias úteis – BR-2014):

Fig 03

O Blog Teoria dos Jogos agradece e credita o levantamento das informações (assim como a elaboração das tabelas) a Minwer Daqawiya, publicitário e colaborador do site Grêmio Libertador.

Parece óbvio o benefício financeiro (em termos de maiores bilheterias) dado aos que jogaram mais em casa nos fins de semana. Considerando que 27 das 38 rodadas se deram aos sábados e domingos, temos como padrão o percentual de 71%. Equipes que tiverem atuado menos do que isto aos fins de semana aparecem marcadas em tons de vermelho e amarelo –  eis os prejudicados. Em direção oposta, marcamos os beneficiados em tons de verde. Segue a distribuição:

Fig 04

Na comparação com o ano retrasado, percebe-se que o Corinthians, maior beneficiado à época (84%) teve seus jogos realocados, passando à condição de prejudicado. Em 2014 os paulistas apresentaram percentual de 63%, melhor apenas que os 58% do Coritiba. No outro extremo, Atlético-PR (89%), Atlético-MG e Internacional (84%) gozaram do benefício das bilheterias em níveis superiores aos demais.

A análise também pode se estender ao Brasileirão 2015, com a limitação de que a tabela só foi totalmente aberta até a 10ª rodada:

Fig 05

A parcialidade enviesa a análise. Até a 10ª rodada, alguns terão feitos apenas quatro jogos em casa, frente a outros com até seis. De qualquer maneira, Coritiba, Flamengo, Goiás, Internacional, Ponte Preta e Santos largam na frente, com todos os seus jogos em casa nos fins de semana. Já o Fluminense fará apenas metade deles no Maracanã.

Mediante as vinte diferentes realidades da Série A, soa impossível administrar tabelas de modo a igualar o percentual de todos. Mas ao trazer a público comparações intertemporais, o Blog Teoria dos Jogos monitora a existência ou não de benefícios/prejuízos sistemáticos para este ou aquele. Por ora, as distorções não parecem tão relevantes.

Um grande abraço e saudações!

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A Pesquisa da Vez: Lance/Ibope-2014 (E haja polêmica…)

CRM Zen

Desde as primeiras horas de ontem, este blogueiro se viu bombardeado por pedidos de esclarecimento, informações e análises. Logo se percebia que a tão aguardada pesquisa Lance/Ibope-2014 saíra do forno, verdadeira fagulha sobre o combustível do debate envolvendo o tamanho das torcidas. Como ultimamente quem gera mais polêmica ganha mais cliques, os institutos parecem estar caprichando.

Antes, uma ressalva: a amostra da pesquisa Lance-Ibope é de 7.005 pessoas, com margem de erro de apenas um ponto percentual. Significa ser totalmente fiel à realidade? Absolutamente não. Como o Blog Teoria dos Jogos sempre faz questão de esclarecer, pesquisas de torcida refletem – com fidelidade maior ou menor – a realidade da amostra. Por exemplo: um milhão de entrevistados em regiões metropolitanas serão um retrato fidelíssimo das torcidas nas… regiões metropolitanas. Configuração distinta do que se vê no país como um todo. Foi aí que o Ibope pareceu pecar.

OS NÚMEROS NACIONAIS

Fig 01

Variações na margem de erro são normais e fazem com que certos ordenamentos se modifiquem de uma pesquisa para outra. Mas é bom desconfiar quando vários ordenamentos, sempre tão estáticos, se modificam em apenas uma delas. No movimento mais flagrante, o Atlético-MG simplesmente não tomou conhecimento do Cruzeiro – situação avessa à de inúmeras pesquisas no estado de Minas Gerais. Além de suplantar seu arquirrival, o Galo surge na frente de quem sempre apareceu na dianteira, casos de Grêmio e Internacional. Pela primeira vez a torcida do São Paulo demonstra queda acima da margem de erro, levando consigo um Vasco quase ultrapassado pelo próprio Atlético-MG. O Bahia iguala o Botafogo, trazendo torcedores do Vitória também à frente do Sport. Aliás, o Leão pernambucano perde até pro Atlético-PR. É muita polêmica numa só pesquisa…

Enquanto o Ibope não abrir a metodologia – principalmente citando o número de localidades e listando quais foram contempladas – nada poderá ser dito a respeito da pesquisa. Mas num primeiro momento, a impressão que fica é de um viés em direção a Belo Horizonte – onde o Atlético-MG de fato supera o Cruzeiro – e Salvador. Aparenta também uma Curitiba superdimensionada. Em direção oposta, regiões de predomínio carioca (como o Norte/Nordeste) podem ter sido visitadas fora de proporção. Para piorar, mais uma vez Pernambuco parece não ter recebido o devido peso. Tais impressões aumentam à medida com que analisamos as próximas tabelas.

TABULAÇÕES ESPECÍFICAS

Fig 02

Os arranjos por faixa etária não aparentam maiores problemas – embora a possibilidade de viés impacte na pesquisa como um todo. Entre os mais velhos, resultado semelhante ao da pesquisa Datafolha-2014: Flamengo e Corinthians em franco equilíbrio, Santos, Internacional, Botafogo e Fluminense acima do que registram atualmente. Galo à frente do Cruzeiro e Inter batendo o Grêmio, exatamente conforme abordado por aqui anteontem.

Fig 03

Entre os mais novos não há base de comparação, pois os números consideram torcedores de 10 a 15 anos, enquanto o Datafolha abordou apenas eleitores – ou seja, acima dos 16. Assim, estamos diante de um cenário absolutamente novo. Apesar do intenso crescimento do Corinthians (16,9%), o Flamengo é sacramentado como preferido por quase um quarto da população futura (22,3%). O Cruzeiro possui torcida mais jovem que o Atlético (4,1% a 3,9%), outro processo já verificado neste espaço. Vasco, Santos, Botafogo e Fluminense perdem posições. Daí a despencarem nos níveis expostos (abaixo de Bahia, Vitória ou Sport) já é algo que desperta incredulidade e desconfiança.

O problema mais evidente da pesquisa, contudo, surge nas tabulações por nível de renda:

Fig 04

Entre os mais pobres, nada a questionar – com as devidas ressalvas dos parágrafos anteriores. De certo o número de entrevistados foi robusto o suficiente para gerar a intensiva hegemonia de flamenguistas (20,8%) – o dobro do que apresenta o Corinthians (10%) e quase o quádruplo do São Paulo (5,6%). Ainda assim, chama atenção o quantitativo de adeptos do Sport (4,2%) e do Santa Cruz (4%) mediante galeras quase inexistentes de Atlético-MG, Cruzeiro, Santos e Fluminense (todos abaixo de 1%). Percebam agora o verdadeiro mau trato à informação:

Fig 05

A dianteira do Corinthians (17,6% a 10,9% sobre o Flamengo) até encontra eco nos números divulgados pelo Datafolha há um mês. Mas os inacreditáveis 10,1% marcados pelo Atlético-MG acendem uma luz amarela quanto à fidelidade da tabela. Isto porque, segundo o IBGE, apenas 1% da população brasileira auferia mais de 10 salários mínimos em 2010 – o equivalente, hoje, a R$ 7.240,00 mensais:

Fig 06

Para seguir a proporção, significaria apenas 70 pessoas sendo entrevistadas na faixa mais alta de renda (com alguma correção por estarmos em 2014). O leitor Christiano Candian matou a charada: foram 119 entrevistados. Para tanto, atribuiu ao menor percentual (0,84%, do Bahia) o número um, deduzindo o quantitativo exato de cada “torcedor rico” pesquisado:

Fig 07

Diante de um universo de 21 corintianos, 13 flamenguistas e 12 atleticanos, a verdade é que a análise desta faixa de renda é inócua. Sem um teto de renda mais baixo (por exemplo, “acima de 5 salários mínimos”), o Ibope teria a obrigação de dizer que a margem de erro de 119 pessoas sobre a amostra de 7.005 é superior a dez pontos percentuais. A mesma coisa que nada.

Fig 08

Finalmente por educação formal, o instituto muda de parâmetros, fazendo um percentual interno de pessoas com nível superior dentro de cada torcida. Trata-se de uma ótica diferente das tabelas que tem por referência o universo total de entrevistados. Modificações desta natureza só servem para confundir a cabeça do leitor médio, não sendo recomendadas no contexto de um mesmo estudo.

Pra terminar: apenas hoje, 24 horas depois da publicação original, o diário Lance veio a divulgar o percentual de pessoas sem time (23,4%). Eis um referencial imprescindível para análises de marketing esportivo, mensurando o tamanho do mercado sobre o qual os clubes precisam trabalhar. Cada vez mais as pesquisas Lance-Ibope se mostram confusas e geradoras de incertezas – sensação que se potencializa mediante a recusa em explicar a metodologia e prestar esclarecimentos.

Um grande abraço e saudações!

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A situação das CND’s dos clubes

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“Muito se tem comentado ultimamente sobre a regularidade fiscal dos clubes de futebol. O texto da Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte (LRFE) prevê o rebaixamento de divisão caso o clube não apresente as certidões antes do início dos campeonatos. Além disso, para poder receber recursos públicos em forma de patrocínio ou incentivos fiscais, as certidões negativas (ou positivas com efeito de negativa) são pontos de partida.

Em geral, a regularidade comprovada em 6 certidões são o mínimo necessário, tanto para a LFRE quanto para patrocínios públicos: Certidão Conjunta de Tributos Federais, Certidão de Débitos Trabalhistas, Previdenciária, de regularidade com o FGTS, regularidade com os tributos estaduais e com os tributos municipais.

Resumidamente, são três as situações básicas em que os clubes podem estar enquadrados:

Certidão negativa, quando não há pendências cadastrais ou débitos em nome da instituição;

Certidão positiva com efeito de negativa, quando o clube possui parcelamento ativo sem parcelas em atraso, participantes de Refis ou tendo débitos com exigibilidade suspensa, e;

Certidão positiva, quando há débitos perante o órgão público que emitirá o documento.

A certidão conjunta de Tributos Federais e Trabalhista estão disponíveis na internet e podem ser consultadas por qualquer cidadão. Em razão disso, o Balanço da Bola decidiu pesquisar a situação dos 20 clubes da série A do Campeonato Brasileiro além do Vasco da Gama no dia 13/8/2014, conforme demonstrado no quadro abaixo:

Clube Consulta em 13/8/2014
Conjunta Trib. Fed. (validade) Débitos Trabalhistas
Corinthians 04/02/2014 Positiva
São Paulo 19/08/2014 Positiva com efeito de negativa
Santos *1 Positiva com efeito de negativa
Palmeiras *1 Positiva com efeito de negativa
Flamengo 11/11/2014 Positiva com efeito de negativa
Vasco *1 Positiva
Fluminense *1 Positiva
Botafogo *1 Positiva
Atlético Mineiro *1 Positiva
Atlético Paranaense 16/08/2014 Positiva com efeito de negativa
Bahia *1 Positiva
Coritiba *1 Positiva com efeito de negativa
Cruzeiro *1 Positiva com efeito de negativa
Goiás *1 Positiva com efeito de negativa
Grêmio 25/08/2014 Positiva
Internacional *1 Negativa
Vitória *1 Positiva
Figueirense 04/01/2015 Negativa
Sport Recife 26/11/2014 Positiva com efeito de negativa
Criciuma 05/01/2015 Negativa
Chapecoense 04/02/2015 Negativa
*1 – Informações insuficientes para emissão da certidão

Pelo quadro acima pode-se constatar que:

1 – Se a Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte estivesse em vigor, apenas sete clubes estariam aptos a disputar o Brasileirão: São Paulo, Flamengo, Atlético-PR, Sport, Figueirense, Criciúma e Chapecoense, sendo que apenas os três últimos possuem certidões negativas propriamente ditas;

2 – Santos, Palmeiras, Coritiba, Cruzeiro, Goiás e Internacional estariam impedidos por não apresentar a certidão da Receita Federal. Corinthians e Grêmio, por não apresentar a trabalhista. Vasco, Fluminense, Botafogo, Atlético-MG, Bahia e Vitória não estão regulares em nenhuma das duas;

3 – Dos clubes patrocinados pela Caixa Econômica Federal, Vitória e Coritiba na série A e Vasco na série B não conseguiriam receber os recursos de patrocínio na data pesquisada. Além deles, Internacional e Grêmio também possuem contratos com um banco público e estariam irregulares.

Por uma análise preliminar, tendo em vista que foram consultadas apenas duas das seis certidões necessárias, pode-se constatar que a contrapartida exigida pela LFRE aos clubes ainda está longe de ser atingida. No calor da necessidade de obtenção do refinanciamento ou talvez entendendo que essa obrigação não será exigida pela CBF, clubes estão assumindo uma obrigação que muito provavelmente não conseguirão cumprir. Fica, portanto, a impressão de que a exigência será apenas mais uma letra morta entre nossas diversas leis e regulamentos.”

Um grande abraço e saudações!

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Diego Souza e a luta do Sport contra a incipiência do marketing

Ibson Diego

Há uma semana verificou-se algo pouco usual no noticiário esportivo. O Sport Club do Recife anunciava, de uma só vez, a contratação de dois jogadores relativamente jovens, demandados e com apelo de mídia: os meias Diego Souza e Ibson. É verdade que o último acumula decepções após um começo de carreira fulgurante. Mas Diego Souza – no auge dos 29 anos e cobiçado por gigantes do futebol nacional – aparenta muita lenha pra queimar. Foi parar na Ilha do Retiro.

Estava formatada a maior ação de marketing da história do futebol nordestino. Os jogadores não seriam trazidos por um grupo de empresários, nem teriam patrocinadores custeando seus salários. Os mais de R$ 300 mil mensais pagos a Diego Souza – segundo apuração do jornalista Cássio Zírpoli – seriam pagos pela torcida, convocada a aderir em massa ao projeto sócio-torcedor.  Com aproximadamente 16 mil associados, o Leão estabeleceu meta de 10 mil novos adeptos no mês de agosto, algo que tornaria a empreitada sustentável.

Até então o maior ordenado já pago no clube havia sido de R$ 200 mil – vencimento padrão em qualquer clube do Sul ou Sudeste. Economias pouco desenvolvidas explicariam este abismo, com claros reflexos nas finanças dos clubes de futebol. Raras foram as vezes em que equipes da região se sagraram campeãs nacionais em divisões de elite. Todos os clubes do Nordeste se encontram abaixo do 10º lugar na escala de sócios-torcedores, do 13º no ranking nacional de torcidas e do 15º entre as maiores receitas.

Se as dificuldades são inúmeras, o potencial de crescimento dos clubes nordestinos acompanha o desenvolvimento recentemente verificado. Em alguns anos a região cresceu o triplo das taxas nacionais. Salvador e Recife se encontram no top-10 dos maiores PIBs entre as metrópoles. Cada vez mais turistas escolhem suas praias, tendo eventos como o carnaval considerados referência mundial. Tudo amparado por bem elaborados projetos de… marketing! Exatamente aquilo que se esboça no futebol.

Algumas coisas também vão bem para o Sport. Pesquisas já o colocaram à frente do Bahia no posto de maior torcida do Nordeste. Entre jovens, chega a suplantar equipes tradicionais do Sudeste. Sua marca, bem avaliada, atraiu a Adidas em um contrato de quatro anos e boas vendas no período da Copa.

Se nada é fácil para o Sport, também não é impossível que sua iniciativa sirva de espelho e referência às demais agremiações. Digladiando em terra de gigantes, o Leão busca consolidar sua posição de vanguarda e ultrapassar as divisas do estado de Pernambuco. O tempo nos dirá se a empreitada foi um sucesso. Ou se jogadores de quilate passarão apenas de passagem rumo a clubes do eixo Sul-Sudeste.

Um grande abraço e saudações!

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O porquê do caos botafoguense

As tabelas desta coluna se baseiam no paper “7º VALOR DAS MARCAS DOS CLUBES BRASILEIROS”, elaborado pela BDO Brazil e publicado pouco antes da Copa. Tanto o ranking de “Endividamento” quanto o de ”Valor das marcas” tem a consultoria como fonte. As correlações são de autoria do Blog Teoria dos Jogos.

Três meses de salários atrasados, cinco de direitos de imagem. Cem por cento das receitas bloqueadas e uma possibilidade real de debandada. Eis o panorama catastrófico que ronda um dos clubes mais tradicionais do Brasil: o Botafogo de Futebol e Regatas. Tecnicamente, pode parecer similar ao verificado nos demais clubes do Rio de Janeiro. Mas a verdade é que a crise alvinegra se aproxima, sim, do pior que já pode ser visto. Quem diz isto é a capacidade financeira do Botafogo, medida de maneira preocupante pela frieza dos números.

INTRODUÇÃO

De uma maneira geral, pessoas, clubes de futebol ou países podem dever mais do que arrecadam. Pense em alguém que financia um apartamento: É certo que o valor do imóvel representa inúmeras vezes seu ordenado. Isto faz com que o importante sejam as condições com que o empréstimo será tomado (baixa taxa de juros e longo horizonte temporal). O mesmo se aplica a países, onde há casos de dívidas superiores ao próprio PIB.  Em suma: dever é possível, desde que não haja credores batendo à porta.

Este é o problema dos clubes de futebol: boa parte de seus débitos são de médio e curto prazo. Dívidas trabalhistas, por exemplo, fazem com que se recorra à Justiça com vitória relativamente rápida e correções sufocantes. Sendo um péssimo negócio, os clubes historicamente recorreram ao governo – cujos impostos podiam sonegar. Assim surgiram volumosas dívidas de diversas naturezas. Décadas de vistas grossas deseducaram cartolas, até que o montante se tornou tão massivo que algo precisou ser feito.

Onde entra o Botafogo nesta história? Além de ser onde as condições se deterioraram mais rápido – como no caso da exclusão do Ato Trabalhista – o Glorioso é, de longe, o clube com pior capacidade de arcar com seus débitos.

ENDIVIDAMENTO/RECEITA

Uma as formas de se medir a saúde financeira dos clubes é a proporção entre sua dívida (o que tem a pagar) e seu faturamento (arrecadação em uma temporada). No caso brasileiro, o ordenamento é o seguinte:

Fig 01

Detentor da segunda maior dívida, o Botafogo surge apenas como 11ª maior receita. Isto fez com que ele devesse 4,52 vezes o que arrecada num ano, a maior (e pior) proporção do Brasil. A única a chegar perto é a Portuguesa (deve 4,25 o que arrecada), mas o montante alvinegro se encontra em outro patamar. Entre os grandes, Fluminense (3,39) e Vasco (3,25) são os que se aproximam desta caótica situação, escancarando a histórica irresponsabilidade gerencial no Rio. Também prejudicado pelo enorme volume, o Flamengo (2,78) surpreende pela melhor capacidade de arcar com sua dívida – a maior do Brasil em termos absolutos. No extremo oposto, São Paulo (0,69) e Internacional (0,88) navegam em águas tranquilas: devem menos do que arrecadam em uma única temporada.

VALOR DAS MARCAS/ENDIVIDAMENTO

Onde residem as esperanças? Geralmente em refinanciamentos a perder de vista, mas não deveria ser assim. Em tempos de responsabilidade gerencial, a esperança reside na capacidade de alavancar receitas. Com base no valor atribuído a cada marca, calculamos qual seria o potencial gerador de novos negócios por parte dos clubes. Nesta área, a situação do Botafogo não é menos delicada:

Fig 02

Ao contrário da tabela anterior, aqui o “endividamento” se encontra no denominador. Em outras palavras: quanto menor, pior. Adivinhem onde se encontra o Botafogo? Justamente na última posição! Os dados acima significam que a marca alvinegra vale apenas 18% do total devido. Fluminense, Vasco e Atlético-MG também devem mais do que valem suas marcas – e mesmo nesse grupo a situação botafoguense é alarmante. Novamente o Tricolor Paulista surge como um dos mais saudáveis (3,38 vezes mais valioso que sua dívida), agora atrás do Corinthians (5,72), clube em melhor situação do país.

O CAMINHO

Se o endividamento como percentual da receita é alto; se a capacidade de alavancar é baixa, não há escolha além de cortar na carne. O Botafogo precisará, assim, se desfazer de seu patrimônio (inicialmente, jogadores). Mas um elenco avaliado em R$ 90 milhões não seria solução nem com o completo desmanche. Assim, o único caminho passa pela contribuição da torcida.

Sempre fui contra o crowdfunding por considerá-lo prova cabal da incapacidade em gerar receitas oficiais. Mas minha relutância tem limite, e ele é atingido quando o caos beira a falência – ou o abandono do campeonato. Diante do exposto, a torcida do Botafogo tem em mãos uma campanha organizada por um grupo de torcedores bem intencionados, a Botafogo Sem Dívidas (http://www.botafogosemdividas.com.br/). Campanhas geradoras de DARF’s são recomendáveis pela segurança quanto à destinação dos recursos. No caso do Botafogo, a recomendação torna-se vital.

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A explicação para os erros das pesquisas (e por que o Datafolha erra mais)

Trazemos agora a terceira e última coluna na carona da pesquisa de torcidas Datafolha/2014. Inicialmente, abordamos a estranha ocultação do estudo por parte do instituto. Em seguida, mediante a publicação, analisamos seus resultados. Agora vamos mais a fundo: por que estudos do gênero apresentam falhas – e por que o Datafolha prima por potencializá-los?

1)      O limite matemático (e a tal “margem de erro”)

Esqueçam a bobagem do “desconheço alguém que já tenha sido pesquisado”. É possível que você morra sem conhecer respondentes simplesmente porque é impossível entrevistar 200 milhões de brasileiros (a não ser através de um recenseamento demográfico). Para superar adversidades, a ciência estatística elaborou métodos confiáveis com base em espaços amostrais e margens de erro. Não cabe aqui explanar sobre o tema, mas acreditem: há confiabilidade desde que se delimitem amostras relativamente próximas ao universo a ser pesquisado. Três mil entrevistas podem mapear todo o país com erro aproximado de 3 pontos percentuais. Os 4.340 questionários da pesquisa Datafolha (margem de erro: 2 p.p) configuram quantitativo interessante e superior à média verificada. De qualquer maneira, seremos sempre reféns dos limites impostos pela própria matemática.

2)      O limite amostral (por economia ou conveniência)

Conforme dito acima, para que uma pesquisa seja confiável, a amostra precisa ser fiel ao universo pesquisado. Um dos grandes obstáculos é orçamentário, pois não é fácil enviar pesquisadores aos quatro cantos de um país continental e com configuração de torcidas tão plural. Por isto, pesquisas nacionais são coisa “pra gente grande” – como o Datafolha. Mas aí o instituto pisa na bola.

Em consulta ao Sistema de Registro das Pesquisas Eleitorais do TSE*, encontramos exatamente a pesquisa Datafolha a que nos referimos, bem como a listagem de cada município pesquisado.

*Pesquisas que mensuram intenção de voto (como foi o caso) necessitam de registro e publicação no site do Tribunal Superior Eleitoral. Um prato cheio para as análises presentes nesta coluna.

Dinheiro não é problema para o conglomerado. Remunerado em R$ 266.200,00 pela Empresa Folha da Manhã S.A (Folha de São Paulo), o Datafolha visitou 207 cidades em 26 unidades federativas (menos Roraima).  Embora tenha contemplado quase todo o país, nada menos que 2.030 questionários (46,7% do total) foram aplicados no estado de São Paulo! E mais: das 207 cidades, 60 ficavam no estado – o que representa 29% do total. Lembrando que São Paulo concentra apenas 21% da população brasileira e 11% do total de municípios.

Para piorar, capitais de estado sequer foram visitadas, como Palmas ou Aracaju. Outras cidades importantes como Blumenau, Chapecó, Londrina, Campos dos Goytacazes e Juiz de Fora também não foram contempladas.

3)      O limite humano – parte 1 (falhas e manipulações durante o processo)

Aqui, as limitações são impostas pela própria falibilidade humana. Isto porque questionários são passíveis de manipulação e de erros de transcrição por parte dos pesquisadores, sem que os institutos tenham influência direta no fato. Vejam como foi descrito o “sistema interno de controle, verificação, conferência e fiscalização de coleta de dados” da pesquisa:

 “Os pesquisadores envolvidos na realização desta pesquisa são treinados pelo Instituto e recebem instruções específicas para cada projeto realizado. A maior parte da coleta será feita com a utilização de tablet e questionário eletrônico. São checados, no mínimo, 30% dos questionários de cada pesquisador, seja in loco por supervisores de campo ou, posteriormente, por telefone. Internamente, todo o material é verificado e codificado. Antes do processamento final e emissão dos resultados, realiza-se processo de consistência dos dados.”

Ou seja, garante-se a checagem de um número pequeno de questionários. Se uma quantidade superior a esta for alterada, restará um material inócuo para publicação. Reside aí a necessidade de capacitação e de um rigoroso controle da mão-de-obra por parte das empresas do ramo.

4)      O limite humano – parte 2 (o intelecto do brasileiro médio)

A averiguação do questionário completo aplicado pelo Datafolha traz à tona a limitação nas opções de times de futebol a serem votados:

Fig 01

Parece coincidência que os 18 “votáveis” sejam basicamente os que aparecem nos resultados finais da pesquisa?

Fig 02

Soa inacreditável. Por questões que envolvem o fracasso do sistema educacional brasileiro, uma parcela dos respondentes é incapaz de atribuir torcida a clubes não listados no questionário – ainda que exista a opção “Outros”.  O analfabetismo funcional, que gera severas dificuldades na interpretação do que se lê, é uma realidade no país. O problema seria superado caso se possibilitasse votação em uma gama maior de clubes de futebol, o que não acontece.

Diante do exposto, podemos chegar às seguintes CONCLUSÕES com relação à pesquisa Datafolha/2014 (e muitas outras do mesmo instituto):

-A concentração de questionários no estado de São Paulo infla, irremediavelmente, os números das equipes do estado. Este benefício é verificado em maior escala para torcidas da capital (Corinthians, São Paulo, Palmeiras e Portuguesa) do que para as do interior (Ex: Santos, Ponte Preta, Guarani, Botafogo/SP, etc).

-A exclusão de importantes cidades brasileiras prejudica o resultado de torcidas (Ex: Londrina, Chapecoense, etc). Em alguns casos, a ausência de toda uma região (como a zona da Mata Mineira ou certas capitais do Norte e Nordeste) subestimam o tamanho das torcidas do Rio de Janeiro (Flamengo, Vasco, Botafogo e Fluminense).

-A exclusão de clubes do Norte/Nordeste da lista de votação (Ex: Sport, Santa Cruz, Náutico, Ceará, Fortaleza, Remo, Paysandu, etc) oculta o significativo tamanho de suas torcidas. Todas, absolutamente todas, bem maiores do que a torcida da Portuguesa de Desportos.

Um grande abraço e saudações!

Post scriptum (05/08/2014):

1)      Em declaração ao Blog de Mauro Cezar Pereira, o diretor de opinião do Datafolha afirmou que, apesar do excesso de questionários em São Paulo, os dados seriam ponderados de acordo com a composição populacional de cada estado. É certo que haja tal aplicação em algum nível, mas fica a pergunta: se as entrevistas poderiam ser feitas na proporção exata (já que o instituto viajou às localidades), qual a garantia de que a normatização se deu na escala correta?

2)      Alguns leitores chamam atenção para o fato de o questionário clubístico ser executado de maneira “espontânea”, ou seja, dando liberdade para que o entrevistado escolha seu time de sua preferência. Mesmo que a ideia fosse esta, o fato de os 18 clubes citados serem quase que exatamente os únicos listados (com honrosas exceções da Seleção e do Sport) leva a questionamentos quanto à real aplicação do método.

E-mail da coluna: teoriadosjogos@globo.com

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Novamente, esta coluna não seria possível sem a providencial ajuda do amigo Clayton Silvestre